07 fevereiro 2009

Se eu fosse militante do PS

Aproxima-se o congresso do PS e decorre por esta altura a campanha, junto dos militantes, para esclarecimento sobre as moções de estratégia e preparação da eleição dos delegados ao congresso. Não sou militante do PS, mas se o fosse empenhar-me-ia na defesa da candidatura de José Sócrates. Sem dúvidas e sem reservas.
A reeleição do secretário-geral do PS, desta feita sem adversários na corrida interna, é de importância acrescida nestes tempos conturbados. A crise que aí está exige lideranças fortes por parte dos partidos de poder e, no caso do PS, essa liderança de Sócrates deve ser reforçada a pensar no próximo acto eleitoral. Por isso, é pena que os seus adversários, que os há, não tenham assumido nenhuma candidatura a este congresso.
Nem tudo foi excelente nestes quase quatro anos de governação, é verdade, mas basta recordarmo-nos do que foram os anos antes de Sócrates para imaginarmos o que seria o regresso ao passado. Por outro lado, um PS refém das minorias, à direita e à esquerda, poderia trazer sérios problemas de (in)governabilidade.
O governo do PS interveio em sectores como a segurança social, a solidariedade, a justiça, a educação, a reforma da administração pública. Apostou na quebra de alguns monopólios instalados. Enfrentou com coragem as forças de pressão de algumas corporações. Umas vezes melhor, outras menos bem. O balanço que faço, no entanto, é bastante positivo. Sei que muitos dos leitores não concordarão, mas estou certo que a maioria acompanhar-me-á nesta avaliação. Veremos nas próximas eleições quem está mais próximo da razão.

Citius: segurança electrónica

A propósito da polémica surgida com a segurança do sistema processual electrónico dos tribunais, a Ordem dos Advogados publicou informação que garante a fiabilidade do uso do certificado digital dos advogados.

Au Bonheur des Dames 171

Malhar, diz ele

Abram alas! Passa o Malho!
Chapeau bas! Viva o pimpolho!
E é tratar de abrir o olho,
Porque ele vem de chanfalho.

Lembram-se do Joãozinho das Perdizes? Se calhar não... já ninguém lê Júlio Dinis, escritor malogrado, morto demasiado cedo para poder ser conhecido por mais alguma coisa do que “A morgadinha dos canaviais”, “Uma família inglesa” ou as eternas pupilas.
Se as leitoras se derem ao trabalho verificarão, contudo, que JD pintou como nenhum outro a mudança social e política. Foi um cronista do fontismo ou pelo menos da vontade de mudar o país. E em “Os fidalgos da casa mourisca” mostra como a decadente aristocracia rural começa a ser substituída pelos empresários agrícolas que em breve os substituirão.
O Joãozinho, pitoresca criação sua, era um reaccionário de bom coração que varria feiras a varapau. Malhava forte e feio nos adversários, fiado na sua força, na sua classe e no punhado de apaniguados que lhe deviam obediência. E gabava-se disso.
Do que ele gostava era de malhar na esquerda, se por isso pudermos significar os arautos de um Portugal que tentava emergir do espesso mundo rural nortenho.
Deixou, como parece agora comprovar-se, discípulos. Que gostam de “malhar”. Malhar nos adversários mesmo que estejam no mesmo partido ou, no que se convencionou chamar “esquerda”. Podia dar-lhes para “malhar” na Direita, ainda que isso pareça um problema porquanto, e aos olhos de muito boa gente, o partido dos malhadores, ou caceteiros costume ancorar por essas bandas. Como é o caso, diga-se de passagem, quando um partido socialista resolve pôr princípios na naftalina e fazer mal o que a direita costuma fazer bem.
Parece que esta fúria de varapau atacou agora o dr. Santos Silva. Endoidou-o a pontos de o fazer confessar essa pulsão pauliteira à boca de um microfone, perante um auditório regougante. A ocasião presta-se a estas bravatas à velha moda de Fafe: o líder é atacado e a melhor defesa é varapau nos que aparecem. Enquanto o marmeleiro vai e vem, folgam os fripóres...
Não deixa de ter graça, o dr. Santos Silva apontar o trabuco à “esquerda chique” presumindo-se que isso significará o Bloco onde, como ele estará lembrado, ainda há um par de antigos trotskistas, com quem fez nos anos de juventude algum caminho.
Nestas coisas de gente que vê a luz e se converte, raras vezes se falha um velho rancor contra os antigos camaradas. Santos Silva elegeu essa rapaziada “gauchiste” como alvo. E o PC, claro. O PC é o punching ball das impotências socialistas ou que se afirmam como tal. À falta de um bey de Tunes para chibatar (como mandava Eça) serve o PC. E agora não só serve como convém: está em crescimento, ameaça com a sua candidatura autónoma retirar o tapete na Câmara de Lisboa, é vigoroso nas ruas sobretudo porque com a sua experiencia e com a sua capacidade polariza os descontentamentos sociais.
S.S., com o seu tom de Vichinsky, com um toque de Jdanov, mete tudo no mesmo saco, oposições e críticos internos, e afinfa tonitruante com a promessa de “malha” em que se opuser. Nem nisto é original. Já o camarada Coelho, agora travestido em empresário, ameaçava nos bons tempos que “quem se mete com o P.S. apanha”. Não parece que essa premonição de Coelho tenha tido ganho de causa mas já ninguém se lembra dessa fanfarronada. Nem de Coelho, acolhido agora ao eremitério de uma sinecura aprazível e bem paga. Não é único ex-dirigente do P.S. a poder gozar os benefícios de uma “retraite dorée”, que os exemplos abundam. Chega-se a pensar que há quem só queira chegar a altos cargos partidários, políticos e governamentais para rapidamente “passar à peluda” no seio de uma empresa generosa e grata. E que pague bem, convém acrescentar. Que pague muito bem, que ainda há.
O Joãozinho das Perdizes, no romance daquele que poderia eventualmente ter sido uma espécie de Balzac português, acabou por se retirar das lides façanhudas e acatar a nova ordem. Já não recordo como se converteu à nova economia e que destino lhe dá Júlio Dinis. Nem isso interessa. Este joãozinho é apenas lembrado por um velho e inútil cronista, perdido num blog entre tantos outros para provação de escassas mas gentis leitoras que lhe aturam os humores bilioso e colérico. Ou, por outras palavras, não ficou na história. E os seus modernos clones deste século XXI e português também não.

* a quadra inicial veio publicada dentro de um soneto no nº 1 de O Malho em 20 de Setembro de 1902 e era assinada por Lingua de Mel como informa o blog brasileiro memoriaviva

06 fevereiro 2009

05 fevereiro 2009

A caminho de Damasco


Acontece a quem não está atento, não reconhece a diferença, não tolera a diversidade.

Quando encontra a verdade, cai do cavalo, dá com a cara no chão, vê estrelas, perde a visão, tem necessidade de redescobrir a comunidade e aprender tudo de novo.

Assim começou o processo da chamada Conversão de S. Paulo, a caminho de Damasco.

Ia a pé, como a pé foram todas as suas viagens.

Mas a queda do cavalo é uma imagem mais adequada e expressiva na obra de Caravaggio.

Diário Político 100


O país “positivo

Não, não é nenhuma piada a quem quer que seja mas apenas uma resposta a um boletim luxuoso que volta e meia aparece nas caixas do correio, em separatas de jornais, um pouco por todo o lado. Ao lê-lo, fica-se com a vaga ideia que nos falam de um outro país de fantasia onde o crash de um banco não vai já nos 1800 milhões de euros. Ou seja só por aí já estamos cada um de nós, portugueses, a arder em 200 euros por cadáver. E a procissão ainda vai no adro porque ninguém garante que o descalabro não é ainda maior.
Em Dezembro noticiava o circunspecto Público que tinham fechado mais de doze mil empresas. Doze mil! Púnhamos que eram todas pequenas, pequeninas, mesmo assim devem andar pelos cinquenta, sessenta mil desempregados. O problema é que atrás delas aparecem as médias e as grandes. As quimondas e as têxteis, as do calçado e as da construção. Amorim despede cento e tal trabalhadores, a Sonae fecha fábricas por enquanto lá fora mas quem garante que cá dentro as não fechará? As empresas que fabricam ou montam, melhor dizendo, automóveis vão aliviando cadencias, suprimindo turnos, “dispensando” trabalhadores temporários, propondo dias de fecho etc...
Sou frequentador ocasional mas obrigatório de uma loja de computadores (que aliás já não tem material para venda) onde vou resolver pequenos problemas das minhas máquinas. Apareço por volta das onze e sou sistematicamente a primeira pessoa que os dois empregados (eram cinco...) vêem. De manhã é assim. Deve ser do frio.
À tarde, as coisas melhoram, disseram-me mas não há engarrafamentos...
Na pastelaria onde bebo o primeiro café da manhã enquanto leio o jornal há agora sempre mesas, muitas mesas. O mesmo se passa na esplanada. Deve ser do frio...
Amigos meus que trabalham num departamento da Segurança Social dizem-me que na Unidade Jurídica e, particularmente no sector de apoio jurídico triplicou o número de requerentes. Triplicou! Isto significa que mensalmente aparecem mais dez mil pessoas a requerer ajuda para accionar empregadores, defender-se de senhorios que exigem o pagamento das rendas, etc... É o inverno.
Num prédio aqui ao lado, acabado de construir, anuncia-se um desconto de 50.000€ por casa. Cinquenta mil euros leram bem. Dez mil antigos contos. Os preços das casas contraem-se com o frio, como se sabe. Há que esperar o verão para ver se descontraem.
Os saldos de Janeiro começaram no dia 26 de Dezembro para os estabelecimentos mais pudicos mas a coisa começou bem antes para muitos outros. Como se não acreditassem no Natal nem na pulsão consumista dos portugueses.
Mas o país, na versão cor de rosa da revistinha, continua positivo.
Claro que nas duas ou três últimas semanas estas questões estiveram submersas devido á maré alta do Fripór para utilizar a pitoresca pronúncia do senhor engenheiro. Convenhamos que esta avalancha noticiosa (oriunda como se sabe de uma central moscovita ou fascista maldosa e interessada em levar a cicuta ao seu natural destinatário) foi uma bênção para o Governo. À uma porque, como em Shakespeare, até agora há “muito barulho por nada”. Depois porque muito mais grave do que os pecados reais ou imaginários do senhor primeiro ministro é a sua incapacidade (dividida com as luminárias que trouxe para o Governo) cada vez mais exuberante em atalhar o mal-estar, a angústia, o medo de centenas de milhares de cidadãos trabalhadores. Enquanto se discute se os do fripór compraram ou não personalidades repolhudas ou apenas, como se vai ver no fim, dois moços de recados, folgam as costas dos responsáveis das Finanças, da Economia, do Trabalho etc..., do Governo no seu conjunto.
E é no meio desta enxúndia de notícias sobre coisa escassa que se oferece ao indigenato local um campeonato de futebol a meias com a Espanha. Eu sei que é para daqui a um largo par de anos mas o simples facto de isto perpassar na cabecinha pensadora dos madails do costume aterra-me. Primeiro parece que se esqueceram do flop de há poucos anos. Depois aí estão estádios enormes mais mortos que os ossos de um dinossáurio e mais desertos do que uma praia em noite de inverno e tempestade. Mas há pior: daqui a seis sete ou dez anos estes depauperados estádios vão necessitar de obras, de serem modernizados, sei lá mais de quê. E quem paga? O BPN? O BPP? Madaíl y sus muchachos? Ou apenas, e como de costume, a peonagem?
A revisteca positiva poderia, já agora, e logo ela que adora o turismo, referir que desde inícios de 2007 e até pelo menos o verão de 2008 o pais foi percorrido por uns turistas singulares e encapuçados. Da ETA, para ser mais preciso. Da ETA, como consta das famosas instruções de um Txeroki que o pariu aos membros de um dos últimos comandos desarticulados pela polícia espanhola. Para já só se registaram três automóveis roubados, o último dos quais encontrado em Salamanca e albergando umas cargas de explosivo não detonadas. Se ao menos esse material tivesse cá sido comprado...

estes DP é o nº 100. Nunca pensei aqui chegar! Mas cheguei. Confesso que se soubesse que era este o número me teria esmerado em falar de outra coisa. Mas os homens põem e a circunstância dispõe. E a circunstância é esta: um alçapão que vai andando um passo à nossa frente.

d'Oliveira

A Jornada do Homem

Ontem fazia anos. E foi um dia cansativo, enervante, sempre a correr contra o tempo, para cumprir as tarefas inadiáveis. E quando saí do escritório, confesso, sentia-me triste e cansado.
Passei na papelaria e vi um vídeo. Como ninguém me tinha dado prenda, resolvi comprá-lo. Custou, salvo erro, 1,40. Cheguei a casa e resolvi vê-lo.

E senti-me feliz.

O vídeo em causa, produzido pela NGM, demonstra que da análise do nosso sangue resulta que todos os homens são irmãos. Isso revelam os marcadores genéticos e a sua sucessão no tempo. s nossos antepassados, que surgiram em África, migraram para a Ásia Central e, daí, uns seguiram para a Europa e outros para o extremo oriental da Ásia, donde passaram à América.

Vale a pena ver

Tradicionalistas, Excomunhão e Holocausto

A Secretaria de Estado da Santa Sé, publicou a seguinte nota:

"Na sequência das reacções ao recente decreto da Congregação para os Bispos, que levanta a excomunhão dos quatro prelados da Fraternidade São Pio X, e em relação às declarações negacionistas ou reducionistas da Shoa [Holocausto] pelo Bispo Williamson da Fraternidade, que considera-se oportuno clarificar alguns aspectos da questão.

1. Levantamento da excomunhão.
Conforme foi tornado público anteriormente, o Decreto da Congregação para os Bispos, datada de 21 de Janeiro de 2009, foi um acto em que o Santo Padre respondia favoravelmente aos repetidos pedidos do Superior Geral da Fraternidade de São Pio X.. Sua Santidade quis eliminar um obstáculo à abertura de uma porta para o diálogo. Espera agora que a mesma disponibilidade seja expressa pelos quatro bispos na plena adesão à doutrina e disciplina da Igreja. A gravíssima pena de excomunhão latae sententiae, em que os referidos Bispos incorreram em 30 de Junho de 1988, formalmente declarada em 1 de Julho do mesmo ano, foi consequência da sua ordenação ilegítima de Monsenhor Marcel Lefebvre. O levantamento da excomunhão libertou os quatro bispos de uma grave pena canónica, mas não mudou o estatuto da Fraternidade de São Pio X, que actualmente não têm reconhecimento canónico na Igreja Católica. Os quatro bispos, apesar de terem sido libertados da excomunhão, não têm uma função canónica na Igreja e não exercem licitamente um ministério na mesma.

2. Tradição, doutrina e Concílio Vaticano II.
Para um futuro reconhecimento da Fraternidade de São Pio X é condição indispensável o pleno reconhecimento do Concílio Vaticano II e do Magistério dos Papas João XXIII, Paulo VI, João Paulo I, João Paulo II e Bento XVI. Tal como já foi afirmado no decreto de 21 de Janeiro de 2009, a Santa Sé não deixará, do modo que julgar oportuno, de aprofundar com os interessados as questões ainda em aberto, de modo a atingir uma plena e satisfatória resolução dos problemas que levaram a esta dolorosa fractura.

3. Declarações sobre a Shoa
As declarações sobre a Shoa do Bispo Williamson [da referida Fraternidade de S. Pio X, q1ue não está integrada na Igreja Católica, por ser cismática] são absolutamente inaceitáveis e fortemente rejeitadas pelo Santo Padre, como ele lembrou em 28 de Janeiro, quando se referiu a esse abominável genocídio, e reafirmou a sua total solidariedade com nossos irmãos indiscutíveis destinatários da Primeira Aliança, e disse que a memória daquele genocídio terrível deve conduzir "a humanidade a reflectir sobre o poder imprevisível do mal quando conquista o coração do homem ", acrescentando que o Holocausto é " uma advertência contra o esquecimento, contra a negação ou reducionismo, porque a violência contra um único ser humano é violência contra todos. "
O Bispo Williamson, para ser admitido em funções episcopais na Igreja, terá de retratar-se, de forma absolutamente clara e pública, da sua posição sobre a Shoah, que era desconhecida do Santo Padre no momento do levantamento da excomunhão.
O Santo Padre convida os fiéis a rezar para que o Senhor ilumine o caminho da Igreja. Que aumento do empenho dos pastores e o apoio dos fiéis de apoio à delicada e difícil missão do Sucessor do Apóstolo Pedro como o "guardião da unidade” da Igreja".

04 fevereiro 2009

Au Bonheur des Dames 170


Em anterior post comentava eu algumas subtilezas da nossa exuberante vida autárquica que alguém, sem dúvida apressadamente, crismava de manancial da democracia. Será. Todavia, isto há-de ter algumas fronteiras que vão desde a risonha Felgueiras até uma terra de que me escapa o nome mas que será apontada.
Comecemos por Felgueiras cuja padroeira também se chama Fátima embora em tom (e carne) mais terrenal e com botox e muita tinta no cabelo. A actual heroína do folhetim felgueirense, de sua graça Fátima, anda pelos tribunais acusada de um par de irregularidades mais comprido do que a légua da Póvoa. Em anterior julgamento foi condenada a uma pena relativamente benigna. Mas foi condenada. Agora arrosta com mais outra se se provarem os factos de que vem acusada. Entretanto sabe-se que a simpática e munificente Câmara a que preside entendeu num gesto largo e moscovita pagar todas as despesas com os processos que sucessivamente lhe vão caindo em cima. Diz-se mesmo que nessa generosa doação cabem os gastos com uma precipitada fuga para o Brasil e, espera-se, com a estadia no mesmo país, operações plásticas ou similares (se as houve) a que se submeteu para reparar a cútis cansada das vicissitudes do tempo, da política e da idade. Ora toma!
A Procuradoria da República já produziu um douto parecer em que se consideram ilegais tais pagamentos mas o advogado da ré replicou que um parecer da PR é tão só um parecer e que outros há, pedidos (e pagos) pela Câmara (a que a ré preside, lembremos) e que se louvam em doutrina contrária. Como se vê, no mercado há pareceres de todas as cores e feitios. À cautela já corre no Tribunal Administrativo competente uma acção tendente a pedir a reposição do cacau abonado para a gratificante tarefa de defender Fátima dos seus ímpios perseguidores.

Noutra localidade, li com estes que a terra há-de comer, o P.S. escolheu um candidato à Câmara que no seu currículo tem um ligeiro senão. Foi, até ao momento da proclamação como candidato, militante conhecido e importante, do PPD local. Vamos que pelo menos já pediu a sua desinscrição, o que só lhe fica bem. Estamos a vê-lo, ao candidato, ainda na sua veste de social-democrata (Que querem? É assim que chamam aos do PPD!...) a cavalo pela estrada de Damasco, digo de Lisboa, subitamente varado por um raio de luz. E uma voz longínqua a dizer-lhe: porque me persegues? E ele, apeando-se a ajoelhando: engenheiro, engenheiro quem és tu? E numa nuvem cor de rosa, uma multidão da distrital socialista a acenar-lhe com palmas e a a investi-lo na missão altamente apostólica de candidato à municipalidade. É bonito!

Neste comedia de enganos eis-nos de novo frente ao arcanjo Narciso Miranda. Diz o ex-autarca matosinhense que nada, sequer um lugar de deputado europeu, o demove de concorrer à Câmara de Matosinhos. A isto chama-se amor. E desprezo pelo dinheiro. Será Narciso rico? Será apenas um sonhador, mas pobre?
Conta Narciso que lhe ofereceram a candidatura socialista à Câmara de Gaia. Que o autor de tal pirueta foi o senhor Sampaio, actual manda-chuva distrital socialista. Entretanto o dito cujo senhor Sampaio está calado e não corrobora nem desmente Narciso. Mas convinha que dissesse algo sobre o assunto. Porque se é verdade o que diz Narciso, ficamos sem perceber bem o que é que o P.S. quer. Ora vejamos.
Oferece Gaia para ganhar? E nesse caso porque não aceitar o pedido de Narciso para Matosinhos?
Ou pensarão que Gaia está perdida e que nem Narciso apesar de todos os encantos com que os deuses o dotaram a ganha? E nesse caso, Sampaio, o melífluo, terá tentado armadilhar Narciso.
Sampaio conhece mal (se sequer conhece) a mitologia grega: para abater Narciso bastará um espelho, nem que seja o das eleições. Némesis não costuma perdoar.
Alguém desse distinto grupo de leitoras dirá que estou a atirar com pérolas (a mitologia) a filisteus (para não dizer outra coisa mais adequada à verdadeira fábula). É possível mas convém tratar estas minudências pestilenciais com um pouco de dignidade para não soçobramos na mesma feia e triste realidade.
Dirão que daqui até às eleições muita tinta ainda há-de correr. Acredito. Espero, até, começar a perceber o que Elisa Ferreira tem para dizer sobre o Porto. Convenhamos que já o deveria ter dito. Até à data, murmurou qualquer coisa que se resume a ser diferente de Rui Rio. Claro que é. Ela é mulher e ele não. Fora isso, que é de somenos, nada mais sabemos. Não parece extraordinário?

Justiça Serôdia

A notícia vem no Público, Local. O processo data de 1989. Depois de decisões e anulações de decisões, recursos e contra-recursos, chegou a decisão final e os queixosos vão receber uma indemnização, supõe-se que sobrecarregada com 20 anos de juros.

Como diz a canção, “vinte anos é muito tempo”. Acredito que seja tempo demais para decidir sobre uma irregularidade urbanística. A indemnização vai ser paga pelo erário público, apesar de, segundo a notícia, quem tomou a decisão saber que a mesma era irregular, face aos pareceres técnicos que dispunha. Ou seja, a Justiça, embora tardia, parece ter sido conseguida, a lei por que se regeu é que será perversa.

03 fevereiro 2009

A Crise Chegou à Cortiça

Num comunicado hoje divulgado, a Corticeira Amorim anuncia que vai dispensar 193 colaboradores, por causa da crise internacional que está a afectar clientes tradicionais da empresa.

Apesar do dinamismo que tem caracterizado o Grupo Amorim que mesmo em plena crise não deixou de avançar com novos projectos, como se por de ver aqui e aqui, tal não foi suficiente para os objectivos do Grupo.

Mais Contas Offshore

A Polícia Judiciária anunciou ter terminado uma investigação na qual foi identificado um esquema fraudulento envolvendo contas offshore de um banco que opera em Portugal. As conclusões da investigação foram remetidas ao Ministério Público.

Segundo a PJ, quer a instituição financeira quer os clientes «praticaram factos susceptíveis de integrarem a prática de crimes de fraude fiscal qualificada (…) e de branqueamento de capitais».

O esquema passava pelo depósito de avultadas quantias «na sucursal que a instituição bancária possui nas Ilhas Caimão», evitando, desta forma, o pagamento de impostos. Os depósitos ascenderam a 4,5 milhões de euros entre 2000 e 2005.

Diz a PJ que «A investigação desta actividade ilícita iniciou-se em 2007 e implicou a realização de um elevado número de diligências probatórias, formalizadas em vinte e dois volumes, tendo sido constituídos quinze arguidos».

Segundo a PJ a investigação iniciou-se em 2007. Contudo, como se pode ler aqui, esta actividade há muito que era do domínio público. Agora só falta saber qual o Banco? Quem são os quinze arguidos? O comunicado não diz. Esperemos pela edição dum dos jornais habituais em divulgar estas coisas semi-escondidas e logo se instalará um novo caso. Depois é só esperar para saber como é que os “depositantes” vão ser recompensados. Quanto ao processo em si, esse perder-se-á pelo caminho ou por que a investigação não foi bem conduzida ou porque sim.

Promover a educação integral do aluno

Ontem, o Rotary Club do Porto visitou a Escola Básica 23 Augusto Gil, sede do
Agrupamento Vertical Augusto Gil, no Porto. Admirei, desde logo, a organização, o aprumo e a limpeza da Escola, que é frequentada por 650 alunos. Trata-se de uma escola pública que, no local, sucedeu aos privados Colégio de Nossa Senhora da estrela (feminino) e, posteriormente, Colégio João de Deus (masculino), que é uma referência na cidade. Presente estava o decano dos rotários portuenses que, há 70 anos, deixara o Colégio, após conclusão dos estudos liceais. Um pequeno museu mantém viva a história do João de Deus. Anualmente, reúnem-se na Escola os antigos alunos do Colégio João de Deus (119 no último evento).

A Dra. Teresa Miranda, Presidente do Conselho Executivo, apresentou o Projecto Educativo do Agrupamento, "Aprender a Ser, Aprender a fazer, Aprender a Conhecer". Foi uma exposição interessante, viva, clarividente, reveladora de um grande conhecimento da realidade educativa, dos recursos e dos objectivos pretendidos. Comentei, no momento, que estávamos perante uma professora. De facto, no gesto, na exposição, na paixão, não podia ser senão professora.

A Escola tem, entre outros, dois problemas. Os edifícios de Santa Catarina estão abandonados, por não reunirem condições de segurança, o que é uma pena porque a Escola se debate com falta de espaço. Acresce que não dispõe de laboratórios. O respectivo espaço é no terceiro andar e por razões de segurança têm de transitar para o nível térreo, mas não há verbas nem para as obras, nem para os equipamentos.

Na mesma ocasião, foi entregue bolsa de estudo, patrocinada pela Fundação Rotária Portuguesa, a uma jovem do 9º ano, do quadro de mérito da Escola, para que a ajude a suportar os custos de prosseguir nos estudos e vir a concluir Economia, como é o seu sonho.

Momentos como os de ontem servem para descobrir que ainda há sistema de ensino em Portugal, que há pessoas empenhadas em ensinar e educar, da melhor maneira, os mais jovens. Apesar das dificuldades, ainda há quem não se deixe paralisar pela inércia.

3 pequenas notas: a Escola tem alunos de muitas nacionalidades; a Escola integra alunos portadores de deficiência; a Escola elabora planos de recuperação (para os que apresentam dificuldades de aprendizagem), e planos de desenvolvimento (para os que revelam capacidades acima da média).

Gostei da Biblioteca e dos clubes que funcionam na Escola. E vale a pena ler o Gilinho.

02 fevereiro 2009

Uma nova cultura de solidariedade perante a crise actual

No dia 31 de Janeiro, Bento XVI recebeu na Sala Clementina, no Vaticano, os dirigentes da Confederação Italiana Sindical dos Trabalhadores.
De acordo com a informação dos Serviços do Vaticano, o Papa recordou que nos cem anos da publicação da "Rerum Novarum", João Paulo II escreveu a encíclica "Centesimus Annus" (1991) e dez anos antes, em 1981, na encíclica "Laborem Exercens", dedicada ao trabalho, ele destacou "o papel e a importância estratégica dos sindicatos, definida" um elemento indispensável da vida social, especialmente nas modernas sociedades industrializadas. "
O Santo Padre assinalou que "no ensino dos papas do século XX, há um outro elemento, que é frequentemente enfatizado: o apelo à solidariedade e responsabilidade. Para superar a crise económica e social que se vive, sabemos que é necessário superar os interesses particulares e sectoriais, para enfrentar em conjunto os desafios em todas as áreas da sociedade, especialmente no mundo do trabalho. Isto é mais urgente do que nunca, as dificuldades que sobrecarregam o mundo do trabalho exigem uma mais eficaz e estreita concertação entre os múltiplos e diversos componentes da sociedade. "
"Espero que da actual crise global surja a vontade comum de criar uma nova cultura de solidariedade e de participação responsável, condições indispensáveis para construir juntos o futuro do nosso planeta."
O Papa concluiu expressando a esperança de que o sexagésimo aniversário da fundação da CISL "seja um motivo para renovar o entusiasmo do início e para redescobrir o seu carisma mais original. O mundo precisa de pessoas que se dediquem à causa do trabalho, respeitando plenamente a dignidade humana e o bem comum."

01 fevereiro 2009

Hamas: inimigo do povo

No Le Monde li que "Presidente da Autoridade Palestiniana, Mahmoud Abbas, recusou domingo, 1 de Fevereiro, no Cairo, diálogo com "quem rejeita a Organização para a Libertação da Palestina", numa referência direta ao Hamas. "Essa gente pôs em risco a vida das pessoas, o sangue do povo, a sorte do povo, o sonho e a esperança do povo para criar um Estado palestiniano independente", insistiu durante uma conferência de imprensa na capital egípcia, retransmitida pelo canal de televisão por satélite Al-Jazeera. "E porquê? Francamente, devido às agendas que não são palestinianas", prosseguiu em tom violento."

Será que Lisboa (apesar das grandes parecenças no ambiente urbano) ainda se vai geminar com Gaza? Ou vão esclarecer antes quais as relações entre os subscritores de tal proposta, o Hamas e movimentos idênticos? Deve haver identidade de princípios e objectivos, julgo eu ...

F r E e P o R t

Estranhamente ainda não escrevi qualquer coisa sobre o tema da moda: FREEPORT. Apesar das páginas e horas de noticiários ainda não tenho uma visão do FREEPORT. Há os que mesmo antes das notícias já tinham opinião formada. Há os que não tinham opinião, mas acham que sim. E há os que sabem o mesmo que aqueles, mas acham que não. O país comunicacional ensandeceu e tudo é FREEPORT.

Até o Presidente da República já elegeu este caso, que eu julgava de polícia, como “assunto de Estado”. Estamos conversados. Cheguei tarde a esta discussão. Não me pronuncio sobre assuntos de Estado.

P.S.: Vale a pena ler a crónica de VPV no Público de hoje. Um mimo.

31 janeiro 2009

Apito Dourado e Apito Final Para o Arquivo Morto

O Tribunal Constitucional acabou com as dúvidas (se é que as havia). As escutas telefónicas foram consideradas ilegais, logo as conversas que se ouviram não servem para provar os factos que as mesmas versaram. Os caminhos da Justiça são assim: difíceis e quase tão ininteligíveis (para o comum dos mortais) como os desígnios de Deus.

E agora? O que é que acontece às pessoas que já sofreram castigos? E os clubes ou SAD.s que foram penalizadas? E o Boavista que foi mandado para a divisão secundária e com isso, segundo dizem, corre o risco de desaparecer?

E agora? O que é que acontece às pessoas que andaram a investigar erroneamente? Não deve ser fácil motivar alguém a trabalhar para o arquivo morto.

Agora, bem, agora, sempre se poderá dizer, que tudo acabou como o previsto. Ao menos isso.

A Lei do Divórcio no Congresso da CNIS

A Confederação Nacional das Instituições de Solidariedade (CNIS) está a realizar, em Fátima, o seu IV Congresso Nacional. A CNIS, segundo o Público de ontem, é formada por cerca de 2.600 entidades de solidariedade, emprega 200 mil pessoas e representa 4,3% do PIB.

A expressão dos números mostra que a CNIS é uma potente força social, com grande poder económico e um apetitoso campo para o exercício da influência política.

A liderança da CNIS é disputada por dois Padres, que encabeçam as respectivas listas directivas. De um lado, o Padre Lino Maia, do Porto, que assume a continuidade. Do outro, o Padre Carlos Gonçalves, de Sintra, que pretende que a CNIS actue mais “como serviço e não como um poder” e qualifica a direcção do Padre Maia de “entidade extraterrestre”.


O Congresso da CNIS foi aberto pelo Presidente da República e parece que só por isso é que teve alguma referência na comunicação social, apesar de envolver muita gente, forte representação do poder civil e religioso e outros significativos meios. Ou seja, este Congresso terá mais impacto, directo e indirecto, sobre a vida de centenas de milhar de pessoas do que outros que se realizaram recentemente e que tiveram honras de abertura dos noticiários, hora a hora.

Não fosse Cavaco Silva ter aproveitado aquela plateia, muito especial, para falar na Lei do Divórcio e, certamente, o Congresso passaria mais ou menos desapercebido. Confesso o meu espanto pela relação que o Presidente estabeleceu entre a nova Lei do Divórcio e o incremento de novos pobres. A lei do divórcio pode não ser uma grande e ponderada lei. Pode não ser a reforma mais urgente que o país estava à espera, mas daí a responsabilizar aquela lei pelo incremento de novos pobres, parece-me um exagero, que nem a especificidade da plateia consegue justificar.

30 janeiro 2009

Estes dias que passam 141

As burkas nunca são grátis


Anda toda a bem-pensancia indignada com o cardeal patriarca. Parece que o prelado no contexto de uma conversa sobre diferenças entre credos religiosos se atreveu a prevenir as jovens católicas contra os casamentos com muçulmanos.
Ai Jesus o que o homem disse! Ofendeu as outras religiões, mormente a muçulmana. Eu que não sou católico, cristão, sequer crente, lá vou ter de fazer de cardeal diabo e defender o purpurado. Porque ele está carregado de razão. Não no toca à defesa da fé ou à tentativa de não perder ovelhas, por mim pode perdê-las todas, diga-se de passagem.
O que o cardeal disse, e qualquer pessoa dotada do sentido da visão e capaz de ler percebe, é que uma jovem portuguesa ao casar com um muçulmano arrisca bastante. Por cá, se cá permanecer, bem podem ir as coisas. Mas suponha-se, por um momento, que o referido muçulmano regressa ao pais de origem. Claro que nem todos os Estados onde o Islão impera são idênticos à Arábia Saudita, ao Afeganistão, ao Irão ou ao Yémen. No Iraque, por exemplo, antes da desastrada invasão americana, as mulheres gozavam de relativa liberdade (inferior todavia à das mulheres indonésias). Com a guerra começou a ganhar terreno o chiismo que, aqui para nós, não é pêra doce para o segundo sexo. O mesmo se diga de boa parte das regiões curdas por muito revolucionários que os guerrilheiros pareçam. Digamos que na grande maioria dos Estados árabes ou muçulmanos a charia, o tchador a burka e toda a restante parafernália anti-feminina são de regra. Direito de voto, vai no Batalha. Restantes direitos, idem, aspas. A capitis deminutio que atinge a gens femenina é de regra e não há indícios de se poderem esperar grandes mudanças para breve. O mesmo, de resto, sucede com a cristã que se casa com um judeu integrista: está feita ao bife e pode, desde logo e como amostra ,habituar-se a caminhar atrás do seu amo e senhor. Três passos o que até não é muito e talvez sirva para a senhora poder aproveitar a sombra do marido omnipotente.
Dirão que estou a ser injusto para com as outras religiões do livro mas nem isso. Estou a dizer evidências que só a parvoeira multicultural persiste em ocultar. Mas passemos a África e aos seus territórios muçulmanos. Alguém me dizia que pelo menos aí não haveria excisão clitoridiana. Engano, caro leitor: há. Se é feita em nome de Alah ou como mero sinal da aculturação do islamismo a um velho fundo africano, não sei. Mas que a excisão é uma prática comum e generalizada na África muçulmana disso não há dúvidas. Como a lapidação das adúlteras. Das adúlteras, digo, não dos adúlteros.
Qualquer pessoa que se dê ao inocente trabalho de folhear jornais franceses conhece as centenas de casos em que pais muçulmanos levam os filhos fruto de casamentos inter-religiosos, para o pais de origem, mormente o Magrebe, deixando as esposas ocidentais a chorar baba e ranho para tentar rever os filhos.
Eu não tenho a certeza se foi esta a situação que Sª Eminência quis prevenir. Eventualmente, ele, representante de uma igreja que raramente resiste ao velho espírito de cruzada, terá tentado evitar a defecção das suas ovelhas. Na impossibilidade de criticar as “seitas” evangélicas que pululam por aí e que vão roubando com êxito crescente a freguesia, o senhor cardeal resolveu disparar contra o mais óbvio. E acertou, custa-me dizê-lo. Uma coisa são os muçulmanos ocidentalizados, vivendo no Ocidente e outra a imensa maioria do Islão. E convém lembrar que quando se nasce muçulmano não há apostasia que resista ou que seja aceite. Salman Rushdie que vos diga.
Traduzi, nos últimos anos, quatro livros que descrevem as realidades do Iraque, do Afeganistão, do Curdistão e, ainda que em forma de romance “erótico”, Marrocos. Tratava-se neste último caso de um livro atribuído a uma mulher. Todos, incluindo “A espingarda de meu pai” (um livro de memorias de um cineasta curdo) são deprimentes quanto ao retrato que fazem do mundo feminino.
Também não sei se o senhor cardeal quis referir-se aos assassínios de honra, isto é aquelas miseráveis execuções que pais, tios e irmãos de uma muçulmana infligem a esta porque namora, dorme, casa ou simplesmente sorri para um “infiel”.
Não quero, com isto, dizer que por cá, entre cristãos não haja violência contra as mulheres, que a há e de que maneira. Agora começa a fazer caminho a cobardia começada em Espanha de assassinar a mulher que repudiou o companheiro, que fugiu aos maus tratos ou que não aceitou ser requestada. Tudo entre cristãos “velhos”, católicos, apostólicos e romanos. Uma mulher dessas é pior do que a víbora primigénia e há que fazê-la desaparecer. Com sofrimento se possível. Mas isto, que é horrendo, é, apesar de tudo, excepção entre nós, ocidentais. Alguém poderá dizer o mesmo em certas regiões muçulmanas?

* provavelmente - e isso o senhor Cardeal não disse nem talvez pudesse dizer - muitas autoridades religiosas muçulmanas teriam opinião idêntica quanto aos perigos que espreitam uma rapariga muçulmana educada no Islão e casada com um cristão. O choque com os hábitos ocidentais poderá ser brutal, a liberdade da mulher uma libertinagem, os modos e as práticas sexuais do Ocidente uma ofensa. Se percebermos isto talvez consigamos perceber o cardeal.

Estes dias que passam 140

Linchamentos morais

Quem me lê sabe quão escassa é a minha consideração pela pessoa do senhor Primeiro Ministro. Tenho-o mesmo na conta de um fraco primeiro ministro. Com a agravante de ser arrogante e autoritário. E enfatuado...
Agora o que não suporto, como cidadão, como português e como homem de esquerda (doa isso a quem doer) é esta zoeira feita de omissões, de sugestões e de insinuações sobre o Freeport e sobre Sócrates.
Ainda não vi um diabo de um facto com um mínimo de credibilidade que me permita confortar a tese da culpabilidade de Sócrates. Ainda não percebi porque raio os ingleses não respondem a uma carta rogatória e vêm agora com outra a pedir o que não podem pedir sem antes responderem ao que lhes foi solicitado.
Não percebo como é que uma procuradora geral adjunta não é ouvida quando diz que nada há no processo que permita incluir Sócrates no rol dos suspeitos. Não percebo porque é que ninguém crê no Procurador Geral da Republica mas, ao mesmo tempo, lhe exige que faça o seu trabalho de casa.
Se me permitem uma ironia, se é que é uma ironia, a fonte desta manipulação noticiosa, repudiada pela oposição (o caso do bloco de esquerda não conta, o bloco diz tudo o que vem às cabecinhas das luminárias que o compõem e isso dá um torcicolo à cabeça mais calma que os ouve) que tem tratado o caso com pinças, vai dar direitinha aos publicitários que preparam a campanha de recandidatura de Sócrates.
Se a oposição não quer falar do assunto, se a imprensa apenas noticia o que vem requentado de Inglaterra, se os suspeitos de corrupção activa estão tranquilamente no Algarve e negam o seu envolvimento e até as famosas declarações contidas num vídeo, em que ficamos?
Pois ficamos nesta absurda pergunta: a quem aproveita este barulho?
A minha tese, carregada de malignidade é a seguinte.
1 Enquanto se discute o Freeport, não se discutem as mais que discutíveis políticas governamentais;
2 Não se discute o orçamento rectificativo que me parece necessitar de uma boa adenda de tal modo a crise avançou entretanto
3 À falta de argumentos gordos e definitivos corresponde sempre uma reacção hostil do público que se sente legitimamente frustrado. As pessoas começam a perguntar se atrás de tanto fogo de maravalhas não anda algo feio como a tentativa de caluniar pura e simplesmente. Ora, isso costuma acarretar uma contra-corrente de simpatia.
Se é assim, então a agónica maioria absoluta que todos previam que se transformaria em maioria simples (quando não em derrota) pode, como os Titãs filhos da terra levantar-se do chão matricial mais robusta do que antes.
Tudo isto poderia ter sido concebido por um estratega ousado mas inteligente. Ao serviço de quem?
Não da oposição que apesar de tudo ainda está anémica no que toca ao PSD e que não tem ilusões de cheirar o poder como é o caso do PC e aliados, existentes ou futuros.
Se não é ao serviço da oposição restam duas hipóteses.
A primeira é que identifica uma central internacional anarquista, uma máfia desconhecida mas poderosa que farta de ser perseguida nos seus velhacoutos tradicionais apontaria para uma instalação neste torraozinho de açúcar feito de praias e campos de golfe. É impossível? Também acho mas já vi outros impossíveis acontecerem. Como um exame ser feito ao domingo, para não ir mais longe.
A segunda hipótese (afastadas por incoerentes a conspiração da maçonaria internacional ou o inglesíssimo fantasma de Canterville) é a de se encontrar no P.S. a fonte desta salada russa. Só eles é que ficam a ganhar. E a dois carrinhos. Porque é a imprensa quem pressurosamente dá guarida a todos os disparates, renova uma e outra vez argumentos já esgotados e desmentidos, poupando assim aos cofres do partido uma forte dinheirama.
Aqui chegadas, se chegaram, as leitoras mais indulgentes sorrirão. Do que é que o mcr se foi lembrar...
Sim e não minhas queridas amigas. Sim e não. É que esta tourada à antiga portuguesa pode ter mesmo esse resultado obnóxio. Em decaindo a acusação ao Primeiro Ministro (e pelo andar da carruagem isso pode ocorrer) esperem-lhe pela volta. Soares ganhou uma eleição depois de um bofetão na Marinha Grande. Para pasmo de Zenha e Maria de Lurdes Pintassilgo candidatos que pareciam ter mais adeptos na esquerda. Para maior pasmo do candidato da direita que tinha aquela eleição como um passeio. E para indignação do dr Cunhal (alegadamente mandante do agressor) que se viu obrigado a comer um elefante inteiro, ou um sapo, sapo grande, enorme mesmo, para não ser acusado de trair a esquerda.

Voltando porém ao inicio desta conversa, temo bem que estejamos a assistir a um linchamento. E, como os leitores sabem, não é com linchamentos que a justiça se faz e a democracia se perpetua. Mesmo que os linchados sejam uns canalhas da pior espécie.

* eu não tenho nada de especial contra o bloco de esquerda. Mas ainda hoje, de raspão, ouvi a jovem Ana Drago a usar o estafado argumento da alteração da Zona Especial de Protecção como se isso não fosse um completo embuste. Há mentiras que repetidas podem passar por verdades mas como é que apelidamnos os seus autores?