11 novembro 2004

Os 25 anos da carreira de escritor de António Lobo Antunes

A homenagem (ler aqui).

"Relevância do sistema de Justiça para a Economia Portuguesa"

Resumo da intervenção do Ministro da Justiça, no primeiro dos Encontros da Nova - O Poder Político Face à Sociedade Civil:

A possibilidade de o Provedor de Justiça passar a auditar a actividade dos tribunais, particularmente no que diz respeito ao trabalho dos juízes, está a ser avaliada pelo ministro da Justiça... (continue a ler aqui)

Histórias do Telemóvel?

«... O telemóvel é a peça singular de tecnologia que mais transformou a vida social dos portugueses nos últimos dez anos. Pode-se pensar que foi o computador, mas não foi. O computador acrescenta uma nova forma de trabalho a quem tem as literacias necessárias para o usar. É verdade que também acrescentou alguns comportamentos sociais novos, como os que se manifestam no correio electrónico, nos "chats" e nos blogues, que revelam virtualidades sociais até então inexploradas - os "chats", com o seu jogo virtual de "personae" e os blogues como nova forma de diário intimista ou ficcional, ou como locais de debate e expressão não editados, acrescentados ao espaço público. O correio electrónico, por sua vez, fez regressar à escrita muito do que tinha passado para a voz. Apesar de todas estas formas de utilização do computador e da Internet estarem a mudar o conjunto da realidade, não têm para já o impacto social que têm tido os telemóveis num espaço de tempo muito pequeno...»

Para ler o texto completo desta interessante crónica de J. Pacheco Pereira, no Público de hoje, clique aqui.

Invocação da moral

“O objecto da moral terá de ser constituir um mundo de pessoas. Mas o que ela procura antes de tudo é constituir a própria pessoa. Porque é impossível defender que a pessoa é posta antes e que só numa segunda etapa é que ela procura produzir o valor moral ou sujeitar-se a ele. As duas etapas fazem apenas uma. A característica da moral é precisamente convidar-nos a criar-nos a nós próprios como pessoa. Ela obriga-nos a querermo-nos a nós próprios; e vê-se claramente que esta vontade é necessariamente um valor absoluto: porque toda a vontade é primeiramente vontade de si, há entre a vontade e o eu consciente de si uma imediação de que toda a vontade relativa a um fim é apenas uma expressão ou um meio. Na investigação intelectual, queremos conhecer as coisas tais como são, na investigação estética queremos encontrar nelas o que nos permite alegrarmo-nos que elas sejam o que de facto são, mas na investigação moral é de nós próprios que se trata. É puro cinismo usar a moral como arma de arremesso. O que a moral trata em primeiro lugar é da nossa própria postura na relação com os outros, a vida e o mundo. Pretende criar-nos de tal modo que possamos estar de bem com o que somos.
A relação entre a pessoa e a moral é tão estreita que pode ser convertida: não só a moral implica sempre a pessoa e refere-se a ela, mas também o que constitui a pessoa e permite defini-la por oposição ao indivíduo é a ideia de um valor moral que ela reconhece ou ao menos que ela procura para a ele se submeter.”


L. Lavelle, Traité des valeurs, TII, P.U.F. Paris, 1955. pp. 390-391

ESPLANADA

Naquele tempo falavas muito de perfeição,
da prosa dos versos irregulares
onde cantam os sentimentos irregulares.
Envelhecemos todos, tu, eu e a discussão,

agora lês saramagos & coisas assim
e eu já não fico a ouvir-te como antigamente
olhando as tuas pernas que subiam lentamente
até um sítio escuro dentro de mim.

O café agora é um banco, tu professora do liceu;
Bob Dylan encheu-se de dinheiro, o Che morreu.
Agora as tuas pernas são coisas úteis, andantes,
e não caminhos por andar como dantes.

Manuel António Pina

10 novembro 2004

Jantar-convívio

O Incursões propõe-se organizar um jantar-convívio, em ambiente cultural, que, por amável cedência da sua Direcção, terá lugar no Restaurante Panorâmico da Universidade Católica do Porto, à Foz, no próximo dia 10 de Dezembro, pelas 19:30 horas.
Conta-se com a presença da Professora Doutora Maria José Moutinho Santos, da Secção de História da Faculdade de Letras da Universidade do Porto, que fará uma comunicação baseada na sua tese de doutoramento A SOMBRA E A LUZ – As prisões do Liberalismo, publicada pelas "Edições Afrontamento", 1999.
Convidam-se, para o evento, para além dos membros e colaboradores deste blogue, os seus habituais comentadores e leitores, incluindo os de outros blogues, e respectivas companhias.
Aceitam-se inscrições até ao dia 4 de Dezembro, a efectuar por e-mail dirigido a incursoes@hotmail.com (dada a limitação do espaço, atender-se-á à ordem cronológica de inscrição, caso o número de inscritos seja superior ao esperado).
A refeição será simples, devendo o preço, a fixar oportunamente, oscilar entre 15 a 20 euros.

Homenagem ao LIVRE-PENSADOR

As imagens e os sons, nas suas múltiplas apresentações, não só modificaram a presença do homem no mundo, mas também o próprio meio cultural habitado pelo homem. Fala-se, hoje, na “Aldeia Global” e o fenómeno dos media constitui poderosa arma de domínio que, de forma lenta, mas incessantemente, modifica o nosso modo de ver os outros, a vida e o mundo. A sociedade actual está submetida à pressão de uma comunicação manipulada por interesses e poderes maniqueistas que criam comportamentos e reacções de conveniência. Esta “Aldeia Global” está prenhe de informação, mas dela desapareceu o espírito crítico que faz o conhecimento e humaniza a acção humana.
Com este insignificante texto, deixo uma homenagem a todos aqueles que assumem de forma leal e frontal, clara e inequívoca o espírito crítico de LIVRE-PENSADORES.

09 novembro 2004

Chicane - Behind the sun (2000)

Escutar

A capa...

... do Relatório Anual da Procuradoria-Geral da República - 2003 é a reprodução de um Pormenor do tecto do Gabinete do Vice-Procurador Geral da República.
Eu bem me parecia que o Palácio de Palmela é, acima de tudo, uma obra de arte!
Que o tecto nunca caia!

Associação Forense do Oeste

Vai ter lugar em Peniche, na próxima sexta-feira, a Assembleia Constitutiva da Associação Forense do Oeste (AFO), que pretende ser um local de encontro e diálogo das várias profissões forenses nesta região.
Da comisão organizadora fazem parte magistrados, advogados e funcionários judiciais, esperando-se a presença de cerca de 70 candidatos a sócios.
Esta associação tem como novidade o facto de abranger uma área geográfica coincidente com a recentemente formada Comunidade Urbana do Oeste, que se estende de Alcobaça até Torres Vedras.
A reunião, além da aprovação dos estatutos (com contributos imprescindíveis de Incursionistas das congéneres de Braga e da Maia) e dos dircursos da praxe, terá a partcipação do Coro Ad-Hoc, de Caldas daRainha, a que se seguirá um bacalhau à lagareiro e um javali com castanhas.
Se é magistrado, advogado, notário ou conservador (no bom sentido), funcionário judicial ou do MJ, professor ou estudante de direito, e se trabalha na área da Com.Urb/Oeste, ainda está a tempo de se inscrever, pelo tlf. 262 783 101.

DAQUI, DE MAPUTO

Um Susto. Uma Sugestão Culinária.

Um Susto
Hoje de manhã, mal saí à rua deparei com uma manchete de um diário que dizia “MADEIRA ACREDITA NA MELHORIA DA PGR”. Fiquei sem reacção.
Lembrei-me, de repente, que estava em Moçambique, que o jornal era o “Notícias” e que “Madeira” é o nome do Procurador-Geral da República.

Uma Sugestão Culinária
Se ainda não provaram arroz de coco, não hesitem. Uma delícia!
Se já provaram, passem à frente.
Fácil de fazer: abra o coco, retire-lhe a parte branca e rale-a (pode também comprar o coco já ralado); coloque num passador mergulhado numa quantidade adequada de água quente e esmague o coco; depois faça o arroz como é seu costume, utilizando este líquido em vez de água.
Sugestão: acompanhe com caranguejos fritos.

Maputo, 09 de Novembro de 2004

Ruído?

Com o título "DIAP acaba com equipa de procuradores da Casa Pia" o DN publica hoje notícia onde, a este propósito, se diz:

"A equipa de procuradores que liderou as investigações do processo de pedofilia na Casa Pia de Lisboa foi desmantelada em meados de Setembro, muito antes de acontecer o mesmo aos elementos da Polícia Judiciária (PJ). A decisão foi tomada, por despacho, pela coordenadora do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) de Lisboa, Francisca Van Dunem." (...)

Vai-se a ver o resto da notícia e o tal desmantelamento é configurado pela cessação do regime de afectação exclusiva em que se mantinham os três magistrados relativamente à direcção do "inquérito casa Pia", continuando as certidões deste extraídas para investigação em inquérito(s) autónomo(s) atribuídas ao Procurador João Guerra - estes ainda em curso, ao contrário daquele, como é sabido.
Daqui a concluir-se, como faz o articulista do DN, que esta decisão, tomada por Francisca Van Dunem, coordenadora doDIAP, ou está em contradição com o entendimento implícito no ofício enviado (em data posterior) por Souto Moura a Santos Cabral; ou (se tomada em sintonia com o PGR) estarão as duas posições deste em contradição entre si, vai toda uma vontade de "criar" ruído e supostos acontecimentos/notícias que ponham em causa a actuação do Ministério Público.
Penso eu, mas posso bem estar enganada, que para além de anjinho estou agora, por razões que espero com breve e satisfatório termo, completamente "por fora", até de blogs...
Mas relendo o que foi publicado no Correio da Manhã como sendo o tal ofício de Souto Moura e sem que me façam o desenho, não chego a outra conclusão. Ora vejam esta passagem:

(...)"Não podendo deixar de ter em consideração os imperativos de organização interna e a falta de meios humanos com que se debate aquela polícia, entende-se que chegou o momento de pôr termo àquele regime de dedicação exclusiva-requisição. Isto mesmo terá sido transmitido à equipa do Ministério Público com quem trabalham, pelos senhores Rosa Mota e Dias André.Acontece, no entanto, que estão em curso investigações levadas a cabo no âmbito de processos derivados do processo Casa Pia, em que os factos a investigar estão relacionados com os que foram abrangidos por aquele processo. Os funcionários ora em causa, no nosso ponto de vista, estarão bem colocados para continuarem a trabalhar nas investigações em curso, pela experiência que já tinham e pelo desempenho muito meritório que revelaram no caso em apreço."

Quando finalmente puder dar outra espreitadela aqui, ali e/ou acolá, pode ser que se me faça luz. Até porque direitos já lançou mais um dos seus posts lapidares: "direitos espera que os esclarecimentos da Procuradoria-Geral da República sejam rápidos e oportunos. O Ministério Público encontra-se numa situação que exige uma ruptura com os actuais procedimentos. Ou com a ausência deles."

08 novembro 2004

A resposta...

... do Senhor Bastonário Dr. José Miguel Júdice ao Comentário do Dr. João Rato, aqui publicado, pode ser lida no portal da Ordem dos Advogados.
Com presumida autorização, aqui o transcrevemos:

«Com autorização do Sr. Procurador Dr. João Rato publica-se o comentário que por ele foi feito ao texto que fiz sair no “DN”. Respeito a opinião do meu contraditor, como é evidente. Mas discordo dela. Duas únicas notas: a minha posição sobre o papel do MP nos tribunais de trabalho, nos gabinetes ministeriais e nas acções cíveis é antiga. Por exemplo, defendia-a em Braga num debate sobre o Estatuto do MP, em que fui convidado a falar ainda antes de ser eleito Bastonário. E tal posição fazia parte do programa de candidatura que apresentei em 2001 e se tornou o programa da Ordem dos Advogados neste triénio. Posição antiga e que nada tem a ver com a teoria da conspiração em que afunda o argumentário do meu contraditor.

A defesa da autonomia do MP é posição oficial da Ordem e é a minha pessoal. Nada disso depende da ingratidão, real ou hipotética, de ninguém, pelo menos enquanto eu for Bastonário. Mas nem todos os Advogados assim pensam e muitos defendem que devem ser Magistrados Judiciais a dirigir o Inquérito a realizar pela PJ. Por isso digo que é pouco sensato que o MP ataque sistematicamente a Ordem dos Advogados (ainda agora no blogue os ataques se repetem), pois não somos em regra pessoas que gostem de ser assim tratados.

Como não há duas sem três, posso dizer que adoro fábulas. Mas que nem eu sou um gato nem o meu contraditor é uma ratinha. Longe de mim querer comer o Sr. Dr João Rato. E embora sejamos 22000 Advogados e muitos a passar por dificuldades, estou certo que nenhum de nós quer devorar nenhum Procurador. Quanto a casar, temos excelentes exemplos de que tudo correu bem, pelo que também por aí temos de ter esperança…»
Apenas uma nota de rodapé:
A propósito da frase «Por isso digo que é pouco sensato que o MP ataque sistematicamente a Ordem dos Advogados (ainda agora no blogue os ataques se repetem), pois não somos em regra pessoas que gostem de ser assim tratados», se "ataques" surgiram neste blogue à Ordem dos Advogados (não se vê quais tenham sido), eles não partiram seguramente de algum dos membros que o compõem. E, pelas opiniões dos comentadores, em especial dos anónimos, não nos podemos responsabilizar, como é evidente.
Seja como for, agradece-se ao Senhor Bastonário o tempo que perdeu na leitura deste blogue.

«... O direito não compreende tudo...

... A cultura judiciária deve reflectir uma cultura de cidadania e abrir-se à inter-relação de outros saberes não estritamente jurídicos. São eles que dão as tonalidades à realidade dos factos e da vida. A cooperação de outros profissionais, que não só os magistrados, e de outras entidades, que não só os tribunais, na formação é irrenunciável e uma exigência, perante as novas dimensões do agir judiciário. Desta forma, são os ritos tecnicistas que cedem perante a solidez da formação; são os áridos procedimentos da justiça que não estiolam as razões humanas.

A fragilidade da dogmática que se fecha à cultura da vida, foi algo que aprendi na Universidade. Dela trago também o ensinamento – de Kelsen, e de outros Mestres – de que tanto o Universitário como o Magistrado devem ser daqueles que prezam mais o Saber do que o Poder.»...

Anabela Rodrigues, em discurso de tomada de posse como directora do CEJ

Estado deixa prescrever processos de dívida

O Ministério Público, que representa o Estado nas acções executivas, está a deixar prescrever diversos processos, porque não tem orçamento para pagar as taxas de Justiça, refere o Jornal de Notícias na edição de segunda-feira.

Por falta de verba para cobrir custas judiciais, o próprio Estado está impossibilitado de receber milhares de euros relacionados com centenas de acções de penhora que ficam por executar. «A necessidade foi imposta por uma recente alteração no Código das Custas, que obriga o Estado a pagar ao Estado, para accionar qualquer acção», explica o JN.
O novo Código de Custas acabou com a isenção do Ministério Público no pagamento dos preparos. Isto significa que, por exemplo, «para obrigar alguém a entregar o que deve ao Fisco, o Estado tem de pagar», explica um representante dos funcionários judiciais citado pelo jornal.
«Porque (o Estado) não tem verba orçamentada para tais despesas, e ainda que se trate do pagamento de um valor residual, a verdade é que o Ministério Público não está a accionar os devedores, nem a fazer cobrar as suas dívidas», Fernando Jorge, presidente da Associação de Funcionários Judiciais, citado no artigo.
Quem partilha de opinião idêntica é a Associação Sindical dos Juizes, acrescenta o artigo. No último memorando, datado de 22 de Outubro e «elaborado a propósito do tão falado pacto de justiça», garantiam os juizes que a «reforma da acção executiva assume-se cada vez mais como verdadeiro fiasco».
Diário Digital de 8-11-2004

AS DUAS COISAS, PORQUE NÃO?

A propósito de uma intervenção minha produzida no encontro sindical realizado no Funchal, nos dias 29 a 31 de Outubro, o Dr. José Miguel Júdice, na qualidade de Bastonário da Ordem dos Advogados, escreveu um artigo de opinião no DN de 5/11/2004, intitulado “As duas coisas é que não é possível”, pondo a questão em termos maniqueístas para concluir que os procuradores tinham que fazer opções: ou queriam ser autónomos e, assim, magistrados, ou queriam não o ser, continuando a defender interesses do Estado e outras pessoas e entidades.

O observatório institucional de que me interpelou, para além de traduzir uma distinção imerecida, impede-me qualquer pretensão de resposta.

Mas uma vez que o meu nome e as minhas supostas teses são expressamente invocadas como pretexto do referido artigo, à míngua de outras possibilidades de reacção, sinto-me legitimado a tecer algumas considerações que, espero, possam esclarecer o exacto sentido da minha intervenção e, do mesmo passo, funcionar como comentário crítico à posição do Senhor Bastonário.

Na questionada intervenção, segui de perto um texto escrito por ocasião do VI Congresso do MP, realizado em Évora, adaptando-o à temática que agora era proposta e enveredando pela análise de novos desafios que me parecem confrontar actualmente o MP nos tribunais do trabalho.

Nessa linha, comecei por justificar a inclusão da área laboral nos trabalhos do encontro, por considerar, como há muito considero, que a intervenção do MP nessa jurisdição, mormente enquanto patrono dos trabalhadores por conta de outrem, se reconduz ao núcleo essencial das suas atribuições como magistratura, é dizer, a defesa da legalidade democrática, dos direitos fundamentais dos cidadãos trabalhadores, tal qual como sucede quando exerce a acção penal, defende os ausentes, os menores, etc.

É o que penso, tenho escrito em variadíssimos documentos publicados e nunca vi substancialmente contestado, a não ser com o lugar comum de que a magistratura serve para compor interesses, mas não para os defender.

Continuei depois, elencando um conjunto de factores exógenos e endógenos mais ou menos actuais cuja verificação reclama do MP laboral maior atenção, adaptação e novas práticas no exercício quotidiano e na planificação da sua actividade: nos primeiros, destaquei o conjunto de novas leis vigentes a partir de 2000, desde o CPT, à LAT, a imigração, em particular a ilegal, a discriminação em razão do sexo e, porque não, a recente descoberta dos advogados da existência do MP nos tribunais do trabalho e o incómodo que isso lhes parece causar, alertando para a Lei n.º 49/2004, de 24/8, de cuja leitura rígida pode mesmo concluir-se não poder o MP mais realizar tarefas de consulta jurídica nos tribunais do trabalho; nos segundos, salientei aspectos atinentes à organização interna do MP laboral, ou a falta dela, a inexistência de formação específica e a progressiva diminuição de qualidade do serviço por ele prestado naquela jurisdição, o que, a acrescer àquele risco e à natureza subsidiária do patrocínio, conduziria inelutavelmente, à extinção do patrocínio dos trabalhadores pelo MP, com sacrifício dos interesses desta classe de cidadãos particularmente indefesos ou vulneráveis, sempre, como é óbvio sem descartar a discussão sobre a razoabilidade ou não da manutenção dessa atribuição, como, de resto, de qualquer outra legalmente deferida ao MP.

Essa foi a essência da minha intervenção, tudo o mais são floreados e tiros dirigidos a títulos da imprensa, cuja responsabilidade me é de todo em todo alheia.

Alheia é-me igualmente a posição oficial do SMMP, pois que, sendo seu sócio, não integro os respectivos órgãos sociais e produzi uma intervenção pessoal e que só a mim compromete, embora no contexto de uma organização sindical.

Termino com duas notas e uma história infantil:

A primeira tem a ver com o facto de só agora, quase um século depois da instituição do questionado patrocínio, mas pouco tempo depois do Dr. José Miguel Júdice ter produzido um documento sobre saídas profissionais dos jovens advogados em que se apontava a extinção daquele como um dos possíveis contributos, a AO, melhor, o seu Bastonário, ter despertado para a pureza dos princípios de que decorreria a incompatibilidade do seu exercício com a natureza de magistratura que se pretende manter para o MP, mesmo depois de em 1999 a AO ter tido a oportunidade de o banir definitivamente do mundo das coisas sensíveis, por ocasião da revisão do CPT;

A segunda incide na surpreendente, mas aparentemente sincera posição do senhor Bastonário, para quem a autonomia do MP parece não ser um princípio cujo valor se afirme por si próprio e em nome da defesa dos interesses dos cidadãos, da sociedade democrática, mas algo que só serve enquanto moeda de troca em qualquer negociação ainda que disfarçada sob o lema de “pacto da justiça”.

Se assim for, declaro solenemente não estar disponível para participar nesse pacto, não vá acontecer-me o mesmo que à “Ratinha Presumida”:

«Era uma vez uma ratinha que estava a varrer o pátio da sua casa quando encontrou uma moeda de ouro.
Depois de muito pensar no que compraria com ela, decidiu-se por uma fita de cetim para enfeitar a cauda.
A ratinha estava sentada à porta de casa quando passou por ali o pato. Vendo-a tão linda, quis casar-se com ela. Mas a ratinha não gostou da voz dele e recusou-o.
Depois passaram por ali o galo, o cão e o burro. Os três pediram a ratinha em casamento.
Porém, ela não gostou do có-có-ró-có-có do galo nem do ladrar do cão nem do zurrar do burro. Tapou os seus ouvidos delicados e mandou-os embora aos três.
Chegou então o gato, e com os seus modos elegantes declarou-lhe o seu amor entre doces miados. A ratinha apaixonou-se imediatamente por aquele pretendente tão fino e lisonjeador.
A ratinha e o gato não tardaram a casar-se, e todos diziam que faziam um belo par.
No entanto, quando chegaram a casa, o gato fez o que sempre fizeram os gatos: perseguir os ratos.
E a ratinha escapou … por um triz!
»
In “Clássicos para sonhar”, da Girassol, Edições, L.da.

João Rato

A Liberdade de Expressão na Internet

Colóquio
A Liberdade de Expressão na Internet
Sala dos Espelhos do Palácio Foz
9 de Novembro de 2004


A temática da liberdade de comunicação e expressão na Internet apresenta contornos muito complexos, sendo mesmo fracturante em termos ideológicos.

Questões como as normas e regras relativas aos conteúdos na Internet e a sua equiparação, ou não, aos media clássicos, o controlo prévio pelo Estado, as barreiras à participação individual na Sociedade da Informação, a liberdade de prestação de serviços via Internet, a responsabilidade dos intermediários, o papel e o estatuto das entidades de regulação são disso exemplo.

Importa confrontar posições, muitas vezes contraditórias, outras vezes complementares, sobre estas matérias congregando de uma forma abrangente os vários actores neste processo.

Inscrições gratuitas mas obrigatórias.

Pode consultar o Programa no site da Ordem dos Advogados, donde foi retirada esta informação.

07 novembro 2004

FOLHETIM DE DOMINGO (em formato de blog)

por marinquieto

Capítulo VII


Saiu às 08 horas, quando o dia ainda resistia ao avanço da noite. Tinha decidido ir a pé. Pelos seus cálculos demoraria cerca de meia hora a chegar à rua onde morava Açucena. Já não conseguia aproveitar nem entreter mais o tempo em casa. Daria uma volta maior, aproveitaria para saber qual a moda para a próxima estação nas lojas das marcas internacionais que se instalaram na Rua das Acácias para venderem fatos de banho quando ainda nem sequer a Primavera se afirmou - o que acaba por ir ao encontro das nossas fantasias, mas casacos compridos quando ainda sentimos no corpo o calor do Verão ... E convinha contar com a possibilidade de o nº50 ficar na outra ponta da Rua do Paço. Mas o mais importante era que pôr-se a caminho encurtava o tempo de espera. Encarava este nervosismo, na sua idade, como capacidade de enfrentar com entusiasmo novos desafios, como um desejo de ser surpreendida. Três anos a ouvir histórias de que já nem o princípio era novidade, que escorriam como baba de bocas que tinham deixado de ter hálito, já tinham chegado.
Chegou junto do nº50 faltavam 10 minutos para as 9. Era um prédio com três andares, com direito e esquerdo, mas não lhe tinha sido indicado o andar nem o lado. Como iria sabê-lo? Foi até ao fundo da rua para fazer horas. Os carros abrandavam ao vê-la passear sem destino numa rua de habitação daquela classe média que aspira a ser o metro-padrão social, média mesmo, que não era passagem para lado nenhum, cujos condutores, chegados do emprego à procura de lugar para estacionar, marcavam o território esticando o pescoço e rodando com altivez a cabeça na sua direcção, mas sem a elegância das girafas. O que noutras circunstâncias até a teria divertido, naquele momento fê-la sentir-se só. Eram 9 horas. As campainhas situadas em bateria do lado direito da porta não tinham a identificação dos residentes, que, no entanto, se permitiam espreitar os transeuntes a partir de casa. Escolheu o andar do meio por lhe parecer ser a opção mais equilibrada num prédio sem elevador e, para compensar, o lado esquerdo por ser o sentido inverso à rotação dos ponteiros do relógio. Tocou.
- Está?
- Mas eu conheço-a!?
- É Açucena?
- Sou! Mas eu conheço-a!?
- Sou Ângela Novais. Lembra-se que combinámos vir hoje a sua casa, às 9 horas?
- Sim, sim ... suba.
Quando chegou ao átrio do segundo andar já a porta do 2º esqº estava aberta.
- Mas eu também a conheço ... Não sabe como tenho pensado que gostava de voltar a falar consigo.
- Que coincidência!
- Depois da conversa que tivemos naquela esplanada junto ao mar, ser a minha primeira cliente, desculpe lá!, é antes uma ironia.

Valores morais

As noções burguesas de honra, de carácter, de responsabilidade e de vergonha, que eram seculares e que serviam um certo equilíbrio individual e colectivo, já não movem ninguém ou quase ninguém.
Vasco Pulido Valente, Público 6NOV04

Música de Domingo

Samuel Barber (1910-1981)

Adagio for Strings, opus 11 (1936)