03 agosto 2026

estes dias que passam 1073

 



Uma lança em África

mar, 3 de Agosto, 2026

Foi em Julho de 1415 que um poderoso exército português conquistou Ceuta. muito provavelmente no dia de Santiago. A cidade conservou-se portuguesa até 1640, altura em que os seus principais optaram por apoiar o Rei Filipe III (IV de Espanha). 

Aproveito a ocasião para recomendar vivamente aos leitores a não comprar uma coisa em forma de livro que dá por "Os navegadores" e é da autoria de ima senhora de sua graça Erica Fatland. A minha razão radica na propaganda do livro apresentado a pp 89 da revista SomosLivros editada pela Bertrand

De facto aí se escarrapacha que "os portugueses  ancoraram (diante da cidade) a fim de conquistarem Ceuta. Essa expedição comandada pelo infante d. Henrique marca o inicio...    

Esta grosseira burrice tem pai e mãe: A autora, evidentemente e a editora que permite editar algo que não será apenas o apagamento do Rei João e provavelmente dos seus dois filhos Duarte e Pedro acompanhados pelo Condestável Nuno Alvares Pereira. A autora e a editora provavelmente nem deram pelo facto de o primeiro governador militar de Ceuta ser um fidalgo da "casa" do infante D Duarte.

Deixemos, porém, esta anedota histórica e passemos ao que interessa: a recente "invasão" de Ceuta levada a cabo por mais de 60.000 nadadores marroquinos, quase todos homens e sobretudo bastante jovens. Em boa verdade poderia dizer-se que era um exercito desarmado mas, de algum modo, dada a multidão, capaz de fazer perigar a soberania espanhola.

Ao falar de invasão apenas quiz relembrar a famosa "marcha verde" promovida nos idos de 60 pelo rei e restantes autoridades de Marrocos que num ápice ocupou os territórios então conhecidos como Sahara Ocidental, colónia de Espanha.

Tal território fa apta parte do reino de Marrocos mesmo se ha um fantasmático governo  de um Sahara independente que vegeta à sombra e sob a protecção da Argélia.

Não quero pronunciar sobre a bondade das pretensões marroquinas quanto a tal território que, de todo o modo, sempre pareceu depender de Marrocos.

Todavia, é bom lembrar que Marrocos tem a ambição de fazer de Ceuta e Melilla território marroquino.

Esta não é uma vaga ideia mas apregoada desde sempre. 

A Espanha deu a estes seus dois territórios africanos um estatuto particular  que, entre outros pontos, não é abrangido pelos acordos Shengen.

Vai assim por terra a ideia de que esta multidão nadadora pudesse aproveitar a pacífica ocupação de Ceuta para alcançar a Espanha e, por arrasto, a Europa.

O 1º Ministro português bem que falou de histeria. E é verdade que as direitas mais radicais (em Espanha e sobretudo na Itália) se apressaram a uivar catástrofes iminentes que a retirada de já quase 90% dos invasores  já  tornou tola e inútil.

Que o governo marroquino deu todas as facilidades a este "corpo expedicionário" não restam dúvidas.  A polícia fronteiriça ,marroquina  fechou os olhosI a jornada nadador e por isso também deverá ser responsabilizada pela eventual centena de afogados na travessia. Inclusivamente nos noticiários circulou a ideia de que a entrada por mar em Ceuta não dava origem a repatriamento imediato.

Agora restam uns centos de rapazes esfomeados e sedentos nas ruas de Ceuta que nem sequer conseguem chegar às lojas, entretanto fechadas, onde eventualmente poderiam anuirei alimentos. A população da cidade (mesmo a muçulmana !...) não tem mostrado sinais de simpatia, sequer de solidariedade e as forças militares espanholas que rapidamente chegaram à cidade não tem permitido que essa juventude enviada possa pensar em acolhimento nos centro de apoio à imigração.

Natural que, até ao fim de semana próximo, desapareçam da cidade os  jovens que lá entraram.

Restam alguns centos de africanos sub-saharianos que provavelmente foram gentilmente empurrados pelas autoridades marroquinas para a mesma desesperada aventura.

Finalmente, consta com alguma razoabilidade que este gesto marroquino de apoio à invasão de Ceuta terá sido influenciado por uma recente visita do 1º ministro espanhol a Argel. As autoridades marroquinas terão visto, ou suspeitado, que esse encontro poderia dar força à posição argelina de defesa dos direitos do povo sarauhi refugiado em seu território.

De todo o modo, convém notar que nesta  aventura náutica estival há pelo menos um cento de mortos afogados, e, pior se possível, a amargura eventual de quem sonhou com a ida para o paraíso europeu

Finalmente gostaria de lembrar aos acusadores de Espanha que este foi o país que mais longe levou a  a regularização de imigrantes . Ainda há pouco tempo foram quase quinhentos mil que viram rapidamente o seu estatuo  resolvido e os seus direitos de residência reconhecidos.

Como também acontece cá, a direita xenófoba e imbecil espanhola ainda não percebeu que a economia nacional depende quase absolutamente  do trabalho dos imigrantes  (boa parte dos quais marroquinos, aliás...).