04 junho 2005

Gaudeamus Igitur 6

MATHIAS Von K*** E O PROF. KARL MOELLER-PIENE
ENTRE DAMAS IMPACIENTES
ou
a harmonização dos meios aéreos, terrestres e ferroviários
na terra de Gabrielle D' Annunzio


O único defeito que consigo apontar ao meu velho amigo Mathias v. K *** é de tal modo irrelevante que me custa, aqui, trazê-lo à colação: passou uma louca temporada jus-comparatista em Portugal gemendo de amores por uma recepcionista virgem e teimosa da Fundação Gulbenkian afogando as desditas num desses verde-brancos adamados com que os restaurantes lisboetas entendiam dever saciar a sede aos turistas germânicos.

Fora a dupla asneira (que conta por um só defeito por eu entender que as paixões não correspondidas englobam os excessos alcoólicos a que dão origem - teoria que é conhecida na Associação de Antigos Estudantes de Direito Comparado como o Modelo Abrangente de Heinzelmann) este Mathias era um perfeito representante da antiga aristocracia da Vestefália um momento apagada pelo terror castanho: educado, culto, arranhando menos mal duas línguas estrangeiras, europeu convicto e entusiasta do bridge.

Tornámo-nos amigos em Lisboa onde, ao que parece pela 1ª vez, os seus talentos oratórios de "Referendar", não convenceram uma jovem - e bonita! - recepcionista da Gulbenkian. Mathias falava-lhe da revolução de costumes em curso na juventude alemã, do Maio francês que já tinha três anos mas ela nada, nothing, rien, nichts! Que a apregoada brandura dos costumes lusitanos já chegara ao beijinho e a certos jogos de mão mas não aos de vilão...,, que, por cá, o flirt de verão tinha limites e regras definidos e definitivos..etc... Mathias, "plutôt bel homme", na expressão da Françoise R., desolado, perdia em apetite o que ganhava em sede de verde branco adamado casalgarcia.

Perguntava-me o que é que se passava com as raparigas portuguesas e eu, embezerrado, respondia-lhe com o regime fradesco, com a pequena-burguesia dominante fingindo desconhecer que muita esquerdistagem caseira também comungava da mesma balivérnia moralista e castrante. Até que certo dia desvairado pelas queixas teutónicas e pela virginal fortaleza da portuga lhes recitei meio O'Neil num francês mascavado e aviei ( confesso-o, hoje, envergonhado) um par de taças do tal adamado cortadas por uma forte meia dúzia de Sagres, emborrachando-me soezmente.

O casal levou-me à casa que uns familiares generosos me tinham emprestado mas a lusitana donzela, formosa e não segura, deixou-nos a mim e ao alemão à porta. Foi aí que o bom samaritano deu de caras com duas gaulesas, que, aterradas com o lar de freiras que lhes fora destinado, me tinham pedido asilo. Para os efeitos necessário basta nomear a Françoise já referida que estava livre, alodial e "sem frio nos olhos" quanto à excelência da perspectiva - até hoje não desmentida - de estabelecer, a bem da paz europeia, o eixo Paris-Bona.

Deitaram-me com carinhos de mãe e, na passada, deitaram-se também menos castamente mas com mais proveito. A nefelibática cidadã nacional continuou inteira mas sozinha e o Mathias ficou-me grato e de papo cheio voltando a beber moderadamente álcoois menos extravagantes.

Reencontrámo-nos em Pescara para mais uma dose de ciência jurídica e o destino quis que partilhássemos um quarto com direito a anexo avarandado no Hotel S. Francesco que, apesar do nome, também aceitava umas signorine mais ou menos noctívagas. Apesar de tudo o ambiente poder-se-ia qualificar de "familiar" se é que os eventuais leitores me permitem uma certa latitude poética.

O porteiro do hotel (?) era um recém licenciado em química que, por militâncias excessivas na grupuscular Stella Rossa, ainda não arranjara lugar compatível. Sabedor dos meus meritórios esforços na lusa oposicrática forneceu-nos uma chave da parte avarandada que passou assim para o nosso inteiro controlo permitindo-nos não só duas entradas para aqueles quartéis de verão mas sobretudo -em os fados propícios querendo - usar os aposentos segundo a conhecida regra amigo não empata amigo.

O inesperado privilégio além de suscitar naturais mas benévolas invejas criou-nos uma difícil situação quando o doutor Karl M-P, antigo professor de direito civil de Mathias, em Freiburg, o começou a assediar com prementes solicitações de empréstimo ( "a curto prazo"...) da varanda. Além de aluno, Mathias convivera durante anos com o jovem professor e conhecia-lhe ainda por cima a "legítima" que -se a memória me não falha - teria mesmo pertencido ao seu próprio grupo coral universitário. Nada, porém, demoveu o mestre: o pecado da luxúria move céus e terra como se sabe e nem a ameaça da iminente chegada da mulher o impediria de consumar uma breve mas intensa ligação com uma banhista belga que só chamava a atenção por ser museóloga.

Cedemos pois, e em horários inacreditáveis por força da clandestinidade, a varanda inocente à pecaminosa lascívia do aliás simpático e competentíssimo educador de jus-comparatistas. Tudo corria no melhor dos mundos quando, qual tormenta de verão, se anunciou a súbita decisão de Frau Ferddy ( Ferdinande, de Ferdinand II Habsburg, longínquo rei da Boémia e imperador, nascido como o pai dela em Graz) M.-P. de antecipar por um dia a sua triunfal entrada por via ferroviária em Pescara.

O pânico instalou-se no dueto (ou trio) de Freiburg porquanto o professor tinha de levar a jovem belga ao aeroporto no exacto momento em que a cara metade lhe chegava à estação central da cidade. A solução, óbvia para um lusíada, mesmo dos de costela estrangeira, como este vosso criado, pareceu miraculosa e digna do Nobel aos teutões: enquanto o prof. levava a belga, que não nos conhecia, ao aeroporto, Mathias iria buscar a legítima Frau M.-P. arguindo da impossibilidade do marido que estaria dando uma aula inadiável.

Assim se fez ainda que com mais arrebiques: Mathias, acobardado pela sua cumplicidade naquele breve adultério, só consentia em ir se eu o acompanhasse: assim, em vez de alemão, falar-se-ia francês e, nessa língua duplamente franca, a mentirola passaria muito melhor do que no severo idioma de Jellineck, Kelsen e Savigny.

O comboio chegou com inusual pontualidade trazendo no seu bojo uma robusta Frau M.-P. e cinco malas ameaçadoramente pesadas que carregámos sob um sol inclemente durante os oitocentos metros que separavam a estação do hotel Esplanade onde os professores se alojavam.

Mal refeitos da tonelada de bagagem que nos coubera em sorte eis que assoma o trêfego boche todo sorrisinhos e saudades da sua liebchen protestando solidões terríveis nessa semana que para ele, modelo de maridos e pilar da fidelidade conjugal, se escoara mais lentamente que um século de purgatório.

Agastado com tais extremos observei-lhe com intensa gula e total despudor que a tarefa de carrejão lhe iria custar um jantar de lagosta num restaurante da parte velha da cidade.

A chantagem não merece recompensa mas, manda a verdade dizê-lo, surte sempre efeito. No caso em apreço a "aragosta due salse" fechou com chave de ouro o dia em que comecei a praticar de carregador não sindicalizado.


Gaudeamus igitur!


Em memoria de CMP meu mestre e meu amigo.

3 comentários:

Silvia Chueire disse...

Ótimo o texto. Eu me diverti como das outras vezes. Estas memórias são o que nos faz sabedores que vivemos. E vivemos bem. Gosto de lê-las.

Um abraço,

Silvia

Anto disse...

Embora tenha sido um leitor previlegiado desta e outras estórias, dá-me sempre imenso gozo em reler estes textos. E, já agora, fazem lembrar o sentido de humor do nosso caro F. Assis Pacheco, o qual deve estar sentado algures,à direita de alguém, divertindo-se enormemente das crónicas deste espaço virtual...

M.C.R. disse...

Bem que eu gostava de ter a verve do Assis, camarada, irmão e compadre. espero muito que ele se ria lendo esta e bebendo algum do velho Porto "old Alcino's" que eu lhe fornecia, todos da lavra do avõ Alcino, colheitas escolhidísimas, só não ressuscitavam mortos... Veremos se ainda há para o nosso prometido jantar...De todo o modo fico desvanecido com a comparação.