12 dezembro 2007

Au Bonheur des Dames 104

Orgulho ou gorgulho?

O caro leitor José sai do espesso nevoeiro onde se tinha metido á um tempão para, com a cordialidade costumeira, comentar generosamente um texto meu. E mesmo que só ironicamente faça referência ao título da série do texto comentado sempre me vai dizendo que a minha escrita pode não lhe ser dirigida mas tão só às damas que fazem o favor de me receber a prosa.
Ora bem: de facto, eu, pobre provincial com fumos de renascentista (só fumaça, só fumaça...), bem que imito os grandes em me atendo au bon plaisir das minhas escassas leitoras. Nasci assim e provavelmente assim morrerei. Rendido de admiração pelo sexo dito fraco. E no caso presente com alguma razão. Ao que parece as mulheres estão em larga maioria no toca a leituras. São mais a ler, lêem mais que os homens e, penso, lêem melhor. Tudo isto, claro, em termos estatísticos e de estatística muito caseira, provavelmente. Mas que lêem que se desunham não tenho dúvida. O meu correio regista uma forte percentagem de leitoras. Não tão forte quanto a do camarada Coutinho Ribeiro, o “carteiro” mas ele fala-lhes ao coração muito melhor do que eu. E é mais novo.
Portanto as mulheres. Eu confesso que começo a temer uma acusação de homofobia. É que agora está na moda. Fulano que se assuma demasiadamente hetero é passível de pelourinho. Ora para pelourinho já basta a cerveja Tagus a tal do orgulho hetero. E foi tal o arraial que até desistiram do anúncio. Boa burrice, digo eu. Desistir de um anúncio porque umas criaturas começam alta grita parece-me ceder a uma chantagem canalha e infame, aceitar a censura do politicamente correcto. Começa-se por aí e daqui a pouco estamos a dar vivas ao primeiro discípulo dos actuais líderes sul-americanos que lá vão tentando mudar as constituições para se perpetuarem no poder. Ou nem isso: quando chegam ao fim do mandato entram em cena as mulheres para o mandato seguinte. E por aí fora. Não estou a falar dessa nova “evita” que dá por Cristina Kirschner, candidata vitoriosa do partido peronista. E presidente já, ao que parece. Presidente com um governo quase idêntico ao do bem amado consorte que vai para uma sabática presidencial até daqui quatro anos e outra eleição. O peronismo era uma merda com Perón e sem ele também. Tanto me faz que tenha sindicalistas e se arme em protector dos “descamisados”. O peronismo foi um nacional populismo fascistóide, acolheu todos os bandalhos fugidos da Alemanha nazi, deu-lhes identidades falsas, protegeu-os, atacou as esquerdas incipientes do país e, do ponto de vista cultural, foi pouco menos do que um cemitério.
Mas já me desviei. Eu estou aqui por via das damas e não da primeira dama da Argentina. Ou do primeiro cavalheiro da Venezuela. Era o que me faltava. Já dei para esse peditório, aliás nunca dei e não será com esta idade que vá dar.
Portanto o “sexismo”. O escrever para mulheres. Como se isso fosse pecado. Mas mesmo que fosse, e eu até me confesso pecador quantum satis, sempre diria que prefiro escrever para quem leia e perceba, do que para o boneco. E nunca percebi que o que escrevo não possa ser lido por qualquer criatura com a antiga quarta classe. A antiga, que a de agora, graças a uma sucessão de desastres, que culmina nesta actual senhora ministra, não dá para ler, sequer entender. E vai ser pior. As criancinhas coitadinhas não devem ser obrigadas a trabalhar, muito menos a decorar, sequer a ir às aulas. Como vêem nem todas as mulheres me caem no goto.
Dizem que a senhora é “socialista”. Mesmo com as aspas a coisa custa a engolir. E se de facto ela é isso então o que será a Frau Ângela Merkel? A mãe do Marx?
Voltando ao texto comentado pelo leitor José começo a pensar que mais dia menos dia tenho uma criatura poderosa à perna. Eu bem que me coíbo, que engulo em seco, que penso três segundos antes de me referir a estes pais e mães da pátria que os pariu mas não resisto. É que me dá a sofeca se não digo alto e bom som o que eles me parecem. E parecem tão pouco. Tão triste. Tão pobre...
Bem avisados andaram os da Tagus. Deixaram cair o tal orgulho heterossexual. Ficou o gay pride sozinho em cena. Mas orgulho de quê? A condição homossexual é assim tão fora de norma, tão especial, tão invejada que dê para orgulho? E os hetero terão vergonha? De quê? Será que o bom senso deu o fora, foi passar férias à nebulosa de Andrómeda e, no caminho de regresso, foi caçado por um buraco negro?
Perguntei a um amigo com opções sexuais muito diferentes das minhas e ele disse-me mais ou menos isto: olha pá, eu cá prefiro a Boémia. Como cerveja é o máximo. A Tagus, se queres que te diga, sabe a sabão macaco mas se existe é porque se vende. E se os seus consumidores são hetero que lhes preste. O mundo é grande e há lugar para tudo e para todos. Até para os bebedores de coca-cola...

Vai esta em memória do Sérgio Moutinho, morto numa praia desolada da Turquia. Era corajoso e inteligente. E achava normal a sua homossexualidade.

Na gravura: cartaz do filme "Au Bonheur des Dames" filme de 1929. Realização de Julien Duvivier com Dita Parlo

11 dezembro 2007

SABER SER OPOSIÇÃO

Um dos graves problemas do nosso sistema é que a oposição não sabe ser oposição, vai daí procura encontrar em tudo o que acontece um sinal para desancar no governo. Agora é o caso dos assassinatos dos seguranças. Já se percebeu que se trata de uma guerra particular, pelo controlo do negócio, que de todo não se pode tolerar, mas que está confinada a uma luta entre grupos que disputam o mesmo território.

Como é que a oposição trata este caso? Toma-o como se fosse uma guerra bairro a bairro, porta a porta, pede mais polícias, quer que o ministro vá ao parlamento explicar o que se sabe que não tem nada para explicar. O que a oposição quer é fazer chicana política, assustar as pessoas, criar um ambiente que mostre que a insegurança é sentida. Ou seja, quem está a aumentar o clima de insegurança é o PSD e o PP, com as atoardas que vão dizendo e que a comunicação social faz eco.

O mesmo se diga da presidência portuguesa da EU. Parece que há um consenso generalizado por esses países de que a presidência portuguesa correu mesmo bem. Contudo, por cá a oposição procura descortinar o que é que terá corrido mal ou menos bem para a partir daí construir um discurso derrotista. E ainda acusa o governo de se ter virado para a Europa e ter esquecido o país. Claro que se tudo fosse ao contrário e a actual oposição fosse governo e o PS oposição teríamos o mesmo discurso, de um e do outro lado.

Até parece que não há assunto que mereça a atenção da oposição. Mas basta ler as primeiras páginas dos jornais de hoje para se concluir que há matéria mais que suficiente para merecer a melhor atenção da oposição. De entre todos destaco a manchete do Diário Económico: “Justiça é mais corrupta do que futebol

passou


passou-te pela vida o amor,
pelo corpo,
encrespou-se o mar que eras.

o amor passou-te pelos olhos,
pelas palavras,
apanhou-te inesperado.

ao alto eras um corpo
e pensamentos amorosos,
um só milagre acordado na noite.

guardas nas mãos a memória
da vida te habitando os minutos
estremecidos .


silvia chueire

08 dezembro 2007

Concerto e desconsertos

Na Igreja de S. Lourenço, mais conhecida por Igreja dos Grilos, ali no Largo do Colégio, no bairro histórico da Sé, assisti a um concerto, "Sons e Timbres do Órgão Ibérico", pelo organista Giampaolo di Rosa, que executou obras de M. R. Coelho (1555-1633), P. de San Lorenzo (séc. XVII) e uma inédita composição do próprio.

A Igreja estava repleta. O povo gosta de Cultura. È gratificante ver que há adesão a este tipo de iniciativas.

No mesmo espaço está patente uma exposição temporária de obras de arte alusivas ao Natal, podendo também ser visitado e apreciado o rico e interessante espólio do Museu de Arte Sacra.

O acesso ao local é absolutamente vergonhoso. As escadas que da Sé descem ao Largo do Colégio estão entaipadas por razões de segurança. Não ameaçam ruína; antes estão em bom estado. O problema é que eram aproveitadas para consumo de droga, encontro de marginais e assaltos aos turistas e demais transeuntes.

O outro acesso é feito por ruelas estreitas, sujas e conspurcadas, com cães à solta e gente a importunar quem passa. É uma tristeza o estado a que chega a cidade, onde qualquer dia não se pode viver, nem circular ...

Triste sina a do Porto que nunca teve líderes de jeito, a não ser os que fazem muito barulho, absolutamente incoerentes, inconsequentes e ridículos. Em vez de se preocuparem com o Aeroporto de Lisboa, deviam pensar na sua cidade e na sua comunidade ...

07 dezembro 2007

Au Bonheur des Dames 103



Jamais? Jamais! Nevermore...


O senhor Ministro das Obras Públicas não é um poliglota. Se o fosse perceberia que jamais é mesmo jamais e que dizer que nunca (jamais) disse “jamais” é uma tolice que se paga caro. Basta para o efeito uma televisão ter gravado esse jamais agressivo e tonitruante sobre um putativo aeroporto na margem sul. No deserto, para sermos mais precisos e mais próximos do fraseado sempre pitoresco do senhor Ministro. Sª Exª disse jamais e parece até que bisou a palavrinha francesa. De facto ele pronunciou jámé num francês alusitanado e fadista.
Dizer na Assembleia que não tinha dito o dito é um tiro (outro...) no mimoso pé (pied) de Son Excelence. Dizê-lo em tom agressivo e desafiante é uma (como diremos sem correr o risco de ofender a augusta personagem e arriscarmos o pescoço tenro mas não tolo?) bizarria. É isso: uma bizarria. O senhor Ministro é uma criatura bizarra de memória curta a quem a conversão recente aos prodigiosos encantos do mercado não mudou o exagero na apreciação da realidade. Ou de como um converso é apenas o reverso da mesma medalha. Autoritária!....

Outro a quem o voto de silêncio faria um bem inominável é o dr Santana Lopes, o renascido. Alguém conhece o trabalho do senhor deputado? Alguém me pode dizer que é que ele fez ao longo destes últimos trinta e tal anos? Alguém tem constância da produtividade do dr Santana Lopes? O dr Santana foi deputado e enfant terrible durante demasiados anos. Lembram-se de alguma lei interessante, de alguma proposta arrojada e benéfica para o bem geral ou para a felicidade de algum outro português que não se chamasse Santana Lopes?
Da passagem dele pelos jornais como empresário, subsiste alguma grata recordação? E de quando foi deputado europeu? Comentador televisivo? Uma palavra, uma frase, uma anedota? Dirigente desportivo, o tal que descobriu mil malefícios em Canal Caveira? O clube que o elegeu ganhou algum título, ou, pelo menos, algum dinheiro? E da sua passagem pela Secretaria de Estado da Cultura? Bem sei que ele é o imortal descobridor desse tesouro musical que são os jamais ecoutés concertos para violino do falecido senhor Chopin. O mundo ouviu estarrecido a boa nova e espera ansioso desde há anos os concertos. E como Primeiro Ministro? Foi Sª Exª produtivo? De concreto produziu para o partido que agora, já reformado, o ampara e elege para a Assembleia, a maior derrota eleitoral de que há memória nos últimos sessenta anos (número que é mutável mas que se usa apenas para compreender todos os anos produtivos de Santana desde o primeiro vagido até à mal inspirada charla sobre a produtividade). O senhor Santana Lopes nem sequer produziu, no pais que o ouve assombrado, a monumental gargalhada que eventualmente mereceria. As pessoas ouvem-no e assobiam para o lado. Já não lhe ligam. Para produtor de frase sobre a produtividade dos trabalhadores portugueses é pouco. Muito pouco. Quase nada.

CONSUMO SUSTENTÁVEL

O discurso politicamente correcto, no domínio ambiental, passa por defender o consumo sustentável. É por isso que todos os políticos, de uma ponta à outra, defendem ( e bem) que o desenvolvimento económico deve compaginar-se com o equilíbrio do meio ambiente, sendo que este se materializa na alteração dos padrões de consumo; na redução e tratamento dos resíduos sólidos (lixo); no consumo racional da água; no tratamento e eventual reutilização das águas residuais (saneamento); na protecção das florestas.

Portanto, a ideia do consumo sustentável implica e determina que as pessoas, em geral, assumam uma outra atitude face ao consumo e modifiquem os seus hábitos no que respeita ao destino final do lixo ou resíduos que produzem, Digamos que o consumo sustentável implica que as pessoas se preocupem com o que acontece a montante dos bens que consomem e com o que acontece a jusante.

Ou seja, a promoção do consumo sustentável passaria por, logo na Escola, se ensinar que não se deve comprar o supérfluo e que antes de adquirir determinados bens, designadamente de consumo corrente, se deveria ter em conta os recursos naturais que foi necessário destruir para produzir esses mesmos bens, de modo a ponderar alternativas de consumo.

Ainda com a questão da ecotaxa sobre os sacos de plástico a mobilizar dirigentes políticos, que deste modo reduzem a discussão a uma questão financeira, paga taxa, não paga taxa, dei-me conta ao comprar o Público de hoje da quantidade de papel que trouxe comigo e que, porque não vou ter tempo para ler a maior parte daquilo, lá terei de mandar para a reciclagem papel e tinta que não teve qualquer utilidade.

Só para ficarem com a contabilidade, aqui vai o número de páginas que levou para casa quem comprou o Público de hoje:

Caderno principal 56
P2 24
Sup. Economia 24
Ípsilon 64
Inimigo público 12
Sexta 30
Caderno CCB 8
Caderno Worten 40
Caderno Guia Adm. Estado 116
Total de páginas 374
Claro que muitos outros jornais tiveram edições equivalentes. Amanhã, Sábado, os semanários ainda se excederão na produção de papel.

Quem é que falou em consumo sustentável? Quem é que falou em alterar hábitos de consumo? Porque não uma ecotaxa sobre os jornais? Por exemplo, por cada página acima de 30, pagava-se 10 cêntimos por página. Porquê 10 cêntimos? Porque é um número redondo, o que facilita as contas…

estes dias que passam 86

Alhos por bugalhos

Gosto de escrever aqui. Quem escreve, escreve para alguém. Nunca acreditei nisso de escrever para a gaveta, para nós, para o nosso umbigo. Todavia, quando escrevo, gosto que leiam o que escrevi e não o que acham que eu deveria ter escrito.
Isto por muito que essa exigência me possa honrar. Que alguém entenda que eu devia escrever sobre o cozinheiro com HIV porque espera que sobre isso eu diga algo de útil ou de interessante, pode satisfazer-me o ego mas pode também indiciar uma violência a que não estou disposto.
Mas, apesar de tudo, uma explicação: Não consegui, e com grande pena minha, apanhar todos os dados que me parecem necessários para me pronunciar. Mormente, os relatórios médicos que o tribunal analisou e que terão convencido os senhores juízes. E isso, havemos de convir, era fundamental. Se um perito médico acreditado junto de um tribunal vem dizer que a sida se transmite pela saliva, ou pelo suor, ao contrario do que rotundamente afirma, por exemplo, o João Vasconcelos Costa, reputado especialista, e para cujo blog remeto os interessados, dever-se-ia verificar os fundamentos em que se apoia. Também conviria conhecer a sentença e não os poucos parágrafos que se publicaram. Sem isso, nada feito. Podemos estar a falar de alhos quando os outros falavam de bugalhos.
Mas há mais. O meu comentador, dr Assur, quer, com pouca subtileza, ou isso me parece, que eu critique o que ele chama a “Orquestra Vermelha”. Ainda não consegui entender se esta nova orquestra é a dos defensores do cozinheiro ou apenas a dos que se acalmaram com a decisão. Em ambos os casos parece excessivo o apodo. A “orquestra vermelha” de Trepper foi uma organização de gente de exemplar coragem que operou no interior das linhas alemãs durante a guerra. Posteriormente os que não morreram às mãos dos alemães, foram quase todos liquidados pelo aparelho stalinista. Seja como for, trata-se de um grupo de pessoas cuja coragem e cujo sacrifício não têm comparação com os que defendem as duas posições sobre o caso do cozinheiro. Aqui ninguém arrisca nada sequer o nome se é que não usa pseudónimo.
Em terceiro lugar parece-me estultícia a mais vir forçar a mão do escrevente quando com toda a facilidade (e já aqui se disse há muito pouco tempo, aliás) que basta um mail para o blog para eventualmente se acolher um texto que, como também já disse, pode caber na minha secção “voz alheia”.
O que não tem pés nem cabeça é fingir que se comenta um texto dizendo qualquer coisa de completamente alheio a ele. E dizê-lo sob anonimato!!! Que eu de Assur só a velha civilização mesopotâmica. Estamos entendidos?
para compreensão do que aqui se escreveu cfr os comentários ao texto "o gato que pesca" 2

05 dezembro 2007

A QUERCUS E A ECOTAXA SOBRE OS SACOS DE PLÁSTICO

Bem pela manhã ouvi na rádio que o Governo se preparava para lançar uma designada ecotaxa de 5 cêntimos sobre cada saco de compras distribuídos nos super e hipermercados.

Um representante das grandes superfícies disse que achava muito mal aquela medida uma vez que já pagam uma taxa, para a Sociedade Ponto Verde, que tem por fim atender aos objectivos anunciados para a nova ecotaxa.

Na mesma sequência noticiosa, um representante da Quercus não só se congratulou com a medida como elogiou a coragem do Governo em lançar a nova ecotaxa, que no seu entender deveria financiar campanhas de sensibilização ambiental.

Mesmo ao fim da tarde, também na rádio, alguém ligado ao governo disse que não estavam a pensar lançar qualquer nova ecotaxa sobre os sacos plásticos, embora estivessem a estudar soluções alternativas ao uso do plástico. De seguida falou um representante da Quercus, muito zangado, porque o governo desistiu da tal ecotaxa de 5 cêntimos por saco.

De facto, o que há a lamentar é a perda da perda da fonte de financiamento das tais campanhas de sensibilização que a Quercus tinha em mente.

Au Bonheur des Dames 102


Vexata quaestio

O meu amigo João Vasconcelos Costa, reconhecido gourmet, cozinheiro de mão cheia (coisa que sofre uma reticência: ainda não provei petisco feito por ele...) e especialista em bichezas raras, maldosas e pequeninas, vulgo vírus & similares, mete-se muito comigo sobre o título desenfadado desta série. Au Bonheur des Dames faz-lhe espécie: ele acha-me um Barba-Azul casposo, aflito com a idade e libertino até dizer basta.
Convém esclarecer o ilustre açoriano (o homem é açoriano de Ponta Delgada, imaginem. O que eu não seria capaz de bordar à volta disto...) que “Au Bonheur... “ é obviamente o título de um dos volumes dos “Rougon Macart” do grande e esquecido Emile Zola. Duvido que tenha sido traduzido em português, o que é uma pena e uma perda para leitores menos atentos.
Eu esqueci-me de referir o facto quando há dias publiquei a 101ª edição destas crónicas que se pretendem amáveis e ligeiras. Ou melhor, achei que nem valia a pena, citar o ilustre autor do “J’Accuse”, peça clássica e memorável do chamado “comprometimento” intelectual. Zola, com esse texto, arriscou muito, se é que não arriscou a vida: há quem diga que morreu assassinado e por mão política e anti-semita.
Aqui fica a reparação. A Zola o que é de Emile.
Mas o titulo, de tão bom que é, tem utilizações diversas. Ele há filmes, obviamente tirados do livro, lojas (como a de Lisboa) cabarets, outros blogs (ou pelo menos assim sub-titulados) etc...
Só para o João aqui vai portanto uma referência a uma das utilizações: “soirées” no famoso club “Régine” só para mulheres!!!
Isto é para não me chamarem anti-feminista....


*na gravura: fotografia de um grupo de gentis senhoras da melhor sociedade parisiense numa soirée só para mulheres no "Régine".

Cafés e Tertúlias

Um interessante trabalho, dinamizado pelo A Defesa de Faro, um blog em que o futuro se pensa também pela evocação do passado.
Vejam, que vale a pena e é só clicar aqui!



(o que foi o) Café A Brasileira (antes "O Baleizão"), de cujos bolos de aniversário - ai, aquela "abelhinha", que surpresa marivilhosa foi! - ainda me lembro... )

Ao ler/ouvir o texto do vídeo, poderia imaginar exactamente a zona em que o meu pai "abancava" no café Aliança, não fora saber que, entre tantas outras coisa boas, ele se distinguia por não se encaixar nesse mundo socialmente estratificado que o vídeo refere... tinha entre os seus melhores amigos pessoas que se espalhariam por algumas das zonas do café descritas no vídeo, pelo que fico curiosa em saber se andaria de mesa em mesa ou se ia variando consoante os dias... Vou tentar averiguar :)

04 dezembro 2007

o gato que pesca 2

Agora nós ou
também queremos cumprimentar o dr. José António Barreiros

Olá a todos. “O gato que pesca” volta a estas páginas pela mão do nosso secretário mcr. Como sabem os gatos não escrevem. Não por ignorância mas apenas porque não precisam. Os gatos têm memória e por isso não precisam de reduzir a escrito as suas recordações. Somos ágrafos como certos povos africanos porque temos os nossos próprios “griots”. De resto não fabricamos papel, canetas ou computadores pela simples razão de que não precisamos deles. Os humanos produzem-nos e nós utilizamo-los se acharmos necessário.
Mas reparo agora que ainda não nos apresentámos. Como é sabido o nosso antecessor, paz à sua alma lutadora, morreu devido a uma doença fulminante. Causando um grande desgosto nos nossos hospedeiros. O mcr ainda o levou ao veterinário mas já nada se podia fazer. Eu estava lá muito quieta ao pé de um caixote metálico. A veterinária disse-lhe que eu já tinha mais de dois meses e que precisava de uma casa. No dia seguinte uma CG chorosa foi visitar-me e adoptou-me. Depois, mas isso é outra história, arranjaram-me uma parceira para brincar e viemos as duas para esta casa.
Hoje sou eu quem dita a crónica e a assina. Chamo-me Kiki de Montparnasse (Correia Ribeiro). O mcr diz que essa Kiki deu muito que falar durante os loucos anos vinte, foi modelo e musa de tudo quanto era surrealista, cubista, dadaísta sei lá o que mais. E escreveu um livro. Prefaciado pelo Hemingway, se fazem favor! Está publicado pela “José Corti” a editora que funciona na rua de Medicis mesmo em frente ao Luxemburgo. O mcr jura que ainda há de viver nessa rua!!! É bom que se apresse porque não vai para novo.
A minha partner chama-se Ingrid Bergman de Andrade e ditará a próxima crónica. Previno-vos já que ela é loira... e muito nova. Deve ter mês e meio o que explicará algumas confusões.
Todavia hoje, as duas queremos mandar um abraço ao dr. José António Barreiros brilhantemente eleito para o Conselho Superior da Ordem dos Advogados. Às vezes os humanos, juristas incluídos, têm um ataque de bom senso.
O mesmo bom senso que faltou à direcção do “Público” que ontem se esbarrondou com aquela notícia da vitória do Chavez na Venezuela. As desculpas ainda foram piores do que a notícia apressada e em cima do joelho. Aqueles inocentinhos da direcção editorial vieram dizer que todas as sondagens davam vantagem ao golpe de Estado constitucional (?) o que é esquisito porque o nosso hospedeiro ouviu noticiários da TV5, da TVE, da RAI 1 e da CNN que diziam exactamente o contrario...
O mesmo bom senso que volta a faltar aos dos Ministério dos Negócios Estrangeiros que insistem em esquecer que a política sem ética pode ser “real” mas é boçal. Um deles (nem vale a pena citar-lhe o nome porque aquela gente é toda fungível) até acha o Mugabe um tipo detestável mas... E neste mas vai um rio de indigência política e ética. Isto para não falar na pobre ideia que têm da grandiosidade da conferência... em Portugal esperam-se sempre novos milagres de Ourique de todo e qualquer evento. Foi assim que alugaram barcos para acolher visitantes numa Exposição em Lisboa que foi um fracasso de público. Como o foi o Porto capital cultural, os estádios que estão ás moscas mas que todos (gatas incluídas) pagámos etc, etc...
Neste capítulo de pagamentos o Porto leva a palma. Fez-se um edifício transparente que nunca ninguém soube para que servia. Ao fim de anos sem uso, concessionaram aquilo a meia dúzia de lojas e empresas de “eventos” tudo muito pobrete, muito tristonho com uma transparência que rima com indecência e pouca paciência para ver o que se faz dos dinheiros públicos.
Quando os humanos são cegos precisam de uma gatinha para os fazer ver.

na gravura: a Rue du chat qui pêche em Paris (5).

Phone-ix

Uma empresa pública, a CTT – Correios de Portugal, SA, está a lançar um novo operador de comunicações móveis a que deu o estrambólico nome de Phone-ix. Para agravar a coisa, assenta a sua campanha de comunicação áudio num derivativo simpático de um calão impronunciável: “fónix”!

Se os gestores dos CTT pretendiam notoriedade para a marca, talvez tenham acertado. Mas se os gestores dos CTT privilegiassem valores e atitudes, responsabilidade perante a sociedade e almejassem o respeito do cidadão comum, nunca dariam luz verde a um qualquer “marketeiro” que lhes vendesse uma ideia tão idiota.

Ainda Hugo Chavez

As coisas não correram bem. Quando todos se preparavam para desancar no homem. Quando muitos, durante semanas, o apodaram de tirano, ditador, falseador de eleições, revolucionário, amigo de cuba e do irão, depauperardor do povo venezuelano, mestiço, inimigo da propriedade privada. O que é que sucede? Chavez perde as eleições. Pior, muito pior, Chavez reconhece que perdeu as eleições.

Pior ainda, é que perdeu as eleições por uma margem mínima. As coisas não correram bem por isto mesmo. É que todo o discurso estava artilhado para usar o argumento da grande fraude eleitoral, para dizer que ganhou porque as eleições não foram livres, que fechou televisões, que reprimiu manifestantes, que amordaçou a oposição, que o povo se absteve por medo. Que…

Afinal, Chavez perdeu. Tenho curiosidade em saber como é que o discurso dos profissionais da “crónica” se vai ajustar

02 dezembro 2007

O Salto



O vazio das vidas faz-se vivendo o que nos acontece, caso a caso, problema a problema, refeição a refeição. Sem reflectir, apenas reagindo ás situações. E quanto mais nos entranhamos na resolução dos problemas que nos ocorrem, mais escondidos ficamos de nós e da essência da vida.

Não foi pela via da tomada de consciência do vazio da minha vida que se deu em mim o clique. Foi pela via do cansaço, da saturação. Foi puro sentimento, nada de racional. Já passei a fase de dizer, ou pensar, que foi a vida ou os outros que me trouxeram até aqui: na forma e no conteúdo. Se alguma coisa aprendi, neste processo, foi que o papel de passividade, de vítima, está reservado para os que se querem acomodar na sua infelicidade. É fácil nada fazer, nada mudar, invocando mil razões (todas exteriores a nós) culpando pessoas e situações pela nossa própria situação. Isso leva-nos à queixa sistemática. “Gostava tanto de… mas…” Puro engano. Somos vítimas de nós mesmo. Criamos as grades com que nos prendemos á vida que verdadeiramente não queremos.

Quando cheguei à conclusão que a minha vida dependia de mim muito mais do que eu pensava, senti colarem-se nos meus olhos umas lentes que me deram uma visão completamente diferente da vida. Passei a ver tudo à luz de um novo prisma. Como se tivesse saltado para o lado de lá e olhasse as situações como observadora “objectiva”, exterior a mim mesma.

Não consigo situar no tempo esse momento da viagem, mas a partir daí nada foi como dantes. Seria impossível analisar as coisas com outro paradigma e funcionar como o fizera até então. Num momento, senti-me sem defesas, em absoluto desamparo, no momento seguinte ganhei a força que me veio da consciência de ser dona de mim. Com limites, bem sei, mas muito inferiores aos que eu antes ficcionara.

Senti-me mais responsabilizada. Era tudo uma questão de opção. Ganha-se e perde-se sempre alguma coisa. O importante foi saber o que queria verdadeiramente de mim e da vida.

Foi um processo difícil. É mais fácil escondermo-nos atrás da vida do que enfrenta-la. Hoje sinto que o percurso que fiz me trouxe até mim. À essência do que sou e quero.
Dei o salto.

01 dezembro 2007

Notas breves

1. Começou esta semana o julgamento de um ex-vice-presidente da Câmara de Marco de Canaveses, Lindorfo Costa, acusado de quinze crimes de abuso de poder. Este julgamento está intimamente relacionado com as práticas de gestão dos executivos liderados por Ferreira Torres. Um fait-divers curioso: o advogado de Lindorfo Costa é um antigo vereador socialista, candidato pelo PS à presidência da Câmara em 1989 e 1993, depois contratado como advogado e consultor jurídico da autarquia, e que teve direito a figurar na primeira página do “Expresso” quando Ferreira Torres tentou morder-lhe (ou mordeu mesmo?!) a orelha num debate na rádio local.

2. Os dois maiores partidos estão quase a firmar um acordo para a revisão da lei eleitoral das autarquias. Ao que parece vai haver apenas a eleição da Assembleia Municipal, sendo que o primeiro eleito da lista vencedora será o presidente da Câmara e o partido vencedor terá sempre a maioria no executivo. A Assembleia terá poderes reforçados e o presidente da Câmara escolherá os vereadores entre os membros do seu partido eleitos para a Assembleia. Por mim, defenderia uma maior liberdade para o presidente poder escolher os seus vereadores de forma inteiramente livre, podendo ir buscá-los fora da lista partidária. Penso ainda que a presença da oposição no executivo, sempre minoritária no futuro, poderia ser substituída com vantagem pelo reforço efectivo dos poderes de fiscalização da Assembleia.












de saudades


tenho saudades de Lisboa quando o verão avança
poderoso e úmido seus dias em fogo
suas chuvaradas repentinas
e o ar parece
nossa roupa colada no corpo

tenho saudades do outono no céu
azul de Lisboa
o Tejo iluminado e mutante
as folhas amarelas sobre as calçadas
e o Bairro Alto
no alto da noite


silvia chueire

*apesar de aí não ser outono agora.

30 novembro 2007

Farmácia de Serviço 40


Ai os livros... (mais do mesmo!)

Eu tinha jurado a mim próprio que este ano ia ser de vacas magras. Pouca compra que o que por cá o que mais há é livros em lista de espera.
Mas o vício espreita a cada canto e as oportunidades saltam-nos ao caminho descaradamente.
Desta feita foi uma coisa que provavelmente vos despertará alguma reminiscência: A “Residência de Estudiantes” essa extraordinária instituição madrilena onde nos anos trinta se encontraram Lorca, Dali, Buñuel, Cernuda, Altolaguirre e Bergamín. Para não falar noutros frequentadores, Alberti à cabeça.
Agora a “Residência” é uma fundação muito embora ainda hospede por curtos espaços de tempo escritores e artistas. E é também uma editora! E que editora! Tenho aqui, acabadinhos de chegar, fresquíssimos portanto, cinco títulos de encher o olho e esvaziar a algibeira: “Luís Buñuel, el ojo de la libertad”, “Alberti, sobre los angeles”, “Ruedo Ibérico, un desafio intelectual”, “Luís Cernuda, álbum” e “Pablo Neruda, álbum”. Estes dois últimos são foto-biografias, muito ilustradas, capa dura, uma delicia. O Alberti é um catálogo lindísimo (como o Buñuel...) mas traz incluído o famoso livro que lhe dá título em fac-simile. Finalmente o catálogo do Ruedo ( e deve haver por aí alguém que lhe tenha frequentado a livraria em Paris, na R. de Latran) resume uma aventura a que nós portugueses deveríamos também estar gratos pois aquela casa e aquela editora também dedicaram alguma atenção às nossas desgraças. A Residência tem um belo site (www.residencia.csic.es) mas quem quiser encomendar fará melhor em telefonar. As pessoas de lá são atenciosas, entusiastas e percebem portunhol.
Sempre de Espanha, três novidades dignas de atenção: “sagas islandesas de los tiempos antiguos” (recolha de quatro sagas que à vista desarmada, não constavam de nenhuma recolha que eu conhecesse (e juro que conheço uma boa dúzia...). A responsabilidade da tradução é de Santiago Ibañez Lluch e a editora é a Miraguano. Sai a 15€. Um pouco mais caro deverá ser o último Reverte: “Un dia de cólera” (Alfaguara): o dois de Maio revisitado por um prosador ágil e competente. Finalmente é de chamar a atenção para o prodigioso Javier Marias de que se publicou há dias “Veneno y sombra y adios” terceira e ultima parte de “Tu rostro mañana”.
Passados os Pirinéus, suponho que já aqui referi uma revista chamada Telerama, muito orientada para as notícias do mundo dos espectáculos nomeadamente a televisão. Saindo dessa trivialidade a Telerama apresenta um copioso número de “hors-serie” de altíssima qualidade. Dei por eles graças a um admirável “René Char” e descobri depois que, de Brassens a Chagall, de Tati a Cézanne, de Verne aos Renoir pai e filho, há ainda disponíveis mais sessenta títulos. (www.telerama.fr) Com sorte e choradinho eles fazem 6€ por exemplar.
Na farmácia anterior referia a editora musical “brilliant classics”, um fenómeno de preços baixos e alta qualidade. Então não é que eles publicaram mais um caixote com as integrais sinfónicas de 12 conspícuos cavalheiros (Mozart, Beethoven, Haydn, Schubert, Mendelsohn, Schumann, Brahms, Mahler, Nielsen, Chostakovitch, Borodine, Dvorak e Muzio Clementi (1732-1832, de que nunca ouvi falar! )) São cem discos por 85€... Esperemos que a Fnac de cá se lembre de mandar vir. Senão já sabem: abeillemusique.com.

29 novembro 2007

Farmácia de Serviço 39

Consumismo natalício

O Natal ronda-nos a porta e boa parte das pessoas esfrega as meninges à procura de uma ideia para sair da monotonia dos presentes sempre iguais. E, já agora, presentes não muito caros que o forno, como dizem os vizinhos do lado, não está para bolos.
Esta botica não tem grande variedade de artigos. Isto é artesanal pelo que não procurem demasiadas coisas. Para isso há os chineses, a FNAC e outras catedrais do consumo. De todo o modo não creiam que arrenego da FNAC. Era o que faltava. Volta e meia há lá belas surpresas e será por aí que começaremos.
A livralhada na FNAC é o trivial. Aquela malta arrisca pouco e não está para aturar as pequenas edições, mormente de poesia. Mas na música a coisa fia mais fino. Com sorte poder-se-ão encontrar alguns mimos e dentre eles, sempre se recomendarão algumas antologias da Callas, a inimitável. Há para todos os preços desde um duplo chamado “una voca poca fa” (Black Box BB229) até a edições completas ou quase.
Anda também por lá uma colecção “Quadromania” que, por parcos maravedis, oferece duas óperas diferentes em versão integral. Alguém me disse que ouviu o volume que traz “A sonâmbula” de Bellini e a “Lucia de Lammermoor” de Donizetti e que ficou muito agradado. Eu segui-lhe o conselho e já aprontei um presente com estes dois conjuntos.
Por menos de 50€ anda pelas mesmas paragens o caixote dos “50 ANOS da Harmonia Mundi”: soberbo!
Para voos um pouco mais altos mas ainda acessíveis (?) aí está em todo o seu esplendor a caixa com a “Integral” de Beethoven, uma produção da Brilliant Classics.
Finalizemos com a colecção “Les trésors du Jazz” (Le Chant du Monde”). O 1º “coffret” é de grande qualidade, garanto-o porque o ouvi. Aliás, tenho por hábito só recomendar o que conheço.
Abandonemos a FNAC e passemos à importação: quem resolver explorar a abeillemusique.com encontrará excelentes surpresas sobretudo nas edições “Opera Rara”. A “Opera Rara” é como o porco: aproveita-se tudo: saiu agora na colecção “Il salotto” o volume 11º : La Serenatta. Pela parte que me toca já o mandei vir.
Ando há muitos anos atrás de “kwelas”, essa música suburbana da África do Sul. Recomendo três autores de grande gabarito: Spokes Mashiyane, Hugh Masekela e Donald Kachamba. Do primeiro há um título glorioso: “King Kwela”. No mercado de 2ª mão anda pelos 90€ (!!!). Quem quiser uma introdução a esta música vigorosa procure “A long way to freedom”. Está na Amazon.fr
E agora a livralhada. Para além do imperdível “Ir para o Maneta”, um exercício de inteligência, só uma dica: “Kalevala”. Eu sei que isto parece difícil. Não é. Leiam duas páginas ao calhas e depois digam-me o que pensam. Para quem não sabe, o “Kalevala” é uma espécie de rapsódia, ou um poema constituído por centos de poemas de raiz popular. Ah, esquecia-me, é finlandês. Mas em tradução portuguesa: um doido chamado Orlando Moreira leu aquilo, espantou-se, e vai daí traduziu a coisa a partir de várias traduções em línguas menos estranhas. Eu não sei finlandês, nem o vou aprender, era o que faltava nesta idade mas há muitos anos, quase 30, caiu-me na unha uma edição deste longo poema. Em francês na edição absolutamente louvável de Jean-Louis Perret (Stock Plus, Paris 1978). E fui lendo devagar devagarinho. Acabei a leitura oito anos depois, em Murnau, entre bávaros bebedores de cerveja e malta estudante do Goethe-Institut. Conheci aí uma finlandesa (honny soit...) que primeiro espantada e depois interessada me forneceu um par de explicações sobre o autor, Elias Lönnrot. Este cavalheiro percorreu a Finlândia de lés a lés recolhendo centenas ou milhares de canções populares que depois com espírito de cerzideira uniu. O resultado é prodigioso. A editora chama-se Ministério dos Livros e começa bem, muito bem. Com estrondo. Leitores e Amigos: folheiem o livro, leiam uma ou duas páginas e façam um favor a vocês mesmos: comprem aquilo que não se arrependerão. É para ler devagar, ao sabor do acaso, com a idade esta poção só melhora. A edição é bonita, o livro vem encadernado, a letra é gorda e na tradução sente-se muito amor pela literatura. Mesmo quando (e acontece) se discorda de um ou outro termo...

28 novembro 2007

Au Bonheur des Dames 101


100!!!

Pois é leitorinhas gentis. A série “Au Bonheur des Dames” atingiu, entre trancos e solavancos, o bonito número 100. Ora toma lá que já bebeste! Então eu já vos incomodei cem vezes? Cem vezes é um modo de dizer que andam por aí outras escrituras que mesmo descontando alguma fantasia no seu cômputo (e só Deus, a Madame Kami e o leitor Manuel Sousa Pereira é que lhe conhecem todos os desvios, desatinos e confusões) já devem perfazer um numero bem redondo.
Não sei bem como tudo isto começou. Ou melhor, esgaravatando a memória exausta fico com a ideia de que tudo se deve a um desafio do caríssimo Lemos Costa, patriarca in partibus deste blog, neste momento em parte incerta, e do Manuel Simas Santos que, fosse eu Pinóquio ele seria o grilo da consciência. O raio do homem só me arranja sarilhos. A ideia dele é que eu sou preguiçoso (alguma razão terá) e que por isso devo fazer muita ginástica sueca, ler livros de Direito (chiça!) e vender a minha força de trabalho (tal e qual, o homem tem as suas leituras sinistras) a quem for suficientemente ingénuo para me contratar.
Eu, claro, faço-me de parvo (e se alguém daí disser que não me será difícil, que se acautele...) e deixo correr o marfim, tentando ver se ele se esquece. Mas não. Aquilo é um elefante teimoso e, só para me livrar dele, vezes há em que acabo por fazer o que me pede. E foi assim que comecei a colaborar nesta barca. De todo o modo, fintei-o: quando aqui cheguei imperava (mas não exclusivamente) a colaboração de carácter jurídico. Ora eu, para esse peditório, já tinha dado mais do que suficiente. Ainda por cima estava desde há muito desligado dos mundos jurídicos de modo que por muito que espremesse a moleirinha nunca sairia nada de interessante. Quem não tem cão caça com furão, e eu à falta de matéria substanciosa dediquei-me às croniquetas.
Para dar alguma unidade a tais escritos, lembrei-me de um nome que, por mais voltas que desse ao miolo, não recordava a origem. Alguma vez nos longínquos anos 60/70 vira um cartaz ou algo no género com este título “Au Bonheur des Dames”. Onde e quando é que era mais complicado. Todavia, por várias vezes ao subir o Chiado tentei ver se seria dali que me vinha essa memória precária. Nada! No Chiado, que eu percorrera vezes sem conta com uma alegre comandita onde se destacavam os irmãos Salomé (Vitorino, Janita, Manel) o Cabeça de Vaca (já lá descança) o Hipólito Clemente (idem, aspas, aspas) o Fernando Assis Pacheco e sei lá mais quantos, não sobrava nenhuma placa com esse nome tão franciú e tão de outra época.
Tenho felizmente um par de leitores amigos e entre eles, o escultor Manuel Sousa Pereira, ocasional peripatético lisboeta, fotógrafo de longe em longe e marceneiro de estimação cá de casa (neste momento anda a fazer-me uma pequena estante e seria bom que quando lesse isto já a tivesse pronta...). Mais abrangente do que eu na pesquisa, deu-lhe para subir a Rua do Carmo sempre a olhar para o alto dos prédios com risco da própria vida pois consta que chocou com o carro dos fados, ali a meio da citada rua. Atropelou-o, valha a verdade, mas a carripana magnânima não se queixou. Ora ao passar por uma coisa em forma de assim (ou melhor: uma coisa assim de informe) com um nome ridículo e pouco condizente com o minimalismo do que dentro ostenta, reparou no antigo nome do estabelecimento, uivou um eureka que se ouviu na Brasileira e, zás!, tirou uma fotografia, esta, que ora ilustra a crónica.
Leitoras que aqui chegaram: digam-me lá se o antigo nome da loja (e eventualmente a antiga loja...) não tem muito mais graça do que aquele anódino “empório”?
Por mim até agradeço: ninguém me vem disputar o uso do título destas crónicas que adquiri, não direi por usucapião mas por estar simplesmente ao abandono. Já o Dr Marcello Caetano, quando se viu cercado ali perto, chamou o general Spínola para “o poder não cair na rua” (onde aliás estava e se manteve um bom ano e meio). Eu também Marcelo, mas só com um “l”, fiz o mesmo que o general. Apanhei do chão como salvados de um incêndio as quatro palavrinhas francesas “au bonheur des dames” limpei-lhes o sarro, a fuligem e as manchas do tempo e das chuvas ácidas, e aqui lhes vou dando uso. Se com muito, pouco ou nenhum êxito não sei. Espero todavia que, uma que outra vez, alguma leitora me premeie com um sorriso. O cronista contenta-se com esse pouco que para ele é muito.

27 novembro 2007

Aviso avulso (mais um)

As boas causas exigem meios adequados e, já agora, educados. Não sei bem porquê mas, volta e meia, nos meus "posts" aparecem coisas extraordinárias a título de comentário. Não, não se trata de insultos, chammadas de atenção, recriminações... Nada disso. Trata-se, tão só, de manifestos, comunicados diversos que nada têm a ver com o que disse ou escrevi mas com interesses de quem aproveita esta porta aberta e franca para publicitar o que lhe interessa.
Desta feita é uma senhora que pretende apresentar uma petição na assembleia da república sobre o dever do Estado proteger as crianças vítimas de abusos sexuais.
Para cúmulo assina com pseudónimo! Ou seja: eu aqui a dar a cara e esta senhora que não conheço de lado nenhum entra pelo meu texto como quem entra no moínho da Joana e autonomeia-se "curiosa".
Eu mesmo sobrescreveria a petição se percebesse exactamente o que se pretende o que não é o caso. Tal como vem parece algo sem definição, a menos que por isso se aceite apenas o tom geral e generoso. O que é pouco, muito pouco. Se queremos amarrar o Estado e/ou o Parlamento a uma obrigação o melhor é defini-la logo, indicar o seu alcance, todos os seus fins e todos os seus sujeitos.
Isto no caso vertente. Mas já fui alvo, ou involuntária boleia, de publicidades mais directas: vá ler o blog X ou Y. Leiam o artigo Z ou W.
Ora bem: eu não me importo nada de conversar com quem aqui vem e parece-me que já dei sobradas provas disso. Sou sensível a apelos desde que os perceba. Não seria melhor, mais útil, eficaz, mandarem-me um mail para mim ou para o blog (como aliás é possível e já aconteceu inúmeras vezes)? E aí exporem o que pretendem, pedindo, se for caso disso, publicação aqui. Eu até tenho uma secção chamada "voz alheia" perfeitamente adequada para tais solicitações.
Claro que isto não significa nem pode significar que se publique tudo o que cá chega: há um limite e esse é, obviamente, o meu acordo específico e a consciência de que os meus companheiros de viagem também não estarão contra. Mas dentro destes larguíssimos limites cabe muita coisa, mais de certeza do que o que chegar.
Agora, aproveitar a franqueza de um comentário, sobre o qual não há qualquer controlo da minha parte (ao contrário de quase todos os blogs que conheço e para onde envio de quando em quando uma contribuição sob a forma de comentário) para vender a mercadoria parece-me uma falta de educação (desculpem mas não há outro termo) e um abuso. Mesmo que os motivos sejam os melhores e os mais evangélicos.
Continuarei a não entravar o direito ao comentário do que aqui publico. Não me apetece fazer censura prévia que bastante sofri com ela no tempo da outra senhora. Mas provavelmente e se as coisas continuarem assim terei que aprender a apagar textos intrusivos e absolutamente estranhos à mercadoria que aqui vou expondo. O que além do mais me vai dar trabalho. Poupem-me, criaturas de Deus!