24 maio 2006

O que não bate certo?

Quando entrei para a faculdade, a moda era: eu quero ir para a carreira diplomática! E eu olhava, de viés, aquela malta tão decidida, eu, o miúdo que, após passagem de dois anos pelo Porto, vinha de Soalhães, a terra-do-mata-e-queima, onde a diplomacia, carregada de carrascão, tinha mais a ver com cenas monumentais de pancadaria entre clãs. Diplomacia! Que é que eu tinha a ver com aquilo?

Presumo que nenhum dos que assim diziam chegou lá. Aliás, eu também nunca percebi a fixação que eles tinham pela carreira, mas isso são coisas minhas que, como já disse atrás, não tinha sido propriamente preparado para perceber o que a diplomacia significava.

Nos últimos anos, os colegas jovens que têm passado pelo meu escritório a tentar aprender alguma coisa que eu lhes possa ensinar, eles e os amigos deles, que eu tenho um escritório de portas abertas, dizem-me, quase todos, com olhar grave: eu tenciono ir para a magistratura.

E eu olho-os com o mesmo olhar com que olhava os antigos colegas que queriam ir para a carreira diplomática. Mas desta vez percebo-os melhor. Há um sobredosagem de gente a tentar ser advogado. E, então, a escolha já não é feita pela vocação: escolhe-se aquilo que parece mais seguro.

Nada disto que conto é surpreendente. O que me surpreendeu esta semana foi ouvir um conceituado magistrado de um tribunal superior perguntar-me se eu achava se ele ainda estaria com idade para ingressar na advocacia. No princípio, pensei que ele estava a brincar. Não estava. Fiquei sem saber o que lhe dizer. Mesmo depois de ele se justificar com a ideia de que, hoje, a magistratura já não compensa. Ainda assim, pensei que fosse caso único e um desavario. Comentei, genericamente, o assunto com outras pessoas que me desenganaram: há muitos magistrados a pensar o mesmo. Continuo sem saber o que diga. Mas acho que anda por aqui qualquer coisa que não bate certo. Que acham?

23 maio 2006

Falta de paciência

Sempre tive esta postura: quando represento um cliente num qualquer assunto que ainda não chegou à fase judicial, esforço-me sobremaneira para que a outra parte contrate um advogado. Aos poucos, fui aprendendo que esse é o caminho mais fácil para conseguir resolver o problema do meu cliente. É muito mais fácil ter sucesso quando, do lado de lá, há uma pessoa que fala a mesma linguagem que eu. Que está suficientemente distante do problema para agir com a cabeça e menos com as emoções que os clientes trazem agarradas a si.

Mas há outra percepção que sempre tive, na minha mediana inteligência: as coisas acabam por se complicar quando na lotaria sai, do outro lado, um advogado burro, ou um advogado pau-mandado do cliente (coisas que, aliás, costumam andar associadas). Daqueles que não atam nem desatam e debitam banalidades, não sem antes pedirem, com o olhar, a permissão do cliente para abrir a boca. E que, durante uma reunião com os clientes, desatam a fazer inopinadas alegações sem aderência ao assunto em causa.

Um destes dias aconteceu-me. Cheguei ao fim da reunião exausto. Talvez porque já não tenho muita paciência.

Breve reflexão

Marques Mendes quer emagrecer o Estado. E que tal, já que estamos numa de dietética, tentar emagrecer os que comem à conta do Estado? É que o problema do Estado não é o ser gordo, é estar à mercê de parasitas. Um bom clister talvez ajudasse e bastante! Como com as lombrigas, precisamente.
José António Barreiros escreveu o postal acima, um destes dias, no seu www.revoltadaspalvras.blogspot.com .
O Público de hoje citou o texto. E bem. É uma boa ideia.
Mas o caso provocou-me um pensamento. Os órgãos de comunicação social não deram tanta importância ao livro que o mesmo JAB lançou na semana passada. Critérios. O que me desperta outro pensamento. Aqui há uns anos, depois de ter colaborado com Manuel Serrão em três episódios da Cadeira do Poder (SIC), fui convidado para ir lá sozinho. Era o último programa. Ganhei. E, por uma tarde de "trabalho", ganhei 600 contos. Que foi um pouco mais do que tinha ganho, pouco antes, em direitos de autor de um livro técnico publicado, pouco antes (1995), que tinha dado um pedaço mais de trabalho.
Moral da história: o trabalho nem sempre compensa. Às vezes compensa mais um minuto de inspiração.

Os lápis Viarco e as memórias (algumas) da infância...


Hoje, ao almoço – uma saladinha…alface, tomate, e umas folhas verdes chamadas rútulas (que esta história do colesterol tem de ser combatida…) leio, como de costume, o “DN” e eis que me dá um “baque”: ali, a cores, revisitados, os lápis “Viarco” num artigo invocativo dos 70 anos da respectiva fábrica a qual, afinal, ajudou uma geração inteira a escrever…timidamente dei os meus primeiros passos na escrita com um lápis bonito, às cores, com uma cabecinha vermelha…vejam lá o que nós guardamos na nossa memória!

Lembro-me da minha primeira ida para a Escola Primária, um edifício lindo, uma moradia – Estado Novo já se vê… - vestido com uma linda bata branca, acho que se chamava "bibe"... e um grande "D" azul nela bordado como só as mães sabem fazer... e dos cuidados que coloquei nos meus “pertences”: a minha mala era de um cinzento claro, rígida, com um fecho que fazia um especial “clique” quando fechava, e uma pequena pega castanha, albergando o dito lápis, a caneta tinta permanente (obrigatória!), uns cadernos todos bonitos, alguns com aquelas linhas azuis, duplas, para nós aprendermos a desenhar a letra de forma uniforme (creio que isso hoje é peça de museu…).

Há que séculos não via tais lápis! Habituado à caneta, “esqueci” este imaginário, que sempre sobrevive, afinal, no subconsciente de cada um de nós.

A acompanhar o texto, vem uma fotografia, na qual ainda distingo umas caixinhas, com uma gravura de dois rapazinhos, à janela, um até sentado no parapeito da dita, e um outro, mais recolhido, a fazer bolas de sabão – uma brincadeira muito inocente dos anos 60…e ainda uma outra com uma menina, creio que no campo e a brincar com os seus lápis de cor…quantas destas caixinhas não terei usado!...


Também diviso uma caixinha com um rapazinho fardado a preceito da Mocidade Portuguesa….mas isso são outros contos…

Paradoxalmente, parecia um mundo mais gentil do que aquele que hoje nos é dado viver, pese embora a minha infância atribulada…

Mas nós, pequeninos, o que podemos modificar? Nada! Somos impotentes perante o mundo dos adultos…Resta-nos, enquanto crianças, esperar que nos amem!

Revitalização urbana

Decorreu na passada sexta-feira um seminário na Exponor sobre “Revitalização urbana, qualidade de vida e competitividade das cidades”, que juntou especialistas sobre estes temas para reflectirem sobre aquilo que se passa nas nossas cidades e as boas práticas existentes por esse mundo fora.

Partindo do exemplo do Porto, cidade e área metropolitana, os presentes puderam apreciar a visão que os responsáveis políticos pela Junta Metropolitana têm para este espaço territorial – uma visão que precisa de mais estratégia e ambição, o que talvez só seja possível quando os líderes metropolitanos tiverem legitimidade eleitoral – e conhecer melhor os projectos da Sociedade de Reabilitação Urbana do Porto e os estudos de mobilidade desenvolvidos para a região.

Depois, veio a parte mais interessante, quando se pôde ouvir as experiências de requalificação de cidades como Estocolmo, Rennes e Bilbao e o relato de um académico português radicado nos EUA sobre as medidas implementadas em algumas cidades norte-americanas. Em todos os exemplos, esteve sempre presente a preocupação cimeira com a vivência das cidades, os espaços públicos, a mobilidade, a primazia dos transportes colectivos, a circulação pendular entre os centros e as periferias.

Quando se estuda e analisa estes bons exemplos, custa a entender por que tantas vezes se persiste no erro e nas opções mais penalizadoras para os cidadãos. Não é só na gestão de empresas que se deve acompanhar as boas práticas. O benchmarking na actividade política e na gestão do espaço urbano devia ser uma prática habitual dos nossos decisores.

Já agora, contam-se pelos dedos das mãos os autarcas e responsáveis políticos presentes neste seminário. Deviam estar ocupados a despachar facturas de fornecedores de rotundas e fontes luminosas…

Apito Dourado suspenso por escusa do Procurador


“O processo Apito Dourado está suspenso por decisão do juiz do Tribunal de Gondomar. A suspensão foi determinada depois de Carlos Teixeira, o magistrado do Ministério Público titular dos autos, avançar, ele próprio, com um pedido de escusa, argumentando que não tem condições para continuar a liderar a acusação pública”.


Se a moda pega…

A ler no Público on-line.

o leitor (im)penitente 3

De livreiros, de persistência, de amores antigos

Eu não queria, leitoras gentis, fazer desta série, um conjunto de historietas dispersas, sem rei nem roque, aos saltos pelas idades que vou ou fui vivendo. Mas que querem? O homem põe (ou será a galinha?) mas Deus dispõe. Estava eu a pensar relatar os meus primeiros “Vernes” e eis que a força das coisas (“la force des choses”, prima feminista, la force des choses...) me obriga a voar mais de cinquenta anos e chegar até hoje fins de Abril e à Rª Mártires da Liberdade, no Porto. Melhor: à Livraria Académica, rainha das livrarias alfarrabistas, prazer de bibliófilos viciosos, alegria de leitores mais pobres que aqui encontram sempre algo a que meter o dente por dez reis de mel coado.
Já alguém, por estas bandas bloguistas (muito provavelmente o José Carlos Pereira ou o Coutinho Ribeiro, meus amigos), escreveu sobre esta casa. E digo casa com plena consciência pois a “Académica” ficava a meio caminho entre o colégio Almeida Garrett (onde meu pai e eu penámos como internos) e a livraria Leitura, outra rainha, mas de livros novos e estrangeiros. Um peregrino leitor ia assim de cem em cem, ou duzentos em duzentos metros, de livraria em livraria até atingir carregado de compras o “Ceuta”, o “Avis” ou o Piolho. Dependia das rotas e dos amigos ou das namoradas que nos esperavam.
Que de livros terei comprado por estas bandas! Mas passemos adiante. Hoje venho falar-vos de um desses pequenos milagres a que nós incréus também temos direito. O sol quando nasce é (eventualmente) para todos. E aqui está.
Nos idos de sessenta, aportei á Coimbra de “lavados ares” para tirar um inútil curso de Direito e um mais interessante curso de vida. Prestamente comecei a frequentar gente sinistra, da sinistra, do reviralho, como então se chamava esta pequena tribo que ia sobrevivendo sob a mão pesada de Salazar. Leitores vorazes quase todos. E, noblesse oblige, leitores de tudo o que era proibido, mormente alguma literatura marxista, muita poesia, uns romances (entre eles sempre, “Os subterrâneos da liberdade” valente estucha perpetrada pelo Jorge Amado com quem apanhei uma das poucas borracheiras da minha vida, na saudosa republica dos “1000-y-onarius” sic) e um livro curiosíssimo chamado “Estes tempos tumultuosos”, (biografia de uma geração desesperada) de Pierre van Passen.
Li-o, emprestado possivelmente pelo João Quintela ou pelo José Luís Nunes, já não recordo. Seria dos meus dezoito anos, do ambiente vivido naqueles anos de brasa, do exotismo das paisagens, das situações, sei lá, o livro impressionou-me. E de tal modo que nunca me esqueci e dei a uma das minhas séries de croniquetas um título em homenagem a essa leitura juvenil.
Ora, hoje, resolvi demandar a Académica para tentar encontrar dois volumes da “Rumos do Mundo” que me faltam. Algum amigo do alheio, passou por eles, e achou-os a mais na minha estante. Conformado, por tantas razzias, efectuadas à minha biblioteca, e sabendo que livro desaparecido não volta por seu pé, lá fui ver se o Nuno Canavez tinha os livrinhos. Este Nuno é todo uma personagem: cinquenta anos de livreiro, uma voz tonitruante, trasmontano até dizer basta, sabe mais de livros do que uma inteira faculdade de letras. Graças a ele, a biblioteca de Mirandela tem um fundo de quatro ou cinco mil livros sobre Trás-Os-Montes, um conjunto precioso, de incalculável valor, que ele foi reunindo, pagando e oferecendo á terra que o viu nascer. Conversador nato e incorrigível, disfarça sob um vocabulário rico e vicentino uma gentileza fidalga e antiga.
Hoje, depois de ver frustrado o projecto de compra, nem o Nuno tinha os dois volumes que me faltavam!, e depois de me rir largos minutos com uma das suas histórias, perguntei-lhe por este livro, ou melhor por qualquer coisa com um nome semelhante, sem menção de autor, sem nada.
Acreditem ou não, o diabo do homem nem pestanejou. - Será o van Passen? -Isso!, bradei já com uma fezada que faria inveja a meia dúzia de peregrinos de Fátima. Num minuto, e estou a medir as minhas palavras, tinha o livro na mão, com um desconto de cinco euros sobre o preço marcado e levando de prenda os “dessins politiques” do Siné na colecção “libertés” da J. J. Pauvert. Como já o tinha foi a prima Maria Manuel que adora os anos sessenta que presume conhecer (mania inocente a dela...) como se ter entre seis e quinze naqueles anos fosse suficiente...
A história que vos trouxe, é, convenhamos, fracota, mas só quem não andou anos à procura de um livro é que a desdenhará inteiramente. Não é a primeira vez que depois de anos de procura, um livro me aparece. Há uns anos, alertado por um pedido da mesma prima procurei em vão “É assim que se faz a história” do Eduardo Guerra Carneiro, ausente em parte incerta depois de anos de leal e paciente presença na estante, sector “amigos poetas”. Corri ceca e meca por outro exemplar. Nem o Eduardo me conseguiu valer. Quando já me resignava eis que uma livreirinha gentil da Cotovia, mais hábil do que eu e mais andarilha mo encontrou sei lá onde. E teve o trabalho de me telefonar, de o guardar enquanto não fui por ele. Tudo por um livro pedido por um desconhecido ao telefone. Como nestas coisas convém haver pelo menos uma trindade, aqui vai a terceira história. Um tio meu, Marcos Viana, homem que sabia de literatura muito mais do que nós suspeitávamos, falou-me uma vez de um romance que o tocara muito. “O único romance surrealista” dizia ele. “Passage de l’homme” de Marius Grout, prémio Goncourt de 43. Munido desta recomendação eis-me, dez anos mais tarde, numa pequena livraria de segunda mão em Paris. Um Grout intocado durante vinte ou trinta anos riu-se para mim. Viemos juntos para a pátria madrasta. Queria mostrá-lo ao meu tio, para ele, o voltar a ler. Um amigo caviloso pediu-mo por dois dias e até hoje. Mais dez anos de procura, França de novo. Outra livraria, outro exemplar, novo regresso triunfal. E novo desaparecimento desta vez absolutamente misterioso. Entretanto o tio Marcos morreu. Por teimosia, e um pouco em sua memória, fui procurando o terceiro exemplar. Mas foi só com a internet e com a livraria chapitre.com. que obtive o meu actual exemplar. Em finais de 2000. Esta busca durou quase quarenta anos. Agora com o google descobri quase vinte mil referências ao Grout. Nasci demasiadamente cedo.

Nota que não tem nada a ver: o meu prezado Delfim fica avisado que a livraria Académica tem a “História de Portugal” do Matoso em belíssimo estado por mais ou menos 150 euros. Não chega a vinte por volume.

Também (tendo tudo) não tem nada a ver: da nossa leitora Manuela Espírito Santo anda por aí um livrinho recentíssimo: Por um quinto poder em defesa do novo cidadão (arca das letras ed.). Ora aqui está um texto lúcido que tem muito a ver com o que neste blog, volta e meia, vamos falando: a nova censura e os meios de a combater. Boa malha, Manuela! Venham mais!


AS (9) FARSAS
(by José)


poster do

blog Arioplano

(clicar para aumentar)



Ó TIO, Ó TIO!

Não percebo nada disto

Não tenho jeito para acusar ninguém. Aliás, as minhas acusações em crimes particulares raramente são acompanhadas pelo MP, o que é a prova mais do que evidente da minha inépcia persecutória (às vezes é o MP que se engana, mas isso não vem ao caso...). Também não tenho jeito para julgar ninguém e raramente o faço. Tudo, sobretudo, quando não conheço os contornos todos do problema. Mas alguma coisa me diz que, mais logo, quando os jornais chegarem às bancas, haverá algumas perplexidades com o funcionamento da justiça em Portugal. Num concreto processo muito mediático, a acusação pública corre o risco de ficar mal na fotografia. Outra vez. Mas, insisto: não acuso ninguém e menos julgo alguém. Haverá razões, por certo. E eu fico à espera para ver quais são.

A história dentro da História.


Nesta segunda-feira que passou, estive “estoirado”.

Apesar do fim de semana. Ou por isso… A minha mulher diz-me que eu tenho cá uma genica! Bem, realmente, tenho muito mais genica do que nos meus 3o anos, lá isso é verdade (isto será um paralelismo com o vinho do Porto?)...Daí não querer comprar esse "slogan" que agora nos querem vender: os "velhos" já não produzem, lixo com eles! Velhos são os trapos! Mas dizia eu, cansa-me mais ficar em casa (caio fatalmente numas leituras de Direito ou a despachar algumas alegaçõeszinhas olá!...) do que, por exemplo, ir ao Porto, jantar ali para as bandas do Campo Alegre...ou ir ao Triplex certamente...

Após constatar a perfeita arrumação que o meu amigo MCR imprime aos seus livros, quadros, e outros documentos que tais, lanço-me à aventura de poder conseguir tal desiderato neste meu humilde lar. Haveria de inventar espaço. E espaço é um bem que já não abunda…

Pois passei o fim de semana nesta coisa de pôr e tirar de um lado para o outro, fazendo de conta que estou a arrumar a livralhada…e a papelada avassaladora...

Vem isto a (des)propósito do achamento (não de um novo caminho que nos colocasse deste rectângulo daqui para fora...) mas sim de um livro que estava convencido de ter “emprestadado”: o livro é precisamente “A Lusitânia dos Espiões” do nosso José António Barreiros. Edição da Hugin (gosto mais da “ O Mundo em Gavetas”…) que remonta a 1995.

Relida agora a obra na diagonal, (e esta vai direitinha para o igualmente muito nosso MCR) permitam-me que respigue este excerto com que deparei, encontrado a fls. 139, e que eu aqui reproduzo, com a devida vénia, que não quero infringir direitos autorais:

“Tudo começara em 1960, com a movimentação preparada pelo DRIL, o mesmo Directório Revolucionário Ibérico de Libertação que, utilizando o nome do comandante Henrique Galvão, planeou e executou a “operação Dulcineia”, de rapto e aprisionamento em alto mar do navio português “Santa Maria”.

Revolucionários profissionais ao serviço da causa de Leste orientaram-se para Angola, onde os primeiros movimentos de terrorismo fariam eclodir uma guerra civil que durou mais de trinta anos e reduziria a cinzas tão rico e promissor território, semeando a miséria entre os seus habitantes.
Neste particular, Oliveira Salazar, ao dizer, contra tudo e contra todos que em África defendíamos aqueles territórios contra o comunismo tinha afinal perversamente toda a razão.”

O Autor revisitou a História. Com efeito, a leitura desta raras vezes é unívoca. Frequentemente, mesmo por ínvios caminhos, ou até como aquele nos ensina, através de uma razão “perversa”, a História revisita-nos e deixa-nos perplexos.

22 maio 2006

Futebol: a lusa paixão...

Em época de (acrescido) futebol arrisco o seguinte "prognóstico":

Para os pimpolhos do nosso Carteiro: aqui fica a equipa juvenil do FCP;

Para o (muito cá de casa) MCR, e visto que lhe fica perto...o Boavista!

Para o JCP...hum... Benfica?

Portugal kitsch

Aproxima-se o campeonato do mundo de futebol e o país começa a viver as primeiras manifestações kitsch. Começou com essa inaudita bandeira desenhada no Estádio Nacional por umas dezenas de milhar de mulheres (idas de todo o país…) e vai continuar com as bandeirinhas que já espreitam nas janelas e varandas de cidades e aldeias.

Não poderíamos ser um país normal, em que as pessoas se limitassem a gostar de futebol e da sua selecção, sem todos estes excessos? Por que razão se pretende demonstrar que somos capazes de vencer o campeonato das emoções e dos afectos?

Enfim, pobre país que esgota as suas energias neste nacionalismo serôdio.

Do Poder Político e a sua visão jacobina do Poder Judicial



Hoje, no “DN”, o Procurador-Geral-Adjunto, António Cluny, em entrevista concedida a este jornal, desmonta a visão distorcida que hoje em dia o poder político tem sobre o poder judicial. Uma visão que classifica de “jacobina sobre o papel do MP e dos Tribunais”.

Acrescenta aquele que “Todos defendemos o Estado de direito desde que não nos bata à porta”.

Ora, aqui está o busílis! A partir do momento em que determinados senhores, detentores do poder (sempre transitório…) político foram “apanhados” nas malhas da Lei, aqui d’El Rei!, perdão, para esses, “aqui d’El Afonso Costa”! Que num Estado de Direito somos todos iguais, mas há uns mais iguais que outros!

Pena é que ainda existam Magistrados que pactuem com o “inimigo”, aceitando as mais diversas comissões…

Se os Magistrados são assim tão maus tão maus, então porque é que o poder político gosta de os ter junto a si? Será para lhe resguardar as costas?
Nota: Com a devida vénia, inserimos, a ilustrar o nosso texto, uma fotografia que foi retirada do "DN".

Chateado no calabouço 4

carta 3ª
(sobre a arquitectura prisional)

Ex.ª Sr. director Geral Interino dos Edifícios e Monumentos Nacionais

Tendo sido hóspede da cadeia de Caxias (reduto norte) durante algum tempo, muito excitante de resto, e sendo um profundo admirador de Mestre Raul Lino, como aliás também de mestre Henrique Medina, pintor de fina água, do doutor Amândio César, escritor de robusto talento e de outras grandes figuras do nosso panteão artístico e cultural, cujo é, sem falsas modéstias, relevante pedra de toque da civilização ocidental e cristã que Portugal tão galhardamente defende nas plagas africanas frente ao gentio infiel que tenta meter uma lança na Europa, dirijo-me a V.ª Ex.ª para expor o que se segue:
Caxias, Il.º Senhor Director Geral Interino, é uma pequena obra prima da ingeniosidade lusitana dos anos 20: belas vistas, bons ares, brandura de costumes, proximidade da capital e seu bulício frente ao Tejo e seu ventício e diante de um pobre mas honrado bairro de lata com seu excrementício.
Para quem passa na estrada a vista do soberbo edifício é algo que nunca mais esquecerá. Parece, em grande, um desses maravilhosos moinhos de vento de que a nossa paisagem é tão rica e que constituem para o estrangeiro que nos visita motivo de constante pasmo e admiração arquitectónicos.
Porém, vista de mais perto, algo destoa e nos dói: pois não é verdade que no pais da casa portuguesa de Mestre Raul Lino e de Amália Rodrigues, as casas e construções similares (casinhas, cabines telefónicas, apeadeiros de transportes colectivos, faróis e marcos quilométricos) devem ser portuguesas?
Ora tal não se passa com esta notável instituição de recuperação social. A construção é pesada, algo tosca, sem graça. Vá lá que sempre está pintada de branco, mas isso não chega, Ex.º senhor, não chega.
Por estas razões, e por outras que não vale a pena salientar, tenho a honra de propor:
1º alto do telhado três cata-ventos em forma respectivamente de galo, sol e barco à vela;
2º nas paredes exteriores andorinhas de barro preto (vidrado) artisticamente cravadas;
3º no peitoril de cada janela um pequeno canteirinho de sardinheiras;
4º as grades em ferro forjado do norte;
5º as portas com alpendres de granito
6º nos dias feriados e santos de guarda colchas em todas as janelas;
7º na sala de espera das visitas propõem-se ainda:
dois vasos de louça de Alcobaça com avencas e jarros de plástico (são mais baratos e não precisam de água);
um “invisual” tocador de harmónio a cantar fados;
um rancho de guardas prisionais regido pelo senhor Dr. Pedro Homem de Mello (danças recomendadas: corridinho, chula do Minho, vira da Nazaré);
uma placa com os dizeres: é proibido cuspir ou urinar no soalho”;
idem com os dizeres:”construído durante a Ditadura Nacional”
um cartaz com o slogan “o Exército é o espelho da Nação” ou na falta dele outro com o mapa de Portugal e províncias ultramarinas sobrepostos ao mapa da Europa com os dizeres “Portugal não é um pais pequeno”.

A bem da Nação

em Caxias, 1971

21 maio 2006

Delírios (II)


Foi longa a noite, na sofrida ausência de ti. Um sono intermitente, o ouvido alerta à espera de um tímido toque na porta no meu delírio da tua chegada improvável. Apesar da chuva ténue e da noite vagamente fria, eu sentia uma calor estranho, suavam-me as mãos e eu empurrava a roupa da cama com os pés, e voltava a ter frio e procurava-a de novo, para me levantar outra vez, um sobressalto, e uma nova volta pela casa, e um frio intenso à varanda, e mais um cigarro. Liguei e desliguei a tv. E fumei mais um cigarro. E outro. E estranhamente sentia o teu cheiro, coisa inexplicável porque nunca aqui estiveste. Mas era o teu cheiro, tenho a certeza, o cheiro inconfundível de fera indomada.

Acordei cedo. Estranhamente cedo. Sabes?, eu só acordo cedo por dever, não sinto o prazer das manhãs doridas, porque as minhas manhãs são sempre doridas. Prefiro o bulício da cidade no fim do dia e prefiro o silêncio das noites, mesmo quando elas são de solidão, nos limites desta casa pequena que, porque é vazia, tantas vezes me parece enorme nos silêncios. É nas noites que se me apuram os sentidos. Que me encontro a cada desencontro. É nas noites que mentalmente elaboro, com um rigor quase demente, as coisas a que no dia seguinte dou forma no escritório, ainda que o rigor, aí, já não seja o mesmo, porque ritmo é brutal. Mas isso são coisas de mim que tu não sabes. E há tantas coisa de mim que tu não sabes...

E é por isso que, ainda mais, sinto a tua falta. Para te contar de mim o que tu não sabes. Gostava de te contar que a minha insónia não tem a ver com os tempos da boémia coimbrã. Nem com a minha violenta experiência como jornalista com a cabeça a prémio. Nem com as malfeitorias que me fizeram, os tiros de morteiro, que quase me trucidaram. Ou melhor: tem a ver com tudo isso. Mas não só. O problema é mesmo esta ansiedade maldita.

Olha. Não contes a ninguém, que é segredo. Mas ainda hoje não consigo dormir nas noites anteriores aos dias de julgamentos! Coloco em cima de mim uma enorme pressão. O medo de não conseguir fazer o melhor. Se um dia me vires num julgamento, não vais notar o distúrbio. Verás, apenas, um olhar desmesurado. A vivacidade que sobra da agitação que aprendi a controlar. As emoções à flor da pele. E, se continuares a olhar-me depois do julgamento acabado, acharás estranha a minha prostração, o infinito cansaço, o peso concentrado de todas noites de insónia. A incontornável necessidade de dormir meia hora antes de seguir viagem.

Há tantas coisas de mim que tu não sabes. E assim fico, outra vez, o ouvido atento, à espera do teu toque suave na porta. Noite após noite.

O top do Expresso



Desde que se tornou colunista do Expresso, Miguel Sousa Tavares (com desgosto do nosso José) lidera, quase todas as semanas, o top dos mais comentados na internet. O primo João (para desgosto do nosso José, que não o atura), também costuma estar nos 5 +, bastantes mais vezes do que o seu contraponto e ex-amigo Daniel Oliveira. Recorde-se que a inimizade entre ambos começou numa disputa que levou ao fim do blogue Coluna Infame, de JPC, Pedro Lomba e Pedro Mexia.

Este fim de semana, ao ler os textos do João e de Daniel Oliveira, verifico que ambos falam, essencialmente, sobre os mesmos temas. Com visões diferentes, é claro. Mas, ainda assim, a coincidência de temas vem demonstrar que ambos estão a tornar-se previsíveis. E, aqui, recordo o que alguém que já não recordo, dizia do João, quando, há meses, foi capa da Grande Reportagem: que ele corria o risco de se tornar previsível. Pois, isso é mau: afinal, só tens 29 anos, pá!

Mas, ao olhar o top 5 dos mais comentados no Expresso da semana passada, vejo que o Jorge Fiel ("Conselho a Balsemão") surge, inopinadamente, no 4º lugar. O João e Daniel Oliveira não estão.

Não é espantoso que o meu querido amigo Jorge Fiel esteja no top. O Jorge Fiel é das melhores penas deste país jornalístico. O que é espantoso, é que ele seja dos mais comentados, apesar de não lutar com armas iguais. A sua "Invisível Corrente" está no caderno de economia do Expresso, que é menos lido do que o caderno principal. Qual o segredo do Jorge? A imprevisibilidade, claro. A imprevisibilidade - e tantas vezes a ligeireza - que nos levou algumas vezes ao banco dos réus no final dos anos loucos de 80, por escrevermos mais do que devíamos.

Quando vamos jantar, rapaz? (Por falar nisso: a tua crónica deste fim de semana não é das melhores.)

Delírios


Estava ali, um filme violento, caído no sofá, preocupado com os dias que aí vêm, estupidamente calmo, o olhar absorto, um ligeiro calafrio, o silêncio de que preciso nestes dias agitados e lembrei-me de ti. Do teu ar selvagem e indomado, do teu olhar firme que nem sempre é firme. E imaginei um ligeiro toque na porta, uma insistência, o meu sobressalto, Quem será a esta hora?, e outro toque, um pouco mais insistente. E o levantar-me de um salto e o correr para a porta e abrir sem saber quem era e a porta a ranger como sempre range. E tu. Ali. Sem uma palavra. Apenas o olhar de fera indomada. Por uma vez insegura. Por outra vez insegura, transgressora que quase pede desculpa, as mãos que se torcem, incapazes. E eu. A mão na porta. Os olhos que sinto que exorbitam. E tu. Sem uma palavra. E eu. Sem uma palavra. Ambos sabemos que uma palavra é um crime. Um gesto, crime maior.
Nunca te vi tão selvagem. O cabelo desgrenhado. Nunca te vi tão bonita. Tão desajeitadamente bonita. Nunca me vi tão parvo. Petrificado. A minha mão na porta, ainda. As tuas mãos sem rumo. Abro um pouco mais a porta. Um silêncio que volta a ranger. E tu entras. E eu olho-te, desta vez de frente, e tu seguras o olhar. Desta vez de frente. Olhas o computador aberto, os montes de jornais, a tv quase calada, entras no meu mundo quieto, aquele que não conheces nem supunhas. Não perguntas. Eu não pergunto. Eu sei que estás apenas de passagem. Tu sabes que a passagem é curta. Passámos à clandestinidade. Não por mim, que aqui ficava toda a vida neste abraço, por fim. No teu colo. Em ti. Toda a vida.

O Filósofo plural



Com a devida vénia, aqui coloco esta foto do nosso filósofo, "Compadre Esteves", humanista como poucos e homem plural, que não vira a cara a um bom debate. Como muitos de nós aqui, Incursionistas.
Nota: foto do blog "Margem Esquerda" do (nosso) Primo de Amarante.

20 maio 2006

Transitoriamente bloqueado

Há já vários dias que ando bloqueado, mas, nesta semana que acaba, a coisa agravou-se. Para além de articulados - malditas providências cautelares -, eu bem tenho tentado, mas nada, ah que raio de cansaço que me leva ao bloqueio.
Sim, é verdade, não foi uma semana fácil. Não me limitei a quebrar a regra de não sair durante a semana. Fiz mais do que isso: quebrei-a por três vezes. Na 3ª feira, já depois de jantar, não resisti a ir tomar café com um grupo de jornalistas. Não regressei tarde, mas nessa altura eu já estava a sentir uma certa incompatiblidade com a salada de atum e feijão frade do jantar, que acabou por me arruinar a noite e o dia seguinte, sim o dia seguinte, de contestações a providências cautelares (malditas providências...), de apresentação do livro do JAB e do jantar incursionista. Vi-me aflito para poder cumprir o calendário. Foi sem esforço que gargalhei com forma brilhante como JAB conta histórias, com aquele dom pouco comum de fazer ironia sobre si próprio, mas foi com esforço que aguentei o programa, porque me sentia arrasado (como o Mocho, atento, me sublinhou no dia seguinte), e mais arrasado ainda por saber que não conseguir estar melhor companhia de pessoas que mereciam. Prometo a todos melhores dias
Mas há outro princípio que me rege: é difícil tirarem-me de casa, mas quando saio, custa-me regressar, mesmo quando estou no limite e é dia de semana. Pois é: depois do "rapto" a que fui sujeito, passei ainda pelo Triplex, no convencimento de que todos os outros - os que restavam - passariam por lá, como sugeri ao JCP. Deitei-me tarde. E - ó maravilha! - não consegui dormir coisa de jeito. Com a agravante de que na 5ª feira tinha um prazo para cumprir, eu que o tinha contado para o dia seguinte. Sofri como um danado. Valeu-me a dose de calma que o ajuizado Mocho, que estava por ali, me insuflou, já de saída, e a solidariedade da Rosana, que fez questão em não me deixar sozinho no meu desespero. Ambos, quase conseguimos acabar aquilo. Não deu. Paciência. A multa também não é por aí além.
E só não conseguimos acabar porque tinha combinado jantar com o presidente da Câmara do Marco, que me ligou à 20.30 H a confirmar o local e a hora. E eu tive de ir (ainda pensei cancelar, mas corria o risco de ser mal entendido). Só que a coisa não acabou ao jantar. Conversa longa. Cheguei a casa passava já da 4 horas. Ainda pensei ir directo para o escritório acabar a contestação da providência cautelar (maldita providência...), mas não fui. Devia ter ido. Não dormi, apesar do comprimido. Cheguei ao escritório parecia um zombie. Acabei aquilo. Mas voltei rebentado. Estou rebentado. E bloqueado para escrever. Às voltas com as providências cautelares...