04 junho 2005

Preocupação indefinível

Hoje, o “Público” faz a recensão do livro do meu sobrinho. Fica-se gelado ao ler o que ele escondia. O mundo que ele manifestava, até algum tempo antes de partir, era outro: um jovem sorridente, bem sucedido, óptimo aluno, numa família sem problemas que o adorava. Quem ler a recensão não dá conta disto e talvez pense que era previsível o desfecho trágico. Nada mais ilusório. Dizem que se tratava de uma “depressão sorridente”: uma estratégia para não fazer partilhar a família do seu sofrimento. Nada entendo sobre isto e daí a minha incomensurável incompreensão. Sempre pensei que um caso semelhante só poderia acontecer com os outros. Um erro trágico. É muito difícil saber estar atenta aos problemas mais profundos dos nossos filhos, dos nossos sobrinhos, dos nossos amigos. Mas todos os esforços são necessários. Foi só com esta preocupação que alinhavei este post.

8 comentários:

Kamikaze (L.P.) disse...

Com um grande abraço ao compadre, relembro que alguns poemas do André podem ser lidos aqui:

http://arquivosincursionistas.blogspot.com/2005/01/andr-simes-torres.html

Primo de Amarante disse...

obrigado.

Silvia Chueire disse...

Caro compadre,

Eu gostaria de ler a recensão. O livro, você sabe, pude apreciá-lo. Gostei e agradeço.

É mesmo difícil na maioria das vezes saber os problemas mais profundos dos nossos filhos. Por isto defendo o diálogo. O diálogo próximo que nos permita falar com os nossos filhos como amigos, mas ainda como pais. A desmitificação da intimidade como uma espécie de tabu (mantendo a individualidade, claro) sobre o qual não se deve falar sob o preço de se parecer ridículo ou despudorado. São limites frágeis, difíceis de delinear, os que separam aquela intimidade que é absolutamente pessoal da que pode (e deve) ser partilhada. Porém é possível percebê-los.
A cultura ocidental tem, evidentemente, um papel nisto quando incentiva uma postura completamente voltada para o indivíduo. Quando contribui fortemente para que o sujeito tenha seus valores atropelados pelo consumo, pela necessidade de sucesso, pelas exigências diárias, transformando-os completamente. Temos então um jovem que sequer se dá conta exatamente de quais são estes valores, mergulhado que está na cultura. A cultura tem seu papel quando cerca o diálogo de limitações de modo que a um filho pareça impossível falar com seus pais ( às vezes até com amigos) sobre o que o aflige. De modo que aos pais pareça embaraçoso conversar com seus filhos. E são tantas as angústias da existência. E na juventude tudo ainda tão confuso, tão angustiadamente confuso.
A família tem seu papel nisto, é claro, não fosse ela um organismo completamente mergulhado na mesma cultura e formada por indivíduos que têm também suas questões, seus problemas. Tem seu papel, mas não culpa.
O jovem terá sua parte nisto. Para alguns o suicídio é parte de uma patologia, de tendências de personalidade, que nenhum de nós consegue resolver, mesmo nós profissionais da área de saúde mental. São tantos os casos. E a tantos outros se pode ajudar.
Outras vezes parece uma saída cuja importância não é exatamente perceptível pelo jovem.
Porque o suicídio pode ser um grito, uma resposta, um pedido no qual erramos a dose, uma comunicação, um enigma, mas será sempre algo altamente agressivo para os que cercam o suicida.

Este é um texto demasiadamente longo para um comentário, pretende dizer algo sobre o suicídio juvenil em geral.
É ao mesmo tempo demasiadamente curto. Mas tem uma intenção, apontar as muitíssimas vertentes desta questão. Comunicar a quem nos lê que a maioria dos casos não é imputável a pessoa alguma e o é a todos nós.
A nós cabe resistir, tentar mudar os valores que aí estão. A nós cabe mudar a atitude que torna o comportamento e o ato suicidas, muito mais prováveis.
A psiquiatras como eu, e aos profissionais de saúde mental em geral, cabe, além de tudo isto, falar à respeito, discutir, esclarecer, tornar público.


Um grande abraço,

Silvia

Primo de Amarante disse...

A recensão refere a introdução do prof de psiqiatria Mota Cardoso, que foi professor do meu sobrinho, e o poema "Blus". E nada mais.
Todas as achegas são respeitáveis, mas nenhuma explica. Apenas saber que foi a sua vontade, ajuda a aceitar (sem compreender). O André tinha uma óptima relação com os Pais, mas desabafava sobretudo com a mãe. O Pai é um médico prestigiado e a mãe é professora. São pessoas abertas e com uma relação de companheiros com os filhos.Nada fazia prever o que poderia acontecer. A sua ligação a uma colega era muito forte e os dois tinham demasiado coisas em comum. Gostavam muito um do outro e conflituavam muito. Eram optimos alunos e tinham mudado de curso: ela de arquitectuta para psicologia e ele de medicina para psicologia. Os dois gostavam de cinema, de teatro e de arte e partilhavam uma ideologia de esquerda (simpatizavam com o Bloco de Esq). Os dois achavam que a psicologia havia de os ajudar a compreenderem-se melhor. Ela, agora está melhor, mas ficou muito mal, mas ainda não conseguiu retomar os estudos. Tudo isto é muito terrível para ter uma explicação.
Também tenho formação em psicologia e conheço muitos trabalhos sobre o tema. Mas cada caso é um caso.
Obrigado pela sua preocupação. Só o tempo vai esbatendo a dor.

Silvia Chueire disse...

compadre,

minha intenção foi (quase) a mesma do seu post. como eu disseran em outro comentário há tempos, há coisas que não se consegue explicar, nem dar conta delas.

abraço amigo,

silvia

Primo de Amarante disse...

Agradeço muito as suas palavras. Entendo-as como uma psiquiatra preocupada com estes casos e uma psiquiatra com uma grande dimensão humana. Obrigado

Coutinho Ribeiro disse...

Tenho a certeza, meu amigo, que depois de saído o livro, V. se sente mais leve. Abraço.

O meu olhar disse...

Os poemas são muito, muito bonitos, de muita qualidade e reveladores de uma grande sensibilidade.
Custa tanto aceitar a morte dos que nos são tão queridos, e muito mais quando não há respostas às nossas angústias. A venha sabedoria popular que só o tempo ajuda, é uma grande verdade. Importante é não se ficar a pensar no que poderíamos ou deveríamos ter feito. Claro que o difícil é conseguir, mas é importante que esta ideia esteja sempre presente quando as imagens menos boas vêm à memória.
Entre as coisas que aprendi com a educação dos filhos foi que devemos ter cuidado com a vida reservada aos bons rapazes, que não têm conflito com ninguém, que conseguem parecer que estão sempre bem. Ninguém está sempre bem e se o parece, então os problemas ficaram lá dentro e ninguém teve acesso. Por alguma razão a pessoa não confronta os outros, e talvez a si próprio, com a sua insatisfação, com as suas angústias.
Eu também tirei o curso de psicologia, no meu caso específico foi o da área das organizações, e muitos dos meus (minhas) colegas optaram por psicologia para resolver problemas pessoais. Tantos. Tantas.
Um abraço.