16 maio 2005

Suplemento especial de Au Bonheur des Dames"

Como é que começa uma história? No fim dum jantar com velhos amigos, as gravatas já desapertadas, alguns cognacs aqui e ali e o tipo que teima em continuar no tinto, “eu esta reserva especial da ferreirinha só a largo quando aparecer a borra”? Frente à lareira, num dia de inverno, a beber a doce cerveja de Outono? Numa esplanada, pode ser a do Ferreira, ali no Molhe, por uma limpa e fresca manhã de primavera?
Mas as histórias começam mesmo, ou seremos nós que insensivelmente caímos dentro duma, achamos piada e lá continuamos? Como é que eu vim parar aqui, a este covil de seriíssimos juristas, eu que há um bom quarteirão de anos, arreneguei do Direito maila a sua prática e fui dar uma volta ao bilhar grande e de carambola em carambola estou quase a chegar ao ponto de partida?
Ponhamos, para abreviar, que terá sido o Manel Simas, amigão do peito, que me meteu nestes assados. Algum dia contarei aqui as aventuras dessa venerável criatura para escarmento dele e aviso à navegação. Fiquemo-nos para já nas ameaças, e vamos ao que interessa. Um dia, à hora da bica, disse-me como quem não quer a coisa: “olha tu é que podias escrever essas tuas maluquices lá num blogue duns amigos meus”. As minhas maluquices (nunca palavra foi tão pertinente, também é verdade que por definição, os juízes conselheiros só dizem coisas pertinentes, deixando as impertinências para os réprobos como eu, trânsfugas do direito, que mais cedo ou mais tarde hão-de dar para o torto) eram o que vocês com sofrida paciência têm gramado semanalmente.
E eu disse-lhe: “ó manuelzinho (a gente trata-o assim, com estes mimos) eu? Tu não sabes que de informática, zero, virgula zero, mano? Eu sei lá o que é um blogue, credo que palavra tão arrevezada... “
Mas o Manecas tem o dom da persistência. Digamos que, em querendo qualquer coisa, encosta o corpanzil que Deus e os abençoados pais lhe deram e aí vai disto: mete a quarta, o overdrive dos carros antigos e é como um rolo compressor, desses das estradas. Por onde passa nunca mais a erva cresce (este por acaso era o Atila, mas como imagem serve). Foi mansamente insistindo, naquela voz cava que quando quer convencer alguém fica ainda mais cava, parece o arrulho dum dinossauro, e certo dia sentou-se à minha secretária, começou a dedilhar o iMac, escarafunchou o éter e zás! Apareceu o incursões. Ensinou-me um par de truque para lá chegar, eu ouvi com a esquerda e saiu logo pela direita mas a verdade é que dias depois um tal LC (saravá, elecê, apareça, gaita!) mandava-me um e-mail de convite. Claro que com o meu habitual jeito para estas coisas dei logo com os burrinhos na água. Resultado outro e-mail, desta vez respondido pelo Manuelzinho em meu nome. A partir daí foi tudo a descer, enfim, quase. Recebi um apelo, outro e-mail, da nossa querida Kamikaze, disse duas larachas pela mesma via mas ela, severa, retorquiu que era melhor “postar” as ditas cujas. Abatido pela vergonha confessei-lhe que não sabia, esperando assim pirar-me pela esquerda baixa, discretamente. Mas como toda a gente sabe, os kamikazes são levados do catorze e as kamikazes, bem as kamikazes nem se fala. Recebi uma explicação fácil, escorreita e eficaz. Resolvi experimentar. E pronto! Saiu tal e qual escrevi, com as mesmas vaporosas gralhas que já tinha notado. Depois, depois senti-me bem, muito bem, mesmo. Leio os meus parceiros de tertúlia, lá mando a minha boca quando posso e acho que a devo mandar, tenho aprendido coisas, já propus um novo contertúlio, o meu velhíssimo amigo Anto, e aqui estou, pronto a brindar pelo ano I do Incursões, pelos amigos que não conheço pessoalmente mas que me parecem ser conhecidos de longa data, disposto a continuar esta civilizada cavaqueira com a Sílvia com o Nicodemos, com o compadre Esteves, com um estimabilíssimo leitor José, que me obriga a pensar, coisa que, espero, lhe vou retribuindo, nesta troca democrática e jovial de argumentos. E com todos os outros que só não cito pessoalmente para não alargar demais este texto “fleuve” mas que me dão a sensação de comunidade que é uma bonita palavra e que para mim reveste especial significado e valor.
Ah já me esquecia: parabéns, parabéns a nós todos que, por bem, escrevemos e discutimos e para o bem honradamente caminhamos.

Nota de pé de página: Kami, isto serve ou quer mais molho?

3 comentários:

Silvia Chueire disse...

Ah, mas é uma facilidade, uma fluidez para contar histórias, impressionante... Invejável mesmo, eu diria.
Que venham todas elas, gauches, impertinentes,sérias ou divertidas.

Abraços,
Silvia

M.C.R. disse...

Um beijo por cima do Atlântico, tanto mar, tanto mar e igual dose de gratidão
mcr

josé disse...

Obrigamo-nos a pensar, caro MCR! Obrigamo-nos a pensar e é isso que dá o gosto de blogar.
Aliás, parece-me que é esse exercício que se torna aliciante para quem se atreve.
Por enquanto há poucos que ousam.
Mas continua válida a velha máxima: "ousar lutar, ousar vencer"! Neste caso, a inércia da rotina e o acumular de peias nas ideias.
Há pouco tempo li algures que uma das formas de evitar certas doenças que afectam a circulação cerebral, era...fazer um doutoramento! Percebo bem a razão: um exercício demorado e contínuo de cariz intelectual, obriga os neurónios a funcionar e as sinapses a mexerem-se mais depressa. Ora toda a gente sabe de um saber de experiência feito que a função faz o órgão! Ahahahahahah!

Bom dia, caro MCR!