13 maio 2006

ARTADENTRO "EM ANDAMENTO"

Teresa Ramos reinventa conchas e outras maresias com materiais surpreendentes, entre eles rendas que transforma, com a sua arte, como que em espuma cristalizada. Ana André, com a sua minúcia pictórica recria, numa maior profusão cromática, esse universo. E nós acompanhamos o percurso criativo e a sua concretização. É fascinante, garanto-vos!









«Desde o início de Fevereiro (*) vem sendo desenvolvido, no nosso espaço ARTADENTRO (**), um projecto que priviligia o fazer da obra mais que a sua exibição, permitindo ao público um diálogo com a(s) artista(s) e o contacto com as obras 'em andamento'. Tendo como ponto de partida o jogo de influências recíprocas, Ana André (pintura) representa sistematicamente os objectos produzidos por Teresa Ramos (cerâmica) que, por sua vez, realiza as suas peças tendo em conta a pintura no seu processo, fornecendo modelos para a sua realização.
Passados três meses, é já possível observar nas respectivas obras as alterações originadas por esta troca de informação.
Assim, é chegada a altura de ser feita uma primeira avaliação a este projecto e às obras entretanto realizadas - a isso o convidamos.»


Primeira Vista: 13 de Maio de 2006 às 18h.

(*)De 1 de Fevereiro a 10 de Junho de 2006, de 3ª a Sáb. das 15h às 19h
visitas de grupo: marcar previamente para tm. 919328019 ou t. 289802754
(**) Faro, Rua Rasquinho, 7 (Viladentro, perto da Sé)
***
Natural de Faro (1969), Ana André frequentou arquitectura na Universidade Lusíada entre 1989 e 1991, data em que iniciou o estudo de pintura no Ar.Co., em Lisboa, onde em 1997 concluiu o Plano de Estudos Completo. Participou em exposições individuais e colectivas. Em 2003 regressa a Faro, cidade onde vive e trabalha. Desde Setembro de 2003, com Vasco Vidigal, dinamiza o projecto ARTADENTRO - Arte Contemporânea.

Natural de Tavira (1953), Teresa Ramos vive e trabalha em Lisboa e Faro. Fez o Curso Avançado de Artes Plásticas do Ar.Co. em Lisboa e é, desde 2002, a responsável pelo Departamento de Cerâmica dessa escola. Participou em várias exposições colectivas e obras suas integram colecções públicas e privadas.

12 maio 2006

Debate no Público.pt

Um debate muito interessante e talvez inédito na imprensa portuguesa foi lançado hoje no Público (ver aqui). O jornal quer colher a opinião dos leitores on-line sobre se deve publicar, na capa do jornal de amanhã, uma fotografia-choque da explosão que ocorreu hoje no oleoduto da Nigéria e que causou cerca de 200 mortos.

diário político 21

Carrilho:que sensaboria!

para Rui Feijó, afectuosamente

Meu querido Amigo



Faço parte daquele já reduzido grupo que julga que nem tudo o que vem à rede é peixe. O mesmo é dizer que nem todos os assuntos convém a este nosso comércio epistolar.

Há acontecimentos, situações e pessoas que, pura e simplesmente, não se discutem porque dessa prática não só nada de útil acresce a qualquer de nós e, mais provavelmente, ao mundo mas também porque, relembrando os clássicos, de minimis non curat praetor.

Está nesse capítulo a estranhíssima figura do Dr. Manuel Maria Carrilho que exerce, nos tristes tempos que correm, de Ministro da Cultura. Porém V., com essa suave mas férrea determinação que a amizade e a idade perdoam, atenaza-me, provoca, enfim chama-me a terreiro como se eu tivesse obrigação de opinar sobre tão desastrada criatura.

Devo-Lhe demasiados favores para me manter por mais tempo calado e, de qualquer modo, o escândalo é ensurdecedor.

Ora pratiquemos, ainda que para tal seja mister manter o nariz fortemente apertado.

Eu, do referido cavalheiro, nada sabia ou, o que é o mesmo, recordo-me porque me avivaram a memória, de um rapazola com acne e buço que passeava nas luminosas tardes de Verão da Figueira, uns vagos livros debaixo do sovaco. Era o tempo em que nós outros, estouvados, abandonávamos a cultura pela sombra das raparigas em flor. Jesus que tempos... e que (castos, castíssimos, ahimé) costumes.

Nos intervalos politicáva-se contra o regime salazaresco, continuando, mesmo em férias, a mais nobre actividade coimbrã do tempo: combinavam-se listas para a “associação académica”, actividades político-culturais, pequenas conspiratas e maldizíamos da pide.

Depois foram os anos de chumbo e lume, os sessentas, as correrias diante da polícia, as prisões, o exílio para alguns, a tropa para outros e o medo e a esperança compartilhados. De tudo sabe V. que para além de nos ter precedido na “oposicrática”, no “reviralho”, na comissão de socorro aos presos políticos, tinha duas filhas debaixo do vulcão. E que companheiras foram. E que exemplos, limpos exemplos, de coragem foram...

Lembrar-se-á que, na madrugada do 25 A, arregimentados pelo José Afonso, corremos cidade e arredores, conspiradores pela primeira vez vitoriosos, numa missão que acabou por ser inócua dada a cadaverosa queda do regime, tão podre que estava. Nesses dias febris comentámos que em breve veríamos assomar ao exíguo cortejo de opositores uma multidão ululante protestando antiquíssima aversão ao deposto regime e muitas e gloriosas façanhas.

A sua filha Teresa e a minha então mulher Maria João sonhavam com o tempo dos condores enquanto nós, mais velhos e mais cínicos, arrenegávamos sobre a inevitável vitória dos urubus.

Os anos sucederam-se aos anos, V. quis-me a seu lado na aventura exaltante da instalação da Secretaria de Estado da Cultura nesta cidade e, quando as aflições financeiras da nossa pobre delegação nos permitiam um momento livre, retomávamos a conversa sobre a navegação caótica da res publica nacional. Assim conhecemos e comparámos diversos responsáveis políticos pela “cultura”, gastámos energia e papel sem conta para os convencer a ceder uma côdea que fosse do magro orçamento que lhes era atribuído para prosseguir modestíssimos objectivos aqui no Norte, ouvimos promessas a rodos e pudemos verificar que nunca, mas nunca, se cumpriram. Até dinheiro desembolsámos para honrar compromissos (V. mais ingénuo e menos pobre do que eu, foi credor, nesses anos de vergonha de somas importantes que adiantou ao Estado para que salários de trabalhadores modestos fossem pagos sem demasiado atraso...).

Todavia quem torto nasce, torto continua, pelo que lá fomos dando o voto ao PS, arriscando desde o primeiro dia o apoio a Soares (ainda recordo aquele dia em que só V., Sua Mulher e este seu criado esperavam o casal Soares para uma sessão da pré campanha...) e finalmente desembocámos logicamente nos “Estados Gerais”, mais propriamente no “conselho coordenador de cultura”.

Eu não me recordo (pelo menos nas primeiras sessões) de ver o Dr. Carrilho participar dos trabalhos. Também não admira que ainda era cedo para se saber se aquilo teria algum êxito. Aliás percebo perfeitamente que as pessoas usem destas cautelas: o mundo está pejado de ingénuos e é bem sabido que tais espécimes só servem para “compagnons de route”, para “inocentes úteis” ou, como me dizia uma militante furiosa e esquerdíssima antes do 25 A, como “massas” (“Então foi alguém preso”, perguntava-lhe eu, no meu papel de advogado de presos políticos. E ela: “Ninguém. Só massas”) .

Ponhamos que o Dr. Carrilho entendeu deixar às massas o trabalho de partir pedra dos primeiros tempos do conselho coordenador de cultura. Quando o Verão começou a adivinhar-se e a possibilidade de o PS vencer nas urnas, ei-lo que sai da clausura universitária e se mete no dernier metro dos trabalhos políticos. Mas, mesmo nessa altura, não me lembro de o ver nos plenários dos conselhos coordenadores: modéstia sem dúvida...Também o não vi na sessão solene dos EG mas isso dever-se-á ao facto de estando eu no palco (medonha sensação...) não conseguir descortinar quem se sentava na escuridão da plateia.

O Verão escorreu, ensombrado pela morte do Zé Valente, e as eleições trouxeram o PS de novo ao poder. Fui festejar a vitória para Paris, convicto que o futuro ministro da cultura seria o Dr. António Reis. Fora aliás assim, nessa qualidade, que o Eng. Guterres o apresentara num qualquer comício eleitoral e fora nessa putativa qualidade que ele, Reis, estivera ao leme do conselho na feitura do programa.

Em Paris, mais propriamente numa esplanadinha de St André des Arts, tratava eu da saúde a uma honrada ração de moules mariniére, quando avistei um jornalista do Expresso ajoujado de catálogos. Prestamente lhe ofereci lugar e almoço com a condição de me contar o que se passava na pátria longínqua. Fiquei a saber que se moviam influências fortes para que Reis não fosse coroado não só porque estava gasto mas também porque andava desaparecido e -last but not the least- tinha abandona esposa legítima por aluna mais nova e tenra!

O meu informante contava-me isto sem paixão e sem excesso embora deixasse entrever que o desaparecimento de Reis era relativo porquanto havia pelo menos uma direcção no Norte e um número de telefone para as urgências. Reis, mais tarde, confirmar-me-ia que assim tinha acontecido: acabadas as eleições fora de férias com a citada namorada mas precavido deixara rasto para o que desse e viesse. Estava, como os médicos, de chamada...

Alguém entretanto entendeu não encontrar Reis e, como diz o ditado le roi est mort vive le roi: faltando o efectivo chamaram um suplente. Calhou ser o Dr. Carrilho ainda que, também aqui, houvesse quem pensasse que deveria ser o Dr. Rui Vieira Nery a subir ao pódio. Dizem que contra o Dr. Nery se levantaram outros argumentos, uma qualquer capitis diminutio que só lhe permitiria ser Secretário de Estado.

É assim que se faz a história, como diria o Eduardo Guerra Carneiro.

O Dr. Nery, entretanto, convidou-me a representar (gratuitamente) o Estado na Administração do Coliseu e, propôs-me vir a fazer parte da futura direcção da Orquestra Nacional do Porto. Aceitei mas, nas escassas vezes que estive na Ajuda, comecei a aperceber-me das más relações entre ele e o ministro. As minhas desconfianças confirmaram-se num dia em que o secretário de Estado me asseverou que tudo o que os jornais diziam sobre aquela tempestuosa relação era falso. Por outro lado fui dando por mim a sentir-me pouco à vontade de cada vez que havia notícia de declarações do Dr. Carrilho. O estilo não me agradava, a empáfia muito menos e, mesmo quando tinha razão, o diabo da criatura, conseguia tornar-se arrogante.

Aproveitei o primeiro ensejo, bem pequeno na verdade, para comunicar ao Dr. Nery a minha desistência da futura “sinecura” orquestral e, na mesma passada, sair do Coliseu. Em boa hora retomei a minha (nunca perdida) liberdade. O Dr. Carrilho a propósito de um conflito menor no PS entendeu vergastar o Manuel Alegre, chamando-lhe qualquer coisa como fóssil. Lá mandei uma carta ao Alegre, a quem como bom soixant-huitard devo uma pipa de esperança pela Praça da Canção ( de que fui co-editor).

As tonitruâncias do senhor ministro continuaram num crescendo tão impetuoso quão grande fora o seu silêncio nos tempos em que o Alegre desafiava o regime. É que de Carrilho nos anos de chumbo ninguém tem notícia. Provavelmente acharia que não valia a pena arriscar o pescoço na oposicrática além do que ser político nesses temps feios poderia comprometer a carreira académica. E que seria da filosofia portuguesa se Carrilho tivesse que dar umas pobres lições no liceu em vez de dispensar as pérolas da sua sabedoria na universidade?

Os jornais, ávidos de carniça e de sangue, parangonavam Carrilho que, deslumbrado, se foi desmultiplicando em chalaças contra quem via a tiro de pederneira: foi Marcello, foi Pacheco Pereira, foi Graça Moura.

Todavia, algo de curioso sucedia com os alvos. Uma vez tocados pela zagunchada carrilhal, logo o caminho se lhes aplanava, choviam elogios, prémios literários, enfim uma cornucópia de coisas boas. A mim, que sou um desconhecido, um Zé Ninguém, convinha sobremaneira apanhar uma castanhada forte de Carrilho: talvez, por um escasso momento. me aparecessem parceiros para o bridge (vai por aí uma penúria negra deles) ou me calhasse o totoloto, ou a crítica desatasse a dizer bem daquele pobre livrinho que V. tão gentilmente apresentou vai para um ano.

Temo-me porém que, nesta ânsia de sucesso, me suceda o mesmo que a Camillo quando pretendia bengalear um atrevido: quando constou que se preparava para ensinar modos à criatura logo lhe atalharam o caminho dois ou três conspícuos cavalheiros que iam pelo mesmo e reclamavam prioridade no sacudir o pó da aventesma.

Já deve haver por aí uma dúzia de pessoas a preparar-se para ser alvo do fundibulário pelo que eu, longe e só, aqui no Porto já só terei vez para o século XXI.

O que se passou com o Dr. Artur Santos Silva é apenas um passo mais da rota desgarrada de Carrilho. Faltava-lhe um banqueiro, se possível do Norte, de famílias antigas e de pergaminhos mais ou menos oposicráticos. Mas aqui a coisa foi mais elaborada que a banca tem mais peso. Houve que atirar-lhe ao caminho com a canzoada do costume, com o insulto por terceiros, confundir Santos Silva com um Porto provinciano e parolo. Sobretudo houve o cuidado de deixar partir Gomes para o Governo onde obviamente estará mais peado (ele há solidariedades ministeriais...) e entalar Guterres que anda inebriado pelas internacionais e pelas cimeiras.

Não se pode negar a Carrilho esperteza no escolher o momento e ousadia quanto ao uso dos subsídio-dependentes. O tempo urge e todos têm medo de perder o comboio de 2001. E o comboio do poder. E aqueloutro de uma certa vilanagem pateta aos olhos de quem Carrilho é uma espécie de Beau Brumell, ainda que traduzido em viseense (de Viseu).

Não é a um mês da presidência europeia que se muda de ministro tanto mais que a este, já aquele cadáver viúvo de Mitterrand chamado Jack Lang tachou de melhor ministro da cultura da Europa. Se isso fosse verdade seria chegado o momento de um se naturalizar liberiano ou ugandês. Ou melhor: pedir passaporte para a Bechuanalândia e ir para lá comerciar em panos já que a escravatura, que terá feito a glória de Rimbaud, está definitivamente fora de moda.

Como eu!

Como V.!

Tenha muito boa tarde, cure essa gripe e, se espirrar à simples menção de Carrilho tome um purgante: essas coisas só tem um lugar por onde sair e convém que saiam. Depois é só carregar no autoclismo.

Seu, sempre


25 de Novembro, dia de Stª Catarina e aniversário da Tomada da Bastilha em Coimbra



Este texto de 2000 não se destinava à leitura geral mas a insistência do Dr Carrilho em fazer passar os outros, todos os outros, por tontos, revela que a criatura não se emenda.

Estes dias que passam 25

1. (nascer num cinema)
Num longínquo dia de Novembro de 41(século XX!!!) uma jovem senhora grávida via, no “Cinema Peninsular”, um filme americano com Gary Cooper, se não estou em erro. Quando o filme acabou, ou talvez antes, sussurrou, para o jovem marido, felizmente médico, como se verá: “acho que fiz chichi sem querer”.
Não era chichi como o marido desconfiou imediatamente. Era o saco das águas que tinha rebentado. Médico, em começo de carreira mas bem avisado, entendeu que um parto de prematuro de oito meses, nas pequenas instalações do hospital da misericórdia da Figueira, não era aposta razoável.
Assim, a meio da noite, por uma estrada péssima, grávida e marido fizeram-se à maternidade de Coimbra, onde o menino nasceu, assistido pelo Professor Lúcio de Almeida e por um pancadão de colegas do orgulhoso pai, que pouco tempo antes acabara o curso.
Não sei se a criatura então nascida, merecia viver. Sei, sim, que naquelas condições a hipótese figueirense não era a melhor. Nem por isso o nascido nesse longínquo inverno de guerra, deixou de se sentir figueirense dos quatro costados. E de Buarcos, arrabalde pescador, por excelência.
Confrange-me, pois, ver agora esta polémica à volta do fecho de pequenas maternidades, sem médicos suficientes, sem enfermeiros suficientes e sem meios. Parece que há uns senhores autarcas que estão dispostos a assumir o risco de morte de recém-nascidos só para satisfazer vaidades locais. Mau caminho. Péssimo mesmo quando se insinua que é o ministro Correia de Campos o mau da fita. Não é. Há uma comissão formada por médicos de reconhecida competência que propõe esta medida. Entre eles, o Octávio Ribeiro da Cunha, meu velho, velhíssimo amigo, cujas honradez, sabedoria e dedicação são de todos conhecidas. Graças a ele, e a muitos outros, Portugal passou de medíocre a muito bom neste domínio da saúde infantil. Isso me basta para uma vez sem exemplo, estar de acordo com o Governo. Também, que diabo, têm direito a uma palavra boa de vez em quando.

2. (morrer o cinema)
Os jornais noticiam, outra vez, uma forte quebra no número de espectadores de cinema. Isto só é surpresa para quem mete a cabecinha na areia. Entre os meus papeis, desarrumados, do tempo da Delegação Regional de Cultura do Norte, um há que tem por título “reflexões sobre a política do espectáculo em Portugal” (1987 ou 88?): Nele com ajuda de estatísticas, o autor, este vosso criado, tinha o arrojo de dizer que desde meados de 60 o panorama da distribuição cinematográfica estava em crise. Que as salas independentes iam morrendo, estranguladas pelas majors e suas agencias em Portugal. Que a ausência de cinema comercial europeu no circuito da distribuição normal, afunilava o gosto do público e, a longo prazo, diminuiria a apetência pela frequência das salas. Que as novas tecnologias (na altura o vídeo) roubavam espectadores tanto mais que absurdas regras de exibição tiravam ao espaço “cinema” uma importante característica de representação social, de local de encontro em que os intervalos funcionavam como momentos importantes de convívio. Etc... A talho de foice dizia-se também que, a modificação da escrita crítica, o desaparecimento de revistas populares de cinema, tinham como consequência, uma menor publicidade aos filmes. E muito menos atenção. E menor eficacia ainda por cima por muito que se queiram louvar os textos críticos publicados. E por aí fora.
Na altura, os responsáveis ministeriais, secretariais, e outros boçais, arrearam forte e feio naquele velho do Restelo que dizia que se caminhava “de vitória em vitória para a derrota final”. Agora limpem-se a este guardanapo! A queda de espectadores continuou imparável. Não há salas grandes para ver uma “fita” no centro das cidades.Nem pequenas! Os cine-clubes vegetam na mais negra miséria: um destroço! Ninguém sabe patavina do cinema que se faz em Espanha, França, Alemanha, Itália ou Inglaterra. Já nem falo da America Latina ou do Brasil. Sequer da Rússia, Japão ou Índia. De longe em longe lá aparece, perdido, um filme desses países carregado de louvores. E de salas vazias! Porque as razões da sua exibição não são as razões do público? Porque à falta de filmes populares, não há também espaço para filmes “bons” (só esta palavra já me arrepia!!!)?

3. (do filme da minha vida) Há muitos anos, nessa Itália das Loren, Cardinale, Mangano e tantas outras, jantava eu com alguns amigos jus-comparatistas e interessados em política num pequeno e simpático restaurante do Trastevere, em Roma. Às tantas, a Giovanna Caravella disse-me: “Olha Marcello (e neste Marcello dito pela amabilíssima Vanna ia um fundo de Mastroiani que eu não merecia) estão ali uns tipos importantes do PCI. O alto chama-se Napolitano e é um dos dirigentes da direita do partido”. A Vanna era adepta de Pintor, Rossanda e companhia, gente que viria a cindir e ser conhecida pelo grupo de Il Manifesto (com a minha total adesão e simpatia, devo dizer).
Um dos nossos amigos, foi cumprimentar alguém à mesa deles. À saída, passaram pela nossa, cumprimentaram e eu, nesses anos loucos de 74/75, fui apresentado como um amigo “portoghese” o que me valeu um imerecido aperto de mão do onorevole Napolitano.
Dá gosto vê-lo Presidente da República. Mesmo sabendo perfeitamente que ele não se lembra de mim, claro. Auguri, Presidente!

4. Dove sieti, adesso, amici miei?

Se vos passar ao alcance de tiro “Ó amigos meus” (“Amici miei”) de Mario Monicelli, em dvd claro, não o percam. É um filme delicioso. Duvido que agora conseguisse sala para ser visto.


A Poesia da Monarquia...




Este é o belo retrato da Infanta Santa Joana, em trajo de corte. Muito comovente e de rara beleza.

Foi Princesa de Portugal, filha do Rei D. Afonso V e da Rainha, sua mulher, D. Isabel.
Nascida aqui em Lisboa a 6 de Fevereiro de 1452, faleceu no Convento de Aveiro a 12 de Maio de 1490.

O nascimento desta linda e bondosa Princesa causou uma grande alegria, pois não havia sucessor.

Logo no berço foi jurada em cortes por Princesa herdeira do Reino, titulo que pela primeira vez se dava em Portugal.
O nome de Joana, que recebeu no Baptismo, foi dado em honra de S. João Evangelista, de quem sua mãe era muito devota.

Hoje, o Museu Santa Joana Princesa, em Aveiro, perpetua a sua memória, pois compreende o Convento de Jesus, edificado no séc. XV, onde se recolheu, em 1472.

Os seus restos mortais encontram-se junto ao coro baixo da Igreja, onde as religiosas assistiam aos ofícios litúrgicos.

A cidade de Aveiro dedica uma festa religiosa precisamente a 12 de Maio, efeméride da sua morte, que inclui uma peregrinação a este local.

O Museu foi fundado em 1911 para receber as peças de arte recolhidas das comunidades religiosas que foram dissolvidas por decreto de Afonso Costa, precisamente aquele que prometeu que erradicaria de Portugal, numa geração, a Fé e todo o sentimento religioso…

A propósito, amanhã, ao fim do dia, rumarei a Fátima e lá passarei o fim de semana.
( o meu amigo MCR bem me diz que preciso de penitência...mal sabe ele da missa a metade...)

A todos os meus companheiros, votos de um fim de semana...numa paz especial...

Coerências

Têm-me contado coisas interessantes sobre a escolha do novo Procurador Distrital do Porto. Não me apetece escrever sobre isso. E não é porque ando - como ando - a sentir na pele por causa das coisas que vou escrevendo e por causa das coisas que defendo. É uma questão de coerência: se não estou preocupado com o que se passa na minha Ordem, por que hei-de preocupar-me com o que se passa na desordem dos outros? No dia em que mudar de ideias, aviso.

Carrilho, o bárbaro

Se o Compadre Esteves aqui estivesse, poderia confirmar: depois de ter perdido as eleições autárquicas de 2001, contra Ferreira Torres, no Marco, houve um jantar na histórica freguesia de Ariz, de homenagem aos resistentes, onde, muito simplesmente eu disse: o homem voltou a ganhar porque foi melhor do que os adversários. E foi.
Claro que ele tinha mais (quanto mais?!) meios para fazer campanha. Tinha uma teia que mais ninguém tem. Tinha as costas quentes (como ainda hoje tem!). Tinha uma comunicação social amordaçada. Tinha todas as coisas que os outros não tinham. Perdi. De consciência tranquila, mas perdi. Não lancei culpas contra ninguém (embora saiba que tantos as tinham). Limitei-me a sublinhar que tinha feito o melhor que podia. E que tinha perdido porque não tinha conseguido ser melhor.
Poucos sabem o que é reconhecer isto numa luta tão desigual. E é por isso, que quando, distraidamente, vou lendo o que disse, já ontem, Manuel Maria Carrilho, na apresentação do seu livro, quando tenta justificar a sua derrota contra Carmona Rodrigues na luta pela Câmara de Lisboa, sinto náuseas. O homem, que perdeu contra um simples Carmona Rodrigues, anda moído no seu imenso ego e não vai recuperar tão cedo. Por mim, dispenso a recuperação. Barbaramente, o homem não tem muito por onde se pegue.

11 maio 2006

Chateado no calabouço

O que se faz quando se não pode fazer nada

Escritos de prisão há muitos e todos merecidamente famosos (As Minhas Prisões de Sílvio Pellico, Escritos à sombra da forca de Fucik, Recordações da Casa dos Mortos de Dostoievsky Cela de Morte de Caryl Chessman Cartas de Sacco e Vanzetti Memórias do cárcere de Graciliano Ramos ou a Balada do Cárcere de Reading de Wilde) dada a liberdade de estilo, a independência critica e o anti-conformismo dos autores.
Mas não é disso que se trata aqui. Lamento muito mas para esse peditório dei demais. Aqui trazem-se á luz duvidosa do dia uns meros divertimentos que o A. confinado nos calabouços do Tribunal de Coimbra ou num quartinho com vistas (abençoadas) para o rio Tejo na prisão de Caxias foi escrevendo para passar o tempo. Enquanto escrevia não pensava noutras coisas e sobretudo não esperava sair antes da próxima sexta feira até às cinco da tarde. Ou fingia que não esperava. Evadia-se alegremente da merda onde vegetava, e sobretudo não caía na tentação de fazer maus versos (mal por mal, antes prosa) nem se entretinha a apiedar-se sobre a sua sorte. Convém dizer que estes foram períodos de leituras excelentes (Proust, Joyce, O homem sem qualidades numa edição francesa!!!, ora toma lá milagre gordo: em francês!, "sebentas" de direito, até ali virgens – e teriam continuado intocadas se o A. andasse à solta...- enfim boa e má literatura. Nesta exacta ordem). Ora aqui está um pedaço de biografia: na cadeia perfiz muita da minha educação literária e, que remédio!, estudei o suficiente para passar com boa nota quando finalmente fui devolvido pelos carcereiros aos cães cerberos da Faculdade de Direito. Não são só as viagens que formam a juventude: as cadeias também podem dar uma perninha (puta que as pariu,p.q.p., de todo o modo). Sobretudo se, como foi o caso, estamos no chamado isolamento. Em havendo um livro há salvação. Em não havendo, que haja papel e tinta. E houve. O resultado está parcialmente à vista. Que vos divirta como há 37 e 35 me divertiram ao escrevê-los. Mais não quis. E se alguém quiser música de acompanhamento recomendo “porta romana bella” que, creio, me acompanhou em ambas as ocasiões:
Porta romana bella porta romana
Ci stan le ragazzine che te la danno
Ci stan le ragazzine che te la danno
Prima la buonasera e poi la mano ...

os 6 textos desta série publicar-se-ão a partir de amanhã, sexta feira, dia 12 de Maio, celebração de S. Nereu, mártir e dos SS Pancrácio e Dionísio. E que seja tudo pelos nossos pecados...

Silvia

Nos comentários à "farmácia de serviço nº 25", fala-se da Silvia. Da fotografia da Silvia. De que a Silvia é sexy. Claro, Marcelo, claro, Delfim, que eu já tinha reparado. Sou lá tipo para não ver essas coisas?!

Agora a inconfidência. Que a Silvia me perdoe a inconfidência. Mas, às vezes, eu falo com a Silvia via messenger, não tanto quanto gostava, por causa do fuso diferente. Falamos das coisas da vida, que ela é psiquiatra e eu sou pouco menos que tolo. Aliás, houve um noite completamente hilariante no messenger, numa conversa a 3. Mas há mais: um dia, a falar com a Silvia, pude ver uma fotografia dela, jovem estudante universitária. Fiquei siderado: a Silvia era a mulher mais bonita que algum dia vi. Não tive arte para gravar essa imagem no computador. Ainda bem, às tantas.

Caro Delfim: eu tenho andado por aí, pouco por aqui. Mas por aí nos veremos, breve, suponho. Com um enorme prazer da minha parte.

10 maio 2006

Rasputine - ou aquele que foi o verdadeiro comparsa de Corto Maltese...



(a pedido do próprio - excentricidades...) aqui se revela a verdadeira identidade de MCR, entretanto com morada incerta, pois foi descoberto um velho documento que o identifica como sendo "Rasputine". Diversos documentos foram encontrados por um velho Contínuo da Torre do Tombo o qual, ao deixar cair o seu cigarro "Definitivos" ao chão, e baixando-se para o apanhar, deu de caras com um "dossier" deixado esquecido a um canto das longas estantes poeirentas: tal pasta, contendo a ficha de um perigoso oposicionista ao Estado-Novo, tinha sido elaborada pela antiga DGS ( ex-Pide). Para quem não saiba, aquele elemento subversivo esteve detido em Caxias nos idos de 70. Porém, sendo um intelectual, teve direito a um "condomínio" com vista para o mar, papel e caneta para os seus escritos. Daí dizer-se que aquele terá vertido perigosas doutrinas num documento intitulado "chateado no calabouço" . Contudo, esses escritos ainda não vieram a lume...
Aqui fica uma parte da ficha do celerado, que foi possível recuperar, com a respectiva fotografia.
Dão-se alvíssaras a quem saiba do seu paradeiro.
(isto é o que acontece quando se dão asas à fantasia...)

09 maio 2006

Estes dias que passam 24

A liberdade está a passar por aqui

1. Numa noite célebre da televisão francesa, um homem livre e desassombrado, chamado Maurice Clavel, abandona o plateau quando verifica que lhe tinham suprimido um pedaço de uma reportagem. E já da porta lança uma despedida formidável: Messieurs les Censeurs, bon soir!

2 recordo esta historieta de 70 ou 71 para falar de algo bem mais perto e bem mais feio: Um brilhante escritor alemão, Peter Handke, escreveu há uns anos uma peça que foi considerada digna de encenar por um grande teatro francês. E por isso mesmo foi programada para 2007, foram escolhidos os actores e o encenador.

3 Por razões que nada têm a ver com o texto da obra, com as suas intrínsecas qualidades literárias (e são muitas) foi há dias “desprogramada”. Ou seja, como trabalho destinado ao palco, foi pura e simplesmente executada, condenada a não sentir a respiração do público. Que se passou? Passou-se que Handke é politicamente incorrecto. Handke defendeu os sérvios nos conflitos dos Balkans. Handke não correu a embandeirar em arco ao lado dos sequazes de Tudjman o croata, vagamente ustachi ou de Izbegovitch o bósnio chefe dos mártires de Alá. Handke levou o seu despudor ao ponto de assistir ao enterro de Milosevic. Um horror!

4 Claro que as leitoras mais avisadas se perguntarão que destino terão as obras do fascista, colaboracionista e anti judeu Destouches, que assinava Céline. Andarão por aí clandestinas? Desapareceram na fogueira das depurações post libertação? Acaso um livreiro mais rigoroso deixou de as vender? E os Cantos de Pound? Ainda há disso? Ou estarão eles também, como o seu autor, dentro de uma jaula, sujeitos ao gáudio das multidões maccartistas?

5 O mundo, algum mundo, indignou-se quando os nazis condenaram ao fogo os livros de Mann, Benjamin, Zweig, Seghers ou Kästner (esse mesmo, o do Emílio e os Detectives). Nessa altura, uns quantos, já todos mortos, enterrados e felizmente esquecidos, vieram proclamar a infâmia absoluta da censura, da perseguição por motivos políticos, da condenação huxleyana à não existência.
Agora em pleno seculo XXI um director de um grande teatro francês, doublé de polícia do pensamento condena Handke?

6 A mim só me espanta é a tepidez das reacções. Então as pessoas não percebem que hoje vai o Handke, como ontem poderia ter ido o Coeetze ou amanhã a Elfriede Jelinnek? As pessoas não entendem que a censura pidesca do directorzeco francês, priva o público de um direito que nada tem a ver com a defesa do bom nome das vítimas de Milosevic? E mais: será que alguém se deu ao cuidado de saber exactamente o que fez, ou disse Handke na Sérvia? E mesmo que ele tenha, por hipótese considerado Milosevic um grande homem, isso tem algo a ver com as suas peças, os filmes em que colaborou, os livros que escreveu.? Alguém deixa de ler Heidegger o filosofo nazi? Ou Cholokov, esse Nobel, que nunca levantou um dedo para condenar Stalin?

Senhores censores e respectivos admiradores, acompanhantes e desculpantes, boa noite!

Os leitores terão reparado que num texto um pouco mais abaixo, ad usum delphini nº3, acabo por falar de coisas bem semelhantes. não sou eu que me repito são os polícias do pensamento que não nos largam as canelas. P.Q.P.!!!


Souto Moura força eleição
do Procurador Distrital do Porto

Lei do CEJ em DEBATE

Como já referimos aqui, iniciou-se ontem e prossegue hoje um debate sobre a reforma da Lei do CEJ, a decorrer nas suas instalaçoes (organizado não se sabe bem por quem, mas adiante…).

O Rui do Carmo, ex-docente e ex-director adjunto do CEJ (e ex- incursionista?) tem dado a sua opinião sobre os diversos temas em discussão tambem no seu blog Mar Inquieto. O ultimo post aborda o tema em debate hoje de manhã e, a partir dele, acede-se aos anteriores.


***

O Ministroda Justiça abriu os trabalhos, com um discurso em que afirmou que "o governo quer ver concluído [o debate sobre a reforma da Lei do CEJ] até ao final deste ano" e defendeu que "profissionais de diferentes àreas possam vir a ter acesso à magistratura. Por exemplo, economistas ou sociólogos poderão receber formação adequada, tornando-se depois juízes ou magistrados do Ministério Público."
"O Governo acredita que até ao final do ano terá pronta uma proposta legislativa."

(fonte: sic on line)

08 maio 2006

Matosinhos em Jazz na Exponor

O concelho de Matosinhos acolhe esta semana a 10ª edição do festival “Matosinhos em Jazz”, que já trouxe a esta cidade nomes importantes do jazz internacional.
Esta edição (ver destaque do JN aqui) abre com o Mário Laginha Trio no salão nobre da Câmara de Matosinhos e passa depois para o auditório do parque de exposições da Exponor, um dos locais que desde o início acolheu o festival.
A Exponor recebe na quinta-feira, dia 11, o Quinteto Paula Oliveira / Bernardo Moreira e a Bill Evans Soul Grass Band. Na sexta-feira, dia 12, actuarão o saxofonista Charles Gayle e a Orquestra de Jazz de Matosinhos, que terá como solista o saxofonista Lee Konitz. Finalmente, no sábado, dia 13, o festival encerra na Exponor com a performance dos portugueses TGB e do consagrado Dave Holland Quintet.

Kami, la Capitaine!



(Faço minhas as palavras do nosso Marcelo Correia Ribeiro):

A vos ordres Capitaine Kami!

Une "marin" à l'esprit libre...










Nota: desenho de uma ( das muitas) aventuras de Corto Maltese...apropriado, não?...

Farmácia de serviço nº 21

De revistas frescas e editoras novas

Lá mais para o Outono, faria Senghor, 100 anos, bonita idade, para um político africano, doublé de poeta talentosíssimo e de sage, quando, já idoso, se retirou para a Normandia para inaugurar como dzia, a negritude normanda. Com o passar dos anos a sua figura cresce, esbatem-se as polémicas á volta do seu mandato presidencial, mas o poeta permanece. “Jeune Afrique”, uma já velha (e boa!) revista dedica-lhe um “hors série” ( o nº 11). Força, leitores, força que vale a pena. €6,00, barata feira.

O meu bem amado “Le Monde”, companheiro de toda uma vida (ou da que começou nos anos 60), publicou um “hors série” do suplemento semanal “le monde 2”: “colonies, un débat français", 95 ( e não 100, como os marotos dizem) páginas de boa leitura. Muitas fotografias. Sai a €7,5 e corresponde aos meses de Maio Junho.

O “magazine littéraire” outra revista resistente ao tempo e à preguiça dos leitores, ataca com um especial sobre Camus. Ah, Camus, uma lenda, outra, da minha gente, dos meus amigos, dos que sonharam um mundo diferente!
É o numero 453, de Maio e anda pelos €5,5/6.

Finalmente “Histoire Antique” avança com outro “hors série” (o nº 9) de encher o olhos e esvaziar o bolso (€8,7, por cá): Homero e a sua época; os lugares míticos da Ilíada e da Odisseia, com um port folio sobre a Odisseia de Ulisses.
(para os mais “cá de casa”, maníacos destas coisas, relembra-se um “hors série” da Geo francesa: “la Méditerranée d’ Ulysse”. Tem já dois ou três anos mas continua apaixonante.

Nota que não tendo nada a ver com isto, tem tudo: já perceberam porque não tenho um tostão?

Alvíssaras, alvíssaras: desembarca fresquíssima neste mundo cão, uma nova editora: “o mundo em gavetas” diz-se ela. Pois que seja, desde que não haja gavetas secretas e, muito menos fechadas! Começa logo aos tiros: uma espiã que lisboetou pelo Avenida Palace. Tratavam-se bem aquelas criaturas! O Avenida Palace! Nada a ver com esses hotéis de cinco estrelas merdosas, spa e quartos todos com ar de hospital. Nada disso: um hotel com salões, com estilo. Como a espiã. Como o seu biógrafo, um advogado em tentativa de evasão dos códigos, dos tribunais, dos prazos e de tudo o resto.

E a editora? A criatura que mexe os cordelinhos, que vai à luta, que chateia os tipógrafos, que se enfurece com os autores, uns preguiçosos, com os tradutores, uns traidores, com os jornais, que paga as contas, que apaga luz... Bom da editora nem se fala. Ela aparece cheia de estaleca, a nossa Kami!
Enhorabuena!
Algum leitor mais pernóstico, algum desses “críticos” mais vesguinhos que uma carroça de palha estrumada, algum concorrente menos amável, começará já a chiar por tão descarada propaganda a uma amiga cá de casa. Pois vão morrer longe, ó agoirentos. Estrelinha que vos guie. Abrenúncio!

Estamos em Maio, mês de pecado (para os mais avisados) e de novenas (para quem nós sabemos. Mas estamos a começar as comemorações do 2º aniversário do blogue “incursoes” sem til.

Como no transacto ano ocorreu, vêm aí uns textos que se esperam divertidos, escritos em condições não tão divertidas, jamais publicados, que terão o título provisório de "chateado no calabouço". São das colheitas de 69 e 71. A ver vamos se resistiram ao tempo.

07 maio 2006

Um projecto Kamikaze


Pode viver-se uma segunda vida. Saída do activo no Ministério Público, senti que havia mais, muito mais, que poderia fazer e com igual entusiasmo. O resultado começa a desenhar-se. Vista no imediato, dir-se-ia uma editora. Daqui a algum tempo oxalá seja um projecto cultural. A sua aparição decorreu do acaso de uma relação pessoal. Temos um livro pronto, para ser lançado em meados deste mês. O autor já o anunciou nos locais onde escreve. É o primeiro livro de uma editora nossa, que tem o nome do blog que nos juntou: «O Mundo em Gavetas». Na altura eu pensava que era uma desesperada casa na duna, hoje sinto que pode ser uma forma de arrumarmos o mundo em que vivemos. Ao José António Barreiros, uma palavra, por ter escrito o livro, por se ter envolvido na editora, pelo contágio. O mais é a aventura e o futuro. Pode viver-se uma segunda vida, fazendo-se incursões por uma nova forma de viver.

06 maio 2006

Árabes XXV - das sombras

das sombras

galgo a montanha conhecida
no beleza dos seus ciprestes,
dos cedros entre pequenas flores e rochas,
a procurar-te,
a procurar-nos,
desejando ser a tua gazela de sempre.

quero te ver.
ouvir-te o riso , a voz,
saber dos braços que me esperam.

galgo a mesma montanha
do nosso vilarejo
e tudo é deserto.

o meu corpo é uma árvore de silêncios,
há no meu olhar sombras
a tornarem-no menos do que era.

silvia chueire

ad usum Delphini 3

De minimis non curat praetor

O meu prezado amigo DLM fez o favor de me tentar consolar porque, num blogue dos muitos que por aí andam, um par de cavalheiros entendeu que a minha prosa era reaccionária ou colonialista, ou ambas as coisas. E o DLM, amicus certus in re incerta, pumba: fogo á peça sobre os filisteus. Que os cavalheiros eram hipócritas, invejosos, ignorantes insultuosos, enfim um rosário de pecados que os afundaria na mais pura ignomínia.
Ora bem, caro DLM, as coisas não são bem assim. Que as criaturas, coitadas, sejam ignorantes, transijo sem dificuldade. Basta lê-las ainda que eu, laico e esquerdista, não leve a minha sanha ao ponto de obrigar os nossos leitores a tão doloroso sacrifício.
Já hipócritas e invejosos parecem-me atributos que velam uma outra realidade e lhes dá ao fim e ao cabo um estatuto imerecido. Ou seja, as referidas sumidades, reconhecendo, intimamente, qualidade no que escrevi, arreavam-me forte e feio para não terem de me aturar na disputa de um qualquer lugar ao sol a que, desde já aviso, não sou candidato.
Portanto, vamos ao que interessa. Para os leitores deste blogue é fácil reconhecerem que de neo-colonialista ou coisa semelhante, não tenho nada. Escrevi já o suficiente sobre a aventura africana dos portugueses para se perceber o que penso a respeito deste desvario que inclusive se pintou de império: andamos um par de séculos a arranhar a costa de África, traficando escravos, povoamos um par de cidades de degredados, mas ocupar o que se chama ocupar o “hinterland” africano, foi coisa que só nos ocorreu na segunda metade do século XIX. E mesmo isso tem como momento alto e triste a questão do mapa cor de rosa. A ocupação plena de Angola e Moçambique terminou já ia bem entrado o século XX. E há mesmo quem defenda que foi por um triz que tal facto ocorreu porquanto ingleses e alemães estariam dispostos a partilhar todos ou parte destes territórios durante a 1ª guerra mundial.
Também não é segredo que aqui mesmo já narrei, em tom mais divertido do que eventualmente devia, um par de aventuras policiais em que eu, “apoiante activo” dos movimentos terroristas (sicut polícia política), fui alvo de uma excessiva generosidade do Estado Novo que inclusive me ofereceu por três vezes uma irrecusável hospitalidade num estabelecimento da linha de Cascais. Valha a verdade que tinha vistas para o mar, o que já era um consolo...
Claro que nada disto tem de ser do conhecimento dos meus “críticos” nem sequer isso serviria para melhorar a minha qualidade literária a seus olhos. Só que...
E ainda que lidos sem demasiada atenção, os meus “críticos” entendem que “cheiros de África” podem não ser má escrita mas pecam por reaccionários, o que destrói qualquer putativa qualidade literária. Pareceu-me mesmo que alguém dentre eles (que serão três, o que também não faz uma multidão, que diabo!...) atribuiu a autoria daquele texto a um cavalheiro chamado Luis!
Façamos aqui um parêntesis. Eu não me tenho por Eça, por Stendhal ou por Dostoievsky, para citar (também) uma trindade de autores que muito prezo. Mas apesar disso, não gosto que entreguem a outro o que pari, por mau que seja. O decerto excelente cavalheiro e escritor Luís... fará pois o favor de não me tirar o que escrevi e não se enfeitar com as penas de galinha que a assinatura mcr pressupõe. Portanto, mau, péssimo ou só medíocre, “cheiros...” é meu e dos leitores que fazem o favor de me aturar.
Passemos agora a um outro ponto: pareceu-me entender que, na óptica de uma das criaturas já referidas aquela meia dúzia de páginas merecia um arraial de porrada porque não falava da tuberculose em Portugal de 50, mas de peitilhos nos fatos de banho para homens (decreto lei que só caiu em desuso nos fins de cinquenta...) e outras coisas do mesmo estilo. A culpa é evidentemente minha. Eu deveria ter falado na tuberculose, claro. E nos furúnculos, na hidrartose das criadas de servir, nos fleimões (ou será fleumões?) e em mais um par de doenças, talvez venéreas. E deveria ter chamado ainda mais nomes ao dr. Salazar. E não deveria gracejar sobre a coca-cola, “água suja do imperialismo”, como também um dos luminares já aludidos refere. Tudo isso e a nostalgia, são índices de conservadorismo, neo-colonialismo, saudosismo e mais uns tantos ismos que por hora me dispenso de citar.
Nos meus tempos de oisive jeunesse dei-me a um par de leituras pouco edificantes que metiam, imagine-se, Marx e Engels, hoje tão fora de moda. E é Engels, se não erro, quem numa carta famosa a Margaret Harkness (cfr. Ausgewälte Briefe), faz a apologia de Balzac (outro dos meus autores favoritos) e sustenta que apesar de conservador e monárquico, é ele e não Zola quem de facto tem uma atitude literária revolucionária porquanto sob a forma de crónica dos anos 1816-1848, descreve a ascensão da burguesia contra a sociedade anterior. Ou seja: um conservador pode ser nesta matéria muito mais revolucionário do que um revolucionário. E Zola sem dúvida que o era em muitos e ponderosos aspectos desde o “J’acuse” até à defesa dos pintores impressionistas.
Do mesmo modo, uma criatura detestável, chamada Destouches, escreveu sob o nome de Céline um par de livros admiráveis. Olha se os iam criticar à luz do pensamento de Destouches.
Mas há mais: Jorge Amado cometeu um calhamaço chamado “Os subterrâneos da liberdade” que é uma ode ao mau gosto e à má literatura panfletária. Exactamente o contrario de muitos dos seus últimos romances onde perpassa um claro sentimento progressista ao lado de uma amável visão da vida baiana.
Ou seja: não devemos misturar alhos com bugalhos. Um texto pode ser literariamente excelente sem por isso ter de revestir a forma de ode ao politicamente correcto. E por falar em odes: Neruda, esse imenso poeta não coroou Stalin, esse miserável seminarista georgiano, em poemas de que depois (cfr. Confieso que he vivido) se arrependeu amargamente?
E não anda por aí um laureado escritor ( e nalguns livros merece aplauso) que não há muitos anos foi um implacável censor de colegas e aparatchik policial do pior que se fabricava nos anos post-abril? E vamos dizer que o livro A ou B é mau porque o seu autor é, citando Antero de Quental, “um esgoto moral”? Também Pound e foi um dos maiores poetas do seculo passado.
Portanto, caro DLM, faça-me um favor: recite um par de avé e outros tantos pater nostri pelo feio pecado de chamar invejosos e hipócritas a umas pobres criaturas que apenas são vesgas (física ou intelectualmente, á escolha). E que devem cristalizar no sistema ortorrômbico, o que é muito bem feito!
Finalmente: eu não sei se essa gentinha é do P.S. ou não. Sei de ciência certa que é irrelevante a filiação partidária quando se entra no domínio da asneira. E sei igualmente que num país livre se pode fazer a apologia de toda e qualquer ideia por muito que para alguém, mais sensível, tais apologias possam ser desagraveis ou até insultuosas.
Em seu tempo defendi, também aqui, o direito dum jornaleco dinamarquês publicar caricaturas do profeta. Ou de Jesus! Ou de Bush! Ou de Buda. Ou do engenheiro Sócrates se bem que me pareça que ele não é prioridade para nenhum caricaturista. (Nem Marques Mendes e muito menos Ribeiro e Castro, coitados...). Como também defendi, ai o que eu vou agora dizer!..., que é uma imbecilidade chapada condenar em tribunal o chamado “negacionismo” como se a aplicação de uma pena de prisão limpe a infâmia de uma tese. As ideias combatem-se com ideias. Quando a isso se substitui o cárcere, mal estamos. E eu que o diga!
De todo o modo, creia que lhe agradeço, penhorado, a defesa que fez do meu bom nome literário. Mas não vale a pena. Nem eu sou um “escritor”, nem os meus “críticos” merecem tanto trabalho. Ao fim e ao cabo, em que espelho se hão-de mirar senão neste, mesmo pequenino, enfezado, tristonho, como o Portugal que tentei descrever em três linhas naquele texto que tantos engulhos parece ter causado.
Olhe faça como recomenda o excelente Manuel António Pina a propósito de um escritor muito em voga: “não li e não gostei”.
Seu amigo
mcr

05 maio 2006

PSD – um caso de polícia

Luís Marques Mendes sucede hoje a si próprio na liderança do PSD, sendo o único candidato nas primeiras eleições directas daquele partido. Mendes vai ganhar tranquilamente, mas não se livra das “sombras” que pairam no ar e que são muito estimadas lá pelos lados de Belém.

Contudo, as eleições no PSD acabaram por se tornar um verdadeiro caso de polícia com as irregularidades detectadas na putativa candidatura de José Alberto Pereira Coelho. Segundo veio a público, houve de tudo um pouco, desde assinaturas falsas a militantes falecidos que surgiam como proponentes da candidatura. Por trás de si, pelos vistos, estavam as fortes concelhias de Gondomar, Gaia e Oeiras.

Pereira Coelho não é um cidadão inimputável. É membro do Conselho Nacional do PSD, coordenador dos TSD em Coimbra e administrador de um hospital naquela cidade. Não pode, por isso, ficar impune. Alguém que pretende, sejam quais forem as reais motivações, apresentar uma candidatura à liderança do maior partido da oposição, um dos dois partidos de governo em Portugal, deve ser responsabilizado perante a comunidade pelos actos cometidos. Não podemos permitir que a democracia e os partidos sejam achincalhados com atitudes como esta, sob pena de caminharmos no sentido do total descrédito dos responsáveis políticos e partidários, em suma, do nosso regime.

ad usum Delphini 2

isto tinha de acontecer. O Delfim ficou muito triste por eu não usar a expressão ad usum delphini (para uso do Delfim) numa série. E eu só não o quis usar porque numa determinada altura a expressão indicava que se ensinava ao delfim da França (ao herdeiro do trono, portanto) um par de coisas limando as arestas menos agradáveis. Vai daí a expressão teve a conotação de realidade truncada. Vamos a ver se esta não o vai ser. Morrem no ovo as cartas a Ribeiro Sanches e entra em cena logo com o nº 2 o "ad usum...".
estamos em época de comemorações do nosso 2º aniversário e porque o DLM (sempre ele...nem Fátima o detém) foi dizendo que precisa de guia aqui vai para ele e para todos os que de fora cá estarão nas comemorações este guia do Porto nado em 99 para uns estrangeiros que não sei se perceberam.




Porto de mar ou porta da terra?


Eis-nos perante uma cidade que, mesmo antes de a conhecermos, já nos provoca uma serie de perguntas de resposta nem sempre fácil. A começar pelo nome: Porto quererá significar ancoradouro, refúgio contra as iras do mar como normalmente se entenderia? Ou apenas local de passagem (o portus romano) e aquí estaríamos apenas frente a um simples vau do rio Douro, uma passagem mais depois de tantas no longo curso de um dos mais emblemáticos rios da península ibérica? De todo o modo: hoje, o porto do Porto situa-se em Matosinhos.

Para titulo recorreu-se a um jogo de palavras (acessível apenas às línguas neolatinas) que, entretanto, poderá dar uma precisa definição desta cidade: um lugar pelo qual saem as riquezas da terra e aonde chegam, de longe, hábitos cosmopolitas, novidades estrangeiras e gentes de todo o lado. O Porto é a cidade portuguesa que mais cedo estabeleceu relações comerciais com o estrangeiro e aquela que melhor se identifica com uma das nossas principais exportações: o vinho do Porto.

E este é já o segundo paradoxo: trata-se de um vinho cultivado e feito a mais de cem quilómetros de distância que, depois, é conservado, envelhecido e engarrafado na outra margem do rio, noutra cidade!!! Mais: o vinho que tradicionalmente se cultiva e bebe na cidade e sua região tem características absolutamente diferentes.

Mas as surpresas não param aqui. Para quem, vindo do Sul, entra na cidade pela velha ponte de D Luís a primeira visão que tem é a da escarpa da coroada pela catedral e pelo palácio dos bispos. Alí estão aqueles dois imponentes edifícios a anunciar que se chega a uma cidade em que o espiritual teria o primado. Porém nada mais falso: a história do Porto é a história de uma cidade burguesa permanentemente revoltada contra a autoridade eclesiástica aplaudindo o rei quando este chicoteou publicamente o bispo.

Não se pense contudo que o tripeiro persegue a Igreja ou desafia a religião: basta viver aqui a época do Natal para ver como tudo pára, tudo se fecha e as igrejas se enchem.

Os do Porto são piedosos mas não são devotos: celebram os seus santos com comedimento e sobretudo recusam-se a deixá-los sair dos altares. Com uma excepção: no dia de S João os burgueses recatados, os tranquilos trabalhadores e toda a restante população modesta e comedida sai para a rua disposta a dançar, comer e beber até ao fim da madrugada. E mesmo a essa hora ninguém recolhe a casa, antes todos se espalham pelas praias e jardins, homens e mulheres, velhos e novos, ricos e pobres, cansados mas alegres, cúmplices na celebração do solstício de verão com cheiro a pecado. A noite de 23 para 24 de Junho enche-se do perfume da erva cidreira e do mangerico, do passeio passa-se á dança e desta ao beijo e á noite amiga e secreta que protege amores, de um dia ou de sempre, á luz de fogueiras e balões.

S João não é, evidentemente, o padroeiro da cidade. Tal missão está confiada á Virgem a quem todos se encomendam quando o perigo espreita. E o perigo espreitou sempre o Porto. Passagem obrigatória entre norte e sul a cidade foi, vezes e vezes, cercada, invadida e conquistada por exércitos nacionais e estrangeiros, além de ela própria ter sido berço de, pelo menos, duas revoluções. Todavia intitula-se "invicta"! Também se orgulha de ser leal apesar das revoltas que protagonizou contra o poder constituído, local ou nacional e nobre mesmo quando se sabe que, durante séculos, recusou residência por mais de três dias a qualquer senhor!!!

Mais paradoxos? Este último para terminar. Construída em granito a cidade aparece, num primeiro momento, grave e austera como convém a uma terra laboriosa e fabril. Todavia basta passear numa das suas velhas ruas centrais onde as casas escuras ainda conservam as janelas à flor da sacada. Em aparecendo o sol logo uma luz especial refletida por milhares de vidros ilumina a cidade torna o ar mais leve e mais soltos o passo e o coração dos transeuntes. E nesse preciso instante a cidade de mil anos é jovem ri-se e entrega-se a quem chega, trata-o por tu convida-o para a mesa ou para um modesto copo de vinho. O Porto é uma porta aberta: entrem e sintam-se em casa. Em vossa casa!






04 maio 2006

Notas (inoportunas) sobre o "Retiro do Silêncio": uma experiência pessoal.


Queridos Amigos: não vos querendo, de modo algum, maçar, penso que, não obstante as diferentes sensibilidades que aqui povoam o nosso Incursões, talvez as linhas que se seguem possam constituir um testemunho que aqui poderá ficar, com algum interesse, de uma experiência a qual, não sendo nova para mim, me deixou muito impressionado desta feita.
Então, com a vossa certamente antecipada licença, aqui vai o texto que me foi pedido pelos organizadores de um "Retiro" que frequentei neste fim de semana alargado.
"Real e Realidade; da diversidade à unidade.

É comum entender-se que a realidade corresponde àquilo que "realmente existe". Mas, se houvesse uma "real" correspondência entre aquilo que compreendemos e aquilo que "realmente existe", certamente estaríamos em posse da "verdade".

Mas o caminho em direcção à verdade não é simples. A própria ciência, como ensina Karl Popper, consubstancia-se numa busca da verdade, sem terra à vista. Aquilo que em determinada época é considerado como uma "realidade" pode deixar de o "ser".

A realidade é dinâmica e, para apreender o seu movimento, precisamos compreendê-la historicamente. Mas, aqui chegado, direi que a Realidade é uma só. Bem como a História, que tem um "dono": Deus, o seu Senhor, e Jesus o Seu doce Filho, que se dignou encarnar numa Virgem Puríssima e penetrar assim na História do Homem.

Os deuses míticos da Antiguidade empalideceram e definharam perante a Luz que brilhou e afastou as trevas. Ora, a História da Humanidade não tem, pois, sentido, a não ser que a interpretemos à Luz dos ensinamentos de Deus, vertidos no Antigo Testamento, e da Verdade ensinada e transmitida por Jesus, ele que encarnou a própria Verdade ["Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida"- (João 14,6)].

Mas o homem, descrente, interroga-se: o que é a Verdade?...

Há dois mil anos alguém fez esta interrogação, de modo cínico: Que é a Verdade? Foi Pilatos, no "julgamento" de Jesus.

Desde esse dia que muitos, de um modo especial, se interrogam acerca da Verdade.

Para aqueles que acreditam (repito) Jesus disse: "Eu sou o Caminho, a Verdade, e a Vida; ninguém vem ao Pai senão por mim" . E seguem-n'O!

Neste contexto, a Verdade baseia-se na minha Fé a qual é, para mim próprio, um mistério, mas certamente uma Graça de Deus que vou cultivando no meu dia-a-dia.

À semelhança do afirmado por João Paulo II, só Deus conhece a história da minha vocação. Na verdade, não sei como ela nasceu. Mas desabrochou certamente um dia, quando a minha Alma muito devagarinho deixou-se comover com a doce Figura de Jesus. E descobri, de mansinho, toda a poesia do gesto de Nossa Senhora, Mulher Mãe e Rainha do Céu e da Terra! Compreendi, de súbito, toda a nobreza da Sua Vida, Vida de Amor, de Gratidão, de Dádiva!

A Poesia que dimana das reflexões dos nossos (actuais) Profetas, ajuda-nos a reflectir e constitui um bálsamo, para nós que andamos perdidos neste turbilhão a que chamamos de "vida"…

E o Mundo que é tão bonito! Mais maravilhoso seria se todas as pessoas se amassem fraternalmente, e não existisse o mal a perturbar o nosso quotidiano…

Precisamos de inventar outra vida, como disse algures o nosso escritor António Alçada Baptista!

Acompanhando a poesia do Evangelho, temos de evitar que a noite de alguns dias seja longa…


Lembro aqui " A Fé e a Razão" , de João Paulo II, em que este afirma, logo no início desta sua Carta Encíclica, que estas [a Fé a Razão] constituem "como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade. Foi Deus quem colocou no coração do homem o desejo de conhecer a verdade e, em última análise, de O conhecer a Ele, para que, conhecendo-O e amando-O, possa chegar também à verdade plena sobre si próprio".

Lindo! Mas, reconheço que a Fé é algo que ou se tem ou…não! Mas algures, na nossa caminhada, ela pode surgir: ela não pede licença…

A Fé é, essencialmente, Amor! Comoção! Paixão!


Os homens de boa vontade unem-se para que possam, em conjunto, e numa união mística, compreender melhor os mistérios de Deus, aquilo que Ele lhes propõe, para que sejam capazes, enquanto pessoas, conduzir ao bom porto, por entre o mar porventura alteroso, a sua própria história pessoal.

E assim acontecem encontros como o de Monte Real, onde as Irmãs Clarissas nos receberam, num misto de espanto e maravilha. Com efeito, ali estava um grupo de homens e mulheres dispostos a "amortalharem-se" num Convento por alguns dias, a fim de se sentirem mais perto de Deus e fazerem uma pequena pausa nas suas vidas, propiciadora de um tempo de reflexão que os aproximasse mais do Sumo Bem – aliás, Deus, Sumo Bem, constituiu a experiência fundamental de São Francisco…e é também modelo para a nossa própria experiência. É claro que não podemos aspirar a uma tal santidade…bem, o autor destas linhas fala por si: ele nem é digno de beijar os pés a um tal Santo…

Mas é um facto marcante, na vida, quando alguém, de súbito, no turbilhão do dia-a-dia, descobre que ama Jesus sem ter para tal uma explicação racional.

Tal consistirá, como disse, numa dádiva de Deus o qual, na Sua excessiva Misericórdia, nos ergue da lama em que nos encontrávamos e nos transporta para a Luz.

No Retiro, intitulado " Escuta o Silêncio", estavam ali três homens, Sacerdotes Franciscanos, tocados pela Graça de Deus.

Unidos na Fé, possuem, porém, diversos modos de encarar a mesma Realidade.

Um, diria que é o Filósofo por excelência, místico mas ao mesmo tempo racional, que analisa com detalhe a mente humana e a disseca nas suas idiossincrasias e na permanente dialéctica em que o homem se vê envolvido (as conversas foram breves mas estas características ressaltam com facilidade…).

Um outro, diria que é mestre na compreensão do Homem na sua condicionante social, nas suas limitações e fraquezas, dando pistas e soluções dentro da Doutrina de Cristo, para que nos compreendamos a nós próprios, nas nossas limitações e, não obstante, possamos viver de acordo com aquela.

O outro é o Apóstolo do Amor.

Quando o vi, apaixonei-me. Apaixonei-me pelo seu semblante austero (a lembrar João Paulo II), pelos seus olhos muito vivos, pela sua voz grave, diria até dramática, quando fala do Amor. Do Amor ao irmão e do Amor a Jesus.

Com efeito, a sua voz tem o poder, diria que mágico, de revelar a poesia, porventura aqui e acolá escondida, dos textos bíblicos.

Aliás, o seu livro "São Francisco fé e vida" (já estão a ver quem é…) é todo ele um louvor à doce figura de Jesus, constituindo, por outro lado, uma longa reflexão antropológica, sociológica, política, acerca do Homem e do seu futuro, alienado que está pela "força violenta do trabalho, do negócio e da massificação".

Que clarividência!

Tocou-me a sua imensa paixão por Jesus, pois que eu próprio sou um apaixonado por Ele. Nada quero em troca por este meu puro amor, desinteressado que é (pese embora os meus pedidos de auxílio a Ele e aos Seus Santos, para o meu dia-a-dia) a não ser o Seu próprio Amor. Aliás, uma das minhas orações habituais consiste em que Ele me deixe, um dia quando partir deste mundo, no excesso da Sua Misericórdia, reclinar a minha cabeça, cansada de tantos trabalhos e agruras, no Seu peito, junto do Seu Sacratíssimo Coração.

Provavelmente, e à semelhança da cena do Monte Tabor, quando Pedro, maravilhado, disse a Jesus que, se Ele quisesse, faria três tendas, uma para Ele, outra para Moisés e outra para Elias, também não sei o que estou a pedir…Mas confio no Seu Amor e na Sua Bondade.

E a estas Verdades eternas nos conduzem tais Pastores.

Que Jesus lhes dê animo força e longa vida para que possam continuar a conduzir este humilde rebanho para o redil do Senhor!

Com Amor,

Delfim Lourenço Cabral-Mendes, ofs."



Nota: o Autor do livro citado é o Frei David Azevedo, ofm. Os outros "Apóstolos" referidos são os Padres Joaquim Cerqueira, ofm, e Luis de Oliveira, também ofm (ordem dos frades menores).

03 maio 2006

Au bonheur des Dames nº 24

Cheiros de África
(variações para duas marimbas de Zavala)

Há dias em Matosinhos, numa caótica mesa redonda em que participei, o Alexandre Quintanilha, “coca-cola”de gema pois que nado e criado em Lourenço Marques, antes de ser Maputo, falou nos cheiros de África.
Ai o que o mafarrico foi dizer. Eu a ouvir aquela, senti-me subitamente transportado aos anos felizes da minha adolescência, quando por um bambúrrio da sorte, nos tocou, à família, ir para África, Moçambique mais propriamente dito.
Nos anos cinquenta, na primeira metade dos anos cinquenta, África era uma aventura. Ia-se de barco, num desses magníficos paquetes, enormes, que varavam o mar com uma lentidão majestosa. Claro que enjoei que nem uma pescada. Passei os primeiros dez dias de viagem, quase sempre no deck, único sítio onde não me sentia a morrer. Em entrando no corredor dos camarotes, a coisa começava a fiar fino. E nas proximidades do salão de jantar então nem se fala. E logo eu, na força dos meus treze anos, comilão como era... A Companhia Colonial de Navegação deve-me aí umas quinze refeições que na minha recordação eram mais que copiosas, óptimas com imensos “hors d’oeuvre” suculentos para não falar no resto. Claro que dormir no deck tinha compensações, como seja o avistar S Tomé pela manhãzinha, uma erupção de flores e verde no meio de um mar tranquilo semeado de pequenas canoas, um ar finíssimo que anunciava os grandes calores do dia mal a manhã avançasse. Ou a longa entrada no Lobito, a terra revelando-se a cada metro, primeiro uma mancha de casario á distancia depois o milagre de uma cidadezinha lindíssima, gente, carros, guindastes, um porto, ah...!
Mas não era da viagem, de resto passada sob o signo do enjoo durante toda a primeira metade dela, que eu queria falar. Nem mesmo de Lourenço Marques, de um Lourenço Marques simultaneamente colonial e moderno para quem vinha de um pais imberbe e atrasado, que ali chamavam metrópole, com mais condescendência do que inveja, uma cidade geométrica de grandes avenidas muito arborizadas, onde se conduzia á inglesa, onde toda a gente usava calções de caqui e meia alta pelo joelho e camisas de manga curta que se arregaçavam ainda mais. Onde, privilegiado, talvez, aliás de certeza, eu tinha como campo de jogos o Club Militar, a Associação dos Antigos Estudantes de Coimbra, o Pavilhão e a sua praia cercada de rede e onde o Natal se passava fora de casa e com calor.
Mais tarde fomos para o Norte e foi altura de descobrir os imensos palmares que se estendiam de Quelimane até ao golfo de Moçambique, as prais coralinas, a Ilha de Moçambique, Muipíti, Nampula, a terra das chuvas cercada de morros de granito, o mato, a África antiga e verdadeira, as pequenas administrações e postos do mato, as picadas, os bichos, a distancia e a noite. A noite, a noite só de estrelas sem luz eléctrica ou outra, uma vaga fogueira por algumas horas e o silêncio ruidoso do mato.
Voltei à metrópole, claro. Para estudar. Voltei aos ambientes pequeninos, friorentos, atrasados de um Portugal onde nas praias os homens eram obrigados a usar uma coisa ridícula chamada peitilho, sob pena de multa passada pelo cabo do mar. Um Portugal tristonho e vigiado por polícias de todo o género incluindo uns patuscos fiscais que mal viam alguém rapar de um isqueiro se apressavam a exigir-lhe que mostrasse uma licença. Um Portugal onde ainda não tinham chegado os cigarros de filtro, o nylon nem o whisky para não falar na coca cola que o pequeno mas eficaz ditador de Santa Comba achava perigosa. Um Portugal onde as pessoas se tratavam por você quando não era por senhor ou senhora... Um Portugal macambúzio e engravatado, de fatos que tendo visto melhores dias se “viravam”, de tamancos, pobrete e pouco alegrete pese embora uma fama persistente que dava os portugueses por rionhos.
Não é de espantar que uma vez na universidade, os estudantes “ultramarinos” sobretudo os moçambicanos se organizassem para criar um sistema de viagens de férias que custava cerca de 15% do preço habitual das viagens de avião. O sistema baseava-se no facto dos aviões terem sempre uma dúzia de lugares vazios que portanto poderiam ser ocupados pela mocidade impecuniosa desde que esta se dispusesse a espera pacientemente no aeroporto pela sua vez. E lá íamos aos doze, quinze, vinte de cada vez em voos que duravam dois ou três dias e que nos primeiros anos de sessenta ainda sobrevoavam toda a África. Era uma aventura. Partia-se cerca das dez onze da noite, e por volta das sete da manhã chegava-se a Kano na Nigéria na orla do deserto, ou a Niamey no Níger, também na mesma zona, no Sahel para falar com alguma precisão. Mas antes, muito antes, já o dia ia claro e era um ver se te avias tudo mergulhado nas vigias, a sondar o solo perfeitamente visível, as manadas, os pequenos carreiros, as cubatas, os rios raros e breves, a gente pelos caminhos.
E de repente, o “super constelation” começa a perder altura e a preparar-se para aterrar. E víamos crescer a cidade, o aeroporto, carros, uma estrada, enfim, voltávamos a África. O avião uma vez parado abria finalmente as portas para aquela turbamulta de passageiros fartos da viagem, loucos por desentorpecer os pés, por uma bebida diferente no bar da zona de transito do aeroporto. Ao chegar à porta, vinha-nos ao nariz aquele cheiro intenso de África, um cheiro que mesmo numa zona perto do deserto vinha carregado de frutas, calor, terra molhada, um cheiro intenso e primitivo, um cheiro de novidade, primacial, um cheiro carregado de memórias antiquíssimas, um cheiro de tambores, de pó, de dança, de pirogas no alto mar, de mato seco a perder de vista, de embondeiros, de telhados de zinco, de caril.
Mas, voltando à mesa redonda, foi um desastre: o Alexandre Quintanilha a falar nos cheiros e este vosso criado a sentir as cataratas de Vitória a encher-lhe os olhos. Terei chorado a minha já longínqua juventude? Um primeiro amorico? Ah come é bello il primo amore ma il secondo é meglio ancor’. Lembranças de meu pai, caçador de caça grossa que até no mato trazia uma criança ao mundo com uma faca afiada, um pote de água quente e ordens rápidas à volta, bravo doutor branco que nunca viu cores à frente mas tão só doentes. Quem está primeiro?, dizia da porta do consultório para a sala de espera cheia. E uma vez sem exemplo, não havia colono por mais excelente ou mais antigo que passasse à frente da mulher negra e humilde ou da indiana forte e de sari. E o que é mais, não reclamavam, não iam embora, cumprimentavam-no afectuosamente, convidavam-no para festas, casamentos, caris monumentais, para padrinho de crianças que ele arrancara ao ventre das mães.
Doutor, doutor caçador, sempre no seu carocha, cigarro ao canto do lábio, metido tantas vezes só por picadas sombrias até um acampamento de caça onde o esperava, fiel, um pisteiro. Numa dessas vezes, já a guerra tornava os caminhos desertos, o carro saiu da estrada e afocinhou na lama. Algumas horas depois, um grupo de quatro homens apareceu vindo de nenhures; cercaram o carro, ergueram-no quase a pulso puseram-no na estrada. O Pai quis distribuir umas moedas. Que não era nada doutor branco, doutor caçador. Que não era nada. E perderam-se pelos caminhos. Quem ouviu a história achou que se tratava de uma patrulha de guerrilheiros. O meu pai acreditou até morrer que deveriam ser clientes antigos de uma das suas consultas vadias entre duas caçadas. Os leitores escolham que eu só conto o que sei.
E eu só sei daquele cheiro antigo e persistente, daquele cheiro prenhe de vida e de cor, daquele cheiro de África (também) minha.

Coisa concretas

José Manuel Fernandes, esta 3ª feira, no Público, protestava contra o afã socrático das vias rodoviárias para Trás-os-Montes. Em abstracto, não sei se o director do Público tem ou não razão. Designadamente na questão implícita de saber se as boas estradas não contribuem para tornar interior ainda mais despovoado. Mas, nestas coisas, eu pouco adepto das teses em abstracto. Sou mais das coisas concretas.
JMF protesta contra a A7, que liga Vila do Conde a Vila Pouca de Aguiar. Diz que de Fafe para lá, é o deserto. Talvez. Mas eu, que não me limito ao circuito Lisboa-Oeiras, e que até eu enjoo de ir a Chaves ou a Valpaços, fico muito contente por haver essa auto-estrada que ainda não conheço. Dezenas (centenas?) de vezes que já fiz esses trajectos, a partir do Porto. Uma verdadeira odisseia.
JMF protesta, também, porque vai haver um IC entre Amarante e Régua. Por várias razões. Lembro-me que escrevi aqui - há já muito - um desgraçado postal sobre as minhas idas, praticamente diárias, do Porto para Lamego. Foram vezes que somaram quase 5 mil quilómetros. Que experimente JMF e, talvez, depois, mude a sua opinião. E, já agora, que pergunte a quem vive em Mesão Frio o que é tormento. Haja ou não auto-estrada entre Amarante e Vila Real.

02 maio 2006

"Nathalie Sergueiew" - O novo livro de J.A.Barreiros

O nosso esporádico comentador José António Barreiros vai lançar um novo livro: «Nathalie Sergueiew, uma agente dupla em Lisboa» (Editora "O Mundo em Gavetas").
Em Lisboa: no próximo dia 16 de Maio, às 18:30, no Salão Nobre da Ordem dos Advogados, Largo de São Domingos, 14, 1º em Lisboa.
No Porto: a 17, também pelas 18.30, no Clube Literário do Porto, R. da Alfândega, nº 22.

«Não se trata de um romance histórico, mas de um relato histórico que se lê como um romance. No caso, é a biografia de uma russa, nascida em São Petersburgo, que viveu em Paris, viajou pelo mundo, trabalhou para a causa aliada e morreu na América com 38 anos de idade. O livro abre com a sua deslocação a Lisboa, em Março de 1944, para contactos com a espionagem alemã local.» - Lê-se na sinopse distribuída.

O autor gostará de nos ver por lá. A editora, ainda mais.

porque e por que

A prima Maria Manuel nas horas vagas é professora de português. Vai daí viu a dúvida do Carteiro e com a indolente rapidez que caracteriza a família respondeu para a minha caixa de correio. Diz ela que POR QUE é sempre interrogativo pelo que o porque da mesinha redonda era asneira grossa. E pronto! Ah, esquecia-me: parece que alguém citaria Lindley cintra (na nossa discussão) coisa que ela aplaude. Não fui eu, juro! Portanto ficamos assim Querem perguntar? Escrevem o por e depois o que deixando um elegante espaço no meio. Estão a responder? Aí vai disto: tudo junto, porque. Viram?
Ora aqui está um postal bem curto, É para que saibam que também consigo fazê-los assim, maneirinhos.

no fio


ando no fio impossível
de uma espera atada a cada minuto
cada segundo se enfia na minha vida
contra a minha vontade
acrescenta-se em angústia à minha pele

olhar a porta
e não te ver entrar
magoa-me todos os dias
o desejo a acariciar-me
a memória e as coxas
e a boca
ah, as bocas


silvia chueire

Língua portuguesa: A "esquecida" da União Europeia.


O Parlamento Europeu aprovou a adopção de um "indicador europeu de competência linguística" que não contempla a língua portuguesa, diz-nos o jornal “Público” de 27 Abril.

“A exclusão do português deste indicador de competência suscitou a oposição da generalidade das forças políticas portuguesas, que sublinharam o facto de a língua portuguesa ser falada por 200 milhões de pessoas, o que a torna ma terceira língua da UE mais utilizada no Mundo”.

A proposta da Comissão prevê que a avaliação dos conhecimentos linguísticos se faça, numa primeira fase, nas cinco línguas mais ensinadas na UE - inglês, francês, alemão, espanhol e italiano.


É inútil os políticos portugueses estrebucharem. Agora é tarde. Não trataram de fomentar a nossa língua no coração da Europa, ao desprezarem os professores de português colocados, por exemplo, em Paris. "Esqueceram-se” de cuidar da preservação da mesma nas antigas províncias ultramarinas onde, por exemplo, o castelhano avança, a par de uma autêntica invasão da força de trabalho chinesa – em São Tomé e Príncipe, em Angola, em Moçambique, o que se reflectirá, fatalmente, na cultura que aí deixámos.

Somos, na verdade, o parente pobre e desprezado desta União Europeia: ninguém nos respeita...

01 maio 2006

Diário Político 20

Today I am a espalda mojada

Dificuldades técnicas (ai quanta palavra pode mascarar a mais simples ignorância!...) impediram este texto de ser posto logo pela fresca manhã. E ainda bem porque embora seja o mesmo já não é exactamente o mesmo.
Explicando: eu queria relembrar os homens (e mulheres, pois então, e mulheres) de Chicago de há cento e muitos anos, a maioria emigrados recentes que exigiam a sua parte, a sua modesta parte de “american dream” em troca da sua parte, da sua dolorosa e pesada parte de trabalho duro. E por isso ia falar dessa população invisível que são os emigrados “latinos” na América do Norte. E ia falar das manifestações que por toda a parte vão fazendo, enrolados na bandeira das estrelas e das riscas, ao som de um hino subitamente rejuvenescido nesse espanhol tão diferente que é o espanhol (os espanhóis...) a sul do Rio Grande.
Mas, como disse, uma inépcia do tamanho duma catedral, abateu-se sobre o meu escrito que não entrava nem á viva força no éter. Nem Nossa Senhora do Guadalupe, portanto tão milagreira, me salvou. O céu, nestes dias vermelhos mostra aos da sinistra que com os santos, os anjos e os arcanjos não se deve brincar. E eu, alguma vez, nesta vida, ou noutra, hei-de ter pecado forte e feio. Vai daí o computador entupiu, ou eu entupi-o, é o mesmo.
E o primeiro de Maio a passar por aí neste dia glorioso de sol e preguiça.
O blogue, de resto, quieto, ledo e manso, sem movimento. Vê-se bem que a ponte tocou também os bloguistas.
Terão ido todos com o nosso confrade, dr. Cabral Mendes para Fátima, discutir teologia? Estarão na praia? Andarão no namoro, como perfidamente alguém terá dito do dr. Coutinho Ribeiro?
Ou terão sido, como eu, atingidos por um castigo vindo do alto por andarem por aqui a fazer negaças aos mais sólidos e altos valores da pátria e da religião?
Seja como for, eu vinha, uma vez sem exemplo, falar do dia de hoje, com um texto de hoje, com um tema de hoje: Os emigrantes. E para não estar sempre a falar nos que, por este pais fora, vamos encontrando, africanos, eslavos, orientais e brasileiros, achei que valia a pena falar do dia 1 de Maio nos States, dia em que se previam (pelo menos eu augurava fervorosamente) impressionantes manifestações de emigrantes latinos que fazem enriquecer a America com o seu trabalho humilde, que trazem à América WASP um pouco de sangue quente, catolicismo q.b. e um forte sentido de família e de comunidade. Como de resto, os chineses, os vietnamitas e os coreanos, religião à parte.
É sobre uma América, puritana e esquecida das suas origens emigrantes, da extrema pobreza que suportaram, dos receios que despertaram, que esta nova vaga vinda do sul agora pode agir e mostrar que a grandeza das nações se constrói unindo, acrescentando, mestiçando e sentindo-se solidária.
O texto entretanto naufragado graças á incompreensão de uma máquina pouco caritativa acabou por ser recuperado na sua essência por este agora apressadamente matraqueado, frente às imagens televisivas que mostram milhões nas ruas, com bandeiras americanas, gritando “Today we work tomorrow we vote”. E cantando a plenos pulmões essa versão tão dançável, tão amável do hino.
Ó quanto eu gostaria de, um dia, um primeiro de Maio, porque não, de ouvir “A portuguesa” com sotaque brasileiro (como será o da nossa querida confrade Sílvia) ao som de marimbas de Moçambique, tambores de Angola e algum violino cigano e vadio do Leste da Europa.
Viva o Primeiro de Maio!

sempre vosso
d’Oliveira.

lº de Maio: outra perspectiva.




Em 1953, o Papa Pio XII instituiu a festa litúrgica de São José Operário, designando para esta o dia primeiro de Maio.

A intenção foi a de que todos reconhecessem a dignidade do trabalho, e a justa repartição de direitos, deveres e riqueza.

Esta celebração é um permanente convite à sociedade moderna para viver na paz social e na harmonia. Sem ódios, sem lutas no seu seio.
É bom lembrar aqui as sábias palavras de um bom amigo, sacerdote e frade franciscano, Frei David Azevedo, um dos maiores especialistas do franciscanismo [com obra publicada! (e cito de cor)]: como seria lindo o homem poder colocar na mesa, com amor, e com toda a naturalidade, o pão ou a fruta apanhada no campo, e oferecê-la ao seu irmão!...
Creio que ainda nos falta inventar a sociedade do Amor, aliás como já tem sido dito pelo nosso Alçada Baptista.
(deste vosso "frei delfim das cinco chagas", vindo de um retiro franciscano e acabadinho de chegar a esta cidade de Lisboa...).

1 de Maio

O simbolismo do 1º de Maio, evocado num belo post do primo de Amarante, a lembra-nos tambem a falta que nos faz aqui no Incursoes o... Compadre Esteves!

A ler no Margem Esquerda