05 dezembro 2006

o tempo esse grande simplificador 5

Carta 2ª que o recoveiro do Foco enviou ao Carteiro do Marco
Meu caro Carteiro
Eu devia usar o seu vero nome, Joaquim se não estou em erro, ou Joaquim Manuel se bem lembro, dois belos, antigos e leais nomes portugueses, curiosamente os dois nomes mais usados durante um bom par de séculos neste rincão à beira mar plantado. Agora é o que se vê: as pobres criaturas que ainda vão nascendo têm nomes raros, estrangeirados (no mulherio a coisa é ainda pior; ele há Carinas, Sandras, Natachas –estas coitadas até têm nome de diminuitivo pois Natasha vem de Natália e Sandra de Alessandra!- Vanessas e o que mais virá.)
Lá me perdi outra vez. É a a velhice, caro Amigo, a velhice que chega a galope numa vassoura ou num aspirador para me dar cabo dos fusíveis! E essa velhice que me dá estes cabelos brancos e este arrastado na escrita, diz-me na sua infinita sabedoria que este blog anda muito necessitado de sangue novo ou quase (que V. Já passou dos quarenta!). E anda muito necessitado, repito, da sua excelente prosa, desse tom dorido e levemente irónico, desse golpe de asa para o que é espuma do tempo e que V., com esse passado jornalístico, tão bem usa.
Note meu caro que eu não lhe estou a pedir (ou melhor não me atrevo) colaboração diária, nada disso, mas apenas uma semanal crónica para este placard que foi, é e será sempre, seu e que V. ajudou a crescer. Eu sei que V bloga (ou voga?) nestes mesmos mares etéreos num blog feito por Si e à Sua medida mas isso, que é muito e é bom, não implica que, volta que não volta, V. não possa deixar aqui a sua “carta a Garcia” semanal como a antiga missa (ou como o antigo banho, lá nas nossas Coimbrãs de meninos e moços onde boa parte dos estalajadeiros cocediam ao rapazola vindo das berças para se ilustrar um banhinho semanal e quem quisesse mais que fosse ao Hospital, pelo menos foi o que uma bruxa me disse quando quis alugar um quarto horrível mais perto da faculdade para poder dormir mais cinco minutos antes da primeira aula da manhã naqueles Gerais siberianos)
Não resisto, caro Carteiro, a contar-lhe aqui, entre quatro olhos e muito à puridade, como me libertei da escravatura do toque da “Cabra” e das faltas às aulas que um bedel escrupuloso até dizer basta apontava rapidamente numa folha com o diagrama da sala. Devo ao Pedro Mendes de Abreu o conselho salvador que me libertou ad aeternam das aulas sem que as faltas fossem marcadas: o solerte PMA, amigo do peito, murmurou-me que uma garrafinha de whisky em Outubro e outra do mesmo teor em Março tornavam o meu lugar invisível aos olhos perscrutadores de bedéis, ajudantes ou simples ferrabrazes da cimitarra (que era assim que um contemporâneo do meu Pai chamava aos archeiros). A partir desse dia entre todos celebrado e recordável tornei-me um exemplo de (falsa) assiduidade às aulas. Até que... até que o destino funesto me fez encontrar um dos poucos professores de quem fui amigo. A verdade, a trágica verdade é simples.
Havia nesses tempos de vinho e rosas, ali para a zona do Parque, antes de se chegar à Fábrica da Cerveja, um pequeno bar que in illo tempore se chamou “Caveau”. Sítio agradável onde, milagre das rosas!, se tocava um pouco de jazz. Claro que V. está já a ver-me, ali, firme como uma rocha, ao balcão de cervejinha em punho, a varar a noite. Ora, começou por lá a aparecer um gajo grande, calado, simpático e igualmente apreciador de cervejola ao balcão. Estas vizinhanças dão sempre em conversata sem grandes apuros mas conversata quand même. E vai daí, o tipo, claramente mais velho, do que os fregueses balcânicos, começou a perguntar o que é que fazíamos. Com a natural sobriedade do noctívago contumaz, chegada que foi a minha vez, deixei cair que andava “na faculdade” (que lá em Coimbra ninguém usava o termo “escola” como em Lisboa ou a pirosice “universidade”. Quem por ali anda(va) com ar jovem e bem disposto era seguramente um estudante universitário pelo que universidade cheirava a patetice.) O grandalhão ouviu, ponderou, bebeu mais meio “fino” e voltou à carga. Que faculdade? Eu, ainda inocente e confiado, adiantei, dando-lhe também aos gorgomilos secos meia dose de liquido, “direito”. E o arganaz, consumindo num gole olímpico mais 15 centilitros da amarelinha: e em que ano?Segundo, respondi, secando também o meu recipiente e pedindo logo nova dose na passagem. E, subitamente desconfiado, perguntei em troca: E V. que faz na vida?Assistente repontou o tipo com um ar risonho de canibal a preparar-se para reduzir o oponente a torresmos comestíveis. –De quê? – perguntei angustiado. - De Teoria Geral. –repontou o maligno.
Porra que o gajo é meu professor, pensei. –E como é que nunca o vi? – perguntou a criatura lembrando que o mês de Janeiro estava quase no fim.
Para abreviar: a minha carreira de faltoso sofreu a primeira e única excepção. Nunca mais faltei às aulas do Carlos Mota Pinto, recente assistente dessa cadeira e futuro grande amigo meu mesmo quando ele se alistou no PPD e foi Primeiro Ministro. Alguma vez contarei outras histórias desse Professor com P grande, dessa excepção à regra entre os professores de Direito, desse imenso conhecedor de tudo e mais alguma coisa desde que jurídica, está bem de ver.
Desta vez não me perdi. Quis mesmo contar-lhe a Si, aluno que foi da mesma alma mater, mas de posterior geração, esta historieta pois calculei que eventualmente lhe agradaria. E assim com a história, disfarço o desafio que no início desta carta Lhe fiz. Vá lá, uma vez por semana, assine o ponto aqui, neste blog que V ajudou a crescer e onde só tem amigos, leitores e um admirador que Lhe manda um abraço
Ex corde
mcr

04 dezembro 2006

Au Bonheur des Dames 40

Variações sobre um conselho de leitores amáveis
Volta e meia aparece-me um leitor ou o seu substituto etéreo (um e-mail) que me desafia para aventuras impossíveis, que pergunta se estas historietas são mesmo verdadeiras, para já não falar em dois exigentes que me chamam de tudo porque não produzo o suficiente número de postais. A acreditar neles (um ele e uma ela) eu sou um preguiçoso (o que por acaso é verdade), que até por dar ao dedo redactorial se cansa. Então a leitora é dramática: adoça-me o ego (bastante escalavrado é verdade pelos anos e pelas desilusões) com umas loas à minha escrita “fácil como quem conversa enterrado num sofá” (boa imagem leitora, boa imagem!) e logo a seguir uma estocada fatal, à Lagardére (se é que algum dos que me aturam alguma vez leu as aventuras de Lagardére, desse cavalheiro de bem chamado Paul Féval, que, com Ponson du Terrail, alimentou muito rapazinho leitor na nunca suficientemente exaltada Biblioteca Municipal Fernandes Tomás, Figueira da Foz): escrevo pouco (!!!) sou um preguiçoso (e ela a dar-lhe...), um valdevinos, nem para um blog decente sirvo. Não é bem assim mas o tom geral é mais ou menos este. O cavalheiro leitor é (uma vez sem exemplo!) mais sofisticado. Não me acusa de nenhum pecado mortal (e ainda bem porque agora não temos aqui à mão o frei Delfim das Cinco Chagas para rezar por nós) mas num movimento envolvente acaba por me cominar aos mesmos trabalhos forçados: tens de escrever, pá. Agora que o Carteiro foi dar uma volta ao bilhar grande, tens de escrever por ti e por ele. Que diabo isso também não é nenhum sacrifício, pá. E depois a coisa sai-te assim tão do pé para a mão, vá lá não te armes... E por aí fora.
Pela amostra já os restantes leitores (se é que há mais algum/a) podem calcular como me sinto emba(ra)çado. Eu ia mesmo escrever embaçado, mas lembrei-me a tempo de uma senhora de uma editora que não gostava de plebeísmos. Se alguém, por exemplo, dissesse que X abalou em vez de dizer que X foi embora, ela, do alto da sua proteica ignorância do português bom e antigo como o pão que se amassa à mão e que se corta ao cimo com uma cruz (S Marcos te amarque, S. Mancos te amanse), disparava logo que abalar só no Alentejo é que se usava para significar partir, ir de viagem. E, zás! Um risco raivoso na folhinha conspurcada pela alentajanada. Já me perdi!, raios! Onde é que eu ia? Ah, já sei: na palavra embaçado. Embaçado por via de um leitor embuçado que me critica como quem puxa as orelhas ao menino que não fez os deveres de casa que o senhor professor marcou.
Ora vamos lá a ver se nos entendemos. Por muito que isso prejudique a imagem que de mim alguma leitora mais benévola possa ter, eu esfalfo-me ou esfalfo as pobres e cansadas meninges para produzir os posts que com alguma regularidade aqui ponho. À uma porque tenho algum amor próprio e recuso-me a vender material de segunda mão, ou cópias produzidas na china. Aqui o produto é inteiramente artesanal, novo, e ecológico. Tirante o MacBook Pro o resto é tudo manual. Depois mesmo quando parece que escrevo de carreirinha terão de convir que tive de pensar um pouco no que vou levar para a feira. Finalmente, a escrita, como tudo o resto, aliás, obedece a regras gramaticais, sintácticas e o mais que se lembram (eu escrevi isto com o pobre coração nas mãos: é que li por aí que agora anda à solta uma tal TLEBS que esfola quem falar em substantivo e atropela quem num último estertor murmurar “complemento circunstancial de modo”. A dita cuja TLEBS da senhora professora doutora Mira Mateus e das suas dez mil virgens martirizadas pela tarefa tremenda de rebentarem com o crânio das novíssimas gerações com a tal terminologia moderníssima e inteligentíssima é no dizer de oito ou nove indivíduos de maus fígados e piores bofes uma coisa horrenda. Claro que esta gentuça que critica o progresso imenso da senhora Mira Mateus é tudo um bando de comunistas, de pedreiros livres, de goliardos que só sabem dizer mal de quem trabalha. Polícia neles doutora Mateus. Polícia e chanfalhada forte. Ou então esse novo produto do Litvinenko, o polónio número x, o que mata sem dor e rapidinho. É dar-lhes que são mouros, muçulmanos, anarquistas e mariolas.) Lá me perdi outra vez, mas os leitores desculparão: agora foi um desvio patriótico em defesa dos cinco mil professores (cinco mil? – Arrium porrium catanorum cunque! E nós temos cinco mil inteligências só no professorado da doutora Mira Mateus? Ah país duma cana! Ainda vamos a tempo de descobrir as Berlengas! A nau, à nau que temos gentil maré!)
Bom, expurgados que estão os infiéis, os renegados os inimigos do progresso linguístico, voltemos à vaca fria. Ou seja à escrita deste escriba. Alguma vez terei dito que anda por aí muito cidadão cujo sonho era viver deitado à sombra de uma bananeira de onde as bananas já descascadas e em bocadinhos lhe cairiam directas na boca mimosa. Ora, fora a ilha da Madeira onde isto quase acontece (e por isso a Madeira é a região mais rica de Portugal. Ai não sabiam? Pois consultem o jornal, leiam-no com olhos de ler, porra, e logo verão. Contas feitas o reino do Jardim é um Éden. O facto, aliás trivial, de ser o pagode continental a pagar os luxos de pouco importa: andámos a colonizar a Madeira, a chamar-lhes ilhéus, comedores de bananas e tudo o mais? Pois agora estamos a pagar tão feio pecado. Deve ser por isso que a TLEBS nos caiu em cima. A TLEBS, a Ministra da Educação e o IRS! Pecámos muito mais do que nos era permitido e agora Deus castiga-nos com a oitava praga do Egipto. É bem feito!) a realidade é bem outra. Este, que por aqui vai esgaravatando, sua as estopinhas para produzir meia folha de prosa. Ou quando isso não sucede, o resultado é o que estão a ver, agora mesmo: querendo defender-me das acusações dos leitores, acabei por falar na TLEBS (logo eu que sou um ignorante, senhora doutora professora Mateus, mira hijo que barbaridad un bribón con canas, Dios mio! ) no Alberto João, um pai da pátria que o pariu, na Senhora Ministra que Deus tenha em seu regaço, e em mais um ror de coisas de que só poderei lembrar-me se andar para trás (ou para cima) no computador. Como não estou para isso paro aqui mesmo, assino e despeço-me prometendo não reincidir.

ISTO ESTÁ MAL ou é apenas um período menos participativo?

Não é que eu tenha participado muito (com contributos) nesta instância retemperadora. Passava por cá, ia lendo, às vezes de relance, mas notava que as coisas fluíam, havia novos posts, comentários, algum debate, enfim, o blog com vida.

Nestes últimos dias “apenas” aconteceu o sempre precioso contributo do MCR. É como se o país tivesse parado ou se tivessem resolvido todos os problemas. Nada há a comentar no mundo da justiça. Tão pouco na educação, na saúde, nas organizações sócio-laborais, na política, na governação ou na falta dela.

O que é que isto significa? Cansaço? Descrença? Ou antes um alheamento condigno, à medida do ego de cada um?

Em balanço de fim de ano podemos concluir que as coisas não estão fáceis. A história do défice, da herança que todos os governos herdam e que depois legam é cada vez mais pesada. Ou pelo menos é assim que nos vendem esta história. Já estamos cansados de fazer parte deste filme. O problema, o grande problema é que não podemos sair do filme. Por isso o melhor é continuarmos a opinar, a escrever, quando mais não seja, como terapia e modo de dizermos que se nos esmagam pelas finanças, não nos prendem o pensamento.

30 novembro 2006

Diário Político 33

Carta a um amigo que entra na 3ª idade

É sempre difícil escrever a alguém que se abeira dessa idade difícil que agora se convencionou chamar terceira. Pessoalmente quando me falam disso recordo sempre a antiga terceira classe dos comboios, os medonhos vagões feios e de madeira, cheios de correntes de ar e de fumo o que até era um alívio porque disfarçavam o cheiro miserável das retretes.
E provavelmente estarei mais perto da verdade do que esse coro safado de louvores a uma idade inútil, desprezada, a uma idade de sobrecarga para quem anda na vidinha e pensa que está a descontar para os malandros dos velhos. Eu aqui a fossar e eles na maior a jogar à sueca no jardim!... Ou: que este gajo anda para aqui a fazer, não quer ir para a reforma? Não vê que está a tirar o lugar aos novos?
Ser velho ou “idoso” que é mais politicamente correcto, é andar mais vagarosamente, rotinar os dias entre o café com a roda de amigos e uma ida à farmácia aviar uns remédios. Ser velho é não estar a par das novas tecnologias, das novas formas de “comunicar”, do “k” desabrido em vez do “que” trabalhoso, tá a ver como isto é tão simples?
Ser velho é ter direito ao “cartão dourado” dos comboios e do metro para viajar entre nenhures e sítio nenhum, para visitar outros fantasmas que enchem lares, dão trabalho e são enganados por vendedores de sonhos caros mas a prestações, fazer parte da fotografia do senhor presidente na festa a declarar pomposo que com ele a terceira idade é a primeira.
Ser velho é morrer aos pedaços abandonado num hospital pelo Verão, dividindo com cães e gatos, o esquecimento dos donos destes, dos filhos, dos sobrinhos, dos afilhados ou nem isso.
Ser velho também pode ter a sua utilidade: nada mais prático que uma avó para tomar conta das criancinhas enquanto os pais vão para o trabalho que é preciso pagar as prestações da casa, do carro, das férias na República Dominicana ou mais prosaicamente ali para Torremolinos onde a animação é permanente.
Dirás que esta é uma visão catastrofista de uma idade que já nem é um escândalo, de um grupo social que cada vez tem maior peso económico, que vota ou pode votar, que esconde as rugas com botox ou outra coisa do mesmo tipo, que o viagra eliminou barreiras e riscos, que enche as esplanadas dos cafés e fala alto (pudera! Estão surdos como portas!) e critica sem piedade os novos hábitos e as novas gerações.
Dirás até que a idade não tem importância, que o que é necessário é manter a juventude de espírito, como se isso não fosse a negação temível do melhor que a idade tem ou pode ter: a sageja, a experiência, a tolerância, a ironia da dúvida e a serenidade frente às proclamações dos que chegam e querem mais pressa, mais rapidez, mais profissionalismo, mais ambição, mais produtividade.
Vão começar a chover sobre ti propostas aliciantes desde a universidade para a terceira idade onde um cavalheiro pretensioso se propõe ensinar-te história pátria, literatura light ou jogos tradicionais. E música! E ginástica moderna à base de aparelhos que te poupam o andar pela rua de nariz ao vento, que ele há por aí tanta bactéria...
Ser idoso, como agora passas a ser, significará também que se apanhares com um carro em cima, dentro ou fora da passadeira, serás notícia sempre com a classificação etária à frente: sexagenário vítima de atropelamento numa artéria movimentada do centro ajudado por populares.
Eu sei que algum leitor mais sensato vai dizer que este que estas debita no computador está com um ataque de pessimismo que nem se veda e o melhor é concordar com esse leitor por muito que no íntimo o autor sinta que estas palavras são acaso as mais verdadeiras terríveis crueldades de que a canção tão justamente falava.
De todo o modo mandam as convenções que daqui te envie um abraço pelo primeiro dia do resto da tua vida. Cave diem!

29 novembro 2006

A propósito do Metro do Porto

Ouvi na TSF pela primeira vez a notícia do relatório do Tribunal de Contas sobre o Metro do Porto. Da notícia, o que me chamou a atenção foi a questão das remunerações dos administradores ao nível dos prémios, nomeadamente no que respeita aos não executivos, e o facto de não estarem associados a objectivos. Todavia, deixei de ouvir falar desse aspecto, arrastada que foi a comunicação social pelas reacções de Narciso Miranda e de Valentim Loureiro. E em que tema é que estes últimos se centraram, cada um à sua maneira? Nos trocos.

E eis que todos em parada e em coro desataram a insurgirem-se contra os cartões de crédito atribuídos a administradores não executivos e respectivo montante.

Ora, do meu ponto de vista, o que aqui é central, é a questão das diferentes componentes da remuneração de administradores executivos e vogais de entidades públicas bem como da sua fundamentação.

Para ter a certeza que afinal não tinha ouvido mal quando tive o primeiro contacto com a notícia, fui ver o relatório ao site do Tribunal de Contas. Lá estava: os prémios anuais de gestão dos administradores da Metro do Porto não está associados a nenhum objectivo (mensurável, concreto) mas tão somente a um “ bom desempenho” (algo de muito vago). A isto respondem os responsáveis do Metro que o histórico desta entidade não permite ter resultados já que estão ainda numa fase de investimentos. A isto pergunta-se: só existe esse indicador para aferir de uma boa gestão? Sabemos que não.

O que é um facto, e está mencionado no relatório, é que, por exemplo o “prémio de gestão” do Metro do Porto em 2001, referente ao exercício de 2000, foi correspondente a nove salários mensais. O relatório refere ainda que, noutras empresas públicas, a média se situa entre quatro a cinco salários mensais. Precisando: em 2001, cada vogal do CA da Metro do Porto recebeu um prémio de gestão cinco vezes superior ao de um vogal da ANA ou CTT e três vezes superior ao de um vogal da ADP.

Claro que tudo isto seria minimamente sustentável se essas remunerações estivessem ligadas a objectivos concretos, que demonstrassem inequivocamente que da gestão dos elementos do CA resultavam ganhos evidentes para a Metro do Porto, fosse a que nível fosse.

A questão que se me coloca é como é que é possível que nestas entidades – empresas públicas, fundações e outras suportadas pelo orçamento de Estado - uma auto nomeada “comissão de vencimentos” tenha a liberdade de fixar as remunerações que bem entende, com critérios subjectivos que não são inelegíveis à luz do senso comum.

Outra questão, bem mais grave, é que depois deste fumo todo nada mudará e os administradores de todos os CA de entidades públicas, pagas em boa parte pelo dinheiro dos contribuintes, continuarão a auferir as remunerações que a sua “comissão de remunerações” entenda estabelecer, sem limite e sem critérios mensuráveis.

perguntas


quantas terras habitam a terra,
perdidas no pensamento humano?
quantas a escapar
da que é ?

nelas cresce a perfeição
para a qual os olhos se voltam
nos devaneios.
nelas florescem as terras ideais,
moldadas pelo sonho.

quantos braços se movem
em busca daquelas terras?
quantos ouvidos se fecham
ou vozes se calam?
quantos corpos se negam
à terra que há,
mas nada fazem?
quantos se locupletam
na inércia alheia?


silvia chueire

27 novembro 2006

Mário Cesariny - auto retrato aos 53 anos

Estes dias que passam (Cesariny)

Livre, poeta e amado
Não sei se os anos vindouros darão razão a este texto que, de resto, não aspira a glória eterna mas tão só pretende lembrar um poeta que iluminou os últimos sessenta anos.
Cesariny acaba de morrer cumulado de honrarias o que não deixa de ser irónico num surrealista mesmo português. Provavelmente os seus recentes admiradores terão entendido que oitenta e tal anos de vida excessiva mereciam os louros e a admiração da pátria agradecida.
Poder-se-á pensar que vai nisto uma crítica ao poeta (e talvez vá) mas de facto as homenagens tardias não apagam o uivo surrealista (se surrealista o que ainda está para averiguar) que ecoou naqueles tristíssimos anos quarenta.
E isso, esse estrondo, esse escândalo (e o regime de então bem que o compreendeu) influenciou muito mais do que eventualmente se regista por aí. Cesariny acaba por aparecer muito isolado mesmo se o associamos sempre ao restante grupo dos surrealistas (e não grupo surrealista que me parece nunca ter de facto existido a menos que a sua cisão prove isso mesmo).
Pessoalmente, se isso serve para alguma coisa, foi a leitura dos surrealistas, nos primeiros anos de sessenta, que me marcou a fronteira da juventude para a idade adulta. Creio que o mesmo se passou com muitos da minha geração que se tornaram sensíveis à trilogia amor liberdade poesia.
Mais: a lição poética de geração que Cesariny encabeçou mesmo que ele não se reconheça nesse papel de leader teve um forte prolongamento político na medida em que à esquerda, na esquerda e pela esquerda, provou que era possível uma resistência clara e irredutível ao regime autoritário e fascizante da época. O surrealismo, ou aquilo que entre nós se chamou surrealismo, libertou-me (libertou-nos) da obediência ao realismo socialista e ao cânone demasiado estreito que artisticamente propunha. E não deixa de ser curioso que ao contrario do que se esperaria a antologia “surrealismo/abjeccionismo” (1963) englobe alguns nomes do neo-realismo (Joaquim Namorado e Luís Veiga Leitão entre outros).
Morre Cesariny como anteontem morria a Anita O’ Day. O mundo fica um pouco mais pequeno mesmo se outros poetas e outras cantoras entretanto nascem. Morre um mundo que eu conhecia e não me consola o facto de haver outro que nasça certamente. Mesmo que esse mundo que desaparece fosse aquele do “pais no país onde os homens são só até ao joelho”. Cesariny escrevia isto e conseguia o milagre de ser homem da cabeça até aos pés. E isso que parece nada foi, nesses anos de formação, tudo.

26.11.06

25 novembro 2006

Tudo a bombordo 4

A escolha das armas
Quem segue estes textos desde o início sabe que eles só se devem ao desafio de um par de leitores que entenderam cominar-me a explicar os ínvios caminhos da esquerda que percorri e onde me vou mantendo tant bien que mal. Também não é segredo para ninguém (e muito menos para mim) que esta viagem a um passado de mais de quarenta anos não está isenta de erros de apreciação, de falhas de memória e de “re-escrita” da história pessoal. Corro esse risco prevenindo os leitores e prometendo tentar limitá-lo tanto quanto possível.
Dito isto vamos às nossas encomendas. A terceira jornada desta navegação pelo meu passado deixou-me na Universidade em vésperas de 1962. E já que o título geral destas balivérnias o permite, vejo-me um pouco do que um grumete que tenta ganhar o galão (será assim que se diz?) de guarda-marinha. Era isso que me sentia: um jovem cooptado por uma tripulação bem mais experimentada para uma aventura que não teria as Índias como destino mas que seguramente não se ficava por um pais velho e triste. Cumpri portanto sem problemas, receios ou desconfiança as pequenas tarefas do aspirante a militante. Devo dizer, entretanto, que nesse período conheci, conversei e fiquei amigo de alguns dos melhores elementos da minha geração ao mesmo tempo que lhes fiquei devedor de autênticas lições de coragem, de vida, de honra e de camaradagem. Contudo e curiosamente isso não bastou para me convencer a engrossar os quadros universitários do partido comunista. Ou, melhor dizendo, a postular a minha candidatura. Sentia-me bem na posição de “compagnon de route”, e confesso que aprendi isso em mais um romance, um belíssimo romance (“Drôle de Jeu” de Vailland que em Portugal circulou sob o nome de “O jogo da Cabra Cega”), sobre a resistência francesa. Nesta idade já podemos confessar esses exercícios de imitação de que, de resto, não me envergonho e muito menos me arrependo.
Todavia, eu queria chegar ao ano de 62 que, para mim, terá começado ainda em 61 com a campanha eleitoral para a Assembleia Nacional. Pela primeira vez participei (como subalterno muito subalterno) na campanha e, glória absoluta, fiz parte do grupo organizador de uma e única manifestação de rua duramente reprimida pela polícia. Recordo como se fosse hoje, o grupo de rapazes que se reuniu no escritório do dr. Alberto Vilaça (que haveria anos depois de ser o meu primeiro patrono) onde se estabeleceram as linhas mestras da manifestação. No pega e foge que se seguiu apanhei algumas bordoadas o que já não era novidade para mim porque em 58 em Braga já sentira o peso dos cassetetes dos polícias. Os ânimos também já se tinham exaltado por ocasião do 1º convívio inter-academias, em Coimbra por ocasião da Tomada da Bastilha se não estou em erro onde tive oportunidade de ouvir pela primeira vez os grandes tenores da geração de dirigentes de 62. Datam daí as minhas relações com Jorge Sampaio e Eurico de Figueiredo oradores prodigiosos, combativos que meses mais tarde seriam os dirigentes mais conhecidos da greve académica de 62.
A greve de 1962, pela sua amplidão, pelo eco obtido nas três academias, pela simultaneidade com uma grande ofensiva política do PCP que não só conseguiu significativos movimentos fabris durante a primavera como também mobilizou fortemente o campo alentejano. Isto para não falar nas duas gigantescas manifestações de 1 e 8 de Maio em Lisboa. Ao mesmo tempo e fundamentalmente em Coimbra e Lisboa a mobilização estudantil atingia grandes dimensões, superiores mesmo à movimentação estudantil durante a campanha de Delgado em 1958.
Não vou fazer a história da crise de 62 muito embora deva referir que fui dela testemunha e participante do primeiro ao último dia. De facto fiz parte do grupo de estudantes de Coimbra que conseguiram chegar a Lisboa e que por isso mesmo participaram logo dos primeiros enfrentamentos com a polícia de choque. Posteriormente, tive, com Carlos Bravo, alguma responsabilidade na organização de contactos entre Coimbra e Lisboa. Uma aventura absoluta graças aos nossos camaradas de Lisboa, gente sobretudo ligada às secções de propaganda das associações de estudantes. Fiz obviamente parte do grupo que ocupou a Associação Académica de Coimbra quer da primeira quer da segunda vez, já em Maio. Nesta altura a polícia assaltou a AAC e prendeu todos os seus ocupantes. Tive a duvidosa honra de fazer parte do selecto grupo de 44 estudantes que foram detidos pela PIDE e enviados para Caxias. Num mês aprendi mais do que em anos. Não só porque boa parte dos meus companheiros eram militantes experimentados mas também porque nas celas vizinhas das nossas estavam camponeses alentejanos claramente organizados e muitos militares do golpe de Beja. Dos primeiros recebemos uma lição de dignidade que quarenta anos depois ainda me maravilha e me faz respeitar com humildade esses homens que connosco partilharam um punhado de cerejas e um par de modas alentejanas de que recordo todas e cada uma das palavras. Foi em Caxias que percebi totalmente pela voz desassombrada de Carlos Mac-Mahon a raiz dos acontecimentos de Angola.
Entre 60 e 62 a história acelerou brutalmente: o PCP não só se reorganizava espectacularmente, aumentando a sua influência em toda a parte, ungido pelas façanhas das fugas de Peniche e Caxias como ainda por cima Cunhal entrava pela porta grande e tornava-se o secretario geral indiscutido de um partido moralizado e internacionalmente reconhecido. Angola estava a ferro e fogo, na Índia a presença portuguesa desaparecia sem glória e com uns milhares de militares presos clandestinamente enviados para Portugal desonrados por um ditador que enlouquecia só e sem perceber o mundo que o rodeava. A partir de 1962 havia um cadáver em S. Bento apesar de ninguém saber, nem ele próprio. Um milhão de portugueses abandonava o país, enchia os bidonvilles de Paris e de mais um cento de cidades europeias e, com as suas remessas, com as “vacanças”, com o mau gosto das casa tipo maison e com o muito que aprenderam mudavam irremediavelmente uma terra e sobretudo um rapaz que vinha de Buarcos, de África, e que penosamente à força de livros, de gestos exagerados, tentava perceber em que mundo vivia.
A partir de 62, descobri que para se manter um mito, um ditador e os seus cúmplices estavam dispostos a mandar para a morte uns milhares de soldados para já não falar nos muitos mais civis de Goa Damão e Diu. Como essa lição não foi aprendida o sinistro slogan “para Angola e em força” mostrava que no Portugal do Minho a Timor ninguém compreendera os ventos da história nem sequer que isso não era uma graçola de mau gosto. E todavia, as primeiras tropas que desembarcaram em África depressa perceberam que os proclamados “cinco séculos de presença portuguesa” se tinham limitado a meia dúzia de pontos da costa e que a língua imortal de Camões não era falada senão por pequeníssimos grupos de negros e mestiços. Verificaram também, e nós com eles, que a esmagadora maioria dos “indígenas” careciam dos mais elementares direitos, viviam pobremente, estavam sujeitos a uma série de obrigações no que respeitava ao trabalho nos campos que parecia copiada para pior das antigas obrigações dos servos da gleba. E nem sequer era necessário chamar à colação a suprema infâmia do “contrato” que originava transferências de milhares de trabalhadores jovens entre zonas distantes com todos os custos que isso deixava adivinhar. O racismo campeava fora dos grandes centros e mesmo neles era visível a divisão entre brancos e negros. Estes habitavam onde acabava o alcatrão e a água corrente. Também não tinham electricidade ou saneamento básico. E nesta constatação antiga a que se juntava a leitura dos autores anticolonialistas e, sobretudo, dos grandes clássicos da antropologia, da etnologia e da história africanas, começou uma das minhas mais duráveis paixões. Curiosamente ou talvez não isso levou-me a ler autores portugueses especialistas de África, quase todos publicados na revista da antiga Agência Geral do Ultramar. E convenhamos que se é verdade que nenhum atingiu a grandeza de Jorge Dias, há pelo menos um certo número de autores respeitáveis que deixaram um espólio notável que não pode ser desprezado sequer por (falsas) razões políticas.
Estes anos foram igualmente aqueles em que terei levado a cabo a minha formação marxista. De facto, por diferentes razões, por meios diversos pude ler os chamados “grandes clássicos” nomeadamente Marx, Engels e Lenin. Ao mesmo tempo, e graças a pequenas colecções de bolso francesas, pude informar-me ainda que sumariamente sobre Proudhon, Bakunine, Blanc e mais uns quantos pensadores socialistas do século XIX. Daí fui derivando para clássicos tout court desde Voltaire ao Cavaleiro de Oliveira. Tinha tempo, disponibilidade e, sobretudo, curiosidade. E é altura de declarar aqui uma dívida a certas colecções francesas de livros com formato de bolso: “10-18”, “Garnier-Flamarion”, “que sais-je” ou “libertés” da Pauvert.
Tendo em linha de conta que a maior parte dos meus leitores não viveu os anos sessenta devo acrescentar que para uma pessoa curiosa havia ainda outra maneira de aprender. Efectivamente, e apesar da censura, existia uma série de revistas que conseguiam publicar-se, que viviam apenas dos seus leitores e assinantes e que mensalmente forneciam uma larga cópia de artigos de opinião, recensões críticas, informação cultural do estrangeiro que permitia ao leitor atento perceber o que se passava. Três delas acompanharam-me até ao seu desaparecimento (Seara Nova e O Tempo e o Modo) ou até ao fim dos anos setenta (Vértice). Nesta última fiz a minha aprendizagem de crítica literária e ao mesmo tempo de vítima da censura. Creio não andar longe da verdade se disser que terá escapado à censura pouco mais de 10% da minha produção. Duvido mesmo que mesmo nos textos publicados não tenha havido cortes parciais. E eu, apesar de tudo, tinha um certo cuidado mas pelos vistos não era o suficiente. Não se perdeu nada de grave, convém dizer.
Em resumo: nos primeiros anos da faculdade verifiquei que a actividade associativa (na Associação Académica e no CITAC), a intervenção cultural (Cineclube, Vértice, etc...) e a permanente disponibilidade política para, como “compagnon de route” integrar uma ampla frente oposicionista, me pareciam suficientes para me sentir de esquerda e actuante. O passo decisivo que seria militar no PC não oferecia mais “acção” antes tolheria ou dificultaria a aventura intelectual que eu prosseguia. E depois, mas isso fica para a próxima, acabava de descobrir o surrealismo.

23 novembro 2006

Ex-juiz do T. Constitucional apela à desobediência civil

PARA QUE SERVEM OS IMPOSTOS?

A carga fiscal dos impostos, pesando todos os dias na bolsa dos cidadãos é um ónus indesmentível e irreversível no presente futuro, constituindo um dever universal e geral. Mas os cidadãos pagam os seus impostos pelo menos, aqueles que não fogem ao pagamento, através da evasão e da fraude fiscais, para que o Estado tenha receitas e cumpra as suas obrigações. Desde logo, os compromissos com os cidadãos, dando satisfação às necessidades colectivas da comunidade, a nível da saúde, educação, segurança, habitação social e meios de circulação (sem esquecer o acompanhamento dos deficientes e das pessoas idosas). São os compromissos de um Estado social, correspondendo às incumbências e tarefas que lhe estão constitucionalmente assinaladas.
Porém, o Estado acumula actualmente – e quer sempre mais – a arrecadação dos impostos com a exigência de taxas, que são preços dos serviços que presta, sejam taxas moderadoras ou equivalentes no SNS, sejam propinas na educação, sejam portagens nas auto-estradas.
Se um cidadão, por ano, fizesse as contas a todo esse universo de receitas estaduais, ficaria admirado com a percentagem, 40%, 50% ou 60%, reflectida na totalidade da remuneração auferida anualmente.Então, para que servem os impostos, se, na prática, todos os serviços estaduais, ou muito deles, cobram um preço aos cidadãos? Para onde o Estado destina as receitas desses impostos? São perguntas que o cidadão faz, mas não obtém uma resposta satisfatória do Estado. Se a r4esposta viesse e fosse lógica e aceitável, o cidadão certamente aceitaria a carga fiscal e evitar-se-ia a tentação de fugir aos impostos.
Assim, resta só aos cidadãos um direito de resistência, constitucionalmente consagrado no artigo 21º, pelo menos, no que toca àquelas taxas que são exigidas após a prestação dos serviços, consistindo esse direito no não pagamento dessas taxas. Os cidadãos obtêm os serviços, cobram-lhes as taxas e simplesmente ele não as paga. Depois, se verá…

Publicado por Guilherme Fonseca aqui

farmácia de serviço especial/pintura


Na galeria degrau arte (Rª Afonso Lopes Vieira,186 -isto é no Foco e no Porto) está patente uma exposição de desenhos de Jorge Pinheiro nome grande da nossa pintura e um dos elementos do antigo grupo "os quatro vintes". De boa vontade mostraria aqui um dos desenhos mas ainda me não chegou à mão. O que, sim, já cá canta é o excelente texto da Professora Doutora Fátima Pombo que amavelmente me permitiu reproduzir. com dupla alegria o faço. À uma Fátima Pombo escreve para ser entendida o que é prodigioso num meio em que a cifra parece ser a regra. Depois porque Jorge Pinheiro é um dos mais singulares e honrados percursos artísticos desta terra devotada aos filisteus. Finalmente porque a pequena galeria onde a exposição se mostra tem, também ela, uma prática expositiva nos antípodas do habitual. Ele há invejosos que murmuram entre dentes que "aquela gente tem a mania da cultura". É verdade. Com a publicação do texto a farmácia de serviço paga esse enorme contributo e homenageia de uma penada Marta Cristina de Araujo, poetisa e directora da galeria. Podem ir lá visitar a exposição porque vale a pena e ninguém vos robda à espera de um sinal para vos propor in actu uma compra. Primeiro é para ver. Depois, querendo, els também vendem.
Já me esquecia: a exposição está patente todas as tarde de segunda a sexta. aproveitem!


Desenhos

Para Jorge Pinheiro o desenho é um instrumento de conhecimento do mundo; um conhecimento finito, lento, continuado em cada esboço, em cada fragmento. O desenho expressa a minúcia de um pensador sobre a consciência da metamorfose do corpo e da metamorfose da alma. A velhice é um dos seus temas. Algumas das figuras estão estendidas no leito de morte, parecendo esperar, pacientes, sem desafiar o destino. A delicadeza do traço na mancha do papel deixa vastos momentos de vazio, que ficam assim, dados à contemplação, entre a figura encolhida, à espera da sua vez, e o branco onde tudo poderia começar. Jorge Pinheiro desenha mãos, desenha rostos, desenha corpos, desenha os panos e os véus que os cobrem. Eu penso que o artista quer testemunhar o tempo e o seu poder de orquestrar o esvaimento. As figuras prostradas já estão docilmente dentro da noite serena. O poeta deseja a eternidade da luz e do incessante pulsar do frenesim do dia. Do not go gentle into that good night,/ Old age should burn and rave at close of day;/ Rage, rage against the dying of the light. [Dylan Thomas]. (Não entres docilmente nessa noite serena,/ porque a velhice deveria arder e delirar no termo do dia;/odeia, odeia a luz que começa a morrer). [trad. de Fernando Guimarães]. Eu diria que Jorge Pinheiro sabe que a luz se apaga e que não se pode pedir emprestada a luz das estrelas; mas também sabe que essa luz pode renovar-se. Ao lado de mãos gastas, aparecem mãos lisas, de crianças, gerações entrelaçadas ao ritmo da luz e da escuridão, da rapidez e da lentidão, do antes e do depois, do fim e da esperança.
Jorge Pinheiro, na mesma folha, ensaia um inventário possível da tal consciência da metamorfose, propondo a contemplação do sagrado do pormenor discreto. A imensidão do particular na existência humana e no mundo é tão irrepetível que nunca está completa. Os desenhos são exaustivas notas de pensamento sobre o sangue e os nervos da vida. É nesse exercício do desconhecido que não se pode tocar um trilo duas vezes da mesma maneira, nem escrever a mesma frase duas vezes da mesma maneira, nem desenhar a mesma coisa duas vezes da mesma maneira. Na persistência de continuar a tentar o que é insondável no tempo de uma existência, o artista propõe a contemplação do silêncio que emana dos traços. Lembro-me de Vermeer que para retratar o silêncio, pinta instrumentos musicais em cenários domésticos, pertencentes a figuras femininas plácidas e introspectivas.
A metáfora do pão pode ser, talvez, a metáfora da continuação do ciclo da natureza, indiferente ao silêncio, à metamorfose, à velhice, à morte… como se o que contasse fosse sempre o futuro, o sentido que as coisas têm amanhã, o amor que se pode encontrar ainda. O pão é a prova da simplicidade nessa crença e a expressão do seu significado concreto. O pão está do lado dos que não querem renunciar à vida, dos que não querem enfrentar o Inverno como a derradeira estação da alma, sabendo que é a derradeira estação do corpo.
Jorge Pinheiro não abandona as interrogações fundamentais da existência. Tem, certamente, não longe de si, os mandamentos do Oráculo de Delfos, aqueles que confluem para o conhecimento, a começar pelo de si mesmo…, sabendo que nesse conhecimento a margem de erro, de desilusão, de engano é muito grande.
O enigma dos mandamentos persiste, anda de roda do artista e ele dedica-lhe o seu tempo e o seu génio. Observemos a série de desenhos das freiras. Fiquei muito tempo a olhar para esses desenhos. São intrigantes, insólitos, misteriosos. São inspiradores de uma reflexão metafísica, mas também de uma narrativa literária. A série remete-nos para a cultura judaico-cristã, mas o universo iconográfico é feminino e especificamente representado por freiras, eventualmente de clausura. Estão muitas emoções e muitos sentimentos concentrados nesses desenhos. O olhar do artista remete-se para a ambiguidade: relata cenas de uma via da paixão de inesperadas personagens, sem mostrar bem qual o investimento de ironia, ou de misericórdia que coloca nesse relato. Jorge Pinheiro apresenta a metamorfose da alma no registo do esquecimento do corpo, escondido no hábito religioso. É impossível não pensar nas confissões poéticas e nas experiências místicas de Santa Teresa d’Ávila, participadas ao mundo como o encontro íntimo do belo e da consolação.
Jorge Pinheiro que sabe desenhar a sensação de tristeza depois da canção terminar, parece também sugerir que a tristeza não é eterna. Esse é possivelmente o canto que relança os dias.


Fátima Pombo
Porto, Outono de 2006

TEMAS OPORTUNOS

Amanhã, a partir das 11h e sábado de manhã decorrem, no Auditório da Faculdade de Direito de Lisboa, as conferências organizadas pelo Conselho Superior da Magistratura, sobre oportuníssimos temas (*) e com oradores de fazer augurar proveito a quem assistir/participar. foi solicitada a inscrição mas o acesso, havendo lugares no auditório, é livre.

(*) "
Funcionamento do sistema judicial e desenvolvimento económico”

“Sistema de recrutamento e formação de Magistrados

– balanço da experiência portuguesa e modelos alternativos"

ver o programa
aqui.

22 novembro 2006

O tempo esse grande simplificador 4

De vez em quando a honra de um gesto sai-nos ao caminho
Reprodução de três cartas trocadas entre MBC e mcr

3. Marcelo,
Muito obrigado pelas tuas palavras e pela tua amizade. O texto é público e poderás fazer dele o que bem entenderes.
Um abraço do
MBC

2. Mário
Li com a atenção devida a carta que quiseste mostrar-me. Devo dizer que não me surpreendeu. Quem te conhece há mais de quarenta anos e tem testemunhado as tuas tomadas de posição desde essa altura lê esta tua carta com a confortante certeza que nem tudo está mal neste triste reino da Dinamarca.
E não fora dar-se o caso de serem cada vez mais raras as atitudes nobres nem sequer escreveria mais do que um sóbrio "recebi, um abraço de solidariedade."
Mas os tempos não estão assim tão fáceis pelo que o melhor é mesmo dizer alto e claro, muito claro, que ao ler o teu breve texto me assaltou uma sensação de regozijo (por ser teu amigo há tantos anos) e de renovada admiração e de orgulho.
Ia acrescentar "esperança" mas não me parece que o forno esteja assim para tantos bolos.
Caso me permitas gostaria de a publicar no blog ou pelo menos de ar eenviar a um par de amigos. Tu mandas.
Recebe, um forte abraço do
Marcelo

1 Exmo. Sr. Eng. POÇAS MARTINS
Comissão de Estruturação
CMPEA – Empresa de Águas do Município do Porto, EM
P.M.P.

M/referência: 3382/0058
V/referência: Provedor do Cliente e Conselho Geral da CMPEA
Ex.mo Senhor:
Na impossibilidade do desejado contacto pessoal em razão de diligências judiciais inadiáveis e não querendo deixar de cumprir o prazo acordado para a minha resposta, venho, por este meio, informar V.Exa. do seguinte:
a) agradeço, mais uma vez, o convite da Câmara Municipal do Porto para integrar o futuro Conselho Geral da CMPEA como seu Presidente;
b) ponderada a situação em todos os seus aspectos cheguei, porém, à conclusão de que não poderei, em coerência, aceitar tal convite pelas seguintes razões:
1. Ocupei durante 4 anos a função de Provedor do Cliente dos SMAS dentro de um espírito de serviço público que correspondia à minha filosofia pessoal de actuação profissional e cívica numa sociedade democrática e numa administração pública em fase de necessária desburocratização e reforma. Fui, para tal, convidado pelo Exmo. Conselho de Administração presidido pelo Eng. Rui Sá. Ao longo deste período - e apesar de algumas dúvidas que, por vezes, me assaltaram – acabei por concluir que a existência de uma Provedoria do Cliente dos SMAS/Porto constituiu uma solução inovadora, corajosa e com comprovados resultados positivos tanto para os mais de 152.000 clientes como para a própria empresa. Tal solução, aliás, inscreve-se num crescente movimento nacional e internacional de defesa do consumidor (especialmente em sede de contratos de massa) e de modernização constante da administração pública. Com efeito, cada vez mais surgem novas Provedorias quer dentro do nosso sector público central ou local quer junto das empresas privadas com gestão mais avançada e socialmente competitiva.
2. A decisão camarária que teve a amabilidade de me comunicar no sentido de a Provedoria deixar de existir na actual CMPEA não acolhe, assim, a minha concordância e não se revela consonante com a experiência concreta já obtida.
3. Por outro lado, analisados os estatutos da CMPEA e, em particular, os arts.11 e 12 referentes ao seu Conselho Geral, verifiquei que a solução agora adoptada – criação de um Conselho Geral - não corresponde à minha maneira de pensar e agir nem se adequa às razões que me levaram a limitar a minha normal actividade de advogado abraçando com entusiasmo uma função de Provedor do Cliente dos SMAS.
4. Nesta conformidade, não vejo que, pela minha parte, seja coerente poder aceitar participar de um tipo de órgão que a prática generalizada noutras instituições sempre demonstrou ser meramente formal, não independente e desprovida de qualquer utilidade prática. Igualmente me parece impossível participar (como se houvesse um qualquer tipo de concordância ou sentido de continuidade) na extinção da Provedoria do Cliente dos SMAS - na sua dupla vertente de defesa dos interesses dos clientes e apoio na modernização dos procedimentos – e sua aparente substituição por um Conselho Geral que prevejo inócuo.
b) peço, pois, a V.Exa. a amabilidade de informar quem de direito desta minha posição face ao convite efectuado.
c) termina deste modo a minha longa colaboração com os SMAS (iniciada em 1982) restando-me, apenas, preparar o encerramento da actividade do Gabinete e apresentar ao Exmo. Conselho de Administração o relatório final estatutariamente exigido.
d) o meu mandato termina em 30 do corrente mês e, atenta a anunciada extinção da função, não se mostra aplicável o disposto no art.6-2 dos Estatutos do Provedor do Cliente, pelo que nessa mesma data cessarão os meus compromissos com os SMAS/CMPEA.


Os meus cumprimentos.
Ao seu dispor,
Mário Brochado Coelho

Ainda que sejam inúteis quaisquer comentários convém esclarecer que Mário Brochado Coelho é advogado no Porto. Frequentou a Universidade de Coimbra quase até ao final do 5º ano, altura em que foi expulso da universidade devido ao seu forte envolvimento na crise académica de 1962. Licenciado por Lisboa advogou sempre no Porto e até 1974 interveio em numerosos processos políticos e sindicais.

18 novembro 2006

Diário Político 32

Por quem alguns sinos dobram

Não é dia de grandes alegrias este que nos traz duas mortes tão longínquas e tão próximas: Cardia e Puskas.
Comecemos pelo último, pelo húngaro que praticamente marcou um golo de cada vez que jogou. Não é bem assim mas quase: em 700 jogos marcou 682 golos! É obra.
Eu não sou dos futebóis mas apesar de tudo sei reconhecer um jogador brilhante e Puskas, como Stanley Mathews, Pelé, Maradona ou Travassos (o do Sporting) deixaram um rasto glorioso. De golos, de generosidade, de entrega. E junte-se-lhes o Eusébio, já agora, esse milagreiro de um jogo inesquecível contra a Coreia, para só falar de um acontecimento desportivo.
Mas Puskas, desculpem lá os outros, era um portento. Fintava no espaço de um lenço de assoar, era gordinho e parecia desajeitado. Puskas era uma czarda de Liszt num baile de bombeiros. As pessoas paravam, embasbacadas, para o ver. Morreu ontem com quase oitenta anos. Esperemos que os seus compatriotas e a malta do Real Madrid lhe prestem a homenagem que merece.
E o Cardia? Pois o Cardia é rapaz do meu tempo, como é costume dizer-se. Encontrámo-nos em Coimbra, em 63, vinha ele expulso de Lisboa com mais um belo grupo (Eurico de Figueiredo, Valentim Alexandre, António Correia de Campos e o Nuno Brederode) de perigosos agitadores. Em troca a universidade de Coimbra tinha exportado outros tantos para Lisboa pelos mesmos motivos.
O Cardia tinha um ar frágil e desprotegido mas era um tipo rijo, corajoso e excelente conversador. Varámos algumas noites, no “Mandarim”, ali à Praça da República em conversas de bica aberta, sobre tudo e sobre nada. Depois ele formou-se e só dava notícias via “Seara Nova”. De vez em quando sabíamos que tinha sido preso pela PIDE. E sabíamos igualmente que ele fazia parte dos “que não falavam”. Só quem viveu esses tempos de susto e resistência é que sabe o que isso significava, a segurança que o Mário transmitia e o respeito que os outros lhe tinham. Era também um stalinista ao que se dizia. E um guardião da fé contra ventos e marés.
Mais tarde, já nos anos setenta aparece subitamente no PS. E depois do 25 de Abril terá com António Barreto a honra de ver o nome pintado por toda a parte com pedidos de demissão e ataques ferozes. O que não quer dizer que ambos não tivessem razão, mas isso agora será chover no molhado. Depois, desapareceu de cena. Foi vagamente candidato a candidato à presidência da república e a partir daí foi o black-out total. Os jornais e a televisão anunciam-lhe a morte. Aos 65 anos! Com ele, e ao mesmo tempo, desaparece toda uma geração de dirigentes políticos do PS. Varridos pela história e pelos congressos unanimistas do partido socialista. Como se a morte de Cardia fosse a metáfora da morte de uma certa ideia de socialismo português.
A terceira morte do dia é de uma jovem modelo brasileira. Alguém (quem?) tê-la-á convencido dos benefícios da extrema magreza. Anorexia, dizem os jornais. Num mundo onde milhares de pessoas morrem de fome cada dia, esta morte no privilegiado mundo das lantejoulas, das fotografias, dos contratos milionários é uma abominação. Morrer por um eco distorcido da elegância fabricado pelos grandes da moda é um crime. Ocultar a morte diária de multidões atrás desta morte auto-provocada ou induzida por obscuros interesses é pelo menos revoltante.
E mais do que isso: esta vai ser a morte das televisões, das revistas, da piedade cor de rosa. Esta é a morte que tem o perfume do escândalo, a rentável, a exemplar.
O mundo passa bem sem um jogador mágico fugido aos tanques de Budapeste ou sem um intelectual rigoroso e marcado por todos os embustes do século. Os sinos, os que se ouvirão, têm outras mortes por que dobrar.

17 novembro 2006

Au Bonheur des Dames 39

Variações sobre a culpa

Descansem as leitoras e demais peonagem que, apesar dum meritório, ainda que curto, período de dedicação às ciências jurídicas, não venho aqui definir os limites da culpa mas apenas dedicar duas linhas por via de uma secretariante criatura (ou sub-secretariante, nem sei) que terá dito que a culpa do clamoroso deficit da EDP e das possíveis, eventuais futuras concorrentes, recai nos cidadãos contribuintes. Parece durante uns tempos a lusitana gente pagou menos do que devia pelo fornecimento de energia eléctrica.
Um estrangeiro, ao ouvir uma destas, caída com a necessária ênfase que soi ser a das governamentais figurinhas, poderia pensar que em Portugal subsistiriam restos de um abrilismo temível, revolucionário, que teria conseguido vergar a empresa e governo de tal modo e com tão inaudita violência que ambos, governo e empresa, para salvarem o coiro, teriam aceitado ser esbulhados de uma quantia gorda sob ameaças inomináveis que iriam desde o corte dos postos eléctricos até atentados contra a vida dos pais e mães da pátria.
Portanto, a secretariante ou subsecretariante criatura, uma vez, passado o perigo teria resolvido admoestar os súbditos e, ao mesmo tempo, avisá-los de um pequeno aumento no preço da energia, que eles durante anos se tinham recusado a pagar. Ai vocês cantaram? Pois agora vão dançar.
Todavia, as coisas não se passaram assim: as turbamultas portuguesas pagaram e não bufaram tudo o que lhes foi pedido em matéria de electricidade. Se alguém entendeu não pagar, rapidamente lhe cortaram o pio e a luz. Até no Teatro Rivoli a luz foi cortada para escarmento dos seus ocupantes.
A EDP e os organismos que a tutelam, directa ou indirectamente, definiu os preços dos seus serviços, todos os anos aumentados segundo critérios que noventa e nove virgula noventa e nove por cento dos portugueses desconhecem. A peonagem, nestas coisas, não tuge nem muge: paga, roga pragas, diz mal da sua vida mas paga. Porque sabe que se não pagar vem aí "os da electricidade" e cortam.
No entanto, dado que os aumentos da EDP não cobriam os custos da mesma, é o que eles dizem, há um buraco do tamanho do buraco do ozono mas mais feio, mais próximo e mais ameaçador. E foi por isso que a secretariante criatura (ou sub, tanto faz) veio agora dizer que se tinha acabado o recreio e que havia que pagar o deficit, tanto mais que se espera que venham os privados fornecer electricidade e que esses não se podem condoer com a aflição malévola dos actuais pagantes.
E pouca treta porquanto a culpa dos aumentos era, como não podia deixar de ser dos pagantes, isto é de nós todos. A culpa, reparem bem.
Não podia, uma vez sem exemplo, estar mais de acordo com a robusta e inteligente tese da secretariante (ou qualquer coisa do mesmo jaez) criatura. A culpa é nossa. Não é do capital, da imperícia dos estrategos governamentais, do populismo de que agora, e sempre, se têm revestido os pais e mães da pátria imortal, nobre povo e nação valente. Também não é de quem na EDP faz contas, gere aquilo, e manda as facturas para nossa casa. A culpa é nossa. E não adianta dizer que desconhecíamos estar a pagar menos do que devíamos. A ignorância desta lei não aproveita a ninguém.
Isto fez-me lembrar os índios das pradarias, esses selvagens que não faziam mais senão caçar bisontes, fumar o cachimbo da paz, viver em tipis e passar a vida a atacar caravanas inocentes de pioneiros, ululando como possessos. Agora já há não índios, claro, mas a culpa disso não é das tropas americanas, do 7º de Cavalaria, do John Waine ou do general Custer. Também não é de Manitu, por razões bem simples: Manitu não era Deus, logo não podia proteger aqueles bandos de facínoras que infestavam o Oeste, e destruíam a natureza, sobretudo os pássaros para lhes roubar as penas que punham na cabeça. A culpa foi mesmo deles: não tinham nada que estar ali, feitos parvos, a caçar o bisonte e a pescar os salmões. O agora chamado extermínio dos índios foi culpa deles e só deles. Eram pagãos, tinham uma cor esquisita, falavam uma língua de trapos e andavam semi-nus. Não cultivavam a terra nem a deixavam cultivar. Eram inúteis e a mão de Deus armou a dos homens que os puniram por um tão largo rol de culpas.
Convenhamos que em comparação estamos mais bem servidos. A verdade é que não somos pagãos, nem andamos por aí a matar bisontes.
Objectar-me-ão que os iraquianos, que ao que se sabe morrem por atacado, não caçaram nunca bisontes, andam vestidos (de djelabah é verdade, mas vestidos) calçados e adoram um deus um tanto ou quanto estranho, mas um deus, apesar de tudo. Dado que a culpa deles é menor, morrem mais devagar. Ao todo ainda não chegaram ao milhão de vítimas, o que prova o bem fundado da tese que venho defendendo.
O Dr. Santana Lopes escreveu um livro o que prova à saciedade que é um verdadeiro intelectual e não o punching ball dos críticos culturais que, durante anos, o atacaram por causa de uns violinos de Chopin. O dr. Lopes foi uma espécie de antepassado cultural do dr. Rio e como ele presidiu a um par de câmaras municipais, tarefa que só os invejosos atacam. De facto combateu a desertificação plantando um par de palmeiras na praia da Figueira da Foz e brilhou em Lisboa quando mandou fazer um buraco chamado túnel maior ainda que o buraco financeiro da capital. Também presidiu a um conselho de ministros, curto mas cheio de actividade onde terá ganho as esporas de menino guerreiro. Contra este formidável pai da pátria conjuraram-se todos os malfeitores políticos de que há memória e mesmo alguns que estavam esquecidos. Cavaco Silva e Sampaio encontravam-se já noite cerrada na “tendinha do rossio” e entre duas “amêndoas amargas” sistematicamente pagas pelo primeiro conspiravam fartamente enquanto o dr Portas e o eng. Sócrates faziam o mesmo mas á volta de uma pratada de tripas à portuguesa na “Ideal das avenidas”. No resto do país é o que se sabe: o dr. Simas Santos e o escultor Sousa Pereira rosnavam ameaças tremendas enquanto tomavam chá com torradas na explanada do bar “venha cá” ao foco, que eu bem os vi. Do Marco vinha expressamente o senhor JCP com um primo que tem em Amarante para aliciarem um tal “carteiro” para a cruzada anti-Lopes. E não esqueçamos um trio de senhoras de que nem ouso pronunciar o nome que, num blog detestável que não nomearei, juraram eliminar o dr. Santana pelo expediente horrendo de lhe enviarem pasteis de nata do dia anterior com o fito absoluto de o envenenarem ou, pelo menos, de o tornarem de tal modo obeso que as mulheres portuguesas o começariam a detestar.
Tudo isto, e muito mais, se passou nas caves e sub-caves da república para abater o recente e laureado escritor que anda por aí. O nefando intuito foi conseguido e ainda hoje, num grito de alma comovente, o dr. Lopes pergunta ao mundo rendido ao seu talento oratório, porque é que este gigantesco exército de criaturas maldosas não é votado às gemónias. E a resposta cínica e atroz tem sido sempre a mesma: não temos culpa.
Nota: este texto estava a meio no cestinho virtual dos “projectos” e só vê a duvidosa luz do dia graças ao depoimento televisivo do dr. Santana.
E vai dedicado aos doutores José Barata e João Vasconcelos Costa que tentaram defender o dr. Lopes com o famoso argumento “ele cai sozinho sem ajuda!”. Era verdade mas o dr. Sampaio é consabidamente um invejoso e quis ficar na história.

16 novembro 2006

lido por aí...


"Zezinha Nogueira Pinto deixou de ser uma pessoa leal e de confiança para o presidente da Câmara de Lisboa, Carmona Rodrigues, que decidiu retirar-lhe os pelouros. A militante do CDS-PP, que em recente entrevista ao SOL se autodefiniu com "uma boa meia-dose", parece ter perdido o seu braço-de-ferro com Paula Teixeira da Cruz que, provavelmente, é uma boa dose inteira. Acabou a coligação."


Cortesia do verdadeiro Anónimo


(...) "Sabem por que escrevo isto? Não, é por causa do SIRESP, nem do súbito mediatismo dos pareceres orais de Gomes Dias (sobre isso escrevi oportunamente o que achava que havia para dizer, nomeadamente aqui e aqui, e não consta que os dados se tenham alterado), é por causa do lançamento do livro de memórias do Dr. Lopes. (...)
Alguém disse um dia que a história se repetia sempre, ora farsa ora tragédia. Dito isto, e depois de se ter falado no Cícero, talvez não fosse má ideia ao actual inquilino do Palácio da Palmela reler 'A Campanha da Gália' de um tal de Júlio César (há boas traduções em português, e tudo). Relê-la, e meditar na morte do autor, às mãos de Brutus. Apesar do mau começo, pode ser que ainda vá a tempo. Haja fé. Às vezes é tudo o que resta."

a ler na Loja Grande

15 novembro 2006

IGV: Tribunal Constitucional aprova pergunta do referendo

Cavaco Silva tem 20 dias para decidir se convoca ou não o referendo, que terá de ser agendado para entre 40 e 180 dias depois.


O Tribunal Constitucional aprovou esta tarde a pergunta sobre o referendo sobre a Interrupção Voluntária da Gravidez (IGV), aprovada em Outubro no Parlamento. Sete juízes votaram a favor e seis contra, a mesma distribuição de votos verificada em 1998, ano da primeira consulta popular sobre a IGV.

O acórdão será enviado sexta-feira ao Presidente da Repúlica e publicado em Diário da República na segunda-feira. Cavaco Silva tem 20 dias para decidir se convoca ou não a consulta popular, que terá de ser agendada para entre 40 e 180 dias depois.

"Concorda com a despenalização da interrupção voluntária da gravidez, se realizada, por opção da mulher, nas primeiras dez semanas, em estabelecimento de saúde legalmente autorizado?" é a pergunta prevista na proposta socialista, a mesma que constava no referendo de 1998.

Au Bonheur des Dames 38

De favas, de amigos e da Coimbra de lavados ares

Eu, de vez em quando, irrito-me com a Coimbra actual que a ganância construtora tem desfeado irremediavelmente. Convenhamos que não são só os construtores. Ele há muito chico esperto camarário a ajudar nessa missa negra. Há momentos porém em que me arrependo, paro com as imprecações e pergunto aos meus botões se isto não será caturrice de velhadas, antigo estudante que não se revê no mundo novo e diferente que obrigatoriamente a cidade oferece. Educados na velha escola e temendo que eu os arranque num ataque de fúria, os botõezinhos lá me vão acalmando como podem. Que sim, a cidade está feia. Que não, que não estou velho, só um pouco usado. Que, de todo o modo, há mais gente e precisa de casas para viver. Que a morte de um par de cafés na velha baixa (e logo aqueles dois: o Arcádia e A Brasileira! ) foi serena, que já não tinham fregueses, que isto e que aquilo. Aceito entre duas rosnadelas, pouco convencido e lá me volta um pouco de cor às faces ao lembrar que ainda por lá vivem alguns amigos, antigos, antiquíssimos com quem basta um segundo para reatar conversas de há trinta, quarenta anos. Como se fosse hoje!
E foi mesmo isso que sucedeu há bem pouco tempo quando o CITAC e o seu primeiro cinquentenário reuniu uma alegre companha (eu escrevi companha, palavra honrada e que o Houaiss regista. Grupo de pessoas que viajam juntas, equipagem de um barco de pesca. Palavra, esta vai para o João Vasconcelos Costa, muito de Buarcos, terra marinheira e pescadora, meu berço adoptivo) de senhoras e cavalheiros da nossa melhor sociedade que na sua estouvada juventude se deram ao luxo de ser jograis, teatreiros, o que se queira chamar desde que se passe em cima de cinco tábuas, à luz dum projector e diante da respiração contida do público.
E é aqui que entra em funções o Zé Oliveira Barata, perdão o senhor professor doutor, por extenso, J. O. B., companheiro de tertúlias infindáveis, fino espírito que todavia apresenta dois defeitos de fabrico. À uma é do Sporting (coitado! É dos que andam pelo menos uma década à espreita de um título) e depois não come peixe. Beirão da Beira Baixa e interior parece que tem uma teoria: peixe não puxa carroça!
Fora isto, que é bastante, anda agora a escrever uma História do Teatro Universitário em Portugal. E à pala dessa louvável actividade temo-nos encontrado várias vezes. E descobrimos mesmo que além desse interesse comum pelo teatro somos ambos utilizadores de computadores apple. Utilizadores exclusivos! Com isto teremos já o céu meio ganho.
E é por aí que o gato vai às filhoses: o Zé é tu cá tu lá com uma malta óptima da apple em Coimbra, prontos a ensinar a um cafageste informático como eu todos os truques necessários à boa gestão de um computador aristocrático que tem o seu quê de diferente. E foi assim que entendi jornadear pela Coimbra dos lavados ares (sicut Eça) para equipar o meu material das mais modernas aquisições da ciência informática. Não vou maçar as escassas leitoras com o que disse a um espantado e educado técnico, que pelos vistos nunca vira um ignorante do meu jaez. O professor doutor sentado numa cadeira apreciava o espectáculo da minha ignorância informática com a mesma bonomia com que assiste ao contínuo espalhanço dos seus alunos nos apuros de um exame. Sorria embevecido e devia calcular a nota do chumbo que me ferraria se me apanhasse no seu rebanho.
E terá sido por isso, por esse momento de intenso gozo sádico, que depois me levou a casa para me dar de comer. E aqui entram as favas. Ou melhor primeiro entra um gato, provavelmente o verdadeiro dono da casa, que depois de me cheirar convenientemente me permitiu uma pequena carícia. Fui seguidamente apresentado a uma senhora, de seu nome Fernanda que é quem naquela casa se encarrega do chope-chope e demais tarefas domésticas.
A fada do lar, fada sim, mas do lar pouco, chegaria depois uivando de fome, como se fosse ela e não nós quem tivesse pacientemente esperado pela dona da casa para ver se se comia coisa de jeito. Agora sim, entram as favas.
Eu, ex-aluno (melhor diria: vítima) de execrandos colégios internos onde penei todos os pecados de, pelo menos, três vidas, ganhei uma ojeriza tremenda a vários alimentos que nesses locais era habito dar à rapaziada. E nessa lista as favas estavam, até hoje, num dos primeiros cinco lugares. Todavia, convém esclarecer que eu, perguntado sobre favas, disse corajosamente ao Zé que comia tudo. Como estou a tentar perder uns quilos consolei-me pensando que comeria pouquinho arguindo da imperiosa necessidade de perder peso, verdade visível para quem me conhece. Portanto, chegadas que foram as favas, servi-me cerimoniosamente e ofereci o sacrifício em pagamento de uns pecados não especificados (e que calarei convenientemente). Mas, a amizade, a Coimbra menina e moça, as mãos de fada da referida senhora de nome Fernanda, deram cabo desta minha boa intenção. Aquilo era óptimo. Estava de comer e chorar por mais. Por onde andei eu, todos estes anos a fugir das favas com seu ovo, seus enchidos, sua carninha, tudo rescendente, saboroso e bom? E agora? Quem me restitui as favas de trinta anos de abandono? Como é possível que um leitor exagerado de Eça tenha posto em causa, duvidado, abjurado mesmo, do Mestre que celebrou um arroz de favas comido de parceria com o Zé Fernandes?
O resto da jornada não precisa de ser descrito. Quando três amigos se encontram, quando a ternura está de quarto (como no bridge) que história se pode contar? A felicidade não tem história, é como o bom cheiro de alfazema na roupa posta de fresco na cama. Dorme-se melhor, com mais inocência e um bom sonho de permeio.
Vai esta descosida prosa para a Manuela Cruzeiro, fada do dito cujo lar e mãe do gato Simba e de mais três criaturas humanas, demasiado humanas, agradecendo almoço, livro e companhia. De um admirador literário e não só.

O leitor (im)penitente 9

O outono está emperrado
Esta série destinava-se a falar de livros mas hoje vem mais com artigos de jornal por duas razões: os livros bons, aquilo que se chama bons de verdade andam escassos pelas lusitanas paragens. Nunca se publicou tanto e tão “mainstream”, ou seja, a malta abre, lê um bocado e, se não está mesmo disposta a um sacrifício tipo quaresmal, larga e manda para o lote. A safra está fraca e, pelas notícias que nos chegam de fora, a crise é geral.
Comecemos pois pela jornalada. Pacheco Pereira, bloguista convicto, vem hoje ao encontro de opiniões aqui já explanadas (alguma vez havíamos de ser os primeiros). Repegando no desastrado ataque ao fenómeno blogue, P.P. explica a quem não sabe, não quer saber ou simplesmente finge que não sabe, que isto de blogues dá para tudo desde o péssimo ao bom e aproveita para brindar os leitores com uma enorme lista de produtos de imprensa que nos fazem pensar que o papel anda barato. Quem me lê sabe que não morro de amores por Pereira (ainda que lhe admire o Cunhal que vem publicando) mas de vez em quando ele acerta.
O senhor director do Público comete hoje um artigo que merecia o Nobel da inocência de espírito. O pobre coitado escreve sobre o cataclismo eleitoral americano e, como de costume, mostra-se capaz de tudo. Não foram os democratas que ganharam, diz ele, mas apenas os republicanos que perderam... Nesta linha sempre inventiva consegue não referir o Iraque entre as causas da derrota republicana (já que ninguém ganhou...) e engendra uma retorcida teoria sobre o poder e os vícios daí decorrentes digna de um membro da Cruzada neo-episcopal. A última descoberta de Fernandes é esta: as bases dos dois partidos eram radicais. Ora, se é verdade que os republicanos se apoiaram nalguns inacreditáveis dinossáurios da política e sobretudo da religião (protestante) os democratas há muito que se recentraram e quanto a radicalismo já nem o radical chic nova iorquino lhes resta. Leiam, recortem e guardem para daqui a seis meses ou dois anos poderem comparar.
E já que se falou da America convém propor aos interessados uma vista de olhos por jornais estrangeiros já que a imprensa nacional se tem mostrado incapaz de noticiar bem o fenómeno ocorrido. É que a ler as pobres notícias a que parece termos direito quase nem se entendem coisas desta envergadura: para ganhar o Senado os democratas precisavam de roubar seis lugares ao republicanos e não perder nenhum. Isto releva quase do milagre mesmo que se saiba que as eleições a meio de um mandato presidencial raramente favorecem o poder estabelecido. Raramente, digo, não sempre. Enfim, minúcias...
Noticiou-se aqui a saída do nº1 de PREC (pensa, rosna, estica, corta), publicação de duvidosa periodicidade, redigida por um repolhudo grupo de pessoas que têm pelo menos o mérito de questionar a boa consciência dominante. E que dizer? Pois que se lê (aliás leram-se de rajada os números 0 e 1) mesmo quando alguns dos temas estejam de há muito mais que tratados. Um certo humor, outro tanto de critica, dão o tom numa publicação que tem dois inapeláveis defeitos. Um formato horroroso e uma mancha difícil e muito compacta. Claro que aquela rapaziada não deve abundar de massa mas que diabo: metem o Rossio na Betesga. Convenhamos que para cinco euros (uma milonga das antigas!) convinha outro formato e mais espaço. Eu, como o nunca assaz chorado compadre Assis, compro tudo que me cheire a escândalo mas esta é uma atitude militante que nem todos têm. Assinalem-se alguns textos de Vítor Silva Tavares ou de Jorge Silva Melo entre outros de igual qualidade. Em relação a este último lamenta-se que num texto onde refere o brutal ataque feito a Mário Dionísio pelos escribas de serviço do PC (Óscar Lopes e António José Saraiva, esse mesmo...) nos anos quarenta cinquenta, JSM esqueça que Dionísio (e Lopes Graça, já agora) tiveram a seu lado a maioria da direcção da Vértice (Joaquim e Egídio Namorado, Luís de Albuquerque e Rui Feijó. Só cito isto porque é aí, nesse tempo e muito nesse espaço, que as águas claramente se separaram.
Para terminar esta nota de leitura, o problema de PREC, ou dos seus leitores, é apenas este: um número por ano acaba por saber a pouco e ser pouco. Mas isso é outro conversar.
E agora uma boa notícia: já está a aquecer motores uma nova editora Sudoeste de seu nome de que brevemente se dará aqui notícia mais larga. O programa de que já tive uns zunzuns é simples como o bom cação de coentrada: poucos livros, literatura a sério, sem lugar a devaneios menopáusicos de estrelas do nosso jet, da têvê ou similares. Por outras palavras: uma pequena editora que aposta na qualidade. Não é, felizmente, caso único no nosso panorama editorial mas mais uma a puxar para o mesmo sítio não faz mal a ninguém, bem antes pelo contrario.
E para terminar, terminantemente: estão a ser reeditados todos os volumes da sumptuosa colecção “L’Univers des Formes” em seu tempo dirigida, se a memória me não falha, por Malraux. Já andam por aí os volumes “pré-histoire”, “sumer” e “le temps des pyramides”. Continuam a ser editados pela Gallimard e custam €25. Já os apalpei, sopesei e abri. Fiquei convencido e vou encomendá-los. O resto é convosco.
A mesma Gallimard, mas já noutro campeonato (Plêiade), anuncia o volume 2º dos “romans” de Raymond Queneau. Aqui há que desembolsar mais uns quantos maravedis: sugere-se pois que o guardem para uma prenda de Natal a vocês mesmos. Se a gente não se tratar bem quem é que nos tratará?
(nota: este leitor mais que impenitente foi imprevidente. Ficou esquecido no tinteiro ou melhor no ibook G4. Sai igual mas já na factura macbook pro. Apesar de tudo as ferroadas que aqui se dão ainda têm sentido e objectivo. E assim o leitor Manuel de Sousa Pereira deixa de me seringar com mails aflitos pela minha falta de notícias. Tá, Manekas? )


...mas não era tudo uma questão sindical e corporativa ?