07 novembro 2005

estes dias que passam 4

C'est les pauvres qui trinquent!

274 comunas tocadas pela violência urbana. Um pobre diabo que ia apagar o fogo ateado num caixote do lixo, foi agredido por um bando e após três dias em coma, morreu. Tinha sessenta anos, era "pobre" ou pelo menos não podia ser tomado por um inimigo de classe pelos "2ª geração".

Os carros incendiados são carros deixados na rua porque os proprietários não têm garagem. São carros de gente modesta que vive nos HLM.

Os equipamentos sociais são sistematicamente queimados: ginásios, bibliotecas, piscinas pi jardins escola. Alvos fáceis pela dificuldade de defende-los todos ao mesmo tempo. As ruínas fumegantes devem melhorar imenso a vida nos "ghettos" da banlieue...

Boa parte destes incendiários têm menos de dezoito anos, há mesmo alguns menores de 15 anos.
Hoje um muçulmano perguntava porque é que os pais os deixam sair à noite. Uma mãe de um condenado a três meses de prisão defendia-se: "não tinha mão no filho ..."

Algumas boas consciências que se tomam por esquerdistas, vêm falar no fosso geracional, no desemprego (aos 15 anos?...) no desprezo, na falta de projecto político para os jovens. Há um tempo para tudo mesmo para a cretinice!

Nos bons tempos, falava-se a este respeito de "lumpen-proletariado". Marx, falava nas "jacqueries" na cólera, rápida como um fogo de palha, de camponeses que, uma vez passada a revolta se convertia de novo numa imensa mansidão perante os poderosos e a Igreja.

Do rol de estragos verifica-se, como o título desta desalentada crónica indica, que como de costume são os pobres que se lixam.

O "Público" depois de ter posto a cerebrar boa parte da redacção sai-se com um título tonitruante: a intifada francesa !!! Ponhamos que a imbecilidade não tem fronteiras.

Justamente desse lado da intifada vem a única história boa do dia: um menino palestiniano foi morto pelos soldados israelitas. tinham-no tomado por um perigoso lançador de pedras do Hamas, ou coisa parecida (nisto os militares são todos iguais sejam os da Totenkampf ou os de Tsahal).
O pai da criança assassinada deu os orgãos a seis doentes, três dos quais judeus. Ou como ele dizia: quando alguém está doente e precisa não há religião que lhe valha ou que a mim importe.
Apetece dizer uma palavra
uma palavra irrepetível irremediável
apetece uma palavra como lava
com o seu cheiro de enxofre e sua cabra
apetece uma palavra que nos abra
a terra inabitável
da palavra.*

*esta é a minha maneira de fazer propaganda eleitoral.

10 comentários:

Mocho Atento disse...

Totalmente de acordo.

O que se vê em França é o resultado da total falência da família e da Escola como instituições de educação.

O que falta antes de tudo é Educação.

Quem não vai à escola devia ser obrigado a trabalhar. Mas essa não é a perspectiva dos pedagogos, nem dos psicólogos académicos.

Precisamos de novas escolas de pensamento, que sejam capazes de afirmar valores e de criar instituições que os fomentem através do reforço das famílias e das instituições de formação (escolas e centros de trablaho). O trabalho não faz mal a ninguém. O ócio é que a fonte de todos os vícios. Mas há muito pessoal de esquerda que vive noutro mundo.

Certamente é necessário reordenamento do território, formação profissional, qualificação e todas as outras políticas sociais de integração.

Mas a falta de educação, a violência, a destruição (tal endeusadas pelos bloquistas, anarquistas e quejandos ...) são intoleráveis em qualquer sistema e muito mais em democracia.

NO mundo contemporâneo, atingimos um patamar da promoção do absurdo. Hoje, não se afirmam ideias; apenas se destroem fundamentos. Não há hoje grandes filósofos que afirmem o humanismo. Apenas temos afirmações destrutivas dos fundamentos e axiomas, afirmando um anarquismo pragmático, como se essa fosse a solução para a vida em sociedade. À cultura da morte e dos direitos, há que opor e propor a cultura da vida e dos deveres de cada um e de todos nós.

Parece que só temos direitos. Os deveres são dos outros!

Primo de Amarante disse...

Tantas certezas, mocho antento!!!!

Nem deixa nenhum trabalho para os sociólogos, como desafiou o cardel de Paris.

O Hóspede disse...

“COM OLHOS FRANCESES

- Peço desculpa por perturbar a vossa conversa e falar assim por cima da mesa… São, com certeza, turcos?
- Não. Nós somos húngaros.
-São húngaros? Ora essa! Que coincidência! Eu também tenho um amigo húngaro, com quem costumo jogar xadrez de vez em quando neste café… Mas talvez o conheçam! Chama-se Jan Szlavomir Sztrhács.
- Infelizmente, não o conhecemos. Mas pelo nome, não deve ser húngaro.
- Mas então, em que país vivem os húngaros?
- Na Hungria.
-Cuja capital é Bucareste?
- Não, não. A capital da Hungria é Budapeste.
-Claro que sim! E peço desculpa por tê-los incomodado. Já entendo tudo.”
(1963)
István Örkény, in Histórias de 1 minuto, vol 1

Primo de Amarante disse...

Disseram-lhes que o trabalho, a competição e o dinheiro é o tripé do sistema que faz o sucesso. Tiraram-lhes o trabalho, deixaram-nos na miséria e eles compreenderam que a competição é a lei do mais forte que os exclui.

Tornada a sociedade numa selva o desespero manifestou-se na revolta.

Onde está a barbárie?!... Nos desesperados ou no sistema que os exclui?!..

M.C.R. disse...

O título trm um erro que nem a pressa desculpa: onde se lê "c'est" leia-se "ce sont"

2. compadre nenhum desespero justifica rebentar com os bens dos pobres, muito menos com as creches e os equipamentos sociais. aliás os rebentadores tem idades demasiado baixas para se poderem considersr excluidos do sistema para sempre. convem destrinçar as coisas senãp p nebuloso sistema é sempre o culpado. E você que afrontou um patifório aí na sua terra decerto sabe disso. A criatura de per si já era um desastre...

Primo de Amarante disse...

O patifório Avelino estava a representar-me na Terra oinde nasci; os jovens do desespero não têm quem os represente: vivem como estrangeiros na Terra onde nasceram; perseguidos pela polícia porque são negros, molatos ou amarelados; olhados como "porcos,sujos e maus" pela gente de sucesso; desprezados por serem filhos de imigrantes e terem uma cultura diferente, etc., etc.

Assim tratados, onde estará tudo o que simboliza o poder que os despreza?

Talvez em tudo o que manifeste acomodação ao sistema que os humilha e, por isso, o seu combate nihilista seja a manifestação da revolta de um mundo vivido e não de uma racionalidade dos problemas.

Para avaliar esta situação temos de nos colocar na pele desses jovens. Depois, podemos pensar em soluções que demoram tempo e exigem politicas de respeito pela dignidade da pessoa e da sua cultura, por um urbanismo que tenha qualidade de vida e não seja caixotes-de-cimento-dormitório que guetiza, com escolas de proximidade para abrir espaço à troca de afectos, policia de proximidade para colaborar na promoção do civismo, assistência social de integração que os compreenda e ajude, apoio a organizações que estabeleçam mediações entre culturas diferentes, etc. Sempre de forma a a dar-lhes um sentido para a vida, abertura a uma profissão, sem desprezo pelas suas raizes culturais, pelos seus diferentes conceitos de familia, de religião e de costumes, sem nunca os humilhar, como aconteceu, p.ex, com a proibição do véu das escolas.

Estas politicas de respeito multicultural e ao mesmo tempo de preocupações interculturais, que manifestam preocupação em criar condições para a dignificação do homem, seja branco, preto ou amarelo, são politicas sociais que não criam focos de revolta, porque não segreguegam. E, por fazerem do homem o fim último de todas as coisas, aprendi a chamar-lhes politicas de esquerda. E não me identifico com outras.

Primo de Amarante disse...

È curioso que uma das vozes que se insurgiu contra a proibição do véu islâmico nas escolas tenha sido a do próprio Cardeal da Igreja Católica de Paris. Foi ele quem fez notar que o laicismo não se podia impor às consciências e que essa proibição iria ser lida como uma humilhação. Foi também ele quem avisou os politicos franceses de que a situação social dos jovens marginalizados em guetos era explosiva.

É, por isso, também curioso notar que o nosso amigo mocho atento, comandante dos escuteiros, não parece ler pela mesma cartilha do cardeal de Paris e pareça falar de educação e familia como se se tratasse de conceitos unívocos,extensivo a todas as culturas e classes sociais, independentemente dos bens económicos e apoios sociais, sem problemas de desestruturação, de saber onde deixar os filhos, tempo para os educar e para os fazer felizes.

É curioso notar que há ainda quem faça do seu mundo a única referência para a vida de todos os seres humanos. Mas hà vidas incomensuravelmente distantes do nosso modo de viver e que valem face à sua dignidade natural tanto como as nossas, por isso, é melhor tentar compreendê-las do que precipitadamente as julgar. Se isso é ser bloquista, esquerdista ou anarquista, estarei onde estiver esta gente.

Primo de Amarante disse...

“Do rio que tudo arrasta se diz que é violento.
Mas ninguém diz violentas
As margens que o comprimem.”

Bertot Brecht

Primo de Amarante disse...

Só hoje li o artigo de Teresa de Sousa (Paris está a arder?)publicado no "Público", ontemm Terça Feira.

É uma peça que ns obriga a pensar e a pensar muito!

Primo de Amarante disse...

Caro Mocho, repare no que diz o Presidente, segundo a LUsa:

Chirac não esconde os "problemas inquestionáveis" que existem nas áreas mais pobres em redor da capital francesa. "Quando for o tempo certo e a ordem estiver restabelecida, todas as lições serão tiradas da crise, com muita coragem e lucidez", disse o Presidente de França, em Paris,