27 agosto 2004

MAS PORQUÊ UM PSEUDÓNIMO?

primeira dúvida após o desenjoo informático

Os pseudónimos servem, ou para esconder a identidade civil, ou para revelar a(s) outra(s) - era a minha ideia, primária.
Mas com Kurt Tucholsky aprendi outras explicações, mais reflectidas.
Tucholsky, escritor satírico alemão (1890-1935) a quem o nacional-socialismo retirou a nacionalidade alemã e cujos livros mandou queimar. Escreveu com o próprio nome e com quatro pseudónimos (Ignaz Wrobel, Peter Panter, Theobald Tiger e Kaspar Hauser) poesia, canções, relatos de experiências e sentimentos pessoais, declarações políticas, crítica de teatro e de livros, críticas ao aparelho judicial (1) e aos poderes administrativos e militares. Guardava a sua identidade civil para os artigos em que se comprometia pessoalmente com programas e posições políticos.
Dizia ele num texto autobiográfico de 1927:

"Somos cinco dedos duma mão.
(...)
Estes pseudónimos emergiram da escuridão, imaginados por brincadeira, inventados por brincadeira - na altura em que os meus primeiros trabalhos surgiram na Wewltbühne. Uma pequena revista semanal não está disposta a apresentar no mesmo número quatro vezes a mesma pessoa, e assim surgiram, por graça, estes homúnculos. Viram-se impressos quando ainda tropeçavam, uns nos outros; mas começaram a sentar-se direitos, ganharam segurança, cada vez mais segurança, ousadia - e começaram a levar uma vida própria. Os pseudónimos são como homenzinhos; é perigoso inventar nomes, fazer-se passar por outrem, vestir nomes - um nome tem vida. E o que começou como brincadeira acabou em alegre esquizofrenia.
Gosto de nós (...).
E também era útil existir cinco vezes - pois quem é que, na Alemanha, acredita no humor de um escritor político; ou na seriedade de um escritor satírico; ou nos conhecimentos de Código Penal de um brincalhão; ou nos versos divertidos de um cronista de cidades? O humor desacredita.
Nós não queríamos deixar-nos desacreditar e, por isso, cada um fazia a sua parte (...)" (2).
Pertinente! Mais ainda neste ambiente de hiperfulanização!

marinquieto
(O berço de uma ilhoa atlântica e a lembrança do ralho carinhorgulhoso de minha mãe - "está sossegada, Maria irrequieta". Se revelasse os apelidos que acompanham esta Maria e a distinguiram precocemente das outras, ficariam a conhecer-me ainda pior)


(1) O crítico do aparelho judicial era Ignaz Wrobel, cujo texto chamado "Memorando para Jurados" vos propunha que fosse reproduzido neste blog, pedido que é, de resto, feito expressamente pelo autor.
(2) Kurt Tucholsky, Hoje entre ontem e amanhã, p. 39 - Livraria Almedina, 1978.

9 comentários:

Anónimo disse...

Haverá post mais hiperfunalizado que este?

Anónimo disse...

Haverá post mais fulanizado do que este?

Anónimo disse...

O anónimo anterior vê a(s) árvore(s)mas não vê a floresta.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Peço desculpa à autora do post comentado e aos leitores. Mas o autor dos dois comentários que sairam anónimos é o carteiro. Não percebo o que aconteceu. Aproveito para informar a marinquieto (ou o terceiro anónimo, que não sei se coincide) que, menos do que ver apenas a árvore, eu apenas vejo a folha...

marinquieto disse...

Caro Carteiro, quero saudá-lo neste reencontro.
Não sou eu o 3º anonymous.
Quanto à interpretação que faz do post, que só por gentileza de LC foi publicado, é a sua, tão válida e indiscutível como qualquer outra. Mas, se calhar, tem razão quando diz que apenas conseguiu ver a folha.
Pensei, contudo, que a explicação de Tucholsky fosse uma interessante introdução ao debate sobre a utilização de pseudónimos, tema que, de resto, já foi, se não estou em erro, trazido aqui por si.
Deixe-me dizer-lhe – e desta vez não me vai levar a mal! – que encontrei numa frase recente da sua lavra um exemplo da tal hiperfulanização a que me refiro e que você parece agora também criticar; num comentário ao post do Compadre Esteves:Para mim, foi mais importante o autor do que o texto.
Posso perguntar-lhe: leu primeiro a assinatura do meu post ou o conteúdo?

Kamikaze (L.P.) disse...

Ah,ah,ah...!
Quem "se mete" com marinquieto leva sempre troco, em regra inteligente e elegante, há que reconhecer. E em vez de amuos à cause de malentendidos, passa de comentadora a colaboradora. Chapeau!
(Também) é assim que se faz um blog... né?
Parabéns, marinquieto, pelo fair play. Aguardo com expectativa o desenvolvimento das "hostilidades":) agora reabertas.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Minha cara marinquieto: por acaso li o seu post antes de ler o seu nome. Foi o seu post e não a marinquieto que eu comentei. Por que razão haveria de ser o contrário? Quem me conhece minimamente, sabe que que prezo tanto os que discordam do que escrevo, como os que concordam. Desde que o façam em tom cordato. Tanto quanto me recordo, acho que discorda do que escrevo quase sempre - o que não lhe levo nada a mal -, nas também nunca o fez de modo acintoso - o que só abona a seu favor. Daí que me reste registar com agrado o seu regresso e retribuir as saudações pelo reencontro.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Apenas um acrescento: no que respeita ao comentário que fiz ao post do compadre esteves, limitei-me a manifestar o meu contentamento pelo ressurgimento aqui no blog de um amigo, que andava fugidio. E, curiosamente, de uma pessoa com quem estou tantas vezes em desacordo...
Mas entendo que é na divergência de pontos de vista que se faz um blog pluralista e interessante.

marinquieto disse...

As minhas saudações também para si, Kamikaze.