10 junho 2005

A Camões, em tempo, ainda, de «austera, apagada e vil tristeza»

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CAMÕES DIRIGE-SE AOS SEUS CONTEMPORÂNEOS

Podereis roubar-me tudo:
As ideias, as palavras, as imagens,
E também as metáforas, os temas, os motivos,
Os símbolos, e a primazia
Nas dores sofridas de uma língua nova,
No entendimento de outros, na coragem
De combater, julgar, de penetrar
Em recessos de amor para que sois castrados.
E podereis depois não me citar,
Suprimir-me, ignorar-me, aclamar até
Outros ladrões mais felizes..
Não importa nada: que o castigo
Será terrível. Não só quando
Vossos netos não souberem já quem sois
Terão de me saber melhor ainda
Do que fingis que não sabeis,
Como tudo, tudo o que laboriosamente pilhais,
Reverterá para o meu nome. E mesmo será meu,
Tido por meu, contado como meu,
Até mesmo aquele pouco e miserável
Que, só por vós, sem roubo, haveríeis feito.
Nada tereis, mas nada: nem os ossos,
Que um vosso esqueleto há - de ser buscado,
para passar por meu, E para outros ladrões,
iguais a vós, de joelhos, porem flores no túmulo.

Jorge de Sena, Metamorfoses

8 comentários:

Primo de Amarante disse...

Camões foi uma referência para a cidadania activa. O dia de Camões deveria ser o DIA DA CIDADANIA. Gostava de fazer uma petição neste sentido. Quem me ajuda!?...
Se houvesse uma cidadania forte, haveria menos corrupção e mais competência na política. Somos um País de lambebotas e chicos-espertos. Precisavamos de acabar com isso. Precisamos de dignificar o nosso papel na Pátria, na Terra-Mãe, onde que nascemos, crescemos e devemos abrir futuro para os nossos filhos. Precisamos que as instituições valorizem a intervenção dos cidadãos na defesa da democracia, na luta contra a prepotência, o amiguismo, a corrupção e o mêdo. Sim o mêdo!...
Camões deveria ser a bandeira da cidadania na LOJA DO CIDADÃO (um programa televisisvo que mal começou, acabou, mas ainda faz estragos). No dia de Camões deveriam ser referenciados os cidadãos que mais lutaram pelos direitos sociais e políticos . Como se sabe, os cidadãos que denunciam corruptos, prepotentes ou demagogos acabam por se verem enredados em problemas nos tribunais e, como no caso de Ferreira Torres, torna-se, depois, claro que tinham razão. ´Mas, entretanto, sofreram perseguições e gastaram-se em problemas que lhes roubaram descanso, dinheiro e paz, mesmo entre a família.
Valorizar a cidadania activa seria, por outro lado, valorizar a frontalidade e a dignidade, contra a hipocrisia e a venalidade das denúncias anónimas. Como fazer valer esta ideia que poupa dinheiro aos contribuintes e constitui um capital social enriquecedor da vida democràtica. Não há democracia sem cidadana. Gostava de ver o Presidente da República a condecorar cidadãos que lutaram contra a prepotência de muitos Jardins que poluem a democracia nas autarquias. Quem me ajuda!

Silvia Chueire disse...

De como um poeta veste a pele de outro poeta. E com que eficácia !

Beijos,
Silvia

ps: compadre,você tem a minha solidariedade.Abraço.S.

Amélia disse...
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Amélia disse...

Já tinha redigido uma longa resposta ao Compadre, mas apagou-se-me não sei bem porquê. Bem, basicamente eu concordava com os seus pontos de vista e dizia que nos é difícil, como a Sena, ver uma luzinha no fundo do túnel em que, desde 1572, pelo menos, nos meteram, nos vimos metidos ou nos metemos – a tal «vil tristeza» que Camões definiu – e se lêssemos Os Lusíadas a partir da estr.145 do Canto X e não a partir da Proposição, seria talvez bom de ver que, sabendo da vil tristeza presente. Camões celebrou os feitos das armas e barões assinalados como exemplo de que o «bicho da terra tão pequeno» pode vencer Gigantes e ter, então, direito a ser recebido numa Ilha de Vénus qualquer…Camões sabia bem do que falava já no tempo da sua escrita – produto de saber só de experiência feito e de uma alma em carne viva de um ser dilacerado face a um tempo absurdo, de «desconcerto do mundo».Por isso Sena, outro que sentiu a dor do exílio, em virtude de ter estado de mal com a pátria por amor d’ el-rei e de mal com el-rei por amor da pátria, se revê em Camões…envolto naquilo que Pessoa designara de «nevoeiro» e agora mais prosaicamente outro chamam de «monstro».Se calhar também por isso ele, Camões, vem sendo minimizado nos programas escolares…e só sirva como data comemorativa já nem sei de quê…
Que o Dia de Camões seja, sim, o Dia de uma cidadania esclarecida, lúcida e não apenas de reflexão sombria e desencantada, pois.

M.C.R. disse...

Indo por partes: este texto de Sena, é sobre ele próprio, Sena, e Camões aqui é um pretexto.
Todavia o poema é bom, não o melhor de Sena, tãopouco o melhor sobre Camões, mas é de facto um bom poema.
Camões começou a ser uma referência política nos finais do seculo XIX, pela mão dos primeiros republicanos e desse generoso fundador do socialismo português que se chamou Antero de Quental.
De facto, e na realidade, foi um renascentista português a quem agora, ou sempre, se quer fazer dizer tudo. A maior homenagem que se lhe pode, e deve, prestar é esta: ler Camões! Ler Camões e os seus contemporâneos ainda mais maltratadosdo que ele pela voragem do tempo.
Quanto à proposta do Compadre eu acrescentaria apenas isto: é todos os dias, pelo exercício da crítica, da intervenção, pelo inconformismo que a cidadania é defendida. Contra todos quantos atentam contra as liberdades sejam elas a de viver numa pacata vila ou a de pensar que o futuro não era feito pelos amanhãs cantantes da muralha de aço (que não era de aço, sequer de zinco mas apenas de papel).
No que toca a medalhas, vou ali e já volto: as medalhas, as comendas e restante foguetório, são como a pescadinha de rabo na boca. E mais não digo por desnecessário.
Discutir estas coisas, e outras, num blogue é já um princípio: contrastam-se argumentos e ideias e respeitam-se as opiniões dos restantes intervenientes. Não é tudo, sequer muito mas é um princípio.

Amélia disse...

Caro M.C.R.:
Sena fala sim, de si próprio - eu disse que ele se revia em Camões(como tantos de nós) e não que era um poema sobre Camões(ele, Sena, aliás, tem outros em que toma como motivo Camões, como sabe, noeadamente o Camões na Ilha de Moçambique)).
Em poesia o individual só é importante se contiver em si o universal,fale ele de amor, de dor sentida ou de fingimento de dor que deveras se sinta.
Mas o poema de Sena fala de ambos, fala de todos nós, fala da apagada e vil tristeza ...não é certamente o melhor de Sena, mas é o adequado a comemorar o tempo camoniano, o tempo dele, Sena e o nosso tempo.Antes assim não fosse!
Não sei se será o melhor poema dele ou de outros sobre Camões, mas é certamente o que eu achei mais adequado, apenas.
Não pretendo que eu esteja certa - tão só que esta foi a minha escolha...noutro lugar, no meu blogue ao longe os barcos de flores, coloquei Camões e a Tença, de Sophia, que também não é sobre Camões, mas sobre o tempo «divido»
de Sophia e nosso.
Para mal de nós...
Eu gosto de Camões, leio-o e divulgo-o- é esse o meu modo de o homenagear - como leio e divulgo os poetas de que gosto.Entre eles os dois acima referidos e muitos outros.

No que respeita a condecorações aos molhos (como o alecrim) cada época parece ter os egrégios netos que tem...e respondo ainda com Camões:

«E ponde na cobiça um freio duro,
E na ambição também,que indignamen
[te
Tomais mil vezes, e no torpe e
[escuro
Vício da tirania infame e urgente;
Porque essas honras vãs, esse ouro
[puro,
Verdadeiro valor não dão à gente.
Milhor é merecê-los sem os ter,
Que possuí-los sem os merecer.».
[Lus.IX,93]

Um abraço

Primo de Amarante disse...

Grande lição, querida Amélia.

Amélia disse...

Corrijo no meu comentário no que respeita ao tempo de Sophia: tempo «dividido» e não «tempo divido»-como lá aparece.
Um abraço, compadre!