14 dezembro 2004

A nossa história, por Paul Auster

Pego em A Noite do Oráculo (Paul Auster, ASA, 2004) e logo numa das primeiras páginas leio:

«Quando dei a volta e meti pelo outro corredor, na direcção da frente, reparei que uma das prateleiras fora consagrada a artigos importados de grande qualidade: blocos encadernados italianos, agendas francesas, pastas de delicados papel de arroz chinês. Havia também uma pilha de cadernos alemães e outra de cadernos portugueses. Os cadernos portugueses exerciam sobre mim um fascínio muito especial e eu sabia que não resistiria àquelas capas duras, àquelas linhas quadriculadas, àqueles cadernos costurados de papel robusto, sólido, imune a todo o tipo de borrões. Eu sabia que acabaria por comprar um caderno português: bastaria pegar num deles, bastaria senti-lo nas minhas mãos e eu não resistiria. Não havia neles nada de luxuoso, nada que desse nas vistas. Não, aqueles cadernos eram muito simplesmente um artigo prático – resistente, despretensioso, útil, de maneira nenhuma o livro em branco que poderíamos escolher com prenda para um amigo. Mas eu gostava do facto de serem encadernados a pano, e também gosta da forma: vinte e três centímetros e cinquenta por dezoito centímetros e quarenta, o que os tornava um pouco mais pequenos e largos do que a maior parte dos cadernos. Não sei porquê, mas a verdade é que achava essas dimensões profundamente satisfatórias, e, quando peguei pela primeira vez no caderno, senti algo que se assemelhava ao prazer físico, uma súbita e incompreensível irrupção de bem estar. (...)
Demorei mais cinco minutos a encontrar as outras coisas que queria comprar e depois levei-as para a parte da frente da loja e coloquei-as em cima do balcão. O homem ofereceu-me um dos seus corteses sorrisos e começou a martelar nas teclas da caixa. No entanto, quando chegou ao caderno azul, fez uma breve pausa. Ergueu-o no ar e deixou que as pontas dos seus dedos percorressem suavemente a capa. Era um gesto de fruição, quase uma carícia.
«Belo livro», disse ele, num inglês marcado por um forte sotaque. «Mas não mais. Não mais Portugal. História muito triste».

Assim somos nós, portugueses: de capas duras, robustos, sólidos, imunes a todo o tipo de borrões, principalmente os políticos; sem nada de luxuoso, nada que dê nas vistas. Somos resistentes, despretensiosos. E também um pouco mais pequenos e largos do que a maior parte dos europeus...
É mesmo: história muito triste. Mas há que ser optimista.

4 comentários:

Kamikaze (L.P.) disse...

Que agradável surpresa, descobrir que o novo incursionista é, tal como eu, um leitor deleitado de Paul Auster (áté agora - e li quase tudo - só o Timbuctu me desapontou...). E que análise oportuna...

Rui do Carmo disse...

Caro Rui Cardoso, seja benvindo.
Cadernos daqueles de que fala Paul Auster, infelizmente já vão rareando nas nossas papelarias. Agora aparecem umas imitações francesas da Claire Fontaine. Mas só a lombada é de pano. Um bom caderno, daqueles, e uma boa caneta casam bem e são companhias sempre muito agradáveis. A tristeza ou o optimismo dependem da nossa textura.

til disse...

Esses cadernos de "merceeiro" ainda existem. Servem para tudo: para a contabilidade e para a memória. Bem-vindo, Rui, a esta barcarola (há quem lhe chame "albergue") de amigos insuspeitos.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Não sou muito de cadernos, custam a transportar. Sou mais de toalhas de papel dos restaurantes. Nas horas difíceis, é aí que verto as palavras, quase sempre com esferográficas do empregado. Escusado será explicar que a maior parte desses bocados de papel, tantas vezes com históricas completas, acabam por ficar a atafulhar os bolsos dos casacos, até ao dia em que - num gesto de boa vontade envergonhada - os vou destruindo sem os ler.
Além disso, é-me cada vez mais difícil escrever à mão...