18 novembro 2004

DAQUI, DE MAPUTO

FUI APANHAR UMA CALMA

Mulheres com lenços e capulanas bem garridos, corvos de gargantilha branca, acácias rubras, o sempre presente amarelo esverdido do “082 giro pronto-a-falar”.

Ultrapassadas as sentinelas de pedra que a rodeiam, entro em Nampula à hora em que o muezim chama para a última oração do dia. Logo de manhã deixo-me impressionar pela imponente graciosidade dos Montes Nairucu – um frente-a-frente de altos e abruptos maciços de granito multiformes cujo diálogo estimula a plasticidade da imaginação, ora lembrando a elegância das estalagmites ora as formas redondas que modelam o côncavo das mãos.
Vim apanhar uma calma ao território makua com destino à Ilha de Moçambique. Como que adivinhando os meus propósitos, à entrada da ponte que a liga ao Continente um letreiro avisa – “Estamos em obras. Vai devagarinho”.
Metade da Ilha é uma cidade adormecida. A outra metade, uma aldeia muito povoada. Na primeira, a que foi capital e entreposto comercial prósperos adivinha-se no que resta do património edificado, decadente com poucas excepções, e uma delas é o antigo Palácio do Governador, agora transformado em Museu, de visita obrigatória (como me lembra o de Trinidad del Mar!). Na segunda, em que convivem filhos da terra e deslocados da guerra civil, pobre, vive-se do que o mar vai dando, mesmo que seja do que dos naufrágios ainda se pode encontrar. Na ponta do lado daquela, o Forte solitário. Na ponta oposta partilham paredes os cemitérios - o hindu, o cristão e o muçulmano.
O dia começa cedo. Cinco horas e já o sol está alto. Sete horas e a temperatura é de 36º, e muita a humidade. Convida à praia este dia de Ide-Ul-Fitre. Atravessada outra vez a ponte, devagarinho, o caminho até às Chocas é percorrido num ambiente de festa e de feira, os miúdos vestem a melhor roupa e distribuem boas festas com sorrisos de marfim. Ao anoitecer vai reabrir a discoteca da Ilha, fechada durante o Ramadão.
As águas mornas do Índico, ao fim da tarde, rodeiam as dunas para irem ao lado de lá alimentar o “mangal” novo que se estende até Cabaceiras Pequena. A noite cai e a estrada de terra vermelha abre um sulco na escuridão que o constante ponteado de fogo realça.
No regresso a Maputo as Linhas Aéreas de Moçambique estão de luto porque um dos seus quadros foi assassinado para lhe ficarem com o carro e o tão cobiçado celular.


Maputo, 18 de Novembro de 2004

3 comentários:

Kamikaze (L.P.) disse...

Cada crónica melhor que a anterior,como é possível? E o título então, um achado. Apanhar uma calma, ir devagarinho... sabedoria há muito perdida pelas bandas da nossa "civilização" ocidental que, diria eu, "urge" recuperar, senão fosse uma contradição nos termos :)

Silvia Chueire disse...

O texto tão agradável, e as fotografias linkadas , ótimas ( fizeram-me lembrar do nordeste do Brasil).
Foi bom ler e ver. Obrigada.

Silvia

Anónimo disse...

Muipiti: a Ilha de Moçambique é um resumo do Império. Incomparável. Também é lá que deponho todas as minhas armas.

Mangadalpaca