17 dezembro 2007

Diário Político 69


Francamente, não queria falar disto...

Está na berra a independência do Kossovo. A julgar pelos jornais trata-se do problema nº 1 da Europa. Convenhamos que problema é, mas nº1? Convenhamos igualmente que o problema foi provocado também pela Europa. Não que a Sérvia, a Albânia e as populações albanesa e sérvia kossovares não tenham dado uma enorme ajuda, que deram, claro. Todavia, indo um pouco mais ao fundo da questão kossovar não seria mau saber, de uma vez por todas, que aquela terra não era só a dos maus sérvios e a das vítimas albanesas. Há vinte e tal anos que a imprensa internacional noticiava, a par de exacções do regime de Belgrado, outras menos visíveis mas igualmente brutais da autoria dos albaneses. Antes mesmo da queda da Jugoslávia. Não foram assim tão poucos os sérvios assassinados, expulsos ou empurrados para fora do Kossovo. Mas dessas miúdas violências falava-se pouco porque as vítimas não eram as politicamente correctas.
Depois, já mais para o nosso tempo, criou-se a segunda grande ilusão: os kossovares estavam a ser massacrados impiedosamente pelos malvados sérvios. A opinião pública europeia que assistira impotente a Srebenica exigiu em alta grita acção e mão dura. E foi o que se viu. Para libertar o Kossovo do exercito de ocupação bombardearam-se as fronteiras da Sérvia com a Hungria. Devia ser por estarem perto... E o Kossovo foi libertado dos soldados de Milosevich. E ocupado pelos gangs que se conhecem. E pelas escassas forças mandadas pela Europa que assistem impotentes ao desastre irremediável dum pequeno território devastado por ódios étnicos, religiosos, pela brutalidade das quadrilhas do tráfico de mulheres e de droga e por uma incomensurável ignorância dos bons samaritanos.
O problema todavia não fica por aqui.
É que a independência do Kossovo pode a breve trecho questionar a situação de outras regiões dentro da antiga Jugoslávia. As minorias albanesas e kossovares na Sérvia propriamente dita, e as que estacionam na Macedónia, por exemplo. Que é que lhes vai suceder? Vão pedir mais autonomia ou vão ser empurradas para o Kossovo independente, sua “pátria natural”? E os sérvios kossovares, 30 ou 40 mil criaturas que ainda restam, menos de cinco por cento dos que até há 15, 10 anos habitavam a região, ficarão lá ou serão deslocados para a Sérvia?
E o que vai suceder a esse molho de bróculos que se chama Bósnia Herzegovina onde mais de metade da população é sérvia ou croata? As regiões onde estes são e sempre foram maioritários (e agora exclusivos habitantes) deixar-se-ão ficar nessa inexistência política ou tenderão a juntar-se (até porque as fronteiras não existem) às duas entidades “cristãs”?
Mas vejamos um pouco mais longe. A Córsega que há anos (desde sempre, quase) se reivindica não francesa não poderá, face a este novo direito internacional, pedir a independência? E o Alto-Adige italiano de costumes e raízes germânicas porque não poderá juntar-se à Áustria? E o “Pais Basco”, com ou sem Navarra? E a Catalunha? E as regiões anexadas pela Roménia? E as que se auto-proclamaram independentes? E as minorias húngaras, não terão direito a constituírem-se como entidades autónomas dentro da Eslováquia, por exemplo e para não ir mais longe? E os Sudetas? Poderão regressar os milhões expulsos pela pulcra Checoslováquia em 45? A Prússia Oriental reverá os seus antiquíssimos habitantes? E a Pomerânia tirada à Alemanha pela nova Polónia que por sua vez perdeu territórios a leste? Acaso os independentistas bretões que Paris sempre tratou como terroristas não terão aqui a sua pequena oportunidade? A Dalmácia que Tito esbulhou e ofereceu à Croácia não terá direito a constituir-se como entidade autónoma?
Dir-se-á que aqui se misturam questões diferentes. É, e não é verdade. A Europa, sobretudo a central, é uma mistura inextricável de populações que, vítimas ou cúmplices dos antigos impérios centrais, se foram lentamente cantonizando (palavra desagradável inventada por uns patuscos que brincaram à geografia política nos últimos vinte anos do século passado), misturando, perseguindo, combatendo, tudo à vez, e de que subsistem línguas vivas e faladas, ódios velhos, irredentismos novos, nacionalismos e fascismos para todos os gostos.
A Europa, tão ciosa –em palavras – da sua diferença face aos Estados Unidos revela-se no Kossovo (que de resto só foi “libertado” graças ao poder aéreo americano) tão indigente de ideias e de princípios quanto os americanos no Iraque. Não sabe o que deve fazer, teme todos os cenários, está provavelmente arrependida do mau passo dado, assiste impotente às palhaçadas de uma série de líderes políticos sérvios e kossovares e vê, ao longe, mas com uma terrível certeza novas longas filas de desgraçados empurrados dos seus lares em direcção a a uma terra estranha. Do Kossovo para a Sérvia, da Sérvia para o Kossovo , da Macedónia para o mesmo destino. Tudo isto ao som do clamor dos irredentes sérvios e croatas nessa mascarada política ingovernável e inexistente de per si que se chama Bósnia Herzegovina.
Não hão-de faltar os que dirão que é dos Balcãs que nos vem as desgraças. Falso: somos nós quem leva a desgraça aos Balcãs.

2 comentários:

JSC disse...

Não posso estar mais de acordo com a abordagem que faz acerca deste problema. O Kosovo é já um problema que enfraquece a Europa. Mas o Kosovo independente será um problema bem maior para a Europa. Grave mesmo é que os grandes e esclarecidos líderes políticos europeus não vejam o sarilho que estão a criar. E a ONU? Qual o papel da ONU neste processo?

Jacinto disse...

E ao longe,mas não muito,a Santa Rússia aguarda...