02 setembro 2004

Nada escrito sobre o assunto

L.C. não desiste do seu propósito de tentar educar pela arte, espicaçando-nos os sentidos (às vezes pela "simples" oferta de pura beleza, outras pela ironia, outras pela provocação...).
marinquieto bem procura lançar temas mais elevados que estes de "baixa jurisdição" a que eu e muitos contributors e comentadores se têm dedicado no Incursões.
Bem hajam por isso, pese embora o aparente insucesso dos seus propósitos.

Hoje (aliás, ontem, bem cedo), L.C., dando uma no cravo e outra na ferradura, começou por dar mais visibilidade a um poema colocado por marinquieto em comentário ao post "Memorando para jurados" e, logo de seguida, brindou-nos com uma suave visão de Veneza (talvez para tentar apaziguar alguns espíritos eventualmente exaltados pelo poema anterior :)

marinquieto, sempre provocadora, deixou-me um recado no tal comentário: (...) "Já agora: tem faltado poesia neste blog! E você, Kamikase, era uma das que nos dava a conhecer poesia de qualidade ...
Para ver se retomam o bom hábito da divulgação da poesia, se descontraem um bocado das amarguras jurídicas, aqui deixo um poema" (...)

Acho boa ideia. Volto à poesia mas... não "desligo" facilmente.
Por isso, escolhi este poema, que dedico a todos os incursionistas impressionados pelas últimas e insólitas "engenharias jurídicas" no processo Casa Pia, em especial àqueles (todos, creio, a começar por mim) que "nunca viram nada escrito sobre o assunto" :)

Maria Andrade vai
à casa de banho
do aeroporto de Kinshasa
para rezar
precisa de agradecer
o encontro fortuito
com Túlio
como nas igrejas
em que entra
pela primeira vez
(é a primeira vez
que entra na casa de banho
do aeroporto de Kinshasa)
pede três graças
que mantém secretas
o Pai bate na testa
o Filho entre as maminhas
o Espírito na maminha esquerda
e o Santo na direita
às vezes o Espírito Santo
fica todo
na maminha esquerda
outras vezes o Santo
fica no ar entre as maminhas
Maria Andrade
de joelhos
de mãos postas
reza
mas as maminhas interferem
com os antebraços
Maria Andrade
nunca viu nada escrito
sobre este assunto

Adília Lopes, Quem quer casar com a poetisa? (selecção de Valter Hugo Mãe)

9 comentários:

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Um poema bonito e crú.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

O L.C. coloca por aqui muita serenidade. Mesmo quando não fala. E é atento, mesmo quando é provocador. (L.C. é provocador?!).
Quanto a marinquieto, gosto mais quando provoca directamente. É a minha costela masoquista...

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Por falar nisso: o compadre esteves voltou a desaparecer? Há que resolver isto... Ou será que anda demasiado preocupado com o Alegre?

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Por falar nisso: o compadre esteves voltou a desaparecer? Há que resolver isto... Ou será que anda demasiado preocupado com o Alegre?

Pinto Nogueira disse...

Gostei bem da poesia.
às escuras, casava a poetisa. É um sonho que tenho, mas não mereço.

néscio disse...

Gosto do poema. E das maminhas, sobretudo da esquerda.

marinquieto disse...

Eu sabia que você tinha aí umas boas surpresas para nos mostrar, Kamikase.
Gostei muito do poema. E, veja lá!, experimentei fazer o mesmo que fez a Maria Andrade (não na casa de banho do aeroporto de Kinshasa, claro!). No meu caso, o Santo "ficou no ar entre as...". Já experimentou?
Carteiro ou já Chefe de Estação? Seja qual for o seu posto, não faltarão oportunidades para termos mais um bom e vivo debate. Talvez quando os juristas deixarem de andar engalfinhados uns nos outros, e com os jornalistas?!

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Tal como já disse noutro comentário, não aceito a promoção. Nem que fosse para o STJ! Qunto à provocação, fico à espera, marinquieto.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Já agora, marinquieto, onde é que fez essa história do Santo a meio caminho entre uma coisa e outra? O sítio é fundamental....