16 julho 2007

Estes dias que passam 70


A caminho de um universo huxleyano

Quem me lê pode pensar que ando sempre à pesca de uma notícia má, perversa, horripilante para acertar o passo nos que mandam. Coitado do mcr, a idade deu-lhe para Vingador Solitário, Zorro, etc... (McGiver!, intervém a minha sobrinha Sara, que apesar de já ser uma geóloga qualificada não esquece uns amores televisivos de juventude e ainda hoje possui, garante ela, todas as aventuras deste cavalheiro em cassetes antiquíssimas e carregadas de pó). E, de facto, poderia ser: a idade não perdoa a ninguém e eu estaria a voltar aos meus tempos de menino leitor do Capitão Nemo e do Sandokan.
E por um lado estou. Acabo de ler umas curiosas revelações sobre o Titanic nacional: os exames de Matemática: ao lado disto a “História Trágico-maritima” é um fait divers. Em 96.000 alunos que fizeram o 9º ano, 24.600 (mais ou menos 25%!) tiveram 1 valor (ou como se diria antigamente, 4, isto é Mau!!! E neste 4 poderão caber muitos 3, 2, 1 ou 0...
Mas há pior, quase três quartos dos alunos tiveram negativa!!!
Convenhamos que ao apanhar com uma notícia destas, o leitor tem uma vontade enorme de pegar numa espingarda, numa bomba, numa faca de cozinha enfim numa dessas coisas que fazem pfft e matam mosquitos, moscas e outras bichezas pequenas e ala, que se faz tarde, para a escola ou para o ministério para uma djihad particular.
Eu não vou, porém, dizer que é esta ministra a culpada. É também culpada, claro, mas antes dela houve um rosário (e nunca uma palavra foi tão bem empregue) de ministros, secretários e subsecretários de Estado, directores gerais e demais responsáveis, que viram aproximar-se a “catástrofe iminente” (esta para os leitores mais versados em pensamento diamático...) e nada fizeram para a evitar. Pior. Persistiram na mesma bambochata, no mesmo palavreado oco, na mesma aberrante ideia educativa, na mesma teoria de uma escola onde se passa distraída e impunemente, que forma catatónicos em vez de cidadãos.
Uma série de professores de matemática (esta também é boa: que raio de professores são estes, que é que ensinam, como é que não eliminam logo ao segundo dia os alunos de nono ano que nem no segundo deveriam estar? Olhem, porque é que estas pedagógicas criaturas não fazem greve sob o lema “nem mais um analfabeto para o nono ano”?) vieram à liça dizer que as criancinhas (de 14/15 anos) não percebem o que lêem.
Pergunta-se se elas sequer lêem. Porque ler não é soletrar vesga e grosseiramente umas palavras que depois ficam a ecoar longamente num cérebro vazio. Ler é compreender, que raio! Eu com oito anos, eu e todos os outros da escola do senhor professor Cachulo, bendito seja ele, ali em Buarcos, à beira praia e à beira miséria (que os anos quarenta e oito e quarenta e nove eram maus, duros, tristes – esta é para um parolaço comentador político que ainda há dias vinhas entoar loas ao Salazar - ) líamos que nos fartávamos. O problema para muitos deles era arranjar um livro, uma revista, O Mundo de Aventuras ou O mosquito, para lhe meter o dente. E os pais deles, pescadores analfabetos, mas pais a sério, não brincavam em serviço. Queriam que os filhos soubessem ler contar e escrever para terem uma vida que eles não tinham. Os meus livros andavam de mão em mão, pelo Ganhitas, pelo João Mantana, o Romão ou o Aranha Eires. E eram lidos á luz trémula do fim da tarde, de um candeeiro de petróleo, teimosamente, gozosamente, deslumbradamente.
Agora os meninos lêem? Alguém em casa cuida de lhes dar um livro, de perder tempo a ler-lhes uma história, de lhes suscitar o gosto por um herói chame-se ele Harry Potter ou Bilbo o Hobbit? Eu não quero impingir o Verne que lhes faria bem, ou o Salgari ou as aventuras do Lagardére. Raios! Basta-me que leiam e compreendam. Vi, com estes que a terra há-de comer, o Carlinhos Cal Brandão, pequeníssimo, ensimesmado, tentando ler para além das figurinhas, as frases que os seus quatro ou cinco anos ainda não lhe permitiam ler. E o pai dizia, cofiando a barba: o gajo está louco por saber ler... E estava. E logo que se apanhou alfabetizado pela escola e pelo pai e pelos amigos do pai, foi um ver se te avias. Agora já no quarto ano de Arquitectura, ainda tem tempo para ler que isto é vício que não se perde. E é um miúdo culto, que gosta também de outras coisas da sua idade, desde namoradas a tunas estudantis (Jesus!).
Quando oiço professores a queixarem-se da falta de leitura dos alunos, pergunto-me o que é que eles dirão aos colegas de português. E estes que dirão aos professores do ano anterior?
Para o ano, dizem, será ainda pior. Será? Então para que servem a escola, o ministério, os professores? Afirma-se por aí que há instruções claras, vindas “de cima” para não chumbar as criancinhas. Por outro lado, lê-se que os professores serão julgados à luz dos chumbos ou das passagens dos seus alunos. Temos que por esta razão três quartos dos professores de matemática ou de português já teriam ordem de marcha para o desemprego. Os professores defendem-se dizendo que ninguém lhes liga (e isso não deixa de ser verdade) que os programas são desadequados, que a ordem é deixar passar os meninos para estes não ficarem marcados psicologicamente para o resto da vida e mais um par de balivérnias do mesmo teor. Os paisinhos regougam (eu escrevi regougam e mantenho). Se um rapazola é posto na rua por mal educado, a família vem toda à escola puxar as orelhas ao professor. E se puxam! Quando não usam esse expedito método, há sempre uma palavrinha a quem de direito para meter o professor nos carris. Chama-se a isto o método dos bem educados. Outros, com mais dinheiro, mandam os filhos para o ensino particular. Há por aí uma escola, privadíssima e boa, que no último ano saca, por aluno e por trimestre cinco mil euros (uma milharda das antigas, nem mais! É claro que os seus resultados estão à altura do investimento, tanto mais que as turmas são pequenas visto não haver assim tanta gente disposta a pagar uma soma destas).
Isto dito, começa a ser possível futurar que o sistema de educação português vai ser também ele a duas velocidades: um ensino público a afundar-se crescentemente na mediocridade e algum privado e caro a manter níveis satisfatórios de qualidade. Ou então teremos de, uma vez por todas, aceitar uma conclusão que já se adivinhava há anos. Deitar fora o eduquês persistente que vence vontades, ministros e professores e simultaneamente estraga as criancinhas. Eu não sou mais do que um cidadão usado e de pouco préstimo. Não verei seguramente os resultados de uma nova orientação escolar. Não conheço os sistemas em vigor na maior parte dos países mas uma certeza tenho: estamos condenados a sofrer os resultados destes muitos anos de estupidez por muitos e muitos, digamos por uma inteira geração. Se porventura acreditarmos que Portugal não desaparece lá por 2030 ou 2040, então é melhor arranjar um sistema novo, radicalmente diferente, que pelo menos garanta que aos dez anos um menino sabe ler, escrever e contar. Ler percebendo, escrever sem faltas ortográficas e contar sem recorrer a uma maquineta para divisões e multiplicações. É provável que isto soe a “antigo regime” mas os resultados do novo, desde o disparate da ruptura Saraiva, nos anos sessenta, estão à vista: um naufrágio que, ao contrario do de Sepúlveda não terá quem o narre. Por não saber escrever duas linhas com sentido e sem erros palmares.
É por estas e por outras que nesse concurso imbecil da televisão o dr Salazar ficou em primeiro lugar. No seu tempo havia muito analfabeto mas os alfabetizados eram mesmo alfabetizados e não como agora analfabetizados.
E a senhora Ministra?, perguntarão. Pois, na medida em que também é responsável, estou em crer que poderá ir fazer companhia ao numeroso grupo de antecessores. Quadro de mobilidade com a senhora. Quem não sabe, não se estabelece! Ou mandem-na para uma escola que é para a senhora aprender ao vivo o que é isso... À falta de melhor nomeiem uma comissão administrativa para a educação com um único objectivo: salvar os primeiros anos do ensino. Já!

Ps: espero bem que ninguém se lembre de falar nos resultados de português: ao que tudo indica o exame foi uma alegre balda. Até os alunos o dizem.

Numa conversa sobre este tema, num jardim perfumado e habitado por um melro, a K. dizia-me que alguém sustentava esta ideia peregrina: Apesar do desastre não está em risco a existência de uma elite cultivada.
Pois não estará. Mas ao lado dela, ou melhor, debaixo, haverá uma imensa multidão de leitores inaptos, bons para puxar um arado, ou deitar duas pazadas de cal na areia. Ou seja um admirável mundo novo povoado de 95% de lumpen-proletários e 5% de señoritos. Felizmente já cá não estarei para o ver!

na gravura: Rouault, George Rouault, um fauviste enorme que admiro desde os meus desvairados vinte anos. E, eventualmente, o maior pintor católico do século XX. Na verdade eu ia pôr uma fotografia de Aldous Huxley, outro grande intelectual do mesmo século hoje quase desconhecido por não traduzido. Fica para a próxima.
E

vivo


deparei-me com ele ao voltar para casa.
imponente, rebelado.
cinza, a elevar-se no movimento
de um balé furioso,
a bater, bater nas rochas,
sacudindo as crinas brancas,
espanando água,
alto, a erguer-se,
quase à altura da rua.

o mar é um animal vivo.



silvia chueire

62,61% DE ABSTENÇÃO

As eleições para a Câmara Municipal de Lisboa registaram 62,6% de abstenção. Segundo alguns comentadores politólogos tão elevada abstenção deve-se à fraca qualidade dos candidatos, que não terão conseguido mobilizar as pessoas para o voto.

Será mesmo assim? O problema é mesmo dos candidatos? Será que se os partidos apresentassem outros candidatos a participação seria muito diferente?

Estou firmemente convencido que a participação seria sensivelmente a mesma. As pessoas não foram votar pela simples razão que estão cansadas da forma como se faz política neste país. As pessoas vão cada vez menos votar porque não acreditam nos políticos que têm, não acreditam na mensagem política que passam e na política que praticam tão contrária a tudo anunciam nas campanhas.

A par destas contradições temos o exercício de funções políticas em benefício de clientelas partidárias e mesmo familiares. Enfim, todo um conjunto de práticas tão contrárias ais princípios apregoados nos discursos. Ora, o povo já percebeu que o seu voto apenas serve para legitimar a partilha do bolo orçamental pelos mesmos. E mesmo que não tenha percebido completamente, já intuiu que é assim, logo recusa-se a votar.

Mas qual é a consequência da recusa em votar? Isto é, o que advém para o país se 60 ou 70% da população não votar? A resposta, como sabemos, é absolutamente nada. Não acontece absolutamente nada.

Os politólogos vão falar da fraca representatividade da vitória. Outros dirão que a democracia funcionou. Outros ainda acabarão por dizer que ganhou quem teve mais votos.

Como é que esta realidade poderia mudar? Como não acredito na regeneração dos partidos penso que a alternativa passará pela apresentação de listas de cidadãos, verdadeiramente independentes das forças partidárias, que se apresentem ao eleitorado com um programa simples e assente num compromisso de honra. Este processo não dará, certamente, o poder aos independentes, mas obrigará os partidos a reposicionarem-se, a respeitar os seus compromissos, enfim, será uma forma de voltar a dar seriedade e honradez à política.

14 julho 2007

Retemperador

Ontem o dia acabou com um magnífico jantar e um delicioso convívio proporcionados por "o meu olhar" e JSC, ao ar livre, num frondoso jardim, algures na cidade invicta. Kami, JAB, MCR, Mocho Atento, Carteiro, d'Oliveira e JCP confraternizaram e conversaram sobre este mundo e o outro (literalmente). Um abraço para todos e um reconhecimento especial aos anfitriões.

13 julho 2007

A educação que damos aos nossos heróis

Do Público on-line:

Selecção acabou com nove jogadores em campo
Mundial Sub-20: Portugal eliminado pelo Chile num jogo marcado pela indisciplina
13.07.2007 - 11h17 Lusa

Portugal foi eliminado ontem à noite do Mundial de Futebol Sub-20, no Canadá, ao ser derrotado pelo Chile por 0-1, em jogo dos oitavos-de-final marcado pela indisciplina dos jogadores portugueses, que acabaram com nove unidades.
O resultado final é lisonjeiro para a equipa portuguesa, que apenas conseguiu um remate à baliza chilena, aos 88 minutos de jogo, contra nove do Chile, alguns dos quais obrigaram o guarda-redes Rui Patrício a intervenções muito esforçadas.
No aspecto disciplinar, a selecção portuguesa deixou má imagem, nomeadamente depois de Mano ser expulso por agressão a um adversário e Zequinha por tentar tirar o cartão vermelho da mão do árbitro, sendo imediatamente expulso.

A justiça da dupla conforme

Lê- se no DN que «o Conselho de Ministros aprovou ontem um decreto-lei que altera o regime de recursos e de conflitos em processo civil. Estando em vigor, só serão recorríveis para o Supremo Tribunal de Justiça (STJ) as acções com valor superior a 30 mil euros. Aos tribunais da Relação só chegarão casos com valor superior a cinco mil euros. Quando a Relação decidir um caso no mesmo sentido da decisão do tribunal da primeira instância - a chamada a dupla conforme - o processo deixa imediatamente de ser recorrível para o STJ (...)»

Esta questão da dupla conforme preocupa-me: só no último ano, contactei com várias decisões que foram julgadas no mesmo sentido em 1ª instância e nas Relações e acabaram com decisão diferente no Supremo.

12 julho 2007

Au bonheur des Dames 76



Os político-empresariais, as politico-juvenis e nós

O dr. Mendes teria indelicadamente insistido com uma empresa pública a favor de uma privadíssima de que ele é ilustre membro da mesa de assembleia geral. O país ou a sua parte mais virtuosa levantou-se numa indignação apopléctica. Consta que uma virgem (??) do PPD rasgou o vestido de alto a baixo em sinal de repulsa. Quem assistiu (e do género masculino) mironou embevecido as carnes expostas esquecendo por um momento o ar de desgosto que se impunha.
Ora vamos lá a ver se nos entendemos. Declaração de interesses: eu nunca vi o dr Mendes senão na televisão nacional de que fujo a sete pés perante o silencioso protesto da família que acha insuportável a minha mania cosmopolita de só ver da TVE para lá.
O pouco que vi, e ele não dá para mais, não me convenceu. Por junto opôs-se a Santana mas isso que é muito para um ppd normal, para mim soa-me a pouco. Suponho não tenha grandes amigos no seu partido mas também isso me interessa pouco. Qualidades de estadista ainda não lhas vi mas se calhar é por eu também não as ver no dr. Meneses ou no dr. Jardim. De qualquer modo, o ppd não é da minha missa, sequer da minha rua e por isso até acho bem que ele presida aos destinos do seu partido: menos trabalho para a minha gente.
Agora a história da confusão entre o seu cargo de deputado e de empresário já me interessaria. É que, em boa verdade, eu gostaria que os deputados deputassem e basta. Claro que não é assim, nem nunca, entre nós, será assim. Os deputados recebem um estipêndio modesto, dependem da boa vontade do seu partido mais que da do eleitorado, o que significa que uma vez fora da assembleia, tem de ganhar a vida. O nosso sábio legislador entendeu que os negócios, as administrações, as assessorias (ah o que eu poderia contar sobre isso...) não estragam a qualidade do deputado. E tanto é assim que, ainda há dias, os jornais falavam de alguns deputados com fartos interesses fora do parlamento. Se bem lembro havia mesmo dois campeões: Vitalino Canas e António Vitorino para já não falar em alguns ex-ministros hoje reciclados nas grandes administrações de multinacionais, da Banca e doutras miudezas altamente pagas. E cito estes só porque eram os citados no jornal.
Portanto se o dr Mendes entendeu fazer lobbying, coisa que ele desmentiu apressadamente, não terá feito mais do que tantos outros. Com uma diferença notável. O dr Mendes está na oposição e pelo andar da carruagem vai continuar nesse aborrecido posto. A menos que as habituais multidões ululantes, muito comuns nos partidos “que não mamam” o defenestrem num futuro próximo. Quando se está na oposição, arranja-se com facilidade um bode expiatório, como é sabido. Mendes parece destinado a esse final pouco glorioso, mas muito comum que o digam Ferro, Constâncio ou Sampaio (que entretanto com um golpe de rins notável conseguiu apoderar-se de Lisboa e ser presidente incontestado).
Num sistema como o nosso, convém não enterrar a cabecinha numa metafórica duna e pegar o touro de frente. O sistema admite deputados cheios de cargos em empresas, em grandes escritórios de advocacia, em clínicas privadas. Só por ingenuidade estrénua é que se acreditará que eles não exerçam discretas influências quando os seus interesses estão em jogo. Não estão sozinhos, antes pelo contrario: a Europa regurgita de deputados que vêm das grandes empresas e a elas regressam sem nunca ter exactamente saído.
Pessoalmente, prefiro os deputados que já vêm aureolados por uma bela carreira empresarial àqueles que, quando saem, vão, sem se saber por que razão, para as grandes administrações. E os exemplos também não faltam. Piedosamente não os vou aqui recordar mas quem me lê deve saber a quem me refiro.
Antes que alguém me acuse de cinismo, quero dizer que preferia deputados bem pagos mas proibidos de fazer fosse o que fosse fora do parlamento. E também os preferia em círculos uninominais. Entre estar à mercê do aparelho ou do eleitorado prefiro esta última fórmula mesmo correndo-se o risco a ver multiplicarem-se os caciques. Olhando para vários países europeus não vejo especial perigo nessa fórmula. Finalmente nada tenho contra uma carreira puramente política (e por cá já as há). Enquanto isso não for normal teremos que o parlamento não atrai as elites, como aliás se vai vendo.

Vem isto a propósito de uma história mirabolante que me chegou há momentos via internet: uma jovem que ainda não fez vinte anos terá sido nomeada para a Administração de um Centro Hospitalar. A notícia completa-se com dois pormenores extraordinários: a precoce criatura recebe o ordenado desde Fevereiro mas até à data ainda não se apresentou ao serviço.
Vendo a notícia como a recebi com um senão: não dou o nome da criatura, nem a região do seu pingue emprego. Quem quiser saber mais sobre este novo milagre das rosas aqui vai o endereço: www.bragancanet.pt/voznordeste/complecta.php3?id= Vamos supor que isto é verdade. Estará nisso algum vício ou apenas se trata de potenciar o emprego jovem, meta aliás do actual governo. Objectar-me-ão que a criatura não tem currículo. Mas como é que havia de o ter se ainda não completou os 20 anos? Aliás a menina não vai presidir mas tão simplesmente ser “vogal” da administração em causa. Vai, numa palavra vocalizar. O presidente diz vamos aprovar a compra de uma cama articulada para o hospital X. A nossa vogal dirá “á”. O presidente diz: o senhor secretario de estado vem cá. E a vogal, já experiente, responderá “ó”. O presidente diz que o bloguista é um filho da mãe. A vogal acrescentará lacónica “é”... E por aí fora...
Todavia, eu não acredito nesta história. Parece-me um ataque insidioso às autoridades locais, regionais e nacionais, sem falar no sr. deputado por ***. Às tantas foi o sr. Mendes que resolveu vingar-se de quem lhe descobriu a careca.
O senhor Mendes ou alguém por ele deveria ter tento na língua e sobretudo não atacar as autoridades legítimas e regularmente constituídas num momento em que Portugal ( o nosso torrãozinho de açúcar...) desempenha a difícil tarefa de presidir aos destinos de trezentos milhões de pessoas. Alguém anda a fazer o jogo da reacção, é o que é. Calabouço com ele! Já!

na gravura: uma vogal de um centro hospitalar a preparar-se para entrar ao serviço.

Aposentação, doença e incapacidade

De repente, vêm à praça pública casos de alegada desumanidade nas juntas médicas de avaliação de incapacidade.

Sempre houve erros de apreciação. Para os corrigir, estão previstos na lei meios para resolver os conflitos resultantes de errónea avaliação médica do grau de incapacidade.

Convinha era explicar ao povo que não se aposentam os doentes, mas apenas os incapazes.

Incapacidade é o fundamento da aposentação.

A doença dá direito à baixa médica. Só se for incapacitante é que a doença pode conduzir à aposentação.

Julgava eu que o princípio era este!

Também não sabia que era o Governo que fazia exames médicos !...

A fraude de Bolonha

Propuseram aos alunos (dos cursos universitários de licenciatura de quatro anos) planos de transição, para que, com aumento de disciplinas (e dos consequentes créditos e propinas), pudessem concluir o grau de licenciatura em três anos.

Mas, concluído o curso, veêm-se impedidos de aceder ao mercado de trabalho, porque as empresas (quer de dimensão, quer de referência) recusam admitir alunos licenciados segundo o plano de Bolonha.

É uma fraude!

Bolonha está a servir para obrigar jovens a tirar Mestrados em áreas que exigem prévia experiência profissional. Não concluem esse grau porque não têm experiência profissional, nem emprego onde possam implementar projectos; e não conseguem ter experiência profissional, porque não têm Mestrado!

É o país que temos!

Claro que sempre há a esperança de que os portugueses desapareçam: não nascem e cada vez abortam mais!

Universidade e Estudantes Africanos

Há Universidades privadas que fazem campanha publicitária, junto de países africanos de lingua oficial portuguesa, prometendo descontos de 40% nas propinas.

Os jovens vêm às centenas, sem perceberem que, mesmo pagando 60%, não têm meios para cumprir. Acumulam as dívidas. E na hora dos exames são impedidos de realizar as provas até que paguem o que está em dívida.

Há instituições de solidariedade social que têm dado apoios individuais esporádicos, mas não conseguem resolver o problema.

Há casos de bons alunos que ficam impossibilitados de concluir os seus cursos. Não têm meios para resolver!

Julgo que seria honesto, nestas situações, que houvesse um programa que permitisse que os jovens viessm a pagar os seus estudos com os rendimentos futuros das suas actividades profissionais.

Mas, neste negócio do ensino urniversitário, os alunos são um mero pretexto para obter receitas... E é pena! Porque há jovens com talento e muito esforço que mereciam ser apoiados.

HIPOCRISIA OU INOCÊNCIA?

O tema que o JCP já abordou no post a Nódoa e o Pano continua a alimentar a discussão e até já está a dar lugar a grandes reflexões acerca dos políticos, da política e, pasme-se, das ideologias.
Martim Avillez Figueiredo, em editorial no Diário Económico de hoje, interroga-nos e responde assim:

"Uma empresa paga legalmente a um político que, nessa condição de político, tenta influenciar a decisão do presidente da maior empresa nacional de telecomunicações. E que diz o país? Quase nada."

Depois de alguma lenga-lenga jornalística conclui "que isso não faz de Marques Mendes um corrupto (...) o que faz é da política um perigoso caldeirão de interesses".

Como se percebe, Marques Mendes foi desculpabilizado e a responsabilidade recaiu sobre a política, que deve ser alguma coisa que anda por aí, mas em que ninguém toca, que não tem cor, que não tem cheiro. Aliás, estas devem ser as qualidades que tornam a politica tão interessante e apetecível por uns tantos.

Apesar de tudo, até estou de acordo com o que acima transcrevi do editorial de Martim Avillez. Aquilo que me incomoda é a hipocrisia daqueles que, como o director do DE, se mostram tão surpreendidos com a presença de políticos, nas Assembleias Gerais de empresas. O DE bem poderia fazer um levantamento (deve ter por lá os Relatórios e Contas) das pessoas que integram a Assembleia Geral das grandes sociedades anónimas nacionais, a fim de relacionar a presença nesse órgão com a actividade política. Então, é que terá razão para tanto espanto.

Ou será que já sabe tudo isto e apenas se trata de esboçar um fugaz incómodo sobre mais um caso, eminentemente político, que passará sem mancha?
Por fim, do editorial em apreço sobressaem ainda duas ideias. Uma, relativa à perda “de ideologia na política” que terá gerado o “caldeirão de interesses”. A outra, resulta como síntese e leva a uma nova definição de política:

“Política, por estes lados, é puxar muitos cordelinhos e comer as laranjas que alguém (não importa quem) coloca sobre a mesa”.

11 julho 2007

Estes dias que passam 69


A imaginação nunca ultrapassa a realidade

De quando em quando, escrevo aqui umas balivérnias que leitoras condescendentes interpretam como frutos da minha imaginação. E, de facto, sob um fundo pesado de realidade lá vou vaporizando as minhas peças de alguma imaginação.
Hoje, todavia, renuncio de todo em todo à cavalgada imaginadora das minhas “pequenas células cinzentas”, como diria o inestimável Hercule Poirot. E se falo no belga filho da imaginação da senhora Christie é porque o tema de hoje lembra um mistério desses difíceis com que a velha dama nos divertia. É, na verdade, um mistério a boa imprensa de que gozam, entre nós, alguns países, ou melhor os governos de alguns países espalhados por essas vastas geografias de medo e infâmia.
Comecemos pela Venezuela, hoje dirigida por um antigo putchista da direita mais militarona e reaccionária. De facto o senhor Chavez, o arauto de uma rocambolesca revolução bolivariana, começou a sua discutível carreira de estadista, tentando levar a cabo um desditoso golpe nos anos 90 contra o presidente legal Carlos Andrés Pérez. A jogada deu para o torto, ele terá feito quase dois anos de prisão suave e, para espanto dos que ainda se espantam, conseguiu ganhar as eleições presidenciais em 98. Depois tem sido reeleito. E com margens importantes, há que dizê-lo. O dinheiro do petróleo (cujos preços estão desde há muito em alta) redistribuído em parte pelos mais pobres, pelos militares (ai não!) tem disfarçado a ausência de política e de clareza no discurso populista de Chavez. A América do Sul tem visto outros aprendizes de ditador, tem assistido ao corte crescente das liberdades, ao cantonamento das oposições (cuja inteligência política é inversamente proporcional ao amor ao poder e aos seus mais evidentes frutos) e à lenta edificação de um estado policial. Cá pelo burgo parece que alguém terá achado que Chavez é o Messias da esquerda. A idade não perdoa, é o que é. Genericamente os europeus vão dialogando com Chavez tanto mais que o seu petróleo é menos incerto que o da península arábica. Depois quando acordarem será tarde.
Não abandonemos este desamparado continente sem referir uma vez mais a infâmia que se representa nas florestas colombianas onde um partido “revolucionário” detém umas centenas de reféns. Desta vez há notícia da morte de uma série de políticos colombianos, que alegadamente terão sido vítimas das tropas governamentais. Digamos para já que, a ser verdade a autoria da tropa governamental, sempre haverá uma certeza: os reféns serviram de escudos humanos. Todavia não é difícil imaginar que estas mortes se reduzem a meros assassínios de futuros opositores das FARC se e quando estas forem um partido político legal.
Um passeio agora por África, mais precisamente por um país que, custa dizê-lo registava ainda há uns dez, doze anos, alguns índices de prosperidade: o Zimbabwe. Convirá esclarecer algum leitor desatento que, desta banda, nunca se louvou o senhor Ian Smith um dos aliados racistas de um Portugal antigo que não para de renascer. O senhor Smith conseguira todavia criar um país com uma sólida economia agro-industrial, nas mãos dos brancos evidentemente. Os negros faziam de paisagem, de boys, de trabalhadores agrícolas como é costume. A estrutura económica que passou intacta para as mãos rapaces de Mugabe pospunha a manutenção das grandes fazendas, mesmo se nacionalizadas. A sua divisão arruinou os trabalhadores agrícolas das antigas fazendas, destruiu a exportação, substituindo-lhe uma economia de subsistência que nem isso chega a ser. O Zimbabwe tem fome. Fome como nunca teve num passado recente e infame. E tem uma ditadura que deve fazer empalidecer de inveja o velho Ian Smith hoje exilado no Cabo. Mugabe vai liquidando metodicamente os opositores políticos, negros desta vez, enquanto o pais soçobra no caos. A Europa torce-lhe o nariz mas os africanos recusam-se a condená-lo. E convenhamos que os ingleses também não o molestam demasiadamente. Ao que parece os mortos actuais já não comovem as consciências democráticas como há anos. A diferença deve ser esta: agora são os negros que matam os outros negros. Logo está tudo bem. Não há colonialismo.
Daqui até à Líbia vai um salto. Por cima do Darfur e do seu imenso desastre. Curiosamente, o meu primeiro sogro, Jorge Delgado ofereceu-me ainda nos anos 60 uma brochura sobre o Darfur, comprada na “Joie de Lire” do François Maspero. Um escândalo que dura vai para cinquenta anos já o não é. O que me admira é que ainda aí haja gente para morrer. Os pretos têm a pele dura, dizia-me um amigo também negro, angolano, assassinado pelos nitistas, em Angola. Teve sorte: provavelmente o MPLA também lhe trataria da saúde, mais tarde.
E a Líbia? Pois a Líbia é o que sempre foi: Kadafi um iluminado sentado em cima do petróleo (que tanta falta faz) continua a sua “revolução verde” (esta gentinha adora falar de revolução!) e faz-se rogar pelos ocidentais. Desta feita é um processo kafkiano que me traz este personagem à caneta. Meia dúzia de enfermeiras búlgaras e um médico palestiniano acusados de inocularem vírus mortais a umas centenas de crianças líbias, viram confirmadas pelo Supremo Tribunal as penas de morte. Agora, dizem os nossos jornais, resta apelar a Kadafi. O que vai ser feito, obviamente. Ou seja a campanha de branqueamento do cavalheiro entra numa fase superior, como se dizia nos velhos tempos de “análise concreta da situação concreta”. Vai uma apostinha em como ainda veremos Kadafi ser recebido como benfeitor da humanidade em Bruxelas?
Ou em Varsóvia, já agora e para terminar. Eu confesso que nada tenho contra os polacos, bem pelo contrario, adoro Chopin e fui principescamente recebido pelos meus amigos de Varsóvia quando, in illo tempore, fui visitar uns colegas do Direito Comparado. Detestei a atmosfera política, o medo, a pobreza, o desespero dos meus amigos, tanto quanto apreciei a gentileza deles, a cultura, a amizade demonstrada e a dignidade de um povo que não se submetia.
Que esse povo seja agora governado por uma parelha de gémeos abaixo de qualquer classificação é coisa que me consegue ainda espantar. É que a coligação que governa a Polónia e que ostenta aquelas duas criaturas à frente do Estado e do Governo não é sequer conservadora, mas retintamente reaccionária. Eu nem falo da homofobia, coisa que ainda conseguiria vagamente perceber dada a profunda religiosidade polaca que além do mais é um factor de unidade nacional e lhes permitiu sobreviver ao período soviético. Isto não significa que não condene as perseguições de rua e legais à minoria sexual, claro. Não consigo entender as leis sobre as provas de cidadania reiteradas à caça de antigos polícias, de colaboradores do antigo regime, de gente que se calou ou que não se manifestou (como se isso fosse possível!...). Actualmente o ambiente tem piorado: os gémeos não só se recusam a aplicar fartas doses de legislação comunitária como entendem chantagear a Europa, desenvolver uma campanha inaudita contra a Alemanha e tentar obter para o seu país (que entretanto assinou com uma mão distraída os tratados que agora alegremente pretende modificar a seu favor) condições de privilégio que nada fundamenta. Os manos Kakzinsky conseguiram o impossível: nomearam uma senhora mediadora para os direitos da infância cuja primeira missão foi despistar “a publicidade subliminal da homossexualidade nuns bonecos infantis – os teletubbies – porque um usava um saco vagamente feminino...
Uma Europa onde esta gente tem entrada não é só triste. É ridícula.
Espero que ao escrever isto num blog não esteja a infringir uma regra de ouro inventada por uma senhora Secretária de Estado que entende que o humor (aqui dolorosamente em falta, mas enfim...) sobre personalidades fica bem em casa, eventualmente numa rua escusa, na praia (se deserta) ou num campo de concentração. Esperemos que os blogs hoje tão na mira dos zelotas e dos filisteus entrem nessas categorias de inocência confirmada.

a gravura: será preciso explicar?

A nódoa e o pano

Marques Mendes foi ontem envolvido pelo Público numa suposta embrulhada a propósito da sua intervenção junto da administração da PT para esclarecer a alteração do contrato de prestação de serviços entre a telefónica e uma empresa que participa num grupo que tem o próprio Marques Mendes como presidente da Assembleia Geral. Esse grupo tem a sua sede em Viana do Castelo, círculo eleitoral por onde Mendes foi eleito deputado em anteriores legislaturas.

Nestas situações vem sempre à memória a história da nódoa que nem sempre cai no pano mais adequado…

10 julho 2007

o passo adiante


dar o passo adiante
todos os dias.
a náusea causada pelo excesso
a embaraçar-te os pés,
o precipício de cada minuto
a estrangular-te .

o que há de movimento organizado,
aleatório,
ou apenas ansiedade,
no mundo.
nesse excesso gigantesco que é o mundo.

o que há de sem sentido e louco
neste espaço de acasos,
neste espaço de ausências,
de vozes entrecruzadas e surdas,
os desencontros minando tudo.

o que há de vertigem
nas bordas de cada corpo gratuito,
cada minuto afundando-te
na angústia.
nestas horas de impuro silêncio,
sem mãos a te ampararem,
sem olhos a perceberem as mãos.

o que há de repentino terror
no assalto das sensações,
no florescer abrupto dos sentimentos
parados frente ao humano trêmulo
que és,
a desejar a morte.

a morte antes de tudo o mais,
porque a vida é uma impossibilidade constante,
dar o passo adiante um peso insuportável.


silvia chueire

09 julho 2007

Diário politico 57


O Zé, o António e os ajudantes

Há dias assim. Vem uma pessoa à capital do reino, visitar familiares e cumprir outras obrigações e, quando mal se percata, apanha com a campanha intercalar em cima. Amigos mais nortenhos dirão que é bem feito porque, para eles, Lisboa é uma espécie de Sodoma e Gomorra juntas com um toque marroquino. Eu desde já faço o meu registo de interesses (adoro esta invenção do J.M. Júdice!): gosto de Lisboa, sempre gostei, tenho cá muitos amigos, vários familiares, algumas livrarias, outros tantos restaurantes e bares onde me sinto em casa. Além do que os alfarrabistas são muito mais comedidos nos preços do que os do Porto. Diferenças abissais às vezes. E mais: a FNAC do Chiado tem o dobro dos livros de qualquer das fnac portuenses! Tomem lá que é para saberem...
Dito isto, vamos ao que interessa: o António e o Zé. Juntos e em cartaz, ali para os lados do Camões. Estava eu a beber o café da manhã, na explanada, e dou com dois cartazes com estes cavalheiros. Ao mesmo tempo lia no jornal, sempre o Público (o engenheiro Belmiro bem me podia pagar uma avença pela publicidade!...), e que vejo? Que o António e o Zé conseguiram uma espécie de milagre dos pães e dos peixes. Ao que parece transferiram a tempo uns assessores (4 o António e 10 –dez!!!- o Zé) dos seus respectivos anteriores lugares no ministério e na câmara municipal para os grupos parlamentares do PS e do Bloco. Ora dizem as más línguas, e o jornal repete, que estas assessorantes luminárias brilham pela ausência nos tais grupos parlamentares pela razão simples de andarem a ajudar nas campanhas eleitorais dos assessorados! Desconheço a veracidade da notícia mas, estando as coisas como estão, atrevo-me a crer que é verdadeira.
E sendo verdadeira que se poderá dizer? Pois que, prima facie é enternecedor o cuidado dos dois assessorados em assegurar o pão e a manteiga quotidianos aos seus assessores que corriam o risco de ir engrossar as filas do desemprego dado que para assessores não parece haver o nefando quadro de mobilidade especial. Gratos, veneradores e obrigados, os dois ex-responsáveis políticos quiseram, num gesto que só os enobrece, garantir a vidinha dos seus ajudantes. Que a tenham garantido à custa de quem paga os assessores dos grupos parlamentares é outra coisa! Conviria saber quem é que paga essa gente. Eu, sempre crédulo, avento que serão os partidos respectivos mas alguém aqui ao lado jura que as despesas correm por conta da Assembleia da República. Ora, a dita e virtuosa Assembleia é sustentada pelo Erário Público. Ou seja pelos impostos dos Zés, dos Manueis, das Marias e das Vanessas do Minho ao Algarve. Isto por todos nós, d’Oliveiras incluídos. O quê? Eu também pago? Ai que grandes****...
Só por isto o Zé e o António ficariam livres de me ter como votante deles. Não que precisem de mim: eu não valho 4 ou 10 assessores, longe disso. Também é verdade que fico muito mais barato, mas isso não incomodará o Zé ou o António no momento crucial de abrir as urnas. Têm de certeza um lugar de vereador à espera deles e quem tem uma vereação tem de certeza direito a assessores. E dessa feita quem os pagará será a falida Câmara Municipal de Lisboa. Ou seja os lisboetas, se é que não serão todos os portugueses... Mas o que importa uma dúzia de assessores quando o buraco do orçamento é do tamanho que se conhece?
Continuando: eu não tenho a certeza, esclareçam-me por favor: não foi o Zé quem andou a empatar o Túnel do Marquês? É que se foi ele, e não o famoso mano, temos que essa empatadela custou uns largos milhões de euros. Quem os paga, logo que o Tribunal entendeu que a obra podia avançar, contrariamente ao que era pressuposto nas tentativas judiciais de empatar uma obra, que até eu, que prefiro um litro de óleo de rícino diário ao dr Santana Lopes, já verifiquei ser de uma comodidade e de uma utilidade a todos os títulos espectaculares? Então uma criatura vem meter o tribunal ao barulho por dá cá aquela palha, causa um prejuízo do catorze, e não lhe sucede nada quando se vê que não tem razão? As providencias cautelares não deveriam acautelar a possibilidade de cascar em que delas usa e abusa?
Então isto é assim? Sem rei nem roque? E depois é a função pública que é má e cara? E os funcionários é que são desleais e não sei que mais?
A judiciarização da vida política tem-se traduzido no uso e abuso de recurso aos tribunais com fins indevidamente políticos.
E já que estamos com a mão na massa detenhamo-nos nessa miudeza que é o arquivamento do processo de Fontão de Carvalho. Registemos os devidos interesses: não conheço o homem, nunca o vi, nunca votei ppd, duvido absolutamente que isso alguma vez aconteça estando eu em meu perfeito juízo e respeito as decisões dos tribunais desde que elas sejam meridianamente claras e justas.
Acontece que o tal senhor Carvalho era vice-presidente e homem forte da CML. Foi indiciado, teve de se demitir e isso desencadeou o actual processo. Convém dizer que ninguém durante muito tempo quis eleições intercalares.
Ora bem, o senhor Fontão viu o seu processo arquivado. Consta que o ministério Público iria recorrer. Alguém assevera que isso se deve a instâncias, e sob indicação, da dr.ª Maria José Morgado. Permito-me não acreditar nisso ou, melhor, reservar a minha opinião até me provarem preto no branco a intervenção da dr.ª Morgado. Não posso acreditar que uma magistrada tão exposta mediaticamente, casada com um dos principais apoiantes do dr. António Costa, tenha de perto ou de longe intervenção ou sequer influência na posterior actuação do MP. Seria terrível e temível para o já abalado sistema judicial que acontecesse algo neste sentido. É que o público poderia não entender esta insistência contra o sr. Fontão e confundi-la com baixa manobra política. Aliás, o M.P. deve ele próprio ter sentido de oportunidade (e isso é política também) neste género de casos. A menos que a decisão actual seja clamorosamente perversa, uma canalhada e uma afronta à justiça. Já aqui defendi, convicta e fortemente, o MP e o sistema judicial. Sei que nem tudo estará bem mas, genericamente, como cidadão, entendo que o sistema é são e tem funcionado na defesa da legalidade, dos cidadãos e do bom nome da justiça. Se calhar sou um optimista mas é isso que sinto. Sinceramente. Esperemos que esta minha posição não tenha de ser revista.
É que, voltando ao tema, a posição do sr. Fontão, membro de uma lista concorrente à CML, se era frágil, tornou-se subitamente forte e um recurso fraco, para empatar, não só não ajuda a justiça como talvez não ajude candidaturas adversárias. Ou seja, a sensação de perseguição à lista Carmona poderá dar maus resultados aos que imprudentemente manejem meios outros que os políticos.
E daria um péssimo aspecto à justiça...
De Lisboa, o vosso enviado especial
d’Oliveira
7.7.7

ps (post-scriptum, à cautela): o meu último "diário" teve um acolhimento que supera em muito a sua qualidade. De todo o modo agradeço a simpatia e, respondendo a quem me pede licença para o reproduzir, sempre direi que tenho nisso grande prazer e que tudo o que vou aqui escrevendo pode sempre ser citado, reproduzido, comentado sem terem de me pedir autorização. Acho que esse é o espírito genérico dos blogs, seguramente do "incursões" (espero traduzir bem o sentimento dos meus amigos e colegas desta barca...) e é de certeza o meu: eu escrevo movido pelo prazer, pela indignação, pelo gozo que isto me dá e porque dei o litro para que a exposição das nossas ideias fosse livre como o vento que passa. Digo o que penso e penso o que digo.

Na gravura: um cartaz eleitoral "detourné" pilhado por aí e referido a umas recentes eleições francesas.

Ah, a frescura na face de não cumprir um dever!


Ah, a frescura na face de não cumprir um dever!
Faltar é positivamente estar no campo!
Que refúgio o não se poder ter confiança em nós!
Respiro melhor agora que passaram as horas dos encontros,
Faltei a todos, com uma deliberação do desleixo,
Fiquei esperando a vontade de ir para lá, que eu saberia que não vinha.
Sou livre, contra a sociedade organizada e vestida.
Estou nu, e mergulho na água da minha imaginação.
É tarde para eu estar em qualquer dos dois pontos onde estaria à mesma hora,
Deliberadamente à mesma hora...
Está bem, ficarei aqui sonhando versos e sorrindo em itálico.
É tão engraçada esta parte assistente da vida!
Até não consigo acender o cigarro seguinte...
Se é um gesto,
Fique com os outros, que me esperam, no desencontro que é a vida.

Fernando Pessoa


08 julho 2007

CAMPUS DA JUSTIÇA DO PORTO

O último Conselho de Ministros, entre outras medidas para a área da Justiça, aprovou a construção de um Campus da Justiça no Porto.

O membro do executivo que apresentou a decisão do Governo desenvolveu um amplo conjunto de vantagens que advirão do projecto de concentração da justiça no Porto, a saber:

É um investimento de 100 milhões de euros que abrange um espaço com cerca de 44 mil metros quadrados; Vão ser construídos 6 novos edifícios; O Estado passará a poupar 2,5 milhões de euros anualmente pelas rendas que deixará de pagar; A construção dos edifícios será paga por investidores privados que concorrerem à Oferta Pública de Arrendamento, concurso a lançar até ao fim do ano; Ao adjudicatário o Estado pagará depois as rendas pela ocupação dos edifícios;

Claro que o membro do executivo também disse que com a centralização da justiça se esperava uma maior celeridade processual e poupança de recursos, esta em consequência da venda dos edifícios libertados.

Não sei o que os agentes da justiça pensam da criação de um Campus Judiciário ou parafraseando o Arq.º Manuel Fernandes de Sá da criação de um condomínio fechado para a justiça. Contudo, numa perspectiva da Cidade parece que este projecto do governo não favorece a Cidade do Porto, que ficará com dezenas de edifícios devolutos – uns actualmente arrendados e outros propriedade do Estado – a juntar aos milhares que já se encontram no mesmo estado e em degradação.

Depois, como é que podemos saber se este é um bom investimento, isto é, em que medida contribui para elevar e eficácia e eficiência da Justiça. Será que o governo possui os estudos que lhe permitiram concluir que em vez de renovar, por exemplo, o edifício do Tribunal de S. João Novo é melhor construir um edifício de raiz, num outro local? E se esses estudos foram feitos será que tiveram em conta o impacto que tal medida provoca no funcionamento da cidade? A mesma questão poderíamos colocar relativamente a todos os outros edifícios que vão ser abandonados.

Já nem levanto a questão da betonização de mais 44 mil m2, que corresponde ao desaparecimento da Quinta de Santo António (onde estão os ambientalistas?). Tão-pouco me vou pronunciar sobre o modelo de financiamento que o Governo parece ter copiado de algumas autarquias, modelo profundamente criticado pelas entidades inspectoras, incluindo nestas o Tribunal de Contas.

Aquilo que o membro de executivo também deveria ter anunciado era qual o montante da renda que o Estado vai pagar ao adjudicatário e construtor do Campus. Também deveria explicar o que é que essa renda pagará para se saber de quem será a propriedade dos imóveis que vão ser construídos. De igual modo, convinha saber qual o destino dos imóveis que o Governo se propõe vender. Por exemplo, o edifício do Tribunal de S. João Novo vai ser demolido para dar lugar a um novo prédio? Vai ser transformado em museu? Ou passará a ser uma estalagem judiciária? E quanto aos outros prédios?

Não me prenunciei (porque não sei avaliar) sobre o impacto deste projecto na melhoria da qualidade da Justiça mas não me custa aceitar a ideia exposta pelo Arq.º Manuel Fernandes de Sá, publicada no JN de 21 de Abril, sobre este mesmo assunto, “fica-se com a ideia de que quando os problemas aparecem e não há ciência nem arte para os resolver, a solução portuguesa é isolá-los, derramar mais dinheiro sobre eles e optar pela construção civil”.

Afinal de contas é sempre um problema de opções e em matéria de opções a via do imobiliário é o core business dos governos dos últimos 20 anos e será dos próximos 20 com os projectos OTA, TGV, Campus, etc.

07 julho 2007

Obsessão

O país judicial e comunicacional anda obcecado com Pinto da Costa e o seu fait-divers com uma sua ex-companheira. A dita cuja senhora partilhou com o presidente do FC Porto a vida e as suas coisas boas e más, mas supostamente só despertou para algumas dessas realidades quando Pinto da Costa resolveu “arejar” e encontrar novos rumos. A senhora escreveu um livro, por interpostas mãos, e isso foi suficiente para reabrir processos judiciais e reiniciar investigações. Conclui-se que a sua palavra estará acima de qualquer suspeita.

O mais curioso é que o lodo no mundo do futebol parece que só existe no Porto e no Norte. Já todos se esqueceram de quando Santana Lopes, então presidente do Sporting, imortalizou Canal Caveira, em virtude das cimeiras que aí decorriam com os senhores árbitros. Enfim…

Para culminar o processo obsessivo, parece que vem aí um filme sobre um presidente de um clube de futebol e uma “alternadeira” com quem partilhou a casa e a vida. Guião do insuspeito casal João Botelho e Leonor Pinhão, colunista, jornalista e assalariada do SL Benfica, consoante a disponibilidade material e emocional. Parece que o filme custará 1,5 milhões de euros. Como diriam os Gato Fedorento, é uma espécie de obra de ficção. Este país é que está totalmente ficcionado!

06 julho 2007

Diário Político 56

“se a rosa tivesse outro nome, teria um diferente perfume?*

Ainda não tinha secado a pobremente metafórica tinta do meu anterior diário e já uma criatura parlamentar me dava sobejos motivos para continuar. Basta compulsar o “Público” de quinta-feira, dia 5, para termos notícia da jubilosa existência de um senhor deputado Ricardo Gonçalves. Supõe-se que a referida sumidade seja de Braga, terra barroca por excelência, e com uma profícua tradição de “varrer feiras a varapau” se é que Júlio Dinis, por acaso um médico, retratou com fidelidade o morgado Joãozinho das Perdizes.
Mas que fez este ornamento da vida pública nacional para merecer referência de tão apagado croniqueur?
Pois apelidou de bufo a pessoa que terá informado os deputados do Bloco e do PC sobre a interessante peripécia vivida em Vieira do Minho.
Vejamos: não chamou bufo a quem informou as autoridades competentes sobre a existência infamíssima de um cartaz onde, depois de reproduzidas as palavras imorredoiras do dr. Correia de Campos, se teceriam perigosas graçolas de cunho acentuadamente moscovita e conspirativo. Esse acto terá, sempre na óptica sagaz e filantrópica do senhor deputado, sido patriótico, altamente social e defensor do progresso das instituições e do são respeito que se deve aos pais da pátria.
Bufo seria o funcionário que informou encapotadamente os deputados anti-nacionais do PC e do Bloco. Os funcionários, na óptica do senhor deputado Gonçalves, devem restringir-se a funcionar obedientemente e não morder a mão que lhes paga desmesuradas mordomias quais sejam o ordenado, o subsídio de almoço, o subsídio de férias, o desgaste do relógio de ponto e outras mil facilidades que o exercício da vida profissional lhes concede em dose imoderada e imerecidamente.
Eu não conhecia esta eminência de S Bento até ao momento, gozoso entre todos, Deus seja louvado!, em que assistindo a um noticiário, o vi esbracejar, segredar, tocar no ombro majestoso do Dr Alberto Martins, soerguer-se do assento, virar-se para trás, voltar à primeira forma, enfim, um inteiro filme épico, durante o confronto na Assembleia.
Tudo o que lera sobre a sua participação na comissão de saúde adquiriu outra cor depois de o ver ao vivo. Se, na comissão, Sª Exª gritara, exigira “respeito pela política e pela casa” (sic) e indispusera os restantes colegas de partido que, vergonha vergonhosa, se submetiam como cordeiros às imprecações odiosas e odientas dos restantes partidos, aqui no plenário, injustamente amordaçado (eu disse amordaçado e não açaimado), percebi a grandeza da personagem.
Presumindo que já tenha ultrapassado os quarenta anos e que, inclusive, já não esteja longe dos cinquenta, dei por mim a pensar que S.ª Ex.ª terá vivido alguns anos no chamado antigo regime. Não os suficientes para exercer o seu talento e coragem cívicos na luta contra o Estado Novo mas também não tão poucos que desconheça o significado da palavra bufo.
Claro que nesses tempos ignominiosos, “bufo” era o informador das autoridades, o que, sabendo de um segredo, ia logo contá-lo a quem de direito (ou de torto) para com isso conseguir uma benesse e, concomitantemente, o castigo dos conspiradores. Se se aplicasse esse conceito ao caso sub-judice, teríamos que o bufo seria a criatura que foi fazer a denúncia do cartaz anti-patriótico e da directora desleal.
Mas os tempos mudaram, claro, e o conceito sofreu uma curiosa evolução semântica, como brilhantemente o demonstrou o senhor deputado Gonçalves. Agora o bufo é o que apanha a merecida bordoada e sai da mesa do orçamento. Será a directora demitida e desleal ou o médico facecioso e faccioso ou algum amigo de ambos. Ou todos juntos!
Acho mesmo que o senhor deputado deveria ser nomeado para a Comissão de Acompanhamento do Tratado Ortográfico Luso-Brasileiro, se existe. E se não existe que se crie para o país poder aproveitar os frutos da prodigiosa mente de S.ª Ex.ª.
À margem desta crónica fica entretanto um outro apontamento.
Entre as criticas (justíssimas, claro!) à Directora desleal duas chamam particularmente a atenção. A primeira é que ela não era licenciada em Medicina. A segunda é que ela, antes de ser provida no lugar, pelo anterior poder, era funcionária da secretaria do referido centro.
Ora vejamos: a lei anterior não punha como condição de nomeação para o cargo de director de um centro médico, a licenciatura em medicina mas uma qualquer licenciatura. Mesmo da Universidade Independente, inglês técnico, incluído. Portanto a criatura fora bem nomeada. O facto de ser funcionária da secretaria e dedicada esposa do vice-presidente da Câmara local, eleito pelo PPD não me parece mais grave do que a pertença do actual director do mesmo centro ao PS mesmo como independente e vereador substituto na Câmara de Ponte da Barca. De certeza que isso não favoreceu o referido senhor que, é uma suposição, terá de fazer todos os dias a penosa viagem Ponte da Barca-Vieira do Minho, a horas impossíveis para poder estar à hora da abertura no seu posto. De onde só sairá depois do último funcionário para poder verificar se algum cartaz malicioso vnão se expõe infame aos olhos da população sofredora. Além do que ainda terá de, a horas mortas, continuar a prestar o seu precioso contributo como edil na municipalidade barquense. Uma violência! Um sacrifício!
Já o facto da referida directora ter sido preterida (num concurso em que obteve o primeiro lugar) para chefe de repartição pela segunda candidata (não licenciada e sem ter três anos na carreira, segundo o jornal) que actualmente o desempenha em regime de substituição (Público, sexta, dia 6) deve-se a uma distracção das autoridades do Ministério da Saúde que os tribunais sanarão quando for possível. Se for... E se for a tempo... O facto da segunda concorrente poder pertencer a um partido político, mormente ao PS, deverá ser considerado como manobra traiçoeira do jornal que, desde a célebre OPA do senhor Belmiro de Azevedo, não poupa o nosso esforçado governo à critica rasteira e impudente.
Finalmente: o senhor deputado Alberto Martins respondeu às criticas destemperadas de uma oposição desnorteada e espuriamente aliada, com serenidade e elegância exemplares. Disse S.ª Ex.ª, e cito, “pela história, autoridade e razão de ser, o PS não recebe lições de democracia de ninguém.” E acrescentou: “não há ninguém, pela história em Portugal, capaz de defender melhor a democracia que o PS”.
À maneira do meu colega J M Júdice, aqui vai o meu registo de interesses: Tive o privilégio de conhecer o Dr Alberto Martins, nos anos 60. Fizemos juntos a crise de 69 e o primeiro MES. Julgo que somos amigos, já que não somos camaradas de partido, visto eu não pertencer ao PS. Temos votado da mesmíssima maneira desde há um bom par de anos. E digo isto porque eu comecei a votar no PS em fins de 70 enquanto o Dr Alberto Martins só o terá começado a fazer depois das primeiras eleições presidenciais em que Mário Soares, o meu candidato, derrotou a Drª Lurdes Pintassilgo que ele, Martins, garbosa e cavalheirescamente, defendeu.
Fico todavia perplexo com as palavras que ouvi, na TV e que o jornal reproduz: que história, que autoridade, que razão de ser refere ele? Melhor, que PS diz representar. Aquele em que ele e alguns poucos companheiros (16%) votaram numas eleições internas contra a facção dominante hoje no poder? Ou esta? Ou ambas? Ou este partido agora precariamente solidificado, porque vencedor, mas que dará o golpe de rins à primeira derrota (como tem sido sua tradição... e sua história)?
Os cidadãos comuns, que não frequentam S Bento, nem se habituam às metáforas vaporosas que se produzem no plenário, olham para o PS do senhor primeiro ministro Sócrates e não lhe vêm, decerto por miopia política, os traços do PS de Ferro, ou do de Constâncio, do de Sampaio para já não falar no de Soares. Quererá o dr Alberto Martins dizer no seu “não dito” que o PS é uma espécie de albergue espanhol onde o preço da hospedagem varia com as estações e com a cara dos viandantes que o demandam? Ou, mais subtilmente, quererá Martins, com estas palavras avulsas de sentido e de oportunidade, dizer do seu absoluto incómodo e da sua natural perplexidade perante os casos, que dia pós dia, se vão revelando e que, traduzem algo muito ao arrepio da tal “razão de ser, história e autoridade (?) do PS”?
Mais: está Martins de acordo com Gonçalves ou disse o que disse para não permitir a Gonçalves dar o espectáculo da política como diria algum velho conhecido “situacionista” (da Internacional Situacionista de saudosa memória e não desta situação que cada vez mais adquire o toque e os tiques esponjosos do “pântano” de que falava Guterres)?
do vosso enviado especial

d' Oliveira
Lisboa, 5/6 de Julho

* citação livre de Shakespeare: “Romeu e Julieta”,
por impossibilidade de consulta do original

05 julho 2007

Diário Político 55


“eles”

Por vezes olho para mim, ao espelho, no momento de fazer a barba (essa prerrogativa masculina tão em desuso hoje em dia em que fica bem uma barba de dois dias para nos dar aquele ar negligé que nem os nossos hábitos nem o nosso modo de estar na vida justificam minimamente) e pergunto-me em que país vivo. Pergunta ociosa, dirá alguém. Mas pergunta, de qualquer modo, digo eu. É que por muito que me expliquem esses politólogos que têm mesa posta nos jornais do costume para dizerem as coisas do costume pela retribuiçãozinha do costume, ainda não percebi porque é que temos este sistema de eleição de deputados.
Vejamos isto por partes: os partidos que existem por aí, de quatro em quatro anos organizam as suas listas de deputados, e apresentam-se virtuosamente ao eleitorado. O eleitorado vota distritalmente num número exagerado de cavalheiros de que só conhece a fidelidade partidárias e a meia dúzia de nomes que encabeça a lista.
Antes que alguém me reponte que nos distritos pequenos (V. Real, Bragança, Guarda, Beja, Castelo Branco, Évora ou V do Castelo) as listas são de tal modo exíguas que toda a gente conhece as personalidades(??!!) que as compõem, direi que isso sendo verdade, é perfeitamente insignificante. Dúzia e meia de deputados não riscam quando de facto as eleições se ganham ou perdem em Lisboa, Porto, Braga, Setúbal, Coimbra e Aveiro.
E é daqui que quero falar. Destes distritos onde se decide de facto quem vai governar. Alguém me explica o mistério dos deputados fantasma que, uma vez passada a eleição, se perdem na natureza, nos ministérios, nas administrações de organismos participados e num sem número de coisas que de comum com as anteriores só têm uma característica: acolher os fugitivos do parlamento.
Aliás, qual será o interesse de pespegar as pouco fotogénicas fotografias daqueles excelentíssimos candidatos por tudo o que é outdoor quando se sabe que, em termos de frequência parlamentar os cavalheiros vão rapidamente passar à clandestinidade.
Dir-se-ia que S Bento está infestada de piolhos, que anda por lá o fantasma de Canterville ou aqueloutro mais ameaçador de que o velho Marx falava. Em S. Bento aquela malta não põe os pés. Nem mortos. Não que eu queira ver os pais da pátria mortos, que ideia!, mas gostava de saber que mal lhes fez o Parlamento para que foram eleitos e onde não aparecem senão no dia em que se verificam os mandatos dos deputados. Depois, desandam e vão tratar da vida.
Convenhamos que o estimável público os vê partir com a maior das indiferenças. Para eles isto começa a ser normal.
Mas voltemos às nossas devoções: alguém de juízo acha que é a mesma coisa votar dois quarteirões de deputados em Lisboa ou apenas um por um circulo mais restrito. Veja-se mais de perto: O maior partido em época normal não acredita que em Lisboa (outra vez) consiga eleger mais de 20/25. Portanto tenta arranjar uma dezena de nomes fortes, outros tantos um pouco mais fracos e o resto é como um bodo aos pobres: entra a pequenada que vai à sede, às reuniões e que “dá o litro” pelo partido. Com uma pequena falha. Os nomes fortes só ali estão para dar cor. Uns, se o partido ganhar, irão para o governo. Outros terão de fazer o sacrifício de ir engrossar a administração de uma empresa onde se paga decentemente a presença destas conspícuas criaturas. Dois ou três cairão na asneira de ir para a assembleia, presidi-la, secretariá-la, presidir a uma comissão ou dirigir o grupo parlamentar. Alguém, solícito, conseguir-lhes-á uma “assessoria” pingue e pouco trabalhosa para arredondar a miséria do pré parlamentar. E garantir-lhes-á um bom emprego pouco trabalhoso mas bem pago, para depois.
Entretanto o parlamento fica com a composição normal: seis figuras mais ou menos cimeiras e dois centos de criaturas que têm por missão levantar o rabo e votar na hora necessária. Para isso, de facto, não há necessidade de tenores. Basta um coro de província. Afinado quanto baste.
Quer isto dizer que os círculos uninominais resolveriam esta crise de valores de que padece o parlamento? Não sei! Sei apenas que o actual sistema promove a mediocridade, o poder absoluto dos aparelhos partidários e a crescente apatia do público. Ao votar numa molhada de criaturas de que só conhece o cabeça de cartaz, ao saber que, se este for eleito, não desempenhará o cargo, o eleitor sente-se impotente e armadilhado. E enganado. Mesmo que não saiba dizê-lo com clareza, pensará confusamente que a hora que perdeu em ir até uma assembleia de voto, foi mesmo perdida. Pior começará a olhar para o repolhudo grupo de personalidades que gastam fundilhos no plenário e meias solas nos Passos Perdidos, como uma gente diferente dele, incapaz de fazer algo de útil mas ganhando por isso mesmo mais, bastante mais do que a média dos cidadãos.
Quando lê os jornais e vê que na maior parte dos países vizinhos as pessoas conhecem o seu deputado, chateiam-no com pedidos, ameaçam-no de abandono para a próxima eleição, o cidadão português enfurece-se. Quem é o seu deputado? Onde está se for necessário chamar a atenção para um problema, uma questão qualquer ou tão só para perceber o alcance de uma lei que o mesmo votou?
Insensivelmente, começa a olhar para os seus representantes como se olha para um astronauta americano, um artista de circo, enfim alguém diferente. E é aí que semanticamente estabelece a diferença entre nós, os que votam, os que mourejam, os que vêem diariamente cair-lhes em cima leis e impostos, decretos e taxas, resoluções de toda a ordem que o atingem, o empobrecem, o fazem duvidar dos benefícios da democracia e do sistema. E começa a falar d’ “Eles”. Os Outros. Os que mandam. Os que te pedem o voto e depois não dão mais sinal de vida até daqui a quatro anos.
Com algo ainda de pior: o cidadão elegeu “alhos” e S Bento está cheio de “bugalhos”. Quem é esta gente? Eu não os conheço de parte alguma... nunca os vi. Ou, se os vi, não lhes conheço mérito suficiente para sequer encher a sala nobre duma Câmara de Província em dia de reunião da Assembleia Municipal.
E a resposta começa a ser evidente: não vale a pena. “Eles” ganham sempre. A merda muda mas as moscas são sempre as mesmas. Ou vice-versa.
Tudo isto me vem à ideia agora que os jornais noticiam as conversações entre PPD e PS. Para começar já há pouco que discutir, uma vez que o segundo já deitou fora algumas das suas propostas. Estamos já na fase de saldos. A montanha arrisca-se a parir um rato. Um rato e não só: uma desilusão a juntar às que se vão sentindo dia a dia. “Eles” vão cozinhar qualquer coisa e o mexilhão (isto é, nós) vê o mar bater na rocha. Com as consequências que o resto, pouco elegante, desta expressão, indica.

pel'o mexilhão

d'Oliveira

razões de configuração do computador levam-me a pedir boleia para este texto ao colega de blog m.c.r.

04 julho 2007

SUBCOMISSÃO PARA A DESCENTRALIZAÇÃO

Por razões profissionais tive de consultar o site da Assembleia da República. Reparei que nas designadas “Comissões Permanentes” existe uma Subcomissão Para a Descentralização.

Por curiosidade fui ver os trabalhos desenvolvidos por esta subcomissão, formada por 6 deputados. Deparei com o seguinte: O Plano de Actividades disponível no site reporta-se à Sessão Legislativa de 2005/2006. Não consta qualquer outra informação.

Conclusão: H1 – o site está desactualizado; H2 – a dita subcomissão está inactiva.

A hipótese 1 parece não fazer sentido quando se fala tanto na transferência de competências para os Municípios – na área da saúde, educação, acção social, ordenamento do território – a subcomissão especializada da A.R., para estas matérias, nem Plano de Actividades elaborou para 2006/2007 ou se elaborou não o divulga.

A hipótese 2 só pode ser não verdadeira porque se trata de uma Comissão Especializada Permanente.

Mas, que trabalhos é que esta Comissão tem desenvolvido? Pelo site não sabemos. Não deveria ser esta Comissão a liderar o processo legislativo no que respeita à descentralização de competências? Não deveria tomar a iniciativa de criar o “grupo de sábios” de que fala o Carteiro ou de uma equipa com forte ligação à Universidade que estudasse e redesenhasse o país em termos administrativos, formulando uma proposta que articulasse convenientemente os diferentes níveis de governo com o exercício das competências?

03 julho 2007

Pela Europa

Tenho andado algo arredado deste fórum por razões profissionais mas também pelo facto de ter feito umas mini-férias que me levaram na semana passada até Bruxelas. Numa ocasião de grandes decisões para a Europa, fui visitar o Parlamento Europeu. Aí tive oportunidade de assistir à sessão plenária extraordinária, onde a presidente em exercício do Conselho da União Europeia, Angela Merkel, deu conta do balanço dos seis meses da presidência alemã e, juntamente com Durão Barroso, presidente da Comissão Europeia, apresentou aos eurodeputados os resultados do recente Conselho Europeu.

Passando a coisas mais prosaicas, e que mexem (muito) no nosso bolso, pude testemunhar a assinatura da nova legislação para as tarifas de roaming, que procura por termo aos escandalosos tarifários praticados pelas operadoras de telecomunicações.

Enfim, foi uma boa ocasião para ir apreender o ar do tempo que se respira pelo velho continente nas vésperas de Portugal assumir a condução dos destinos da União Europeia, confiando que os nossos governantes saberão estar à altura dos desafios que se lhes colocam.

A culminar a deslocação à Bélgica, tive oportunidade de visitar Bruges, uma magnífica cidade património da humanidade. Entre francófonos e flamengos, vê-se duas realidades substancialmente diferentes unidas sob a mesma bandeira e num só país. Voltarei ao tema.

Au Bonheur des Dames 75


Os meninos, o mar e o tempo

Os dias nublados têm vantagens incomparáveis. Mesmo se for domingo, como hoje. Não é preciso procurar lugar para estacionar o que já é um bom começo. No “Ferreira” (não, não se trata do nosso leitor e amigo, este Ferreira é o dono epónimo da esplanada onde leio o jornal logo que o calendário marca o fim do inverno) posso escolher a mesa tão raros são os fregueses hoje. E não está frio, notem. O sol é que brilha pela ausência. Há mesmo quem diga que o nevoeiro prega pequenas partidas, chegando a molhar brevemente os mais corajosos.
A praia está deserta, ou quase: um casal vestido e dois meninos pequenos que diante de nós começaram por molhar os pés, depois despiram-se e brincam dentro da água num recanto protegido por rochedos: dois enormes de cada lado e um punhado de pequenas rochas mais à frente. Ondas de dois ou três metros quebram fora desta espaço e enchem com a sua espuma a crista das rochas. Ondas que correm de longe, amarelas e ameaçadoras. Os garotos gritam falsamente alarmados e depois mergulham no palmo de água brincalhão em que a onda temível se transformou. E levantam-se em gargalhadas. Os pais sorriem. Da esplanada, sorrimos todos. Uma senhora francesa, com o cão ao colo, uma habituée do Ferreira, murmura para o cão que é uma vergonha para ele, ali no quentinho em vez de fazer a sua “petite baignade”... O cão não parece comover-se. Nem sequer rosna. Para ele o Verão ainda não começou.
O jornal, abandonado num canto da mesa, deixo-me embalar pelo espectáculo e lembro-me de uma outra época, noutra cidade, mais habitável. Éramos um grupo numeroso de meninas e meninos que iam crescendo juntos, Verão após Verão. Também nós desafiávamos os dias cinzentos, as marés vivas, a água fria. Em dias mais tempestuosos, o senhor Fonseca, padrinho da Rosa, tomava o comando das operações. Juntava a ranchada de miúdos e, ala que se faz tarde, para os rochedos de Buarcos. Um quilómetro bem comprido, feito de pequenas corridas, voltas e reviravoltas, esperando pelo senhor Fonseca que nos admoestava brandamente. Se alguém se atrever a molhar os pés antes de chegarmos para a próxima não vem. Essa terrível e risonha ameaça chegava e sobrava. Um bando de miúdos, chilreantes como pardais, avançando pela praia sob a batuta de um senhor de cabelo branco, sorridente que traz parte do peitilho do fato de banho para baixo. Ou seja, avança em transgressão. Felizmente que o cabo do mar, o senhor Ramalho, o conhece e finge que não vê o meio peito masculino, exibicionista e ilegal. Até os rapazinhos que somos, levam fatos de banho com peitilho. A lei é dura mas é a lei. O país dos brandos costumes correria um risco enorme se fossemos de tronco nu!
Anos depois, graças à pressão turística dos inícios de sessenta, já o passeio era em tronco nu. O dos homens, claro. O top less ficou para as filhas, melhor para as netas. O que não mudou foi o espanto da água, a carícia das ondas, os passeios à beira mar, os avisos dos pais, a falta de frio que a miudagem padece.
Olho em volta. A senhora do cão já se foi. Se calhar o bicho queixou-se do frio. Duas corajosas ocupam a mesma mesa. Olham para os petizes que, incansáveis, fintam as imaginárias ondas e mergulham. Não têm frio diz uma. Naquela idade o frio só começa quando se fica roxo. Rio-me. Elas ouvem, viram-se, e riem-se comigo. O Verão começou, digo. Muito devagarinho, responde uma delas. Para eles não, diz a outra. Concordamos em silêncio. Meia hora depois, acabado o jornal, levanto-me e cumprimento-as. Nunca nos vimos mas o Verão, mesmo com nevoeiro, tem destas coisas. Au

na gravura: Buarcos visto do viso ou talvez de "Palheiros" também conhecido por "a praia". As leitoras desculparão esta fraqueza mas este texto vai em memória de Luis Neves e de Teresa Estrela Esteves.
E para a Rosa, o Tané, a Nitucha, o Nélito, os manos Esteves, a Luisinha e mais uns quantos, ou seja, os da praia.

02 julho 2007

QUAL O PAPEL DAS FREGUESIAS NOS TEMPOS DE HOJE?



Como é sabido a capacidade de intervenção das Freguesias está fortemente articulada com os Municípios, que alguns qualificam de relação de complementaridade, mas que, na prática coloca, as Freguesias, enquanto órgão de poder local, numa clara relação de dependência relativamente ao Município, que só não é completa porque o poder que domina a Câmara necessita do voto dos Presidentes das Juntas para formar maiorias na Assembleia Municipal. Salvo este pormenor as Juntas são os departamentos pobres da Câmara e os seus planos de actividades reproduzem aquilo que a Câmara se propõe fazer na respectiva freguesia.

Esta relação perversa constitui um claro factor de distorção das relações de poder ao nível local e, em meu entender, não dignifica o próprio poder local.

No actual quadro legal as Freguesias não têm quaisquer condições para exercerem a sua actividade com a autonomia administrativa e financeira que a lei lhes confere. Por outro lado, para que isso sucedesse seria necessário reforçar significativamente os seus recursos financeiros, o que, além do mais, geraria acréscimo significativo de despesa pública, sem garantia que da sua aplicação resultaria acréscimo na qualidade de vida dos cidadãos, podendo, inclusive, gerar duplicação de equipamentos em espaços relativamente próximos.

As Freguesias, apesar dos amplos poderes que a lei lhe confere, não têm recursos técnicos e humanos para desenvolver uma acção minimamente eficiente e com impacto na melhoria das condições de vida dos seus munícipes. Ainda assim o Orçamento de Estado para o corrente ano prevê uma transferência de cerca de 184 milhões de euros para financiar as freguesias.

Actualmente, que se retomou o tema da regionalização, não seria de repensar o papel das Freguesias na organização administrativa do Estado? Reflectir sobre o que é que a actividade das freguesias acrescenta à acção desenvolvida pelos Municípios?

O meu NÃO no último referendo sobre a regionalização resultou de não concordar com o modo como nos queriam impor as Regiões, sem um amplo debate de base, que questionasse, desde logo, a divisão administrativa do país e o papel que cada nível de governo representaria no novo modelo de gestão. Não deveria ser isto o que agora deveria ser objecto de discussão?

Se há mais ou menos unanimidade quanto à extinção de Governos civis e Assembleias distritais, já será bem mais polémico lançar para debate a extinção das Freguesias. No entanto, a extinção das Freguesias (ou a sua redução drástica) daria maior transparência e eficiência ao poder local, sem qualquer perda para as respectivas populações, desde que as instalações funcionassem como extensões de atendimento e de resposta final dos serviços municipais.

. Nesta perspectiva, também o número de municípios deveria ser discutido, no sentido de dimensionar melhor a gestão do território, condição essencial à maior racionalidade do sistema, e a uma organização pública local mais aberta, mais solidária, que exerça cabalmente as competências que a lei lhe confere e que faça aparecer novas atitudes individuais e de gestão.

Aviso a tempo e por causa das moscas


Livro de estilo

Alguns leitores escrevem-me (coisa que muito me agrada) comentando, dando sugestões, informando-me sobre o que escrevo. Agradecendo embora, e reconhecidamente, essas provas de simpatia, dialogo ou crítica, gostaria de esclarecer algumas coisas:
1 Quando aqui se fazem referências a pessoas ou instituições, aplaudindo ou censurando, tanto faz, as fontes são sempre as mesmas: os jornais. Muitas vezes mais do que um jornal, para se poder contrastar os factos que me servem de assunto.
2 Não uso informações “secretas”, bisbilhotices, ecos pouco credíveis. Apenas o que está escrito em jornais mais ou menos de referência, o que também excluiu folhecas partidárias, imprensa de escândalo e assimilados.
3 não escrevo por encomenda, por simpatias partidárias, bem pelo contrario, critico mais “os meus” que os “outros”. A burrice dos outros não me afecta enquanto a dos “meus” me incomoda, entristece ou envergonha.
4 Já aqui o disse (já aqui o fiz, aliás) que todo e qualquer texto meu pode ser comentado por quem quer que seja e, no caso de se provar, o meu engano, pode ser corrigido. No caso de alguém se sentir tocado e não souber ou puder escrever o comentário basta que mo dirija e me autorize a publicá-lo. Fá-lo-ei com a maior rapidez possível porque acredito que um blog é apesar de tudo um espaço de liberdade e de dignidade. A facilidade que me dá de expor os meus pontos de vista obriga-me a corrigi-los “na hora” sem necessidade de simplex e sem complexos.
5 qualquer pessoa pode assumir essa tarefa de reparar os erros e os eventuais danos de algo que eu escreva. É um compromisso que de há muito defendo e que mais uma vez exponho. Errar é humano, reparar um erro é democracia e defesa da liberdade.
6 Eu mesmo, no caso de poder obter elementos que infirmem ou, em parte, contradigam afirmações feitas, não deixarei de o fazer. Amicus Plato sed magis veritas. (amigo de Platão mas mais ainda da verdade).
7 finalmente, este compromisso que se reafirma e que só a mim diz respeito, não obriga ninguém, de cá ou daí, a fazer o mesmo. Era o que me faltava andar agora no jogo da troca. Trocas só de repetidos, no caso de serem cromos de futebol. Infelizmente já não os colecciono. Estamos conversados?

01 julho 2007

Curiosidades



Fui hoje ao Concerto de Abertura do Presidência Portuguesa do Conselho da União Europeia, na Casa da Música do Porto, e constatei duas curiosidades:

A primeira ao nível da segurança. Muito aparato policial, polícias por todo o lado muito bem armados e muitos guarda-costas, que pareciam todos formatados pelo mesmo molde. Entramos com o carro para o parque de estacionamento da Casa da Música e mandaram-nos parar pedindo os bilhetes. No final pediram desculpa e justificaram com um “ tem que ser”. Já no parque três polícias, vestidos de escuro, mandaram-nos parar, colocando-se um deles à frente do carro. Paramos. Pediram para abrir o capot e a mala. Assim fizemos. Depois de cuidadosa vistoria mandaram-nos estacionar. Depois de estacionar seguimos para o elevador onde um segurança nos abriu a porta. Depois saímos para o exterior da Casa da Música, subimos pelas escadas exteriores, e entramos no hall, subimos as escadas de acesso para a sala do concerto, entramos, sentamo-nos e ninguém, rigorosamente ninguém, nos pediu os bilhetes ou disse o que quer que fosse.

Moral da história, se não tivéssemos entrado pela garagem poderíamos entrar calmamente na casa da Música para assistir ao concerto que não haveria problemas, tanto mais que alguns dos presentes tinham convite mas não tinham bilhetes e puderam entrar no último minuto antes do concerto iniciar. Pelos vistos a segurança era só ao parque de estacionamento!

A segunda curiosidade tem a ver com aquilo que poderia chamar da atracção física do poder. Eu explico. Depois do concerto foi servido um Porto de Honra nos corredores da Casa da Música. Ao descer as escadas de acesso a um desses locais e olhando para aquele amontoado de gente veio-me à cabeça a seguinte imagem: as pessoas distribuíam-se como se fizessem parte de um átomo. O local onde estava o Sócrates era o núcleo, muito denso, e conforme havia maior distância desse centro a dispersão de pessoas era maior. Curiosamente quem andava lá meio perdido, a subir e descer escadas, sempre sozinho, era o Marques Mendes. Isto do poder é uma coisa doentia, O Sócrates tem aquela multidão em volta porque está no poder, Alias, talvez a maioria dos que o adulam pela frente o critiquem por trás. Se fosse o Marques Mendes que estivesse no poder seria ele o centro das atenções. Só não digo que o se o Sócrates estivesse na oposição também andaria ali sozinho porque me parece que ele não seria ingénuo o suficiente para ir para ali sem alguma companhia segura, ou seja, que não o deixasse sozinho.

Não há dúvida nenhuma que o poder muda as pessoas e normalmente para pior. Vão-se distanciando da realidade e do mundo dos “normais” e convencem-se que têm o poder absoluto. O Post baixo do MCR, é mais um exemplo disso mesmo. Será fatalidade?...


Estem dias que passam 68


Meu caro António
Conhecemo-nos desde 1962, Ou seja há 45 anos! Uma vida! Durante alguns anos partilhámos com grande frequência uma mesa no Mandarim. Lembras-te?
O Mandarim a que, por desafio, mas também por brincadeira, chamávamos o “Kremlin”. Esse café na Praça da República, que também por brincadeira, e por desafio, chamávamos a “Praça Vermelha”. Deves lembrar-te...Estou certo que te lembras...
Anos e anos a fio, depois de te formares ia sabendo de ti pela tua irmã. Lembro-me que mandávamos um ao outro abraços por interposta Amélia. Travámos, mesmo longe um do outro, alguns combates comuns. O mais óbvio: contra Salazar e Marcelo. Marcello com dois “l” , convém esclarecer. Julgo que depois terás estado com o MDP/CDE enquanto eu alinhava com o MES. Alguma vez nos telefonámos, tu não te lembrarás mas, com esta memória infalível, e juro-te que é mais uma maldição do que uma qualidade, não me esqueço. Depois tu, graças às tuas capacidades, à tua inteligência, à tua preparação, foste desempenhando altos cargos, coisa que alegrava os teus amigos, ou, pelo menos, me alegrava. Até que chegaste a esse lugar. Pensei para os meus botões que, num governo eleito com o meu voto, tu eras the right man in the right place. Tinhas atrás de ti um forte currículo e conhecias como poucos os problemas do sector. Concordei com muitas medidas que anunciaste, muito embora me fizesse espécie o modo brusco com que ias impondo soluções que requeriam mais dialogo, mais paciência da tua parte, mais tempo para convencer os que não as percebiam ou simplesmente as temiam. Não gostei de algumas afirmações mais ou menos em off mas largadas perante o número exacto de jornalistas que de certeza as repercutiriam, como finalmente, julgo, era teu secreto desejo. Havia porém no teu discurso uma certa brutalidade eslava que me confrangia mas enfim, a amizade é cega, e ao fim e ao cabo, não tinha efeitos práticos. Ri-me até com a tua blague sobre os SAP. Coisa que agora, já não faço.
Amigos comuns que colaboraram contigo foram-me, entretanto, dando conta, de algumas derivas, de várias divergências, de um rumo em ziguezague que não satisfazia gregos mas irritava troianos. Não me importei demasiadamente embora lamentasse, in imo pectore, com essa tua dificuldade de comunicar, de convencer, de dialogar.
Agora porém, as coisas passaram o limite: esse desastrado gesto teu, essa maneira de mostrares que és tu quem manda, que não podes nem deves ser criticado, mesmo se isso é feito aproveitando descaradamente uma ou várias frases infelizes da tua lavra. Porque eram frases tuas. Com graça possivelmente, com verdade não o discuto, mas a destempo, como, ao fim e ao cabo, se vê agora. Eu desconheço por completo a orientação política da senhora que demitiste. Aposto, contudo, que é da outra cor, da cor dos outros que todavia, quando mandavam, não se atreveram a tanto. E desconheço igualmente a veracidade da alegada pertença política do recém-nomeado dirigente que os jornais dizem ser do PS. Mas acredito que o seja. Resta saber se percebe alguma coisa do que vai fazer, se tem alguma qualidade de chefia, se, numa palavra, vai claramente fazer mais e melhor do que a demitida.
Meu caro António: mesmo que a senhora tivesse sido descuidada, conviria saber se isso chega para uma demissão. Mas pior do que isso é isto: o teu gesto não resguarda a legítima autoridade do Estado mas antes aparece como uma incapacidade clara de receber uma critica, jocosa, ao que dizem, assinada pelo autor. Ao tomares essa decisão penosa para qualquer democrata, deixas transparecer para o exterior uma fragilidade terrível, uma incapacidade dramática de perceber o humor.
Estiveste, se bem recordo, algum tempo em França e nos Estados Unidos. Nesses países há criticas tremendas ao poder, revistas como o Mad ou Charlie hebdo tornaram-se conhecidas justamente por isso. Cá, pelos vistos, acabava tudo no tribunal, na cadeia, ou sei lá onde...
Em tempos não muito longínquos, dez, quinze anos, enfim durante o consulado cavaquista, muito boa gente, eu até, deram em artigos nos jornais, várias bicadas na elite governante. Nada nos aconteceu. Nada. E também, nessa altura, o partido no poder tinha o completo controle da situação. Agora, ao olhar para trás, com os olhos do presente, é legítimo perguntarmos: eram “eles” tontos ou simplesmente democratas?
Escrevo-te estas linhas com um imenso desgosto. E votante que fui sendo, ao longo de todos estes anos, dando a cara e defendendo um par de coisas que para mim eram verdades como punhos (a tolerância, por exemplo), devo acrescentar que começo a sentir vergonha.
E isso, podes crer, é intolerável e imperdoável.
Sexta-feira, 29 de Junho.

as gravuras: 1. campanha de amnistia para os estudanres expulsos, António incluído.
2. campanha pela constituição de 36: um Estado com autoridade...

perguntas


qual o destino dos corpos,
pergunto-me,
depois de mastigados pelas horas,
pelos gestos, desde o nascer do sol?
qual o destino dos corpos para além da deterioração,
ou logo antes dela?

qual o destino dos corpos entregues ao amor?
que destino terão depois de deixarem de ser o que são
para transformarem-se num outro
temporário e divino?
qual o destino nostálgico,
a melancolia bruta,
se nunca mais podem ser os deuses que um dia foram?


qual o destino dos corpos abandonados
pelos seus donos
sem propósito ou sentido,
quando nada mais desejam
senão serem o que são
e exercerem-no na sua glória?



silvia chueire