26 agosto 2004

A admirável globalização e o Olimpo dos excluídos

A globalização já não é um processo de liberalização e rápidas trocas comerciais. A globalização já não é, sobretudo, um inovador processo de intercâmbio de mercadorias e de capitais.
É, também, uma nova forma de permuta e oportunidade de materializar projectos de pessoas. Se o fenómeno de imigração ilegal do Sul (pobre e excluído) para o Norte (rico e integrado) embaraça os poderes constituídos, é bem certo que um acontecimento como o da conquista do 2.º lugar na prova de 100 metros dos Jogos Olímpicos por Francis Obikwelu é um bálsamo para consciências comprometidas.

Qual seria o destino previsível, em Portugal, de um jovem negro nigeriano, só, isolado e que quase não falava português (mesmo que esse jovem tivesse já um excepcional currículo como atleta)?
O destino que esse mesmo jovem experimentou: trabalhar na construção civil.
Quis o destino que uma boa alma (professora inglesa do Algarve) tivesse atentado nas aparentes capacidades do jovem e o tivesse encaminhado para um clube secundário (Belenenses), onde o aceitaram para praticar atletismo.
Uma vez aí, perante o infortúnio da solidão, mais uma vez, o destino levou esse jovem a «adoptar» uma família portuguesa que o apoiou, até entrar para um clube mais promissor com outros pergaminhos (Sporting).

Há cerca de dois anos, perante o ar incrédulo (mesmo escandalizado) da jornalista que lhe fez a pergunta, o jovem afirmou que tinha um objectivo: ganhar uma medalha nos Jogos Olímpicos de 2004.

No domingo passado (22/08/04) o jovem concretizou esse objectivo: ganhou a medalha de prata numa das provas rainhas das Olimpíadas (pelo caminho, acumulou os records nacional e europeu): o segundo lugar nos 100 metros, ombreando com as super-estrelas do firmamento das potências desportivas.

Esta história revela o poder da determinação de alguém que teve de abandonar o seu país para procurar cumprir o seu desígnio no Norte. Acidentalmente, em Portugal.

Para culminar, a candura da dedicatória dos louros (num português encontrado a custo, para outro sector de excluídos): os deficientes.

Obikwelu é bem o exemplo do que pode fazer uma determinação exigente e bem orientada.

Conjugando a identificação do talento por uma inglesa, a afectividade da família portuguesa e a orientação técnica de uma treinadora espanhola, Obikwelu triunfou.

Deixou-nos mais contentes. Deixou-nos mais felizes, por ele, e pelo que ele representa, afinal. O (merecido) Olimpo dos excluídos.

Para ele, o nosso reconhecimento, lembrando uns versos de Manu Chao

Solo voy com mi pena

Mangadalpaca©

4 comentários:

L.C. disse...

Um grande aplauso para esta incursão de um jurista por outros mundos.

Kamikaze (L.P.) disse...

Mais um regresso em forma, democraticamente repartido...

Kamikaze (L.P.) disse...

MANUEL Alegre afirmou, esta semana, em tom definitivo e com voz resoluta, ao entregar a sua moção ao Congresso do PS: «Esta candidatura já cumpriu o seu papel». Foi, involuntariamente, o melhor auto-retrato de um candidato partidariamente generoso mas politicamente inverosímil. E de uma candidatura que se destina mais a marcar uma posição e assegurar um espaço de sobrevivência e intervenção no partido do que a disputar verdadeiramente a liderança do PS. »

Kamikaze (L.P.) disse...

Este comentário não era para sair aqui,mas sim no post do compadre Esteves. Vou colocá-lo lá.