14 dezembro 2004

Uma virtude com sentido natalício

Se quiséssemos associar ao Natal uma virtude, teríamos de escolher a generosidade. Mas, num mundo marcado pelo egoísmo, pelo hedonismo e consumismo convém interrogarmo-nos sobre o sentido e significado da generosidade.

Muitas vezes, confundimos a generosidade com a solidariedade, mas a generosidade é uma virtude superior.

Podemos dizer que a solidariedade é a virtude da condição humana. Fazemos parte de um todo, a humanidade, e, por isso, temos o dever de sermos solidários. "Somos-ser-com-os-outros" e não faz sentido pensarmos a vida como se fôssemos náufragos, numa ilha deserta, entregues aos próprios recursos. Recebemos um património que nos é comum, vivemos e realizamo-nos em inter-relação; e em inter-relação somos responsáveis pelo destino da nossa espécie. Tal como, em linguagem jurídica, os devedores são ditos solidários, porque cada um deve responder pela totalidade da soma que colectivamente pediram emprestado, também a solidariedade humana resulta duma comunhão de interesses e de destino.

A generosidade vai além da solidariedade e vai além da justiça. Ser generoso não é meramente partilhar o que temos a mais, nem apenas entregar ao outro o que ao outro faz falta. Distribuir ao outro o que ao outro pertence ou lhe faz falta pode ser um acto de justiça ou de solidariedade, mas não é, concerteza, de generosidade.

Enquanto que o justo põe a sua força ao serviço do direito e o solidário ao serviço do seu compromisso natural ou legal, o generoso determina-se pela ideia de magnanimidade e só é magnânimo, no sentido de grandeza moral, aquele que dá o que lhe faz falta.

Oferecer ao outro o que precisamos é, de facto, ter um comportamento que não se situa no plano da razão, mas do coração. Diz respeito a uma atitude de superior elevação. Talvez, por isso, a generosidade também se diz da terra fértil, do bom vinho e do comportamento nobre, leal e valente.

Não é generoso aquele que dá por interesse, procurando o reconhecimento social ou, prisioneiro do seu "ego", faz impostura com as suas dádivas. O generoso "põe-se de fora", determinando-se, sem qualquer interesse, num puro gesto de profundo sentido de liberdade e dedicação. Compreende-se, então, a máxima cristã que orienta a generosidade: "o que dá a tua mão esquerda, não saiba a tua mão direita".

É bom recordá-lo nesta época natalícia.

8 comentários:

Primo de Amarante disse...

Tenho o vicio de ler diferentes coisas ao mesmo tempo. Acabei de ler um texto de Kurtz que considero genial: "O declínio da classe média". São apenas três folhas. Leiam-no no enderço: http://planeta.clix.pt/obeco/
Quem provoca um debate sobre esta questão da máxima imporância. Terei de ser eu?!... Mas, depois, nem o Anaximandro ou a kamikaze me dão "troco"! Espero, pelo menos, que o José venha á luta. Ou, então, o Pinto Nogueira!

Nicodemos disse...

Bela reflexão sobre o Natal e a generosidade, Caro Compadre.
Todavia, talvez porque sou relativamente céptico em relação à genrosidade humana, também acredito pouco no Natal, ou melhor, naquilo que habitualmente se costuma designar por espírito natalício. Aliás, neste capítulo sou adepto de Schopenhauer: Ie mehr ich die maner konnen, desto mehr ich die hunde lieben" (pedindo desculpa pelo meu enferrujado alemão).

Primo de Amarante disse...

Esteja á vontade, Caro Nicodemos, não percebo puto de alemão. Sobre a natureza humana, estou com Locke: será aquilo que a sua educação a fizer.

Joaquim Manuel COUTINHO RIBEIRO disse...

Talvez nem só a educação "faça" a natureza humana. Ou talvez ela seja apenas o "caldo" onde vamos construindo a nossa natureza Mas uma coisa parece certa: uma pessoa que tenha sido educada sem a noção dos valores e dos princípios essenciais, dificilmente se construirá de forma diferente. Mas há muitos casos que desmentem esta aparente certeza. Como há casos de educações esmeradas que acabaram por descambar.

Primo de Amarante disse...

Talvez tenha razão Ortega e Gasset, quando diz: «eu sou eu e as minhas circunstãncias».

Rui do Carmo disse...
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Rui do Carmo disse...

Caro Compadre Esteves, o advogado José Vigário Silva que vai fazer a Conferência que aqui anunciou é o José Vigário Santos Silva que tirou o curso em Coimbra? O que, em Outubro de 1971, publicou o livro de poemas "Nas Grades do Silêncio a Minha Voz"? Cujo poema 35 rezava assim:
Passo a passo
sempre
cada vez mais
todos
e chegará o grande dia.
É uma das, inúmeras, pessoas com quem convivi bastante em dada altura do meu percurso de vida e depois nunca mais vi. Fomos do Conselho de Redacção de uma revista que "tomámos" (é o termo!), que do tradicionalismo coimbrão quase primário fizemos uma revista de cultura e, particularmente, de literatura - isto em 1971/1972. Era o Fernando Ruivo (agora professor da Universidade de Economia) o redactor principal, eu, o José Vigário, o José de Sousa Sá (que nunca mais vi, também) e o Licastro (que por cá ficou e vou encontrando de vez em quando com o mesmo bigode de sempre)os membros do Conselho de Redacção. A revista chama-se Capa e Batina, nome que travestimos de C.& B. Os dizeres da capa do "nosso" primeiro número, que tinha a imagem da torre de uma igreja a ruir, eram:
C & B
N 47 . DEZ 971
VISADO PELA CENSURA
Ano VIII 5 ESC.
Se for a mesma pessoa e estiver com ele, dê-lhe, por favor, um abraço meu.

Primo de Amarante disse...
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