24 novembro 2005

A Igreja e os homossexuais

O Papa Bento XVI tomou uma decisão cujo alcance prático não consigo perceber: quem tiver tendências homossexuais não pode ser padre. Ora, é suposto que um padre, tenha tendências homo ou hetero ou bissexuais, não as ponha em prática. Logo, não vejo por que razão foi feito o édito. Ou será que os meus pressupostos estão errados?

24 comentários:

Assur disse...

Isso.

victor rosa de freitas disse...

Estão os pressupostos e está a "censura"...

Silvia Chueire disse...

Eu ri-me aqui. a lógica do carteiro é perfeita e esta decisão do Papa soa como provocação, para usar uma palavra generosa. : )

Mocho Atento disse...

Era suposto que um homem que case tenha tendências heterossexuais, que cumpra os seus deveres e seja fiel.

A lógica, o dever e os princípios são os mesmos !!!

Para ser padre é preciso gostar de mulheres e muito !!!

A Igreja é livre de fixar os requisitos que entenda para admitir alguém a ser sacerdote. Não é padre quem quer, mas quem a Igreja escolhe e admite. Ser padre não é uma profissão. Não se misturem as coisas.

Um padre que tenha relações sexuais comete um pecado menor do que um casado que as tem com quem não é seu cônjuge. Não tenhamos dúvidas sobre o assunto.

Primo de Amarante disse...

Eu só não percebo que a Igreja Católica Aposólica Romana defenda o celibato dos padres e depois esteja preocupada com a homossexualidade dos mesmos. É que ser celibatário é ser não praticante quer da "homo" , quer da "hetero". Há aqui qualquer coisa a que o amigo mocho parece não estar atento. Será que o Papa Bento XVI está com isso a dar um sinal à possibilidade dos padres se casarem?!... Então, que o diga claramente e não esotericamente.

Primo de Amarante disse...

Só mais uma coizinha. Não percebo a teoria do "pecado menor" do companheiro mocho?!... Então, o pecado não é um mal em si?!... Há infernos de qualidades diferentes?!.. E as relações sexuais de um padre violador (p.ex.) são menos graves que um ponapé na gramática matrimonial de um leigo, ao encontrar uma "camarada" com quem levou a sério uma paixão amorosa circunstancial.

Companheiro mocho atento, o meu amigo não sabe o que é o impulso do amor?!... Precisava de conhecer uma boa (no sentido espiritual do termo, entenda-se!) camarada!

Sabe, se a idade serve para algum conselho,devo dizer-lhe que o que é pecado e dramático para um casado praticante é, chegado á minha idade, ter o receio de ficar mal na circunstãncia referida.

Primo de Amarante disse...

E acrescento: levada a sério a sua teoria do "pecado menor", está posta em causa a doutrina dos escuteiros da "boa-acção".

Tudo o que o amor inclui é sempre manifestação duma boa acção. De conrário, o amor negava-se a si mesmo. Ou será que entende que o amor é mera filantropia e a sexualidade uma questão técnica, uma espécie de ginástica sueca, em certos casos proibida e noutros permitida?

Primo de Amarante disse...

Suponho que nesta questão o José concordará comigo!!!!...

Já tenho saudades da sua intervenção.

Coutinho Ribeiro disse...

O Mocho Atento, às vezes, "passa-se"!
1. É claro que a Igreja é livre de fixar os requisitos para admitir alguém a ser sacerdote. Como eu - que sou católico - também sou livre de não ser sacerdote e livre de criticar as opções de Igreja.
De qualquer modo, parece-me que este édito do Papa terá um preço caro. Se a crise nas vocações já é grande, imagino que, a partir de agora vai mesmo ser difícil encontrar quem reúna os requisitos para ser padre.

2. Para ser padre é presciso gostar de mulheres e muito? Acredito que sim: por uma de duas razões. Por um lado, porque parto do princípio que um padre deve gostar de homens e mulheres da mesma forma. Tal como de crianças e de idosos. Ora, neste sentido, não percebo por que razão os homossexuais não possam gostar muito de mulheres. Ou será que o sentido é outro? Deve gostar muito de mulheres, mesmo, naquele sentido que eu estou aqui maldosamente a pensar? Se assim é, não te percebo, meu caro. E, se assim é, então, se calhar a opção do Papa faz todo o sentido: fornicação na Igreja, sim, mas só entre pessoas de sexos diferentes.

3. Um padre que tenha relações sexuais comete pecado menor do que um casado que as tenha com quem não é seu cônjuge? É boa, esta.
Então será que se pode equiparar um padre - supostamente colocado num patamar da moral bem acima, para assim a proclamar aos outros - ao comum dos mortais, ao pecador habitual?
E já agora: o pecado do padre é menor ainda se a mocinha for solteira? E maior se for casada?

Primo de Amarante disse...

"O mocho atento passou-se" -- aí está uma boa chave para compreender os seus (dele)argumentos, caro carteiro!

Mocho Atento disse...

Compadre, por certo deve saber que na Igreja Católica há padres casados.
Como deve certamente saber,em todos os ritos da Igreja Católica existem e são ordenados padres casados, com execpção do rito latino.

Mocho Atento disse...

Carteiro,

No caso do padre estão envolvidas 2 pessoas.

No caso do casado, estão envolvidas 3 pessoas.

Qual é a situação mais grave ?

E obrigações todos assumem.

Na igreja, Matrimónio e Ordem são sacramentos de estado de vida de igual valor e dignidade.

Mocho Atento disse...
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Mocho Atento disse...

Por outro lado, é sabido em toda a Igreja Católica que a crise de vocações sacerdotais não é universal.

Essa crise apenas se verifica nos países desenvolvidos da Europa e na América do Norte. E abrange quer celibatários, quer casados. Nos ritos da Igreja Católica em que se ordenam padres casados, a crise tem exactamente a mesma dimensão.

Assim, a causa nada temn a ver com o celibato, mas sim com a disponibilidade para a missão.

Mocho Atento disse...

E já agora, esclareça-se que a Santa Sé não tomou nenhuma medida inovadora. A prática da Igreja Católica sempre foi de recusa de ordenação de homossexuais. Não percebo tanto espanto !!!

Espantoso seria que a Igreja Católica seguisse alguns exemplos (que provocaram, aliás, graves fracturas e dissidências) em algumas igrejas de obediência anglicana.

Mocho Atento disse...

Compadre afirmou:"Tudo o que o amor inclui é sempre manifestação duma boa acção. De conrário, o amor negava-se a si mesmo. Ou será que entende que o amor é mera filantropia e a sexualidade uma questão técnica, uma espécie de ginástica sueca, em certos casos proibida e noutros permitida?"

Compadre,
Não confunda amor com sexualidade, com actividade sexual, com afectividade. São conceitos bem distintos. Nem sempre há amor na relação sexual. Nem sempre há sexualidade no amor. Tudo tem o seu lugar e a sua expressão.

Ainda deve haver ética e moral. Isto não é uma selva ... nem o homem é um animal !

Primo de Amarante disse...

caro Mocho antento: não se confunde amor com sexualidade, mas pode o amor incompatibilizar-se com a relação sexual?!... Aprendi na doutrina que ter relações sexuais sem amor era pecado. Sempre me ensinaram que o homem não é um animal e, por isso,a sexualidade deve ser uma manifestação de amor.

Sobre a questão de ser um pecado menor a relação sexual do padre com uma mulher, explica que se deve ao facto de implicar apenas duas pessoas. Mas o juramento de fidelidade à Igreja fica de fora?!... E se for com uma mulher casada ou uma bacanal?!...

Caro mocho atento, penso que o seu raciocínio corre o risco grave de provocar uma cisão na doutrina cristã. Mesmo como agnóstico, não quero ser conivente e, por isso, fico-me por aqui.

Ovelha Tresmalhada disse...

"é suposto que um padre, tenha tendências homo ou hetero ou bissexuais, não as ponha em prática." diz o amigo Carteiro.

Tem razão. O problema é que a Igreja Católica é feita de homens pecadores, como todos nós. Mas, por muito pecadores que sejam, não deve faltar aos seus dirigentes o serem "prudentes como as serpentes", como mandou Cristo.

Sabemos que os seminaristas e os padres têm, em regra, um convívio muito mais assíduo, próximo e frequente com rapazes e homens do que com meninas e mulheres. Ele são os colegas, os prefeitos, os reitores, os directores, nos seminários, nos noviciados, nas universidades de teologia, nos retiros. Ele são os acólitos e diáconos, os seminaristas e os outros padres nas igrejas, nas celebrações, nos retiros, nos conventos, nos cursilhos, nas conferências, nos sínodos, etc., etc.

O seguro morreu de velho, a ocasião faz o ladrão e a carne é fraca - e como é fraca, meu Deus! Ora, se é (se for) verdade que os seminaristas e padres com tendências homossexuais convivem mais tempo e em maior intimidade com pessoas do mesmo sexo, não será sensato, segundo as regras da experiência comum, admitir que há um risco muito maior de o celibato vir a ser quebrado por parte daqueles do que por parte dos heterossexuais?

Gato escaldado de água fria tem medo. Os escândalos de pedofilia (a maior parte dela homossexual) de alguns padres americanos tiveram consequências terríveis parra as vítimas e também para a Igreja Católica. E é melhor prevenir do que remediar.

É claro que os seminaristas e padres com tendências heterossexuais (a esmagadora maioria) também estão sujeitos a cederem aos impulsos libidinosos. Mas, se o fizerem, o escândalo não é, socialmente, tão grave e, do ponto de vista moral, a infracção não é tão censurável como a prática de actos homossexuais, visto que a estes sempre a Igreja os considerou, objectivamente, pecaminosos, independentemente da qualidade da pessoa que os pratica.

Não vejo portanto qualquer incongruência na decisão tomada pela Igreja (embora reconheça que tem o efeito nefasto que é próprio a todas as determinações gerais e abstractas: às vezes paga o justo pelo pecador, que é como quem diz, podem perder-se vocações de homens que, apesar das suas tendências homossexuais, jamais as poriam em prática, como sucede com tantos padres que conseguem cumprir o dever do celibato.

Portanto, considero sábia a decisão da Igreja. E mais sabedoria revelará, se e quando o achar oportuno, decidir acabar com a obrigatoriedade do celibato, tal como foi sábia quando decretou tal obrigatoriedade, no tempo, pelas razões e nas circunstâncias em que o fez.

Cabral-Mendes disse...

Como afirmou o Cónego João Seabra, ao DN, "É uma medida de prudência. A Igreja americana foi tão condescendente com o acesso dos homossexuais ao sacerdócio que acabou por ter de enfrentar todos aqueles casos de pedofilia. Não vale a pena afirmar que não há qualquer ligação entre homossexualidade e pedofilia, pois não existe um único processo contra a Igreja em que a pedofilia seja heterossexual".

Pois é:o lobby-gay é muito poderoso. É um ataque à Igreja que hoje em dia se faz, a todo o instante. É o mal, senhores, espalhado pelo mundo.

M.C.R. disse...

As minhas relações com a Igreja católica pautam-se pelo princípio ela com os seus e eu com os meus. É-me pois perfeitamente indiferente a qualidade dos ministros da Igreja. Se fosse católico, sê-lo-ia com o quantum satis de seriededde e esforço, pelo que, provavelmente acataria as decisões do Papa se revestidas dos especiais efeitos que o dogma da infalibilidade presssupõe. O que me admira é que este caso provoque tanta polémica. A Igreja nunca aceitou a homossexualidade ( e quanto á sexualidade "tout court" estamos conversados) pelo que me parece natural que, do ponto de vista dela, não a aceite nos seus ministros, É que o padre católico não está ao mesmo nível do leigo. Tem especiais direitos (ouvir em confissão, celebrar missa, baptizar etc., etc. ) Se assim é é de esperar que a Igreja lhe comine especiais deveres que aliás, no caso vertente, nem isso são, visto que a Igreja -corrijam-me se estou enganado - condena vigorosamente a homossexualidade. E no caso dos padres quaisquer relações sexuais, não é verdade.
dirão (e já aqui o vi escrito) mas isso afasta fieis. Também a condenação do roubo, da mentira, da gula etc. Ou, caros primos católicos, já se esqueceram das aulas de catequese e dos princípios da doutrina cristã e católica?
Vai haver crise de vocações. E depois? A igreja já passou por piores e está aí viçosa que se farta. Um Papa (a meus olhos...) reaccionário quase tanto como Pio IX, o Papa João Paulo II, arrastava multidões. O progreessista João XXIII está mais que esquecido e os "avanços" do Concílio Vaticano II têm sido alegremente amaciados (para não usar palavra mais eficaz). Ou seja: Uma Igreja cada vez mais "mariana" e por conseguinte cada vez mais desvalorizante da mulher na dogmática e na interpretação do mundo (a meeus olhos, sempre) pouco ou nada se importará com um protesto que coloca os seus autores claramente fora dela. E as vozes de fora, desculpem lá, não contam.
Por outro lado, o facto das Igrejas (e não são todoas, julgo) autocéfalas e ortodoxas permitirem o casamento dos padres nem por isso as fez florescer ou sair dos seus próprios cantinhos. Lá estão e pode mesmo dizer-se, começam a ser encurraladas pelso papas superstar. Se este souber tanto de agit prop como o seu antecessor, vai ser bonito...
Com os cumprimentos de amável indiferente (em matéria religiosa e similares) um abraço

Silvia Chueire disse...

Eu já disse qual era a minha opinião e por ora a mantenho. Volto apenas para fazer algumas observações.
1- Se me lembro bem dos tempos de catequese a Igreja Católica hierarquizava os pecados. E o adultério, que está nos Dez Mandamentos, era e é considerado pecado capital. Ora, se um padre está casado com a Santa Madre Igreja (e digo assim porque tive dúvidas em relação a dizer casado com Deus, ou com Cristo, por conta da conotação -podiam pensar isto- homossexual) relacionar-se sexualmente com uma mulher (e pelas diretrizes da Igreja, com um homem) é tão capital para um padre como para outro homem qualquer.
2- Desde quando a recomendação de que "quem tiver tendências homossexuais não pode ser padre" impede que os seminaristas façam-se padres? Sempre houve a proibição e lá estão padres homo ou heterossesuais. O que importava mais era sempre o voto de castidade. Não conheço "recomendação" que mantenha uma pessoa em castidade a não ser um sentimento profundo de fé e escolha inabalável de uma instituição religiosa.
3 -Para ser padre ao que eu saiba não é "preciso" gostar nem desgostar de mulheres, é preciso porém manter a castidade, o celibato. Este "preciso" usado pelo Mocho dá a impressão que quanto mais um padre goste de mulheres e a elas resista, mais virtuoso será. Ora, um padre que esteja imbuído do seu ofício de fé e que tenha conseguido em bons termos sublimar o desejo sexual exatamente por aquela razão, é menos virtuoso? Não creio.
4- O espanto não é pela proibição, esta já era conhecida, é pelo uso da palavra "tendências". Parece referir-se aos seminaristas, aos jovens, cuja sexualidade pode ainda não estar definida, principalmente num ambiente em que a realização dela é considerada pecado grave e passível de expulsão.Afinal quantos rapazolas tiveram suas dúvidas e depois se definiram pela heterossexualidade ? Vale também para as moças, claro.E são agravadas pelo confinamento entre pessoas do mesmo sexo.Como nos seminários.
5 -Ao que eu saiba há uma crise vocacional na Igreja também na América Latina.
6- E "last but not least", não conheço as razões por trás -certamente são várias - dos processos de pedofilia contra a Igreja, nem as de serem todos homossexuais. Mas sei com certeza que a pedofilia ocorre independentemente de homo ou heterossexualidade. Aliás vocês em Portugal devem saber bem disto,o como o Brasil também sabe,os escândalos são muitos e envolvem meninos e meninas (talvez, atenção, talvez, mais meninas).

Perdoem o tamanho do comentário. Tenho tentado evitar fazer isto, mas desta vez não resisti.E levem em conta que, apesar de ser atéia, entre as instituições religiosas que predominam no Ocidente a Igreja Católica é a que tem minha maior simpatia. A Igreja com a qual convivi na infância era acolhedora, compassiva e magnânima. Minha questão foi mesmo de fé. Um sentimento que em mim desapareceu.

Primo de Amarante disse...

No meu ponto de vista, como agnóstico, eu nem sequer estou preocupado com a posição da Igreja relativamente aos homossexuais. Penso, como cidadão, que é um disparate tornar isso público, uma vez que a Igreja de que falamos defende o celibato. E por outro lado, há gente que se torna homossexual numa fase tardia da vida. Se essa pessoa já estiver ordenada, que interesse tem essa proibição!?... Só pode retirar-lhe o exercicio da função de padre, mas não o sacramento da ordenação.

Agora acho abusivo que se associe a homossexualidade à pedofilia (o facto de haver pedófilos que são homossexuais, a correlação não está demonstrada)e acho patético que a propósito deste debate se traga o "espantalho" de que "o lobby-gay é muito poderoso". A menos que se queira fazer alguma insinuação! Mas com que autoridade?!...

Cabral-Mendes disse...

A mesma que a sua, compadre...e quanto a patetices estamos conversados...

Primo de Amarante disse...

Não percebi!
No que me toca, não fiz insinuação, fui directo ao assunto.