18 julho 2006

Vazio


Troveja ao longe e o vento solta-se, um vento forte, quase furacão, que verga as árvores aqui ao lado. Espero que esta noite chova na Afurada, uma chuva que baste para amainar este tempo de guerra. Eu, que nunca gostei de trovoadas nem de chuvas e sempre gostei dos tempos quentes, das viagens tórridas de carro, devo ter cedido à idade e quero a chuva que a trovoada anuncia.

Já deixei de usar gravata, mas nem assim. Sinto-me sujo logo que acabo de tomar banho, a roupa cola-se, sufoco, ligo o ar condicionado do carro pela primeira vez em muitos anos, sinto a cabeça calcinada, os olhos desorbitados, um enorme torpor e apetece-me fugir para onde haja mar. Não posso. Continuo por aqui.

Agoniado, hoje, sobretudo ao fim da tarde, num dia em que estive para nem ir ao escritório porque me concedi o direito (que não usei completamente) de um dia de folga, assim, a meio da semana, num dia em que a Volta a França chegou ao Alpe-D'Huez e eu queria ver. Acabei por ir: mensagens do escritório com mais uma providência cautelar. Uma fdp de mais uma providência cautelar, mais um prazo que corre até dia uma sexta-feira qualquer que já nem sei.
Zombie. Completamente!

Com os pés em cima da mesa, lembrei-me das acções que tenho para articular e praticamente morro quando a seguir olho para as fdp das providências cautelares. E ouço o Mocho que acaba de chegar, também ele exausto. Sentado à minha frente, ciente do meu olhar desvairado, ele de ideias mudadas quanto às férias judiciais, que ele agora também acha que deviam ter ficado como estavam, porque, afinal, somos nós os tramados. Ambos arruinados, incontinentes verbais, coisa que raramente me acontece, sobretudo quando há senhoras, e estava lá a Rosana, que pode não aprender muito direito connosco, mas que fica a saber quanto custa a vida.

Continua a trovejar, agora mais perto. O vento amainou, mas chove copiosamente na Afurada de Cima. Apetece-me ir para a varanda, tomar um banho de chuva e ver o Douro, mas tenho medo da trovoada e destes tempos de guerra e nem sequer me apetece falar de guerra. Egoista nas minhas guerras, grato às minhas noites de insónia em que elaboro o que faço nos dias que seguem e grato por ter sido jornalista, onde aprendi a escrever depressa. E a resolver. A resolver, mesmo quando os tempos são de brasa e eu estou debilitado. Resta saber até quando. E resta saber até quando vou continuar neste vazio...

assim vai o mundo

São dez horas da noite. Na TV5 aparece uma cavalheiro chamado Avi Pozner ao que parece porta voz do governo de Israel. Tudo o que diz e o modo como diz traz à memória um outro cavalheiro, também porta voz, chamado Goebbels. Não estou a dizer que o cavalheiro Pozner seja Goebbels. Digo tão só que os argumentos usados parecem os de sinistra memória.
Ou seja: que os duzentos e tal mortos civis libaneses são membros do Hezbollah. Mesmo umas crianças mortas que apareceram noutro programa informativo. Os criminosos hezbollah vão agora buscar guerrilheiros aos infantários;
Que as pontes, os faróis marítimos, as auto-estradas, o aeroporto de Beirute e um bairro cristão duramente atingido são hezbollah;
Que Israel só cessará os seus ataques quando lhe devolverem 2 soldados prisioneiros do hezzbollah e se cessarem os foguetes contra cidades israelitas; deduz-se daqui que os bombardeamentos no Líbano, na conspícua opinião do senhor Pozner não provocaram os disparos do hezbollah!; à pergunta do entrevistador francês sobre a razão porque não assassinavam cirurgicamente os chefes hezbollah, o senhor Pozner disse que só estão a combater estes. Os outros mortos devem ser por engano. Ou então já mataram duzentos líderes hezbollah. Deve ser por isso que agora vão buscar crianças ào jardim escola ou á escola primária… E avisou que não tarda muito para bombardear a Síria. E como não lhe perguntaram não disse o que é que tencionam fazer ao Irão, acusado de dirigir o Hezbollah. Ainda bem! Chego a temer que, como o Irão dos ayatolahs, anda a enriquecer urânio, o senhor Pozner dissesse que o iriam bombardear. Com ogivas nucleares?
Em tempos entendi que para expulsar os sérvios do Kossovo não era preciso destruir pontes na Bukovina. Mas foram destruídas. Como não me apetece voltar a ser adivinho fico-me por aqui. Mas não me espantaria de ver Damasco ou Teerão atacadas.
Parece que Israel está a permitir (???) a saída dos estrangeiros europeus e americanos do Líbano. Bonito gesto! E útil! Quando não houver estranhos poderá matar mais à vontade. As testemunhas são sempre incómodas…
E como suspeito que algum leitor em diagonal deste escrito me possa interpretar mal devo dizer que não desejo a morte de nenhum israelita, sequer mesmo dos fanáticos religiosos que, parece, governam ou ajudam a governar o estado de Israel. Exactamente miméticos dos hezbollah, hamas e outras infâmias vulgares...que ajudam a governar o Líbano ou o protectora (ou colónia?) da Palestina.
Também não confundo suásticas com estrelas de David, embora me pareça que em Israel haja quem confunda os dois símbolos. Só que o povo inferior a exterminar seja agora o árabe...

( 13)
Salvados e memorias perigosas


E outra vez a guerra, a voraz sombra da espera, as árvores municipais podadas a vitríolo, os húmidos cabelos do nevoeiro.

Em 18 de Julho de trinta e seis, até os zimbros arderam nas malhas da neve. Quem isto te contou vai morrer na casa entre medronheiros, os estuques gastos pelo olhar. Um cartaz de touros, e uma travessa velha (feridas na parede acima da masseira).

O silêncio tinge os vidros da solidão que te prende o pulso sobre as lágrimas. Atrás de ti há um relógio cansado e indiferente, um cinzeiro de latão e quatro livros de Chandler.

De rugas e desencontros teceste o dia como uma carta que não mandarás. Rodeias-te de máscaras, usas as máscaras, as ágeis paredes da fuga. E do remo que já não queres, do rumo em que te esqueces, das feridas do rumor. E do amor (pouco).

Uma torneira canta e tu tão quieto. De paciência e insónia e parcos instrumentos esquadrias as palavras. Devagar: como quem enrola um cigarro. Ou a tremer como quem recorda a boca da terra, o cheiro da chuva em Nampula e – mais longe – a poupada respiração do mar em Janeiro.


O texto acima reproduzido pertence a uma serie chamada Roteiros Inventa(ria)dos é da autoria de Manuel Heinzelmann e está dedicado à memória de Ana Alatha v.d. B. (1946-1977). Incidentalmente refere a data de início da guerra de Espanha.

17 julho 2006

Um poema de Gabriel Ceaya

LA POESÍA ES UN ARMA CARGADA DE FUTURO

Cuando ya nada se espera personalmente exaltante,
mas se palpita y se sigue más acá de la conciencia,
fieramente existiendo, ciegamente afirmado,
como un pulso que golpea las tinieblas,

cuando se miran de frente
los vertiginosos ojos claros de la muerte,
se dicen las verdades:
las bárbaras, terribles, amorosas crueldades.

Se dicen los poemas
que ensanchan los pulmones de cuantos, asfixiados,
piden ser, piden ritmo,
piden ley para aquello que sienten excesivo.

Con la velocidad del instinto,
con el rayo del prodigio,
como mágica evidencia, lo real se nos convierte
en lo idéntico a sí mismo.

Poesía para el pobre, poesía necesaria
como el pan de cada día,
como el aire que exigimos trece veces por minuto,
para ser y en tanto somos dar un sí que glorifica.

Porque vivimos a golpes, porque apenas si nos dejan
decir que somos quien somos,
nuestros cantares no pueden ser sin pecado un adorno.
Estamos tocando el fondo.

Maldigo la poesía concebida como un lujo
cultural por los neutrales
que, lavándose las manos, se desentienden y evaden.
Maldigo la poesía de quien no toma partido hasta mancharse.

Hago mías las faltas. Siento en mí a cuantos sufren
y canto respirando.
Canto, y canto, y cantando más allá de mis penas
personales, me ensancho.

Quisiera daros vida, provocar nuevos actos,
y calculo por eso con técnica qué puedo.
Me siento un ingeniero del verso y un obrero
que trabaja con otros a España en sus aceros.

Tal es mi poesía: poesía-herramienta
a la vez que latido de lo unánime y ciego.
Tal es, arma cargada de futuro expansivo
con que te apunto al pecho.

No es una poesía gota a gota pensada.
No es un bello producto. No es un fruto perfecto.
Es algo como el aire que todos respiramos
y es el canto que espacia cuanto dentro llevamos.

Son palabras que todos repetimos sintiendo
como nuestras, y vuelan. Son más que lo mentado.
Son lo más necesario: lo que no tiene nombre.
Son gritos en el cielo, y en la tierra son actos.

No dia 18 de Julho de 1936, um grupo de generais traidores ao compromisso de honra, levantou-se contra o governo legítimo saído de eleições regulares e incontestáveis. Pensavam resolver a situação no prazo de uma semana, duas, um mês no máximo. Contariando as espectativas, nenhuma grande cidade os seguiu. O povo tomou as casernas sublevadas, apoderou-se das armas e defendeu o regime. O governo republicano, dissolveu o exército perdendo assim por mau julgamento político um importante esteio para combater a rebelião. Nas Canárias, um avião enviado da Inglaterra, recolhia a bordo, um homem baixo de voz aflautada e transportava-o para Marrocos. Chamava-se Francisco Franco Bahamontes e iria comandar um exército maioritáriamente constituido por tropas marroquinas, "los moros" que iriam ser a ponta de lança da nova cruzada (era mesmo assim que se apelidavam os seus componentes) para salvar a Espanha das garras do bolchevismo internacional. aviões alemães transportam as suas tropas para Espanha gorando assim os esforços da marinha republicana que guardava as costas andaluzas.
De Lisboa, onde se encontrava refugiado, um outro general subia para um avião com destino á Espanha ocupada pelos insurrectos. José Sanjurjo nunca chegará ao seu destino, nem nunca será o chefe da Junta de generais rebeldes. Ele que apoiara o golpe de Primo de Rivera, que jurara fidelidade à República, que se revoltara em Sevilha contra o governo, que fugira abandonando os seus homens, que fora preso em Huelva e condenado à morte, pena logo a seguir comutada, e que, posteriormente amnistiado, se refugiara em Portugal, morre num vulgar acidente aéreo nos arredores de Lisboa.
Comandante do único exército verdadeiramente importante no teatro de guerra, Franco torna-se generalíssimo e comandante supremo. A guerra durará três anos e um milhão de mortos.
18 de Julho de 1936: um dia para recordar.
17 de julho de 2006: permanecem por identificar centenas de fossas comuns onde estarão sepultados dezenas de milhares de mortos dos primeiros meses de guerra que, á semelhança de Federico Garcia Lorca foram fusilados sumariamente e enterrados clandestinamente.

Coisas variadas

1. Li o que por aqui se passou nos últimos dias, sobretudo agora que, promovido à força a funções de administrador, tenho mais deveres. Mas não escrevi. Tinha de ponderar um problema e ponderei e decidi: o "meu" www.marcohoje.blogspot.com deixa de contar comigo. É a hora de deixar que outros façam.

2. Leio o que por aí se escreve. Sobre Israel, a Palestina e o Líbano, sobre os americanos e outros, sobre a desproporcionalidade das coisas. Não refuto. Não tenho certezas.

3. Vejo a TV. À Distância de quem está num sítio público e só ouve frase entrecortadas. Reportagem TVI: os portugueses estão cada vez mais dados às coisas do swing. Ok. Parabéns. Não é coisa nova. Lembro-me que há mais de 20 anos, ainda estudante em Coimbra, num parque de campismo na Figueira, um alemão quis trocar a namorada dele pela minha fugaz namorada. Confesso: eu ficava a ganhar. Mas não me pareceu bem. Ficámos assim. Na altura, eu pensei que era coisa de miúdos. Já não sei.

Há cerca de um ano, voltou a surgir o episódio. Para além de mim, os protagonistas eram todos diferentes. Tive vontade de vomitar. Tal como hoje tive, quando vi a reportagem. E hoje pensei: e que tal se aquelas pessoas levassem também os filhos?

16 julho 2006

E DEPOIS DO LIBANO O QUE É QUE SE SEGUE?

Acabei de ouvir a declaração do nosso G8, Durão Barroso, sobre o ataque ao Líbano. Inacreditável! Ainda mais radical que o G. Bush. Ele e os jornalistas que lêem as notícias nas rádios e nas tv.s responsabilizam o Hezbollah por mais esta vergonhosa guerra.

Os mesmos apodam Israel do direito de se defender e com isto justificam a destruição, a morte e pior que tudo, o criar condições insuportáveis de vida que imponham o êxodo, como solução final para os palestinianos.

É mais ou menos claro que Israel precisa da guerra para sobreviver como país. Sempre que o processo de paz está a chegar a um entendimento, logo surge uma provocação pretexto para Israel bombardear pontes, estradas, casa de familiares e amigos dos terroristas, sempre em nome da luta contra o terrorismo. E tudo volta à estaca zero ou pior que isso. Mas se Israel precisa da guerra, as companhias petrolíferas (dominadas por empresas e fundos made in EUA) também, como se vê pelo contínuo crescimento do preço do petróleo e dos lucros dessas empresas.

A luta contra o terrorismo, que não pode deixar de se fazer no quadro do respeito pela soberania nacional, não pode servir para se fazer o que está a ser feito no Líbano.

É o insuspeito Público, página 21, de hoje que relata como Israel combate o terrorismo:

“Israel continua com a sua campanha de pressão sobre a população”. “Dos 44 alvos ontem atingidos por Israel, a maioria eram civis. A aviação e marinha israelita atingiram nestes dias 150 alvos; destes apenas meia dúzia eram do Hezbollah .“

E quanto aos mortos? Não são quase todos civis? Estranha forma de combater os terroristas.

E que pensar hoje da recente saída dos sírios do Líbano, que tanto regozijo e expectativas gerou?

Se enviam dezenas de milhares ou mesmo centenas para a Ex-Jugoslávia, Iraque, Afeganistão e para outras partes do mundo, o que é que impede o envio de uma força da ONU para impor o respeito pelas fronteiras já estabelecidas, negociar os pontos em diferendo (redefinir as fronteiras e o estatuto de Jerusalém) e a paz?

Árabes - XXXIV


danço


eleva-se a lua entre as minhas mãos,
meu corpo a ondear na música.
não há véus que escondam
o sentido do meu olhar que te procura.

é grande a minha pátria de montanhas
e cedros inclinada sobre o mediterrâneo,
o quarto crescente a acariciá-la.
mas não me abriga da falta.

danço para os teus olhos que não estão,
para as tuas mãos a lamberem-me a memória.
danço notas a desprenderem-se do alaúde,
e me tocarem a pele.

e és tu ,
e não és tu.



silvia chueire

má recordação

Nos dias 16 e 17 de julho de 1941, 12.884 judeus (4051 crianças e 5802 mulheres) são aprisionados numa gigantesca operação em Paris, por autoridades francesas. Desses prisioneiros mais de 7000 foram seguidamente transferidos para o Velodrome d'Hiver e daí enviados para a Alemanha. Menos cem qye se suicidaram logo ali.
O total de judeus franceses aprisionados por autoridades de Vichy e ocupantes alemães elevou-se a cerca de 42.000. enviados para diferentes campos de concentração foram aniqulidados tendo regressado um total de 812.
Em tempo de guerras no médio oriente e de uso desproporcionado da força por parte de Israel contra um Hamas e um Hezbolah criados em reacção a anteriores invasões israelitas, talvez conviesse pensar nestes números não para desejar sorte idêntica a quem quer que seja mas apenas para recordar que o ovo da serpente está posto e apenas precisa de um pouco de calor para chocar.

um bilhte para o Rio de Janeiro

Cara Sílvia
Li com apreço, carinho e uma ponta de vaidade (eu envaideço-me por amigos, colegas e confrades...) a entrevista que V. deu e que nos fez o favor de enviar. Vi que falava de algumas poetisas portuguesas vivas, pelo que a falta da Sofia de Melo Breyner Andresen não era escândalo. Ela morreu há pouco tempo, pelo menos fisicamente. todavia, achei melhor mandar-lhe daqui, deste domingo quente e sonolento dois poemas para a recordar. Se, acaso, a não conhecia, tanto melhor (ou pior: que a Sofia é um amor perigoso). Se porventura já era leitora dela, permita-me que me aproveite deste bilhete a si dirigido, para a partilhar com os nossos leitores.

Exílio

Quando a pátria que temos não a temos

Perdida por silêncio e por renúncia

Até a voz do mar se torna exílio

E a luz que nos rodeia é como grades

As Amoras

O meu país sabe as amoras bravas

no verão.

Ninguém ignora que não é grande,

nem inteligente, nem elegante o meu país,

mas tem esta voz doce

de quem acorda cedo para cantar nas silvas.

Raramente falei do meu país, talvez

nem goste dele, mas quando um amigo

me traz amoras bravas

os seus muros parecem-me brancos,

reparo que também no meu país o céu é azul.

posto por d'Oliveira que, em 1960, foi tocado pelo milagre da visão do cometa Sofia

14 julho 2006

Educación para la Ciudadanía

Excerto de notícia do El Pais (na íntegra aqui)
(...)
«La polémica que suscitó la aprobación de la ley de matrimonios homosexuales podría repetirse en este aspecto del desarrollo de la Ley Orgánica de Educación (LOE), cuya entrada en vigor está prevista para el curso 2007-2008.

La asignatura Educación para la Ciudadanía es uno de los principales compromisos educativos del Gobierno, según afirmó en su día la ministra, Mercedes Cabrera, y reitera ahora el secretario general de Educación, Alejandro Tiana. Responde a una recomendación de la UE para paliar el "déficit democrático" que se observa en la Unión: en los países del Este por la anterior ausencia de democracia y en el resto por la apatía y el desinterés de los ciudadanos.
Esta asignatura, que será obligatoria y equiparada en importancia a Lengua o Matemáticas, trata de enseñar a los escolares el funcionamiento y valor de las instituciones, así como la conveniencia de participar en ellas y ser críticos con los gobernantes. Ya funciona como materia autónoma en Reino Unido, Francia, Alemania, Polonia e Irlanda, y como transversal -diluida en otras áreas- en otros países europeos. En España, añade Tiana, se ha impartido en parte de forma transversal, un sistema que ahora se cambia "porque hemos comprobado que no funciona".

Pero Educación para la Ciudadanía aborda también la transmisión de valores morales y, dentro de ellos, la tolerancia y el respeto al diferente como eje central. Y es aquí donde comienzan los problemas. Para el Gobierno, no basta con ser considerado con las personas de otro sexo, raza o religión. La igualdad implica también el reconocimiento pleno de cualquier opción sexual sin discriminación de ningún tipo. Alejandro Tiana lo explica: "Es necesario que los niños comprendan cómo está organizada la sociedad en la que viven y dentro de ella existen varios tipos de familia: biparentales, monoparentales y homosexuales. Negarlas es negar la realidad". »
(...)
En la exposición de motivos, el Grupo Socialista argumenta que "la igualdad legal no es suficiente". "Entre los alumnos hay homosexuales y el sistema tiene que dar una respuesta escolar", argumentó Luis Tomás en la comisión. Este diputado por Málaga asegura que "solo con paliar el sufrimiento que supone recordar a este tipo de alumnos que son diferentes ya justificaría la medida". Lo contrario le parece "cruel" a este profesor de secundaria.
No opina lo mismo el secretario general de la Federación España de Religiosos de Enseñanza (FERE-CECA), Manuel de Castro, quien señala: "Se empieza reconociendo que los homosexuales son una familia más y terminamos admitiendo como familia a un hombre con tres mujeres". Matiza que el resto de la asignatura, "sin ser un ideal", sí es "razonable". Mucho más beligerante se muestra la otra patronal, la Confederación Española de Centros de Enseñanza (CECE), que representa entre otros a los colegios religiosos ultraconservadores. A sus representantes les produce rechazo que Educación para la Ciudadanía y los Derechos Humanos vaya más allá del aprendizaje de conocimientos y entre en "actitudes y valoraciones morales".
El director del Instituto de Técnicas Educativas de la CECE, Mariano del Castillo, muy irritado con este proyecto, vaticina "conflictos" tanto entre las familias con los profesores como de éstos entre sí: "En religión se enseñarán unos valores y en Educación para la Ciudadanía, los contrarios", dice. Está convencido de que el Gobierno no dará marcha atrás.
(...)

Casamento tórrido

A Té casou ontem. É minha prima. Filha de um dos meus tios mais jovens, que não viveu o tempo suficiente para ver o casamento da filha. Foi um casamento tórrido, variável entre os 35 e os 40 graus, numa quinta belíssima, mas onde o ar condicionado não estava preparado para um dia tórrido.

Quase vi nascer a Té. Numa madrugada de Caranaval, na Casa de Saúde dos Aliados, passava ali por acaso, clandestino, com a minha namorada de então, vi o carro do meu tio e suspeitei e entrei e vi a Té. Eu tinha 20 anos. Por aí. E vi a Té, pequenina. Ontem casou. Com o David, que me parece um bom rapaz.

Tive o meu momento de sossego com eles. Entre a Igreja (em Leça) e a quinta (em Gaia). Transportei-os, por entre o trânsito da metrópole. Só os três. A brincar, aproveitei para lhes dizer que havia uma lei que diz: Se não estiverem casados pelo menos 5 anos, são obrigados a devolver os presentes de casamento.

Conversas com a família. Um dia tórrido. Casacos vestidos, pois, então. Gravatas apertadas, pois, então. Conversas com os amigos dos amigos. Conversas que passavam das coisas do Marco, para coisas mais nacionais. E do mundo. Com intelectuais que citam mais facilmente um autor estrangeiro do que sabem o que se passa por aqui. Conversa variável. Como a temperatura.

A Té casou. Ela e o David estão nas Maurícias. E nós por aqui.

Chateado no calabouço 7

DOS ELÉCTRICOS

(8 Teses sobre Faraday mas com uma moral civilizada)


para a Teresa Feijó

1. Os eléctricos são mecanismos sensíveis como espelhos. Talvez porque só tenham um olho, andam a direito desprezando as regras de trânsito mais elementares e o direito dos automóveis à ocupação plena e indiscutida da faixa de rodagem.

2. Justamente porque só têm um olho -o que é um triunfo da simetria - dotou-os a natureza de um corno, também único, é certo, e completamente inútil uma vez que está sistematicamente voltado para trás. Houve quem dissesse - e esta opinião é mais generalizada do que à primeira vista parece - que o homem, presumível criador do eléctrico (pelo menos na sua actual forma) tentou baldadamente construir uma simbiose mecânica e pouco graciosa do ciclope homérico e do escorpião.

3. Autores há, porém, que afirmam ser o eléctrico um animal marinho degenerado, raia ou tremelga gigantesca, que resolveu completar a inacabada aventura da baleia de Jonas, transportando diariamente dos subúrbios para a cidade, as multidões proletárias que ainda não ingressaram na voraz delícia da sociedade automobilística. Daí a repelente cor amarela, cor da subnutrição como se sabe, com que os eléctricos se revestem. Daí os múltiplos anúncios com que escondem a miséria envergonhada, um pouco ao jeito dos "homens-sanduiche" que por vezes quebram a pacatez provinciana da baixa metidos na sua álacre concha publicitária.

4. De qualquer maneira os eléctricos pertencem já ao folclore das nações civilizadas: comboios envergonhados e subdesenvolvidos, metropolitanos fugidos das poluídas catacumbas do subsolo citadino, os eléctricos tendem a desaparecer do labirinto urbano. Há já quem afirme que os troleicarros são os seus directos e impiedosos descendentes. Tratar-se-ia pois apenas de mais uma manifestação concreta da doutrina de Darwin: os bicornes veículos de dois andares teriam vencido os amáveis eléctricos.

5. E isto porque, possivelmente, e em luta aberta, conseguem esgueirar-se melhor sabendo-se como se sabe que o eléctrico, animal de hábitos que é, apenas caminha pelo trilho de ferro que, com o rodar dos anos, criou nas ruas por onde inevitavelmente passa. De resto ninguém desconhece o carácter hermafrodita do eléctrico o que, numa sociedade construída sobre a tensão sexual, não só é prova de mau gosto como até, e sobretudo, de espírito conservador.

6. É possível que, com a eliminação destes unicórnios da era industrial, se assista ao simultâneo desaparecimento daqueles fios telefónicos que os eléctricos, com suave persistência e sacrifício, criaram um pouco por toda a parte. É que, sabe-se, tais fios só se sustêm no ar graças ao chifre amável do eléctrico que, pouco a pouco, lhes foi dando vida e forma. Na realidade os fios ditos "de eléctrico" nada mais são do que o subproduto do corno do eléctrico que, crescendo continuamente, só consegue desgastar-se em contacto com as camadas superiores da atmosfera (mais ricas em hélio) deixando, desse modo, no seu rasto esse subtil fio de aço. Assim se evita que se rasguem as finíssimas coberturas do céu ou se provoquem desastres aéreos que decerto não tardariam a verificar-se: tenha-se em consideração o facto dos aviões serem cegos de nascença.

7. E ainda que se saiba que a natureza porque tudo cria, tudo previne e tudo transforma, não é com menos intensa curiosidade e justificado receio que se aguarda o aparecimento dos netos, dos bisnetos do eléctrico. É imprevisível o destino da claridade que por ora se desfruta quando as ruas da cidade forem constantemente sulcadas por 328 ou 164 fios consoante haja ou não uma via dupla de transportes comuns.

8. Prevendo o futuro, os nossos por vezes sábios governantes mandaram já alargar as ruas e enterrar os fios de telefone propriamente ditos e os cabos de electricidade ao mesmo tempo que baniram a construção de dólmenes (ou palafitas) obeliscos, estelas funerárias e estátuas equestres. O mundo já não é o que era.


1969 nos calabouços da PJ (Tribunal de Coimbra) Crise Académica de 1969

termina aqui a série chateado no calobouço composta entre 1969 e 1971 em dois estabelecimentos prisionais onde o autor se encontrou contra vontade exactamente por ser contra. ingenuidades! Numa prisão há pouco que fazer sobretudo se - como era o caso - se está só. Nessas alturas, um homem é capaz de tudo, até de escrever pacíficas loucuras.

O Sol (quando nasce é de quem?)

O “Sol”, o novo semanário projectado por José António Saraiva, prepara o seu lançamento para breve e já tem o seu corpo accionista definido. Depois de contratar jornalistas, designers e outros quadros, chegou o momento de apresentar a sua administração. Segundo veio a público, um dos principais accionistas, com assento na administração, é o BCP. Aliás, foi divulgado que a apresentação da administração do jornal contará com a presença de Paulo Teixeira Pinto.

É um novo marco na independência do jornalismo português – um jornal administrado e participado por um dos maiores bancos do país. Como será o relacionamento do jornal com temas que envolvam esse banco? Qual será a margem de independência? Qual será o grau de incomodidade que a administração do banco admitirá? Como é que o banco analisaria a actual OPA do BCP sobre o BPI? O Conselho Deontológico do Sindicato dos Jornalistas, seja lá isso o que for, não terá nada a dizer sobre esta situação? E a entidade reguladora?

It's a beautiful day*

Como de costume, estive a ver, pela TV5, o desfile militar do 14 de Julho nos Campos Elíseos. Desfile bastante curioso, há que dizê-lo, na medida em que abre com a última "promotion" da Escola Politécnica, uma das mais prestigidas escolas superiores francesas, e termina com os sapadores bombeiros de Paris. Pelo meio desfilam obviamente representantes de todas as armas e das respectivas escolas de formação, sem esquecer a Legião Estranjeira de que, confesso sem vergonha, sou fã desde o dia em que li em banda desenhada o Beau Geste.

Como vem sendo hábito no desfile havia estranjeiros integrados em escolas militares francesas em obediência a essa mítica e esperada defesa militar comum europeia. E como começa a ser costume, também, verifiquei que mais uma vez a Escola Politécnica tinha uma jovem mulher como "major" da promoção. Isto diz muito. E diz-me muito a mim que venho lutando - sem cair em discriminações positivas à força - pelo reconhecimento do sexo feminino em qualquer profissão.
Em homenagem a esse dia fundador da democracia que foi o da Tomada da Bastilha (forte já inutil como prisão mas altamente simbólico) deixo transcrita em baixo a famosa canção revolucionária La Carmagnole. Para um grupo de amigos de há longos, longuíssimos anos, hoje, é feriado. Alguns, mais de metade, já não andam por aí, mas os que ficaram lembram-nos comovidamente, celebram anos de luta amarga e clandestina e, de certeza, logo á tardinha cantarão comigo, que estou longe deles, uma estrofe da carmagnole: nós só somos nós e a nossa circunstancia...


Madam’ Veto avait promis (bis)
De faire égorger tout Paris (bis)
Mais son coup a manqué
Grâce à nos canonniers.

Refrain
Dansons la Carmagnole
Vive le son (bis)
Dansons la Carmagnole
Vive le son du canon !
Dansons la Carmagnole
Vive le son (bis)
Dansons la Carmagnole
Vive le son du canon !

Ah ! ça ira, ça ira, ça ira
Les aristocrat’s à la lanterne
Ah ! ça ira, ça ira, ça ira
Les aristocrat’s on les pendra

Monsieur Veto avait promis (bis)
D’être fidèle à son pays (bis)
Mais il y a manqué,
Ne faisons pas de quartier.

Antoinette avait résolu (bis)
De nous faire tomber sur le cul (bis)
mais son coup a manqué,
Ne faisons pas de quartier.

Amis, restons unis (bis)
Ne craignons pas nos ennemis (bis)
S’ils viennent nous attaquer,
Nous les ferons sauter.

Oui, nous nous souviendrons toujours (bis)
Des sans-culottes des faubourgs (bis)
A leur santé buvons,
Vivent ces francs lurons.

(1869)
Que faut-il au républicain ? (bis)
Du fer, du plomb et puis du pain (bis)
Du fer pour travailler,
Du plomb pour se venger.


Refrain
Et du pain pour nos frères
Vive le son (bis)
Et du pain pour nos frères
Vive le son du canon !
Et du pain pour nos frères
Vive le son (bis)
Et du pain pour nos frères
Vive le son du canon !

Ah ! ça ira, ça ira, ça ira
Les aristocrat’s à la lanterne
Ah ! ça ira, ça ira, ça ira
Les aristocrat’s on les pendra


Que faut-il au républicain ? (bis)
Vivre et mourir sans calotins (bis)
Le christ à l’écurie,
La vierge à la voirie.

Refrain
Et le saint père au diable !
Vive le son (bis)
Et le saint père au diable !
Vive le son du canon !
Et le saint père au diable !
Vive le son (bis)
Et le saint père au diable !
Vive le son du canon !

Ah ! ça ira, ça ira, ça ira
Les aristocrat’s à la lanterne
Ah ! ça ira, ça ira, ça ira
Les aristocrat’s on les pendra

(1871)
Vive la Commune de Paris (bis)
Ses barricades et ses fusils (bis)
La Commune battue
Ne s’avoue pas vaincue.

Refrain
Elle aura sa revanche
Vive le son (bis)
Elle aura sa revanche
Vive le son du canon !
Elle aura sa revanche
Vive le son (bis)
Elle aura sa revanche
Vive le son du canon !

Ah ! ça ira, ça ira, ça ira
Les aristocrat’s à la lanterne
Ah ! ça ira, ça ira, ça ira
Les aristocrat’s on les pendra

(fin du XIXème siècle)
Que faut-il donc au plébéien (bis)
Le bonheur de tous et le sien (bis)
Prendre terre et machine,
Désinfecter l’usine.

Refrain
Et sauver l’ouvrière
Vive le son (bis)
Et sauver l’ouvrière
Vive le son du canon !
Et sauver l’ouvrière
Vive le son (bis)
Et sauver l’ouvrière
Vive le son du canon !

Ah ! ça ira, ça ira, ça ira
Les aristocrat’s à la lanterne
Ah ! ça ira, ça ira, ça ira
Les aristocrat’s on les pendra

Como verificam á primitiva canção foram-se juntando estrofes ao longo dos anos e das revoluções. Entendi deixá-las também aqui porque me parece curioso este processo de apropriação/re-actualização. De todo o modo, a minha carmagnole é a primeira.
* o título deste post é uma homenagem a um curioso grupo de S. Francisco e ao mesmo tempo o título do seu melhor album. O grupo formou-se em 67 e desapareceu em 74.

REVISTA DO MINISTÉRIO PÚBLICO Nº 106 (em distribuição)

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The dark side of Syd

Caro M.C.R. :
Segue o seguinte postalzito sobre Syd Barrett. A morte de Roger Keith, nome de baptismo, apareceu há dias noticiada no jornal. Também se disse que ocorreu serenamente, em casa , aos 60 anos. Paz à sua alma.
Syd Barrett, em 1967, tinha composto algumas músicas para um grupo formado então com o nome Pink Floyd. Essas músicas ainda hoje se ouvem com algum interesse e gosto: Arnold Layne; See Emily Play e Bike, são singles que de algum modo aguentaram o teste do tempo. Ainda fazem parte de colectâneas.
Porém, em 1967, os Floyd apareceram em Inglaterra quando já por lá andavam grupos e grupelhos a experimentar a combinação dos acordes de blues que vinham da América. John Mayall, Eric Clapton, Jeff Beck, Jimmy Page já então sabiam tocar quase tudo e os Beatles publicavam o LP Sgt. Peppers nesse mesmo ano.
Os Pink Floyd de Syd Barrett, não enveredaram pelos sons dos blues urbanos como então era moda e ajudaram a criar outra: o rock progressivo como então se chamava e que nos anos seguintes,nos ofereceu sonoridades e grupos como os Genesis, Gentle Giant, King Crimson, Camel, Caravan, Colosseum, Emerson Lake and Palmer, Jethro Tull, Renaissance, Soft Machine, Traffic, Van des Graaf Generator, Robert Wyatt e Kevin Ayers, para citar os melhores.
Mas a navegar nos mesmos espaços abertos, nesse ano de 1967, também já lá andavam outros: Os Procol Harum, no Verão desse mesmo ano, puseram todo o mundo a cantar Whiter Shade of Pale que começava com uns acordes de órgão Hammond, baseados num andamento de uma cantata de Bach . Música intemporal, candidata a melhor single de sempre da música popular.
No mesmo ano, os Moody Blues, publicavam um dos seus melhores álbuns, Days of Future Passed e colocavam nos tops uma das suas melhores canções: Nights in White Satin.
Os pequenos temas de Syd Barrett passavam então nas rádios, em competição com esses, no mercado da música popular.
Porém, o sucesso esmagador dos Pink Floyd surge em 1973 com a sua obra prima: Dark Side of the moon. Nessa altura, já Syd Barret estava ausente, num lado obscuro de si próprio. Ficava, porém, em seu lugar, o mito- que ainda perdura.
Um dos melhores obituários, sobre Syd Barrett, é este , copiado da revista Uncut de Junho de 2003:

13 julho 2006

16 toneladas...

was born one mornin' when the sun didn't shine
Picked up a shovel and I walked to the mine
I hauled Sixteen Tons of number 9 coal
And the straw-boss said, "Well, bless my soul"

(Chorus:)

You haul Sixteen Tons, whadaya get?
Another older and deeper in debt
Saint Peter don't you call me cause I can't go
I owe my soul to the company store

Repeat Chorus

Born one morning it was drizzle and rain
Fightin' and Trouble are my middle name
I was raised in a canebrake by an old mama lion
And no high-toned woman make me walk the line

Repeat Chorus

See me comin' better step aside
A lot of men didn't and a lot of men died
I got one fist of iron and the other of steel
And if the right one don't get ya, the left one will

Repeat Chorus

Born one mornin' when the sun didn't shine
Picked up a shovel and I walked to the mine
I hauled Sixteen Tons of number 9 coal
And the straw-boss said, "Well, bless my soul"

Repeat Chorus

Encontrei uma carta para o meu irmão Octávio (nós temos este destino de nomes romanos, não se riam por favor) em que a pedido dele lhe mandava a letra de Sixteen Tons, na altura cantada pelo Frankie Laine e depois por tanta tanta gente (e entre eles os Canned Heat, José, esses fabulosos Canned Heat...). A carta ia datada de 14 de Julho de 1956, cinquenta anos uma vida, e destinava-se a um rapazinho em Nampula, norte de Moçambique, que provavelmente a quereria cantar a alguma namoradinha do colégio Nossa Senhora das Vitórias, vizinho do Colégio Liceu Vasco da Gama, o colégio dos rapazes. Se outras razões não houvesse esta bastaria: uma carta do irmão mais velho para o mais novo a anunciar-lhe um novo evangelho musical, o rock e todos os seus acólitos.
amigos, leitores e confrades desta viajem à bolina que se chama blog incursões (sem til, atenção sem til) apanhem lá esta: sixteen tons! Ah se eu soubesse pôr aqui música...


fotografia gentilmente cedida ao Inc por AntropoLógica

Blawgs ali ao lado

Para facilitar a pesquisa a quantos queiram estar a par da agenda e das notícias do judiciário e da justiça (também amplamente servidas no blog Vexata Quaestio, recentemente enriquecido com belíssima iconografia relativa ao tema), a lista de blawgs constante da side bar foi aditada com o Lex Fundamentalis (da autoria de um oficial de justiça), com o Defensor Oficioso (da autoria de um advogado) e com o Blog de Informação (da autoria de um juiz); este último, tematicamente mais diversificado, tem a particularidade de reportar regularmente iniciativas e eventos culturais no Algarve, "ce pays qu'est le mien".
Entretanto o Sine Die (também linkado na side bar em blawgs) soma e segue na sua linha ADIA (actualidade, diversidade, inteligência, acutilância). Daqui um abraço de incentivo para as jovens colaboradoras Patrícia Agostinho e Ana Rita Pecorelli. E uma provocação/sugestão à administração: não seria de elementar coerência com o escrito no texto de apresentação do blog darem conteúdo aos vossos blogger profiles?

12 julho 2006

Sur le Pont d'Avignon

Isto é só um telegrama, um foguete de posição, uma bandeira feita com uma camisa de quadrados, um sinal: abriu o Festival de Avignon, o mais importante certame de teatro do mundo.
Sessenta anos, já. Sessenta anos depois de Jean Vilar, esse mesmo, o do Théatre National Populaire, o teatro de Gérard Philippe, ter resolvido fazer um festival descentralizado, livre, experimental, onde o público pudesse encontrar actores, encenadores, criadores.
Há um bom par de anos, convenci - um milagre dos mais extrordinários - o meu amigo Cenourinha a passar um par de dias em Avignon, durante o festival. O milagre era fazer o Cenourinha entrar numa sala de teatro, logo ele que só jurava pela sétima arte, o diabo da criatura sabia tudo, tratava o Griffith, ou o seu fantasma, por tu, sabia mais de Heddy Lamarr do que ela própria, já conseguira infiltrar-se numa festa dos Oscares, sabia o nome de todas as ruas de Hollywood, era amigo (!!!) do Kurosawa, tu cá tu lá com a malta dos "cahiers du cinema" fizera figuração num par de filmes italianos, à borla só por amor à arte, enfim só lhe faltava pôr-se atrás de uma máquina de filmar. "Livra, Oliveirinha, livra, tu tás é maluco, eu sou um espectador, um crítico in immo pectore, um projeccionista - era verdade: fora durante quinze dias projeccionista no velho Condes em Lisboa - tudo o que quiseres mas realizador nunca.
O Cenoura esqueecia-se, modestamente, de falar numa actrizinha alemã, bem engraçada, com quem vivera uns tempestuosos meses durante uma produção ítalo-alemã (a pequena fora depois pescada por um produtor que não teria a juventude do meu amigo mas em troca podia comprar uma cadeia inteira de cinemas...). A vida nem sempre é como o cinema. Aqui para nós o Cenoura até nem se importara especialmente, andava de olho numa técnica de montagem, se é que já não andaria bem mais perto...
O teatro é século XIX, prosseguia a cenoural criatura (a propósito a malta chamava-lhe cenoura não porque ele fosse ruivo longe disso, mas tão só porque em tempos namorara uma geitosa que tinha uma cara igual á do coelho "Bug's Bunny" com dois dentes iguais, iguais, iguais e que se pendurava na orelha do meu cinéfilo amigo e lhe dava dentadas que pareciam convites para cama com docel e tudo... Vai daí, como o coelho malandro dos desenhos animados andava sempre a roer uma cenoura... a rapaziada, em dia pouco inspirado, já com umas cervejotas a mais (muitas cervejotas, um hectolitro delas...) deu em chamá-lo "cenourinha" da*** (não vou dizer o nome da pobre rapariga, que diabo! Um cavalheiro é um cavalheiro! Mas se virem por aí uma senhora dos seus sessenta, com dois incisivos desmesurados a trincar uma orelha ou apenas um palmiere perguntem-lhe se passou por coimbra nos sessenta e se conheceu um "cenoura" com manias cinematográficas. se ela não vos der um tiro nem chamar nomes à vossa família, desistam, é outra e recomecem a procurar.
Bom, voltemos ao Cenoura. Com a promessa de irmos depois a Cannes para ver o palácio do festival lá o convenci a ir até á cidade dos anti-papas. Naquele tempo ainda se podia ir assim de um momento para o outro, aldrabar um bocado as pessoas da organização, somos dois portugueses exilados na Suécia (convinha ser exilado, mas de longe, nunca de Paris, para não termos de explicar porque é que não podíamos comprar bilhetes) .
Já nem me lembro do que vimos mas garanto que logo no primeiro dia foi um fartote de comoções. Ao segundo, apanhámos um ballet do Béjart, uma troupe americana (não, não era o living theatre que também o vi mas não lá eram outros igualmente bons, igualmente anárquicos, igualmente comunitários.) alguem aí da audiencia murmura: deve ser o Bread and Puppet... Também não, leitora gentil, também não, eu é que já nem consigo lembrar essa intensa comoção, ou melhor o nome daquela gente, que da comoção lembro-me sobremaneira. ..Mas deixemos a leitora ás voltas com o teatro americano e passemos ao concreto: então não querem lá ver que o Cenoura à noite, alta, altíssima noite, diante duma caneca de cerveja e duma sanduiche de paté com meio metro me diz: Oliveirinha a malta podia ficar cá mais uns dias, que isto promete. Com o espanto até ia entornando a minha caneca que estava ainda a meio. Porra, Cenoura não me faças isto que a cerveja cá custa um balúrdio, pá. E por pouco que não me engasgava pá vê lá o que dizes. Tás doente? O paté faz-te azia, salmonelas ou é só a cabeça que te doi?
Mas o Cenoura impertérrito grantiu-me que tinha mais saude do que o John Wayne e que achava que devíamos fazer mais uns dias de Festival.
Convém dizer que nem sempre estávamos juntos, por vezes um de nós pirava-se para um dos espectáculos off ou ia assistir a um debate pelo que normalmente só nos encontravamos para um jantar económico ou num bistro aberto dia e noite onde por poucos francos podíamos beber umas e outras.
Ao quarto dia o Cenoura desancou-me com uma impressionante fiada de citações teatrais, nomes de pequenas companhias e mais balivérnia teatral. Eu, nem acreditava nos meus ouvidos... Até que, (e aqui façam um fundido e encadeado cinematográfico, se é que sabem o que isso é) o Cenoura foi por mim avistado ao lado duma morena bem morena, moreníssima, dessas que fazem parar os comboios quando não os descarrilam pura e simplesmente. Cenoura!, uivei no mais puro estado de catatónica admiração. Majestoso o cinéfilo reconvertido em amateur teatral permitiu-me a aproximação, embora não a abordagem, que a minha nacionalidade lusitana devia e queria fazer. Para abreviar apresentou-me uma actriz secundária duma troupe espanhola, uma pequena vinda da Córdova califal que, num primeiro encontro com o Cenoura, o ouvira falar de cinema com tal convicção que não resistira à pergunta fatal: é crítico? que não, que não... Actor? Upa, upa! realizador? Desdém com boca entornada. Produtor? Aí o Cenoura tomou um ar grave, e deixou cair esta: V. é perspicaz, mas não espalhe que eu vim cá com o meu secretário (estão a ver quem, claro...) para tentar arranjar gente para o próximo filme com o *** ( o produtor gatuno de actrizes engatadas pelo Cenoura). E é até melhor falarmos só de teatro e nunca de cinema, que a concorrência é feroz, as inimizades muitas e o dinheiro em jogo atinge montantes faraónicos.
Ficámos até ao fim do festival, tive de emprestar dinheiro para um quarto escondido dum hotel no campo de Avignon (ai esta necessidade de passar despercebido..., lamentava-se o Cenoura. Não faz mal respondia a bela andaluza, espreguiçando-se na cama que partilhavam - temos tempo de ir para um palace depois das filmagens... ).
Temendo desenvolvimentos perigosos, dei á sola mal o festival terminou deixando um recado lacónico ao Cenoura que entreatanto partiu para Córdova com a troupe e só apreceu temps depois, com ar de gato que comeu o canário. Sobre essa ausência manteve o laconismo de um verdadeiro cavalheiro pelo que a história acaba aqui.

sur le pont d'avignon
on y danse, on y danse,
sur le pont d'Avignon
on y dance tout en rond.

d'Oliveira fez, e dedica esta a Rui do Carmo pelas razões que ele sabe.