Eu. E diante da vida,
com meu azul intacto.
Um esbatido de pássaros.
Alto no vento. Grato.
A sensação de ser
só, uno, um, completo.
No redondo das horas
pleno, lúcido, cego.
O que de mim salvando
se vai a cada instante,
nesse morrer diário
e sucessivo: um canto.
Merly de Oliveira
08 dezembro 2005
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07 dezembro 2005
Viva o Benfica
O Benfica foi BEM-FICA e, contra todas as expectativas, derrotou o Manchester United por 2-1.
Não sou benfiquista. Mas gostei do Jogo.
Parabéns ao Benfica e a todos os benfiquistas.
Felicidades para os oitavos-de-final da Liga dos campeões.
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Uma reflexão a propósito de um debate
O blog não tem sido apenas uma instância de reparação (uma vezes mais reconfortante do que outras) : é também um espaço de debate e reflexão. Um dos debate que em comentário travei, fez-me lembrar o que há tempos escrevi sobre um “livrinho” (no seu tamanho) que li. Foi escrito pelo Prof. Arnaldo de Pinho, um teólogo, catedrático da Universidade Católica, que foi secretário de D. António Ferreira Gomes. O titulo da obra é “Jesus Cristo: Quem é?”
A obra é de oportuna leitura nesta época de Natal. Numa escrita penetrante, o livro sai fora do estilo da tradicional vulgata e, contextualizando a vida e a mensagem de Jesus, oferece-nos referências para uma reflexão sobre temas tão actuais como o da liberdade, da verdade e da justiça. O sentido que promove essa reflexão está, como bem assevera o autor do livro, na postura de Jesus perante as situações do seu tempo, “a maneira como se coloca no centro das opções”. Compreende-se, então, que o mais importante não sejam as palavras, mas a postura que faz a elevação moral do homem. E é desta forma que a liberdade, a verdade e a justiça deixam de ser “palavras-armadilhas”, como eram utilizadas pelos fariseus, e se transformam em “energias” de vida que convergem num mesmo sentido: o do progresso moral dos povos. Só quando o homem se desprende do egoísmo, a liberdade se torna um valor; só quando o homem deixa de ser prisioneiro de mesquinhos interesses, a verdade faz a concórdia; e, só quando há homens justos para defender a justiça, a justiça se torna no princípio da harmonia. A justiça pertence à moralidade antes de ser afirmação da legalidade. Por isso, os justos fazem a justiça e não a justiça faz os justos.
Foi a defesa desta atitude que se tornou no combate mais importante que Jesus travou contra escribas e fariseus. A justiça não pertence a ninguém, em particular, não pertence a nenhuma ideologia ou partido – todos somos moralmente obrigados a lutar por ela.
A leitura desta obra, mesmo para um agnóstico como eu, é reconfortante e tem sentido fazê-la nesta aproximidade do Natal.
Naturalmente, é um ponto de vista, mas um ponto de vista reconfortante sugerido pelo estimulante debate que tive neste blog com o compadre Delfim Lourenço Mendes (que motivou este post).
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06 dezembro 2005
Veiga de Oliveira numa viragem de 180 graus
Lê-se, hoje, no Diário Digital / Lusa:
“Veiga de Oliveira, ex-deputado do PCP, ministro do IV governo provisório de Vasco Gonçalves e militante do PS, vai apoiar a candidatura de Cavaco Silva a Presidente da República, anunciou hoje o gabinete do candidato.
O ex-dirigente comunista foi Ministro dos Transportes e Comunicações do IV Governo Provisório chefiado pelo general Vasco Gonçalves, e ministro do Equipamento Social e Obras Públicas do VI governo provisório, do almirante Pinheiro de Azevedo.Foi deputado à Assembleia da República e vice-presidente do grupo parlamentar do PCP entre 1976 e 1984.
Veiga de Oliveira integrou um grupo de dissidentes comunistas que ficou conhecido como o «grupo dos seis». Em 1987, Veiga de Oliveira, Vital Moreira, Silva Graça, Sousa Marques, Vítor Louro e Dulce Martins, entregam ao então secretário-geral comunista, Álvaro Cunhal, um documento a defender mudanças internas no partido".
E esta, hein?!!!!............
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O flirt
O debate entre Cavaco Silva e Manuel Alegre revelou um autêntico flirt entre os dois. Morno, sensaborão, o debate da SIC mostrou dois candidatos a jogar à defesa e preocupados em não beliscar o opositor. Cavaco pressente que o maior perigo vem de Soares e, portanto, dá-lhe jeito promover Alegre e dar a este um estatuto de presidenciável, mesmo se não cessou de o tratar, com sentido depreciativo, por “deputado Manuel Alegre”.
Alegre quis colocar-se no mesmo patamar de Cavaco e piscar o olho ao “centrão”, mostrando uma grande deferência pelo “professor”, sem perceber que este não o leva verdadeiramente a sério. Alegre quis tão só dizer aos portugueses: “vejam bem, estou aqui de igual para igual com Cavaco Silva, estou no mesmo plano dele, a minha candidatura é mesmo para levar a sério”.
Como reagirá Soares a este alinhamento dos seus principais opositores, é algo a que valerá estar atento nos próximos dias e, sobretudo, nos debates que vão colocar frente-a-frente estes candidatos. Será o velho “animal político” ainda capaz de nos surpreender?
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Independência e interpretação da lei
Excertos do refrescante post de ontem, da autoria do Juiz Conselheiro António Henriques Gaspar, a ler na íntegra no blawg Sine Die.
"A Justiça, não por boas razões, continua no centro da opinião." (...)
"Os jornais do fim de semana publicam algumas intervenções de comentadores que devem impor a todos, na serenidade da exigência, um momento de reflexão. É que, sem apriorismos nem preconceitos, teremos de reconhecer, com rigor democrático, que boa parte dos elementos críticos poderiam, na substância, ser subscritos por muitos de nós.
Começando por nos questionar a nós próprios, antes de tudo o mais, o que poderemos fazer, sem o exigir a outros responsáveis públicos, para alterar ou aceitar modificação de actuações e comportamentos que possa contribuir para a retoma da confiança abalada." (...)
"A função judicial, com a qual nas representações sociais são identificados os tribunais e o sistema de justiça em geral, resta o último garante dos direitos e liberdades dos cidadãos e do respeito pelos princípios fundamentais da vida comunitária. Mas, sendo assim, como é ainda interiorizado pelos cidadãos, então tem que ser afirmado o primado da lei como fundamento e única fonte de toda a legitimidade material e externa do juiz. Afirmar o primado da lei não é, porém, compatível com ideias que por aí andam soltas, mesmo no discurso de alguns responsáveis, que proclamam a liberdade (quando não dizem mesmo a total liberdade) do juiz na interpretação da lei.
Na interpretação da lei o juiz não é livre; está, bem em diverso, vinculado a critérios estritos, fundados em princípios fundadores sedimentados, para não cair no arbítrio e na inteira deslegitimação, afectando gravemente a segurança das relações e a igualdade dos cidadãos.
Mesmo na interpretação e integração de conceitos abertos como momento de interpretação da lei, que são deixados à prudente intervenção do juiz, este está vinculado a critérios de finalidade e de natureza. Independência não pode ser, neste sentido, liberdade de decisão; independência é decidir livre de influências, interferências ou de direcção interna e externa, mas com estrita vinculação ao dever de interpretar e aplicar a lei e os princípios de acordo com critérios objectivos, racionais, de finalidade e motiváveis.
A liberdade de consciência e de decisão não pode significar desvinculação de critérios e exigências objectivas. Com o sentido em que por vezes tem sido afirmada, a ideia produz desconfiança, receio de arbítrio. Perturba profundamente a confiança a reposição do aforismo «cada cabeça», ou a afirmação, tantas vezes repetida, de que há sempre várias interpretações da lei, frequente em alguns discursos sobre a normalidade do funcionamento da justiça." (...)
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05 dezembro 2005
Mélancolie Génie et Folie en Occident
Caspar David Friedrich - Le moine devant la mer (1808-1810)
Exposição nas Galerias do Grand Palais, Paris, até 16 de Janeiro 2006
Aucune disposition d’âme n’a occupé l’Occident aussi longtemps que la mélancolie.
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Projecto de Lei-Quadro
da Investigação Criminal
(texto completo aprovado em Conselho de Ministros))
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Portugal, no seu Pior
actualização em 6/12/05: "Ministério da Justiça destacou ontem dois funcionários que hoje entram em funções no Tribunal de Gondomar em regime de exclusividade"
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03 dezembro 2005
Cheguei. Chegaste.
Vinhas fatigada e triste
e triste e fatigado eu vinha.
Tinhas a alma de sonhos povoada,
e a alma de sonhos povoada eu tinha.
E parámos de súbito na estrada
da vida:
longos anos, presa à minha
a tua mão,
A vista deslumbrada
tive da luz que teu olhar continha.
Hoje, segues de novo...
Na partida,
nem o pranto os teus olhos humedece,
nem te comove a dor da despedida.
E eu, solitário, volto a face e tremo,
vendo o teu vulto que desaparece
na extrema curva do caminho extremo.
Olavo Bilac
Obs.: oferecido por Amélia Pais
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se
se todas as palavras forem gestos,
e todos os gestos, corpo e alma,
e todo corpo e alma for delírio,
e todo delírio, gozo,
e todo gozo for abismo,
e todo abismo, nossa natureza,
e toda natureza for palavras,
e todas as palavras novamente gestos,
e todos os gestos, canções,
e todas as canções, amor,
e todo o amor for vida,
e toda vida um suspiro,
e todos os suspiros, sentimento,
e todo sentimento um poema,
como este que pode não acabar,
aí então, tudo terá valido a pena.
silvia chueire
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Silvia Chueire
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Justiça lenta em Portugal
Segundo noticiou o “Público”, um estudo exaustivo sobre os tribunais cíveis portugueses, do Observatório Permanente da Justiça do Centro de Estudos Sociais da Faculdade de Coimbra conclui que «a Justiça é lenta, burocrática e está próxima do estrangulamento». Os investigadores consideram, ainda, que a Justiça «é uma máquina muito pesada e com níveis de eficiência muito baixos. Apenas seis dos 144 tribunais cíveis são eficazes e o principal trabalho dos juízes são actos "rotineiros e desqualificados". Resultado: «existem mais de um milhão de processos pendentes».
O tema não é novo e demora a resolver-se. No entanto, a credibilidade da Justiça, como Instituição (e consequentemente dos seus agentes), depende das respostas que forem dadas a este enorme problema. E é necessário que essas respostas sejam encontradas. Sem Justiça credível não há Estado de direito.
Desconheço as propostas concretas que sobre esta matéria deu o último Congresso dos Magistrados e que estímulos foram apontados para premiar os magistrados mais competentes e eficientes. O que me ficou do Congresso foi a crispação dos Magistrados relativamente ao Ministro, o que, (peço desculpa) no meu entender, é quase nada ou mesmo “abaixo” do nada.
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02 dezembro 2005
suplememento especial a estes dias que passam (7)
Pode-se não gostar do Pacheco Pereira. Mas não ler a impressionante biografia política de Álvaro Cunhal por essa razão é asneira supina e definitiva.
Isto é uma história política do Portugal moderno, ou seja do Portugal de 30 a ...(para já vai até 1960). Se eu fosse o Bernard Pivot de que o José fala num comentário aos "dias que passam" prometeria devolver o dinheiro a quem não gostasse. Não o sou mas teimo em advertir que não percam este 3º volume. São 700 e tal páginas por menos de 30 €. Na Fnac fica por 27.
Morreu Manuel de Brito. Dito assim, no meio de tanta necrologia, não chega. Morreu O galerista por excelência. O homem da 111. Este tipo em França seria um Aymé Maeght ou um Khanweiler. Assim! Sem mais nem menos! Manuel de Brito, que tinha galeria em Lisboa e no Porto, a 111, foi o marchand do que há de melhor na nossa moderna pintura. Alguns criadores foram depois para outras casas mas o "cheptel" de Brito era impressionante. Nos anos 6o e 70 defendia os "seus" pintores, arriscava, comprava expunha e fazia preços decentes para já não falar nas facilidades de pagamento. Este homem, desculpem o entusiasmo, é uma das figuras marcantes da cultura portuguesa na 2ª metade do século XX.
O presidente Bush declarou anteontem que "a América não fugirá dos que põem bombas" (sic). O cronista comenta para os seus botões: "Claro! Prende-os em prisões clandestinas. De preferência afegãs ou leste-europeias..."
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M.C.R.
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As presidenciais
Vai pobre a pré-campanha para as eleições presidenciais. Muita saída à rua, muitos abraços, muita entrevista, mas poucas ideias e pouca clarificação sobre o exercício da função. Já aqui referi qual é o meu campo e quais têm sido as minhas opções, mas confesso que nunca vivi umas eleições presidenciais com tanto distanciamento.
Cavaco é…Cavaco. Representa aquilo que não é (magnífica a crónica de Joaquim Fidalgo no “Público” de terça-feira!) e faz campanha como se estivesse a concorrer para primeiro-ministro. Impante, não sei se ele perdoaria ao país uma nova derrota!
Jerónimo e Louçã representam o lado folclórico da política, numa corrida em que não têm quaisquer hipóteses de vitória, sendo que a sua única preocupação é segurar o eleitorado dos respectivos partidos.
Alegre tem-me desiludido bastante. Juntou à sua veia aristocrática e à sua altivez (afirmam os que com ele trabalham…) uma enorme insensatez. Não acerta o seu discurso, a mágoa tolhe a lucidez de análise e o episódio da (não) votação do Orçamento de Estado é revelador da teia de incoerências em que está enredado.
Mário Soares tem feito o seu percurso, vai à luta, não teme os confrontos e normalmente solta-se nas entrevistas. Aqui e ali excede-se, mas tem qualidades notáveis que não se apagam com o passar dos anos. Não sou um apaixonado pela sua candidatura, o que até me levou a declinar um convite para assumir um lugar na estrutura de campanha, porque entendo que, depois de dizer o que disse e nesta fase da sua vida, Soares devia dar um outro testemunho e um outro exemplo, evidenciando desapego pelo poder e promovendo a renovação da classe política. Ainda assim, creio que Soares acabará por recolher a maioria dos votos da esquerda, o que pode ou não ser suficiente para provocar uma segunda volta e, aí, derrotar Cavaco e os partidos que o apoiam.
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jcp (José Carlos Pereira)
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01 dezembro 2005
A justiça, finalmente
O já tristemente processo de Outreau acabou. Absolvição geral. O Procureur Géneral de Paris e o Avocat Géneral deram-se mesmo ao trabalho de vir ao Tribunal explicar o inexplicável, o que jamais deveria ter sucedido... mas sucedeu.
Foi a acusação pública que, num gesto que só a honra e a torna exemplar, quem pediu a absolvição dos últimos sete acusados. Deveríamos dizer das últimas sete vítimas dum "mil folhas feito de inúmeros pequenos erros", que qual bola de neve se transformaram num tsunami de lama e ignomínia que atingiu e destruiu uma dezena de famílias, uma comunidade, e abalou a honra perdida da instituição juiz de instrução.
As consequências deste temível erro judiciário já se começam a ver. Processos de inquérito especiais. Propostas de lei: doravante não será um mas DOIS juízes de instrução a afectar a casos mais dificeis e desde logo a pedofilia. Mais e mais importante: a prisão preventiva vai ser mais controlada, desde logo haverá periodicamente uma avaliação por comissão das razões de manutenção desta excepcional medida.
Quem estas escreve não está a mandar recados a ninguém. Quando mando recados ponho o nome nos bois. Estou apenas a noticiar um caso exemplar onde algumas questões têm sido analisadas por jornalistas sérios, por operadores de justiça calmos e sensatos e por cidadãos preocupados com o ataque da bem pensância e do oportunismo politicamente correcto.
Já há alguns anos um processo espectacular tinha posto em causa os julgamentos apressados e as diligencias demasiado rápidas de polícias e juízes de instrução. A vitima foi um ex ministro de direita, catolicão e defensor de causas reaccionaríssimas, Dominique Baudis. Andou dois anos atolado na merda até se "descobrir" que talvez valesse a pena ir verificar os videos de vigilância da Assembleia Nacional... que provaram irremediavelmente que o celerado Baudis estava lá como sempre clamara e não em Amiens ou num sítio parecido...
Imaginem agora que o acusado é um zé ninguém sem meios, sem influência, sem fama. Imaginem só! E imaginem uma cela de prisão (mesmo preventiva...) e os dias e os meses a escoarem-se lentos, lentamente, E os interrogatórios... "veja lá..."
"é melhor para si" etc... etc..
O que um cidadão, como o abaixo assinado pede é tão só mais diligência e menos preconceitos, mais civilização e menos moral de trazer por casa, mais cuidado e menos Zorros. Os Zorros são bons só no cinema e mesmo assim...
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M.C.R.
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O Presidente da República
Não chega ainda a ser uma efeméride. Já foi, porém, há quase dois anos que se realizou o Congresso da Justiça, patrocinado pelo Presidente da República, com a participação de todos os operadores judiciários. Desejei, então, que não fosse «o Congresso da oportunidade perdida». Foi. Se não nas conclusões, apesar de tudo com bom «material» de reflexão e trabalho, pelo menos na falta de consequências. Agora, após mais congressos, incluindo os recentes de advogados e juízes, a situação, que era muito grave, continua igual ou... pior! E não se adivinham melhorias Há algumas intenções e (pequenas) mudanças positivas, mas no essencial tudo como dantes, quartel-general em Abrantes. Com a agravante de se estar a chegar, com culpas repartidas, a uma espécie de situação de não retorno, na impossibilidade de diálogo entre magistrados e Governo. Com Jorge Sampaio a fazer discursos certeiros sobre a Justiça, há dez anos dez, sem nenhum efeito prático! Assim, só o Presidente pode, e deve, tomar uma iniciativa que permita sair do desastroso impasse a que se chegou! Ou só ele pode tentar...
José Carlos de Vasconcelos
VISÃO 1DEZ2005
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Simas Santos
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30 novembro 2005
Homenagem a Fernando Pessoa
ACIMA DA VERDADE estão os deuses.
A nossa ciência é uma falhada cópia
Da certeza com que eles
Sabem que há o Universo.
Tudo é tudo, e mais alto estão os deuses,
Não pertence à ciência conhecê-los,
Mas adorar devemos
Seus vultos como às flores,
Porque visíveis à nossa alta vista,
São tão reais como reais as flores
E no seu calmo Olimpo
São outra Natureza.
Ricardo Reis
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AQUELA SENHORA tem um piano
Que é agradável mas não é o correr dos rios
Nem o murmúrio que as árvores fazem…
Para que é preciso ter um Piano?
O melhor é ter ouvidos
E amar a Natureza
Alberto Caeiro
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TODAS AS CARTAS de amor são
Ridículas.
Não seriam cartas de amor se não fossem
Ridículas.
Também escrevi em meu tempo cartas de amor,
Como as outras,
Ridículas.
As cartas de amor, se há amor,
Têm de ser
Ridículas.
Mas, afinal,
Só as criaturas que nunca escreveram
Cartas de amor
É que são
Ridículas
Quem me dera no tempo em que escrevia
Sem dar por isso
Cartas de amor
Ridículas.
A verdade é que hoje
As minhas memórias
Dessas cartas de amor
É que sãoRidículas
Álvaro de Campos
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Primo de Amarante
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estes dias que passam 7
desfalecem, na sombra, as suas asas...
E já que falamos em gregos, relembremos, uma vez mais, com gratidão e admiração a professora doutora Maria Helena da Rocha Pereira, felizmente ainda viva, e que, via Asa, nos oferece mais um belo naco de Grécia: Hélade, uma antologia de cultura grega. Ora aqui está uma senhora que honra a Universidade portuguesa e a de Coimbra em particular.
Outra notícia reconfortante: o sinistro Pinochet tem mais uma acusação em cima, desta vez por mera roubalheira. Para já está em prisão domiciliária.
E uma de pasmar: a excelente editorial Estampa, do meu querido amigo e colega dos primeiros anos de liceu, António Manso Pinheiro, começou em 86 uma óptima Nova História da expansão Portuguesa dirigida por Joel Serrão e Oliveira Marques. Dos 11 (onze) volumes previstos ainda faltam 4 (quatro!!!) e isso porque agora, de rajada saiu o volume terceiro em dois tomos. Comecei por ser aliviado de dois contos de reis e ontem esportulei 80 euros pelo vol III (em dois tomos). Ora toma! Pinheirinho, põe cá fora rapidamente os que faltam antes que a malta precise de ganhar o euromilhões para te pagar o produto...
E já que isto me fez voltar vinte anos atrás, lembrei-me de um final de Outubro de 81, ai esta velhice!..., e de Paris subitamente de luto: Brassens acabara de morrer e as pessoas cruzavam-se comovidas como se lhes tivesse morrido alguém familiar. O cantor dos oiseaux de passage e da mauvaise reputation está ainda tão vivo...Ó leitor José, e por Brassens não vai nada?
E o que diria ele, desses aviões sinistros que cruzam os nossos ares, com uma carga infamante de presos clandestinos, de presos “inexistentes”, em prisões “inexistentes”, por crimes eventualmente inexistentes, como já ocorreu, sem direito algum, sem nome, sem pátria e sem uma alma que os defenda?
Canto a paz em plena guerra
mas canto a guerra, também,
nesta paz três vezes maldita e assassina
Esta paz que é a dos cemitérios,
esta paz de arame farpado
esta paz sob as matracas
Eis porque canto a guerra revolucionária
pelos camaradas três vezes traídos
e uma outra vez pelos camaradas traidores:
Na minha inabalável humildade
canto a revolta.
(Wolf Biermann: Gesang für meine Genossen, trad. do escriba)
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M.C.R.
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29 novembro 2005
Diário político 8
Terá sido a fulgurante notícia da candidatura iminente (e não eminente, nota bem!) do meu já ex-camarada Salgado Zenha que te perturbou o tino e o tento e te levou a arrancar no primeiro comboio para Austerlitz e para o metro Porte d'Orléans/Clignancourt? Convenhamos que se foi isso o caso não é para menos: então aquela potentíssima figura moral que atravessava o deserto no PS não se resignou ao calor, à solidão, à areia, à companhia dos tuaregues e dos camelos, aos cada vez mais raros oásis, à dieta de tâmaras e, ZÁZ, CATRAPAZ, enfiou-se no lugar ainda quente deixado vago pelo Coronel Costa Braz? Ou, como diz o inefável "Jornal de Notícias", sai do PS e entra na corrida presidencial, a pedido do proletário Veloso y sus muchachos, convencidos que, com Zenha, levam água ao seu moinho (repara-me no trocadilho que é mimoso) e põem o Bochechas na situação evangélica de atar uma mó ao pescoço e atirar-se ao rio Letes? Terão acenado a este conspícuo dissidente interno com as huris do paraíso, com as bailarinas de Ragpur, com os Vergéis do Profeta e o título de Chefe dos Crentes que Harun Al Rashid usou (isto se se for dar fé à nocturna Scherazade, donzela ardilosa que, infelizmente, não encarnou na engenheira Pintasilgo)?
Enfim tens candidato ao passo que os meus "amigos políticos" têm - como se já lhes não bastassem as outras consumições! - mais sapo vivo a engolir. Que seja por bem como dizia a filha família no cinema ao sentir mão estranha pela coxa acima.
Nota, velho amigo, que, mais do que os receios eleitorais, me apoquenta o fim de uma imagem: de qualquer modo com o SZ fizeram os meus amigos um bom pedaço de caminho na tentativa de ratarem os poderes do SG (secretário geral para os leitores e não o amável produto da Tabaqueira). Lá se vai mais uma possível oportunidade para o PS no caso, não impossível, de se perderem as eleições e de se lavarem, de uma vez por todas, as estrebarias de Augias. Já daqui vejo os filisteus aos saltinhos dizendo "Vêem? Nós bem vos dizíamos ..." Não há dúvida que ao PS deu o beribéri e com força, chiça! E o pior é que, à volta, isto parece o México - vai tudo raso, sismo após cisma: mais grave ainda é que não se enxerga nenhum Pancho Vila e sabe-se que Pinochets não devem faltar. Entretanto nas hostes do partido da balança falsificada mais outra, e desta vez de peso, valha-me Sta. Auta: demitiram-se todos os da Comissão Consultiva (Botequilha, Rabaça, Caetano, Palma Carlos, etc....). Parece que ninguém lhes ligava nenhum e eles não levaram isso a bem. À boca cheia diz-se que um passo destes só com o aval de General Eanes. Se é assim, adeus minhas encomendas, vou ali e já volto. O simpático ajuntamento que se organizou para estas eleições esboroa-se ainda mais depressa do que eu pensava e as prováveis eleições que vierem põem lá a direita por muitos e bons.
Vem-me à lembrança um amigo doutros tempos que falava sempre do país dizendo que estava dividido em três províncias: Beócia, Capadócia e Arganázia, querendo com isto significar que entre cretinos, caguinchas e sacanas não escapava ninguém.
Vai ser divertido voltar a cantar o hino da restauração e decorar os deveres do Bom Filiado da Mocidade Portuguesa ("o bom filiado é aprumado, limpo e pontual", "o bom filiado ama seus pais e respeita chefes e superiores" etc. etc...). Já te estou a ver de "chefe de castelo" a arengar aos alunos, todos de gravatinha, pois claro! e a marcar deveres de casa. Com a idade que já tenho só me resta a "legião portuguesa" ou a outra, a dos antifascistas de longa data que até na retrete estavam calados não fosse haver microfones no cordão do autoclismo ou um periscópio da PIDE a sair do buraco da sanita. Tenho por mim que, ao contrário do que diz alguém, isto não é a hora do condor mas sim a dos urubus.
Como sabes, tenho, entre outros defeitos, estrouto: escrevo à máquina com dois dedos tentando por mera medida de economia - chegar com o recado dado ao fim da 2ª página. Por uma vez tinha arranjado um excelente fim. Bastava juntar uma lista de discos e livros a encomendar e estava feito, era só selar e pôr no correio: sentia-me um autentico escoteiro depois de praticar uma boa acção diária. Infelizmente no melhor pano cai a nódoa. A lista de tão escolhida, riscada, acrescentada e corrigida está no tinteiro, digo nas teclas da Royal. Dois inteiros dias se passaram e nada. O que vale é que, assim, te posso, de viva letra, contar a apresentação da candidatura do SZ perante Melo Antunes, Soares Louro, Letria, Arnault e Henrique Barros, entre outros. O movimento chama-se, palavra, juro que não estou a gozar, ZAP (Zenha à Presidência). Parece marca de fecho-éclair ou de remédio contra a falta de erecção mas foi o que se arranjou. Imagina um pouco se o Freitas, a Pintasilgo e Soares entravam nesta guerra de onomatopeias FAP, SEP, PAP. A Lurdinhas, porque papa-hóstias (arcebispo de Braga dixit) não ficava mal PAPA (o final poderia significar "avante", "aleluia", "avé"), o todo conotando a comidinha, o chefe da Igreja e a imagem do pai numa só palavra. Já o Dr. Freitas não ia tão bem servido: FAP só lembra a gloriosa aviação militar ou -pior!- uma sigla há muito caída em desuso e que era a da organização de massas dos primeiros maoístas portugueses: a finada "frente de acção popular" de saudosa memória e breve história: foram todos dentro nos idos de 66/67.
O Bolacha também não ia longe com SAP (dava sapo, sape-gato, no máximo sapateiro ou sapador, tudo coisas pouco entusiasmantes ou até ofensivas).
Do candidato de Neandertal nem se fala: VAP lembra logo Vá Pró ... ou Prá e para isso já basta aquela da "APU que o pariu". De resto agora com o Zenha em liça tenho para mim que o Veloso recolhe rapidamente a quartéis. Ainda vamos ver a CGTP vir dizer que “Zenha pois claro! Um democrata, um combatente da liberdade, um protector das viúvas e dos órfãos e já agora, dos camponeses sem terra, dos reformados e idosos” etc...etc...
Enfim o País diverte-se: Prá frente Portugal que por trás dá Sida! O Freitão se tiver sorte ganha as eleições como cavacas e depois a culpa é do Marocas que devia ter desistido.
Querias um PS alla Berlinguer com muito molho bolognese? Espera um pouco que já comes.
Nota bem que tal hipótese não seria de todo em todo desagradável desde que se verificassem cumulativamente umas quantas condições: que o(s) restante(s) partido(s) na área do poder governassem já não digo bem mas, pelo menos, razoavelmente; que os hábitos políticos portugueses -compadrio, falta de imaginação, planificação a curtíssimo prazo e sem perspectivas etc...- se modificassem decisivamente; que, ao depurar-se, o PS ficasse apenas com socialistas modernos, desempoeirados, libertos de fantasmas e de chavões, pragmáticos e com forte sentido de "polis". De qualquer modo não parece ser isso que está nos planos do jet-set de S. Bento e Belém: aí fulaniza-se tudo, o país é tido como uma quinta em ruínas a que há que ir buscar o pouco que resta para depois abandonar definitivamente. É por isso que voto Mário Soares. Para já há que aguentar e depois logo se vê: um presidente ao arrepio do parlamento e servindo de porta voz ao descontentamento difuso só conduz ao regresso de Jedi.
Olho para mim próprio, perplexo. Não me atrai a política (já lá vai tempo, já não tenho idade, não estou disposto nem disponível, afinal o que eu queria era ser juiz de paz) e eis-me metido na candidatura do Gordo e a desejar que ele ganhe. Mau sinal! Para quebrar esta melancólica constatação inventei um slogan para o dr. Salgado Zenha: ZIPPER (Zenha Independente Para Presidente É Renovação!). Como imagem gráfica e para distinguir do encapotado feminismo da Pintasilgo arranjava-se uma pequena jeitosa a abrir o zipper dos jeans deixando ao mesmo tempo escorregar um pouco a calça de modo a realçar a anca apetitosa. Lingerie minúscula e branca.
E pronto. Por aqui me fico consumido de inveja ao saber-te em Paris que ainda vale uma missa digam lá o que disserem os detractores da cidade luz. Um abraço do
1985
Tem 20 anos este texto! Morreram já vários dos acima mencionados, regra geral, gente boa ainda que num dado momento a política me separasse deles. Zenha, Melo Antunes ou Henrique de Barros eram homens de bem e democratas acima de qualquer suspeita. Mas há 20 anos estávamos separados por isto um candidato que, contra todas as espectativas ganhou a pulso as eleições. Hoje, não é o meu candidato, por muito respeito e amizade que lhe tenha (e tenho!). Privavelmente o meu candidato nem á 2ª volta vai (se houver 2ª volta, claro...) mas estar com ele permite-me pagar uma dívida de gratidão e amizade e, mais do que isso, permite-me votar um pouco mais de acordo com o que penso e com o que sonhei (e, tantos anos depois, com o que teimosamente continuo a sonhar...).
O destinatário da carta é, como de costume, o Zé Valente, que já só vive na saudade dos amigos.
Postado por
M.C.R.
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