19 abril 2006



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Férias judiciais

Que diabo!

"Jandre Botha, de quatro anos, desobedeceu à ordem de chamar "papá" à amante lésbica da mãe. Esta, Engeline de Nysschen, de 33 anos, atacou vigorosamente a criança enquanto a obrigava a chamar-lhe "papá". Jandre acabou por morrer das lesões causadas por essa agressão, algo que o traumatologista Mohammed Dada referiu serem idênticas às de uma pessoa que tivesse caído de um segundo andar". No sul-africano The Star.

18 abril 2006

Farmácia de serviço nº 20

Esta é muito para o Rui do Carmo

Para quem não sabe, o Dr. Rui do Carmo é criatura pouco frequentável: gosta de poesia, o que é no mínimo grave. Gosta de jazz, mau Maria! É magistrado: ora aí está o caldo entornado!
Com a idade que leva, ficamos com a sensação que não só não irá melhorar, sequer arrepender-se destes dissolutos costumes e viciosa profissão, como até que irá neles prosseguir, com perigo da sua alma imortal, bom nome, fazenda e saúde.
Ora, se quem torto nasce, torto morre mais vale então dar-lhe mais do mesmo e vê-lo descer a ladeira tenebrosa do vício leitor e musical. E bom seria até, chamar um rancho de criancinhas inocentes (se ainda as houver) para que vejam com olhos de ouvir e oiçam com orelhinhas de ver a inexorável derrota de um cavalheiro de meia idade que persiste em frequentar poetas e músicos.
A FNAC, que se recomenda com a máxima cautela, pois aquilo é mais um molho de bróculos do que uma instituição de livros discos & similares, endoidou de novo e tem à venda uns caixotes de 40 (quarenta!) discos cada a preços que provam todas as virtudes económicas do actual governo: 44 euros! Anda aqui mão de ministro que pensa que estamos em época eleitoral. 44 euros por quarenta discos do enorme Duke Ellington e da sua orquestra é bambúrrio que se recomenda a todos. Não os ouvi, confesso, mas mesmo que só 20% seja bem gravado é um negocio da China.
Mas não fica por aqui o maná fnaquesco: perdidos por um perdidos por cem eis que os cavalheiros desse franchising oferecem um outro caixotinho com uma história da música desde o bas fond de New Orleans até aos anos 40. A gente esfrega os olhos e não acredita. Abre-os e lá está outra vez: quarenta rodelinhas com música por 44 mangos! Pior:ao lado outro caixote desta feita com um pancadão de cantores e cantoras jazzy. Estão lá todos desde a Billie do nosso contentamento até ao Sinatra com o chinó!!! O preço? Adivinham? Quarentinhas! Ah ganda fnac.

Caro Rui: se não puder vir apite, que eu adianto os morabitinos!
Sempre nesta onda traiçoeira de música infernal, o mesmo local de maus costumes oferece um caixotinho com toda a obra conjunta da lady Day e do Prez. Ou por trocados: Billie Holiday e Lester Young. Um must como diria o nosso Delfim. Depois não digam que não foram avisados.

Na anterior edição deste receituário, informava os paroquianos que tinham saído para a rua dois livros sobre Borges: uma fotobiografia e uma biografia. Na altura eu não tinha a certeza quanto ao editor. Suspeitava da Teorema, dirigida por um cavalheiro que a sabe toda: é culto, inteligente, publica só o que gosta e gosta do que é mesmo bom. Chama-se Carlos da Veiga Ferreira e é um contador de histórias de mão cheia. De facto os livrinhos tem a chancela dele. Lá os comprei e já aviei o primeiro. A fotobiografia. Nos trinques, comadres! Excelente.
A propósito: a mesma Teorema tem todo o Borges editado. Mesmo que eu prefira lê-lo no original não posso deixar de vo-lo recomendar. O Borges resiste bem a uma tradução. E esta, pelo que vi, parece-me boa.
Advertência: quem uma vez lê Borges (Jorge Luís) nunca mais fica o mesmo. Estão avisados. Boa leitura.

Daquele fidalgo de amarelada e seca
Tez e de heróica ânsia conjectura-se
Que em vésperas perpétuas da aventura,
nunca saiu da sua biblioteca.
A crónica pontual das suas façanhas
Narra, e as suas tragicómicas ousadias
Foram por ele sonhadas, e não por Cervantes,
E nada mais é do que uma crónica de sonhos.
tal é também a minha sorte. Há porem algo
imortal e essencial que sepultei
nessa biblioteca do passado
em que li a crónica do fidalgo.
As lentas folhas são tocadas por um menino que, grave,
Sonha com vagas coisas que desconhece.


Nota: poema “lectores” de J.L. Borges em “el mismo el otro” , Emecé, Buenos Aires, 1969 (tradução de mcr) A expressão "rodelinha" pertence, como não?, ao inefável leitor José amador de LPs antigos. saravah!

LITERATURA EM VIAGEM


A pedido do meu querido Amigo Marcelo Correia Ribeiro, aqui se anuncia uma série de debates sobre temas literários, no âmbito do ENCONTRO INTERNACIONAL DE LITERATURA EM VIAGEM, que irão ter lugar na Biblioteca Municipal Florbela Espanca, sita em Matosinhos.

Atenção ao dia 24 de Abril, em que terá lugar, às 18H, com moderação de Marcelo Correia Ribeiro, um debate intitulado "Porque deambulam os homens em vez de estarem quietos?"

Eu creio que é esta nossa inquietação interior que nos domina a todos...O desejo de partir...de visitar o desconhecido...é aquela inquietação que sentimos junto a um cais de embarque, marítimo ou aéreo... já isto sentia o Pessoa...

Do Homem: Afinal, Hoje como Ontem !



No dia 18 de Abril de 1901 nasceu o matemático, escritor e político Bento de Jesus Caraça.
Opositor ao regime do Estado Novo (opções…) Bento de Jesus Caraça publica, em 1933, um texto retirado de uma conferência por si dada à época, intitulado “A cultura integral do indivíduo – problema central no nosso tempo”.


Curioso que as afirmações ali contidas se mantêm prenhes de actualidade. Não amareleceram com o passar do tempo…

Creio que vale a pena colocá-las aqui para todos reflectirmos nestas supremas verdades:


O que é o homem culto: “É aquele que: 1.º - Tem consciência da sua posição no cosmos e, em particular na sociedade a que pertence. 2.º - Tem consciência da sua personalidade e da dignidade que é inerente à existência como ser humano. 3.º - Faz do aperfeiçoamento do seu interior a preocupação máxima e fim último da vida.”

Ao mesmo tempo alerta para que não se confunda cultura com civilização.

“Porque civilização é a capacidade que uma sociedade tem em pôr à disposição do indivíduo todos os meios para tornar a existência fácil, enquanto cultura é o conceito do que seja a vida e a organização das relações sociais que permitam ao indivíduo viver a sua condição humana".

Por fim chama a atenção: “o desenvolvimento da civilização, só por si, pode conduzir ao automatismo e à consequente escravização do homem, o que nos é mostrado pela civilização capitalista actual; é isso devido, não a um alto mas a um baixo grau de cultura que permite que os meios de progresso sejam utilizados num ambiente de completo abandono dos objectivos superiores da vida.”

Por isso só um reforço intenso da cultura pode abalizar o desenvolvimento da civilização, porque, “o drama presente da civilização ocidental reside precisamente nisto: a uma evolução rápida, de ritmo catastrófico, no plano material, não correspondeu uma evolução convenientemente ajustada no plano espiritual.

Hoje como ontem. A semelhança de atitudes tomadas pelos homens é chocante, e elas atravessam transversalmente os regimes político-constitucionais, independentemente da respectiva “bondade”!

Afinal, o mal não residirá tanto no regime político que rege uma determinada sociedade mas mais na intrínseca imperfeição do Homem.

Resta-nos ver Portugal a arder!

Passeando pelas Beiras deste país, durante umas férias pequenas e merecidas (convicções !...) deparei com o quadro habitual: mato e mais mato a matar a floresta por asfixia! Limpeza das matas? Onde? Não vi. Estradas de acesso nos montes? Onde? Poucas vi. Reflorestação? Onde? No entanto, muitos recebem subsídios para limpar matas que ninguém limpa, nem ninguém controla a forma como se gasta esse dinheiro.

A esse propósito comentei com o meu parceiro:”vais ver que daqui a pouco se começa a falar do combate aos incêndios e a prevenção vai passar ao largo”. Em cheio! Nas notícias do dia seguinte lá estava o super carro dos bombeiros que aí vem para apagar fogos, mais não sei quantos aviões (alugados) e mais não sei o quê. Parei o que estava a fazer com uma ténue esperança de ouvir falar sobre o que tinha sido feito ao nível da prevenção materializada, por exemplo, na limpeza das matas. Nem uma palavra. Pensei com os meus botões: “ mas não haverá por aí um jornalista, um que seja, que pegue nos incêndios antes destes acontecerem e ponha a prevenção a nu?”. Quando partilhei este meu pensamento o comentário que obtive foi:

- Mas desde quando é que a prevenção vende? Um fogo, isso sim, com muito drama à mistura, casas queimadas, isso sim vende!

E é verdade. A reforçá-lo estavam as imagens que tinham passado momentos antes na televisão: fogo e mais fogo.

Tenho pena. Tenho pena pelas árvores que vão arder, pelos animais que vão morrer, pelas ruínas negras das habitações, pela pobreza que se instala cada vez mais nos nossos montes.

Se os ministros, secretários de estado e directores gerais passassem pelas estradas do interior deste país em vez de se deslocarem a 180-200 Km/h nas auto-estradas ou se alojassem em turismo rural em vez de irem para o Brasil passar férias, talvez dessem conta de como está a "paisagem" que cerca as cidades.

Como nada acontece para evitá-lo, resta-nos ver Portugal a arder!

17 abril 2006

Leis

A justiça depende mais dos juízes do que das leis que eles aplicam.
José de Azeredo Perdigão (1896-1993)

O meu "acórdão"

Creio que, nesta Páscoa, se não tiver sido antes, o meu pai terá percebido, quando olhava para mim e para os meus dramas, que eu, afinal, era um menino de coro quando era adolescente e que não tinha merecido aquelas três tareias por dia (média não científica, mas que é aquela de que me lembro). E que muito menos mereci aquelas tardes encerrado num exíguo compartimento onde se guardavam as batatas, sem luz e sem ar, e um profundo cheiro a batatas, um cheiro que ainda hoje não suporto e me agonia. Se o meu pai tiver percebido isso, estou vingado, que as minhas vinganças bastam-se com pouco, eu, que nunca tive "instinto assassino", e, para além disso, tive os imensos abraços do meu filho, durante uma semana todos os dias.

(Não. Ao contrário do que mais lá para baixo diz MCR, eu não sou apenas um pássaro ferido na asa. Que fosse isso... Mas lá iremos, um dia após outro...)

O leitor (im)penitente 2

A tia Néné devoradora de bibliotecas

Já por aqui terei mencionado uma tia aventureira a que em momentos difíceis (e não foram escassos) recorremos, nós os sobrinhos mais velhos. Faz hoje, 17 de Abril, setenta e nove anos mas como ela, ultimamente aboliu os aniversários, vamos fazer de conta que hoje apenas celebramos o 37º aniversário do desencadeamento da crise de 1969 em Coimbra. E boa arruaça foi essa a daquela manhã primaveril em que uns milhares de estudantes disseram ao Governo, às autoridades académicas e ao Presidente da República, um rosário de verdades que terá indispostos Suas Excelências. Justamente desgostadas com a atitude impatriótica inconveniente dos jovens energúmenos, as Ilustres Personalidades entenderam, em seu alto critério, entregá-los ao braço secular ou seja à PIDE e restantes polícias. A partir desse funesto momento, a Academia coimbrã num arroubo de má fé e subversão bolchevista declarou-se em greve. Os exames tiveram fraquíssima assistência, as autoridades policiais distribuíram farta dose de chanfalhada na juventude contestatária sempre que esta saía à rua, houve mais de duzentas prisões, e um número indeterminado mas elevado de estudantes foram prestamente chamados a Mafra para o curso de oficiais milicianos a fim de malharem com o costado prevaricador em África, na guerra colonial. A Academia não esmoreceu. O Governo entendeu então substituir o Ministro da Educação, o Reitor, e reenviar os cadetes de Mafra para as suas faculdades. Concluía-se assim a única greve estudantil vitoriosa durante o Estado Novo. E também aquela que maior adesão registou. Quer de estudantes quer de simpatizantes na cidade. A chamada geração de 69 ainda hoje se ri e se comove com esta luta de um inteiro ano. Para muitos, senão para todos, ficou na memória um aroma persistente de liberdade e fraternidade a que nem sequer as desilusões de tantos anos conseguiram retirar frescura.
De facto a tia Néné tinha de nascer num dia assim. Ela não faz anos, claro, que já se deixou disso, mas a verdade é que no dia de não anos, a rapaziada (e nesta havia este sobrinho, a respectiva mulher, filhos de vários amigos) que a conhece vê-a num piquete de greve, magra, olhos imensos, e uma vontade de ferro, a arengar às massas. Ela não estava lá fisicamente mas, tenho por certo, que in imo pectore terá feita muitas e frescas durante aqueles meses de paixão e rosas.
Mas, as leitoras, e um certo leitor Ferreira que quer notícias literárias do Lobo Antunes, não se espantem: esta “tia prodigiosa” está aqui muito bem. Nas duas vertentes: leitora e libertária.
De facto, contam as sagas familiares que era ela mínima, ainda em S.Tomé onde o avô Manuel, oficial do exército, cumpria uma comissão militar, distinguiu-se como o único elemento feminino de um bando de pequeníssimos malfeitores em idade pré escolar que não contentes de fugirem numa piroga podre para o mar infestado de tubarões (pobres tubarões, terá dito o capitão do Porto, pai de dois cúmplices da tia) entenderam despojar um comboio de todos os seus belos reposteiros vermelhos para com estes adornarem uma caverna ou uma cabana não sei bem que era, o “covil dos piratas”. As autoridades andaram e andaram atrás do audacioso grupo, terão prendido os soli ignoti mas só ao fim de um par de dias deram com o gang juvenil. Em boa hora o fizeram porque é convicção minha que a Tia Néné sonharia nesses anos longínquos com um futuro á Al Capone ou à Capitão Morgan, o que era, para a época, um grande avanço nas teses feministas de que a filha única muito se orgulha. Mas não é a esta história gloriosa de um falhado destino presidiário que venho.
É que esta Tia, anos mais tarde, em plena adolescência foi com a restante família para a Figueira da Foz. A casa onde se instalaram, à rua das Parreiras era a poucos metros da Biblioteca Municipal. Ao cheiro irresistível dos livros a Tia Néné tornou-se frequentadora diária da Biblioteca e possuída de uma insaciável paixão literária foi lendo, estante a estante a existência ficcional da aliás excelente Biblioteca Municipal Manuel Fernandes Tomás. Estou a vê-la, ou imaginá-la, magrinha, tranças pretas e olho vivo a escavar aquela mina de aventuras, de romance, de violência e de paixão. Mas não há bem que sempre dure sobretudo se alguém está possuído pelo espírito temível da leitura.
A Biblioteca era abastecida de novidades de longe em longe mas a tia Néné tinha a persistência da formiga vermelha. E a mesma velocidade. E o mesmo apetite. Chegou assim o dia terrível em que o bibliotecário Senhor Santos lhe disse branda mas definitivamente que ela já tinha lido tudo o que havia para ler, á excepção de tratados de horticultura, dicionários e enciclopédias.
A tia Néné viu-se obrigada a moderar a sua dose e a arranjar outra actividade compensatória. Entretanto os dois primeiros sobrinhos (o meu delinquente irmão e eu próprio) iam crescendo em graça e formosura e alimentados a histórias fantásticas contadas por uma avó de ilimitada imaginação e memória. Parece que algumas delas lhe teriam sido contadas por uma criada negra, lá nos confins do sertão angolano. Dessas histórias só recordo uma com as aventuras de um gigante muito mau chamado “Olharapo”. Anos, muitos anos depois, descobri que o “Olharapo” era o Polifemo homérico. Estão a ver? Como é que eu não havia de ter estas manias se de todos os lados me chovia livros e histórias deste calibre?
Já por aqui contei que quando comecei a ler baixo, a família rejubilou pelo silêncio reencontrado. A Tia Néné ter-se-á juntado à missa laica de acção de graças por esta nossa vitória e resolveu celebrar esta nossa manumissão da leitura em voz alta com um presente digno de reis.
Teria eu nove anos no máximo e, pela mão segura e admirável da Tia Néné dei entrada na Biblioteca Municipal Manuel Fernandes Tomás. Aí conheci o senhor Santos e os seus dois ajudantes: a filha e o genro, ambos surdos-mudos, qualidade muito consonante com o silêncio normalmente imposto nas bibliotecas. Um mundo novo abria-se perante o menino de calções. Um paraíso que ainda hoje, tantos anos, tanto mar, tanto amor, me faz sonhar.
Tenho nesta casa onde agora escrevo, cerca de quinze mil volumes (um pouco mais para falar verdade). Espero, quando o meu dia chegar, que os meus herdeiros –se os livros lhes disserem pouco – me façam esta última e única vontade: mandem-nos para a Biblioteca da Figueira para que uma outra Tia Néné e uns outros sobrinhos rabinos e leitores possam dar vazão à sua sede de aventura.
Reparo agora que não falei de nenhum livro. Que isso não seja por mal. Saiu há dias um livro com o sugestivo título “Os Vencidos da Vida”. Quem por ele for á procura de um ensaio sobre essa geração brilhantíssima, que tire o cavalo da chuva. O livro é uma má e pobre antologia de textos ultra-conhecidos (os melhores) ou pouco expressivos (os restantes). Sem um enquadramento sem umas notas sem nada. Tempo e dinheiro perdidos. Assim não vale a pena. E é um truque baixo. Por vezes um leitor é penitente!

15 abril 2006

Miserere nostri, Domine...


Meus amigos, ando num rodopio para cumprir com os meus deveres, próprios desta época pascal. Mas eles são, para mim, mais que deveres, um deleite. E vou agora partir por uns dias a fim de a viver ainda mais intensamente.

E esta época até é propícia, para aqueles que, como eu, como gosta de dizer o nosso bom Marcelo Correia Ribeiro, são do “estilo penitencial”, reflectirmos nos males do mundo contemporâneo, nas suas injustiças e violências, e na incapacidade de reconhecermos as nossas próprias acções erradas, e de aceitarmos como necessária e urgente a mudança de atitude e darmos início a um novo caminho.

No fundo, todos os homens de boa vontade convergem para o Bem, independentemente de crenças ou ideologias.
E homens e mulheres de Bem creio que abundam por aqui, neste blog.

Para eles, crentes e não crentes, os meus desejos de uma época de intimidade no aconchego da Família, esse bem precioso.

No Domingo de Páscoa abusem de uns ovos de chocolate, uns folares, amêndoas e, é claro, iniciem as “hostilidades” (gastronómicas…) com um bom cordeiro…

Até Segunda!

14 abril 2006

Árabes - XIX

prece

nunca mais vens,
nunca mais estás.
o deserto é impiedoso,
vinca a aminha face,
minha alma.

em que oásis lavaremos dos nossos corpos,
jovens ainda ,
destas fissuras fundas ?

allah, sê misericordioso
com esta mulher!
não deixais ressequir minha alma
inundada de areia.


silvia chueire

Ainda a questão do "Acórdão dos maus-tratos" : laissez faire, laissez passer...

Tenho, ainda aqui em Lisboa, os meus rituais a cumprir: diversas obrigações na Igreja onde tenho a honra de servir ( Santo António à Sé).

Nesta Sexta-Feira Santa, por antiquíssima tradição, a Igreja não celebra a Eucaristia. A comunhão é distribuída aos fiéis apenas dentro da celebração da Paixão do Senhor, pois que este dia é de penitência em toda a Igreja, com jejum e abstinência. Há lugar a leituras que terei de fazer à tarde.

Entretanto, lembro-me da "paixão" quotidianamente sofrida também por aqueles que não se podem defender da violência dos mais fortes: as crianças.

Não estou agora interessado em discutir o problema sob o ponto de vista do Direito Penal, essas coisas dos dolos e das negligências, e dessa problemática da sucessão de leis no tempo, as leis antigas e as leis que agora estão em vigor. Não. Apenas me interessa respigar do Acórdão do STJ, respeitante ao processo 06P468, datado de 05 Abril de 2006, e que tem enchido as páginas dos jornais, e cujo texto integral pode ser consultado na página do Ministério da Justiça - Instituto das Tecnologias de Informação na Justiça - Bases Jurídico-Documentais ( http://www.dgsi.pt/ ) que ficou provado, desde logo na 1ª Instância que "A partir de 1992 até 12 de Janeiro de 2000 a arguida por várias vezes fechou o BB à chave, na despensa, com a luz apagada, quando este estava mais activo, chegando o menor a ficar fechado cerca de uma hora. No mesmo período, por duas vezes, de manhã, em dias coincidentes com o fim-de-semana amarrou os pés e as mãos do BB à cama para evitar que acordasse os restantes utentes do lar e para não perturbar o descanso matinal da arguida. Também durante o referido período a arguida dava bofetadas no BB.- O BB é menor de idade e sofre de psicose infantil muito grave, sendo uma criança com comportamentos disfuncionais, hiperactiva e por vezes agressiva que descompensa com facilidade."

Bem, tais factos dizem respeito apenas a uma criança. Mas "ele" há mais...

Mas respiguemos apenas esta passagem do Supremo:

" Os comportamentos que foram dados como provados contra a arguida podem configurar castigos eventualmente excessivos, passíveis de integrar as ofensas corporais, mas de forma nenhuma maus tratos.”

Eu, em pequenino, se me tivessem amarrado a uma cama, ou me tivessem fechado numa despensa, com pouco espaço e necessariamente com pouco ar, certamente que hoje seria uma pessoa destroçada. Que ainda andaria no psiquiatra, a tentar expulsar os demónios interiores...

Mas talvez que o defeito resida em mim: provavelmente sou demasiado sensível. Talvez eu esteja enganado e estes actos, afinal, não sejam mesmo maus-tratos a uma criança, seja ela deficiente ou não.

Afinal, parece que vivemos num País de brandos costumes…

Nota: Portugal, em 2004, ocupou o primeiro lugar nos casos de maus tratos a crianças com consequências mortais, numa lista dos 27 países industrializados da OCDE.

13 abril 2006

Os cromos

Eduardo Prado Coelho tirou-me ontem as palavras que não tive tempo de escrever. Na sua crónica no "Público", questionava as razões por que tanta gente, chamada a votar, escolhe aqueles candidatos que, para "nós", nunca poderiam recolher um apoio tão generalizado.

Partindo do exemplo de Berlusconi em Itália (apesar de tudo perdeu e bem!), Prado Coelho enunciava outros exemplos no estrangeiro e em Portugal (os autarcas independentes...) que nos deixam tão surpreendidos.

Qual é, afinal, a realidade que permite a Berlusconi ter meia Itália do seu lado? O que justifica a força da extrema-direita em países como a França ou a Holanda? E as maiorias esmagadoras de Fátima Felgueiras, Valentim Loureiro e tantos mais? Que valores são estes? Que sociedades são estas que estamos a (des)construir?

O reforço de meios da PJ, com a entrada de 150 novos inspectores,
já foi anunciado pelo menos três vezes
por Alberto Costa.

MAS ...






Cabecinhas pensadoras

DESINFORMAÇÃO JORNALÍSTICA,
HOJE NO "PÚBLICO"

MAS ...


O acórdão "dos maus tratos"

12 abril 2006

Diário Político 18

ATÉ OS COMEMOS
(taveirando...)



Exo. Senhor
Eng.º António Taveira


Hoje domingo, às 9 horas menos dez, mais minuto menos minuto tive a oportunidade (mas não o prazer) de ver V.E. anunciar ao Porto e à Pátria que os socialistas tivessem cautela porquanto, e sic, "nós até os comemos"!

Sou do Norte, vivo no Porto e voto socialista. Fico naturalmente preocupado com a hipótese de ser comido por V.E..
E por várias razões que lhe passo a expor:

1º não gostaria de morrer grelhado, frito ou "de fricassé"; parecem-me, V.E. perdoar-me-á, soluções pouco elegantes para um cavalheiro de meia idade.

2º Aos 52 anos já devo ser durázio pelo que temo que V.E., para levar a cabo esse instinto antropofágico que por mim nutre, me sacrifique com os requintes com que se prepara o peru para a ceia natalícia enfiando-lhe pela goela uma aguardente abaixo de qualquer classificação. Logo eu que detesto bagaço.

3º Acabei de fazer uma dieta que me atirou para os 62 quilos, conseguindo assim voltar para a categoria de magro. Assim sendo, e continuando sob ameaça de passar a produto comestível, vejo-me já numa granja a ser engordado como um ganso ou, pior ainda, como um vitelo.

Bastariam estas três razões para apelar a V.E. que desista desse gargantuesco apetite que põe em risco de vida a grande maioria da população eleitora do Porto. Todavia, perdoe, há pior.
Dizem-me agora, com meias palavras, que "comer" significa outra coisa.

Engenheiro Taveira por quem me toma V.E.? Comer-me? Mas que é isso? Alguma vez nos cruzámos e eu, langoroso, lhe atirei com uma "oftálmica" daquelas que diz tudo, mas tudo mesmo? Ou, pior, deixei eu cair um alvo lencinho de cambraia branca bordada com o monograma altivo dos d’Oliveira, e V.E., num gesto ousado e galante, apanhou-o em voo, e entregou-me com um sorriso maroto debaixo desse bigodão?

E naquele "nós até os comemos" haverá ainda a hipótese de não ser V.E. o único e querer partilhar este, entre outros, fatigado corpo com mais compinchas?

Engenheiro António Taveira - já me passou a idade heróica em que eu, à mera evocação do "odore de femina", me sentia um foguetão intercontinental. Todavia isso não significa que me tenha transferido para a outra margem. Afianço-lhe que nem sequer aturo supositórios e, se me permite, também não me atraem mocetões de bigode mesmo a cantar os êxitos do José Cid nos anos 60.

Engenheiro António Taveira - retire por favor a frase e as fomes que ela supõe. V.E., à falta de passado tem, de certeza, futuro mesmo, permita-me que lho augure, como candidato derrotado. Sofreie a impaciência e o apetite e dê tempo ao tempo.

At.,V. e grato
d'Oliveira

nota: o texto ora em exposição (a 1ª da sua já longa vida) data de 1993(?). E refere com toda a verdade uma objurgatória do senhor eng. António Taveira episódico dirigente distrital do PPD/PSD durante a disputa da presidência da Câmara Municipal do Porto contra o dr. Fernando Gomes. Manda o rigor histórico que se informem os leitores destas minúcias históricas da derrota de Taveira. Derrota forte, valente e, quero crer, merecida. Como a do dr. Gomes anos depois...
E foi retirado da naftalina pelo milagre de uma frase do dr Coutinho Ribeiro, neste blog a propósito, julgo de uma vitória do Porto sobre um clube de que já não recordo o nome. Alguém com humor, há que aceitá-lo, contestou a frase, e os ribeiros do blog disseram de sua justiça. poderá uma Oliveira (reino vegetal) juntar-se a esses fenómenos naturais eminentemente geológicos para deitar uma acha à fogueirinha? E, de passagem, cumprimentar o comentador Sebastião e Silva (ora aqui temos outra espécie vegetal. assim já são dois contra dois).
Boa Páscoa!

O leitor (im)penitente 1

Ao princípio eram os livros

Não fui (e o meu irmão ainda menos) uma criança sossegada. Traquinas será mesmo um adjectivo piedoso para descrever o permanente bulício em que ambos nos instalávamos mal as autoridades (materna, paterna ou tão só a das modestas serviçais que naquele tempo de chamavam criadas de servir) viravam costas. Elas a desaparecer e nós a virar (aproveitemos o verbo anterior que é muito expressivo) tudo de pernas para o ar. Aliás nesse capítulo, o meu irmão era bem pior: loirinho, com ar de mosquinha morta, tinha um cérebro fervilhante para tudo o que não podia fazer. Mal andava ainda, fugiu de casa, descendo umas escadas enormes, calcorreou um rua que teria os seus bons duzentos metros e já só foi apanhado, a chorar, por uma peixeira caridosa, junto da doca. Como o galfarro dava ao pulmão que não era brincadeira, ela entendeu calá-lo entupindo-o com um farto naco de broa das Alhadas. Aí a criaturinha desistiu da choradeira e dedicou-se com afinco á tarefa de roer a broa milagrosamente posta ao seu alcance. Um deus benfazejo (muito vulgares na Figueira) fez com a que a salvadora daquele aventureiro resolvesse subir a mesma rua que ele descera (estão a ver aqui a referencia implícita ao Veloso amigo do Camões, não estão? Ah esta intertextualidade tão cara à prima Maria Manuel...). Um mimoso grupo de tias que estava á janela achou a criança parecida com um dos sobrinhos e devem ter pensado tanto que a pobre carregadora do comedor de broa olhou para cima e perguntou se “menino era dali”. Foi um baque! Como era possível? Logo o Tanézinho tão loiro e sossegadinho...
A partir deste momento fundador, o benjamim dos Correia Ribeiro, não parou: deitou fogo a uma cama estando ele debaixo, pintou a parte de baixo do mármore de uma credência com vários batons da minha (e dele) Mãe que se espantava com a velocidade a que os ditos se gastavam e por aí fora. Tudo isto com o mesmo ar de menino Jesus que Deus lhe dera...
É costume dizer-se que a infância é uma doença de S Vito que se cura com a passagem do tempo. No caso em apreço, o dele claro e o meu, que, moreno até dizer basta, tive sempre a fama e raras vezes o proveito das pequenas picardias quotidianas, parte da nossa espástica actividade delituosa, morreu com a leitura. Dizer morreu é talvez excessivo. Ponhamos que amainou. Ora aí está: amainou, verbo marinheiro, próprio de que vem das margens do mar oceano.
Temos uma ligeira diferença de idade. Sou mais velho 14 meses, o que agora não é nada e pouco foi quando éramos dois pequenos delinquentes infantis. Não espantará que tenhamos aprendido a ler quase ao mesmo tempo. A ler alto, ou seja em alta voz. A ler as “aventuras do gato das botas de sete léguas”, dos “três porquinhos” e toda uma série lindíssima de livros muito ilustrados e publicados no Brasil que já tinham sido alvo da leitura do nosso Pai. Recordo vagamente a história de um “pássaro roc” que deve ser o mesmo que voltei a reencontrar nas diferentes versões das 1001 noites que fui devorando ao longo das décadas (sim que eu não me contentei com o Galland e com o Mardrus, debiquei quanto pude no Burton e espero não morrer sem ler a versão dum cavalheiro brasileiro Mamede Mustafa Jarouche, que deve estar a rebentar por aí) e uma outra que metia um cavalheiro holandês gordo que caía pelas escadas demasiadamente enceradas por uma criadinha aflita.
Tudo isto lido em voz alta e sempre na peugada de um dos progenitores que devia maldizer o dia em que tinha decidido combater o analfabetismo infantil. O meu Pai contou-me muitos anos depois a sensação de alivio que experimentara quando aprendemos a ler em silêncio. Foi tão expressivo que eu ainda hoje me atrevo a pensar que a coisa há-de ter sido forte.
Mas agora vejo que estou para aqui a dar à taramela, “a dar água sem caneco” diria o manhoso Carteiro que é muito cá do Norte, sem explicar ao que venho. Nada mais difícil: tenciono ir por aqui relatando a minha vida de leitor. O mesmo é dizer uma vida de pecado. A leitura é um vício eminentemente solitário e tem trazido aos seus cultores os mais deploráveis hábitos, desde o sonhar até ao pensar. Os livros terão dado a volta à cabeça do meu muito amado Alonso Quijano, esse mesmo que, vindo de um lugar da Mancha de que nem devemos recordar o nome, chegou a toda a parte onde há um leitor insone e fez da aventura de ler um farol do fim do mundo.
Falarei de livros, lidos, claro, como quem, numa honrada taberna antiga, entre um copo de vinho e dois pasteis de bacalhau, ou um par de sardinhas assadas, fala do tempo que vai passando. Não esperem crítica iluminante nem coisas do mesmo teor. Para isso há um imenso exército de universitários que falam difícil e escrevem ainda mais, que se devem ler uns aos outros, e que tiram a qualquer preopinante a vontade de ler sequer o nome da rua por onde passam. Aqui, a cozinha é caseira e barata. De casa de pasto. Do género que á saída o cliente, ainda a limpar os beiços com as costas da mão, diga para a alegre companhia que com ele vai: não foi mau e é barato. Que tal voltar para a semana?
Freguesas e fregueses, tenham uma Páscoa boa e farta. Dêem-lhe nas amêndoas e não poupem no carneirinho tenro e assado. Para os do estilo penitencial do Delfim L Mendes, recomenda-se até à aleluia, farta dose de sopa de cação, migas de bacalhau e outros mimos, que o malandrim pira-se para o Alentejo em vez de me oferecer um jantarinho em Lisboa. E diz ele que eu sou “património de interesse público”. Que atrevimento!

PS dedicado á nossa transatlântica Sílvia: quererá a menina saber se, de facto, já anda por aí, nesses sertões magníficos a que, em má hora concedemos (?) a independência, a tal versão das 1001 noites do supracitade Mamede Jaroussi? E terá a bondade de me comunicar o resultado de tão intensa pesquisa bibliográfica, para aqui mesmo, em comentário? Ora receba mil graças e desejos de excelente Páscoa, não sei se com cordeiro ou com moqueca de camarão que, aqui para nós, o deve substituir com vantagem pituitária evidente.