10 janeiro 2006

Lamentável

A campanha eleitoral vai de mal a pior. Confesso que já estive mais longe do voto em branco, tal é a profusão de disparates e cenas lamentáveis entre os candidatos à esquerda.
Depois de ter participado nas eleições autárquicas de 2001 no Marco, contra Ferreira Torres, acreditava que já tinha visto tudo o que era possível em campanhas eleitorais. Mas ver Manuel Alegre, acompanhado de apoiantes e jornalistas, a discursar junto à sepultura de Fernando Valle, julgo que no cemitério de Arganil, atingiu o inimaginável. Ao aristocrata fugiu-lhe, desta vez, o pé para o chinelo…
Por outro lado, Soares e os seus apaniguados atiram-se à comunicação social e em particular ao grupo de Balsemão, queixando-se de parcialidade na cobertura da campanha. Então Soares, a quem sempre se permitiu o maior dos à vontades em todas as situações, vem agora lamentar-se por causa de uma fotografia em que coça a cabeça e fecha os olhos e de outra em que surge amparado a sair do comboio? O velho animal político acha que isso é uma campanha de perseguição política? De Balsemão, que deve ser o militante do PSD que menos simpatias terá por Cavaco Silva? Ora, caros estrategas do MASP III, arranjem outros focos e escolham outras bandeiras, porque essas só servem para entreter os mais incautos.

13 comentários:

Coutinho Ribeiro disse...

Isto, realmente, é o verdadeiro desnorte! É sabido que ainda Cavaco não era candidato e já eu defendia a sua candidatura. Já disse aqui por mais do que uma vez que, desta feita, não hesitaria um só segundo em votar no ex-PM. Fiz mais: não vi debates (apenas cerca de 15 m do debate Soares/Cavaco), acompanho com comedida atenção as notícias sobre a campanha mas não me desvio um milímetro da intenção incial. Tudo isto sem perder de vista que nunca fui - nem sou - um apaixonado de Cavaco Silva.
E que tem acontecido? Cavaco tem feito a sua campanha bem organizada, sem precisar de se mexer muito. Os seus adversários à esquerda encarregam-se de demonstrar que bem andam os que votam Cavaco, tal o clima que se instalou à esquerda, tantas as guerras que se abriram nesta frente. É a autofagia permanente!
E este será, sem dúvida, o grande trunfo de Cavaco nestas eleições. Ao recusar enredar-se neste clima, exibe a sua estatura de chefe de Estado em contraponto com os outros, enredados nas suas guerras paroquiais. É esta a imagem que passa para os eleitores, cansados de tanta trica, cansados de um país parado, expectante de um governo duro e com fé na colaboração estratégica de Cavaco.

Eu sei que para um eleitor típico de esquerda, as coisas não são tão simples como eu as pinto. Mas façam como eu: em 1986 também votei Soares e não estou arrependido.

Primo de Amarante disse...

A nivel do simbólico até me pareceu de grande elevação. Fernando Valle foi um dos fundadores do PS, foi uma espécie de pai espiritual de Manuel Alegre, ajudou-o durante o tempo em que esteve na Argélia(graças aos contactos de Fernando Valle com a maçonaria em França)e suponho que Manuel Alegre também lhe deve o ter podido "dar o salto" antes de ser preso.

O que me "chateia" no Manuel Alegre é o ar (que agora parece ter perdido) de se achar acima da natureza humana.

Primo de Amarante disse...

Onde está "antes de ser preso", queria dizer "antes de voltar a ser preso" durante o serviço militar.

Coutinho Ribeiro disse...

Compadre: resta-lhe o Louçã :-)

Primo de Amarante disse...

Não tenho dúvidas! Há muito que está decidido: eu e toda a minha familia, na 1ª volta, Louçã; na 2ª Alegre.

O meu voto útil e o da minha familia é o da nossa consciência.

Talvez,ainda vá a um comicio do Alegre, em Penfiel. Gosto da sua poesia!

O Hóspede disse...

Se o Alegre tem o ar de se achar acima da natureza humana, ele que até é poeta, então, qual é o ar que o Louça passa?
O de menino da Linha arreliado com o mundo? Ou o de menino bem a lutar pelos desfavorecidos? Entre um e outro, antes o Alegre. Tem obra e tem peso.

M.C.R. disse...

O SEU A SEU DONO!
Manuel Alegre quando percebeu que ia ser preso refugiou-se em casa do João Cochofel. Foi o João que o levou para Vilar, casa do Rui Feijó onde o Manuel esteve escondido um par de meses. Se não estou em erro terá sido o Armando Bacelar quem depois o passou.

Discursar na tumba do dr Fernando Vale não me parece pecado nem sequer é estranho. O DR Fernando Vale era o grande democrata de Coimbra que toda a gente tomava por exemplo. O Alegre era muito amigo dele . E do Miguel Torga, entre outros. Pessoalmente acharia mal que ele não fizesse aquela homenagem a um homem que seria bem capaz de votar nele.

Primo de Amarante disse...

Louçã foi dirigente da JEC (Juventude Estudantil Católica). Alguém que o acompanhou nessas lides, diz-me que ele engoliu muitas hostias azedadas e, por isso, ficou com aquele ar de quem diz com os dentes cerrados«aaazzeeedaram-me a vida».

Já disse que não recuso votar Algre. Alías o Alegre fez parte dos meus sonhos por um país mais fraterno. Em Mário Soares não voto, porque sou republicano puro e não monarca republicano. Mas não quero falar mais nisso, se não o camarada e compadre MCR fica chateado.

Primo de Amarante disse...

Estamos em "just time". Penso caro MCR que Fernando Valle também teve a ver com a saída de Manuel Alegre de Portugal e que foi ele que fez os contactos que refere. Pelo menos foi assim que me contaram. Como sabe, sobre isto só Alegre pode confirmar.

M.C.R. disse...

Mwu Caro Compadre

Se por alguma coisa lutámos (por alguma coisa que valesse a pena) foi por isto: podermos discordar publica e assumidamente. E igualmente podermos concordar. Quando V dá a sua opinião sobre um assunto fá-lo como adulto, como democrata e como homem livre que sabe o preço disso tudo. Eu, aspas, aspas.
Por isso não poderia nunca ficar chateado consigo. Claro que gostaria mais de ter o seu aplauso e acordo. Não sendo isso possível serve-me, e de que maneira, saber que conto com a sua amizade e, se alguma vez a sorte nos quiser perder, a sua ajuda.
E isso me basta, me honra e merece o meu respeito.
Um abraço

Primo de Amarante disse...

Caro MCR: como diria o compadre Delfim há algo que nos transcende a tecer os nossos encontros, como a Penélope tecia os fios do seu manto e você parece um Ulisses. Veja isto, homem sem Fé: Hoje, de tarde fui a sede de campanha de Alegre e elogiaram o meu amigo! Não fui eu que falei em si, falaram-me de si, do tempo em que esteve na secretaria de Estado da cultura. E falaram muito bem de si.

Isto é bonito e depois de ler o seu comentário, só poderei dizer: até sempre Ulisses!

M.C.R. disse...

Muito obrigado: Tenho frequentado pouco a sede. Faço a minha campanha mais na clandestinidade. Fico muito emocionado por alguém ainda se lembrar do meu tempo á frente da Delegação Regional do Norte da Secretaria de Estado da Cultura. Muito emocionado, mesmo.
Mais se alguém me cita a minha desesperada paixão por homero. Ah quanto gostaria de sabder grego clássico!...
Um abraço

Primo de Amarante disse...

Fui lá hoje, a primeira vez. Aquilo é de facto muito pequenino. Aonde encontrei mais apoiantes de Manuel Alegre foi no café que fica no rés-do-chão.

Valeu a pena!