15 janeiro 2009

Justiça Insegura


Ao que consta os Juízes têm sido vítimas de assaltos e sequestros nos Tribunais. Consta que se instalou o caos e que os Juízes se acantonam nos gabinetes à espera que algum larápio ou rufião entre por ali dentro a espatifar o mobiliário e, quem sabe, rasgar processos.


Face a tanta insegurança e perigosidade a Associação Sindical de Juízes admite parar os tribunais, porque, garante, os magistrados estão cansados de reclamarem por mais segurança.


Se este sentimento de insegurança, que aflige a ASJP, atingir os demais órgãos de soberania e se estes também decidem parar, então, só nos resta ser governados, directamente, por Bruxelas.


Ora aí está mais uma boa razão para bem-dizermos da nossa adesão à UE.

14 janeiro 2009

Estes dias que passam 135


O senhor Primeiro Ministro veio hoje à Assembleia anunciar solenemente que as dívidas dos hospitais vencidas e certificadas foram totalmente pagas.
Palmas.
O Senhor Primeiro Ministro veio dizer que o Estado se portou finalmente como pessoa de bem. Como, aliás se espera que o Estado se comporte. Isto, não é, exactamente, o pinhal da Azambuja. Ou não deveria ser.
O Senhor Primeiro Ministro cumpriu o seu papel e o dever que jurou cumprir quando solenemente tomou posse. Compete ao Governo de qualquer país, mesmo de Portugal, honrar pontualmente os seus compromissos. Aliás os cidadãos quando os não honram frente ao Estado, estão em apuros. Apuros sérios. Por isso, apesar de contrariados pagam pontualmente. Pelo menos o cidadão que estas vai escrevendo. Nada mais natural que o Estado pague na mesma moeda à sociedade civil.
Todavia, o Senhor Primeiro Ministro veio vangloriar-se por ter pago estes novecentos e muitos milhões de euros. Que há não sei quantos anos ninguém pagava... mas que agora sim, viu-se.
Conviria esclarecer S.ª Ex.ª de um par de coisas de somenos.
Primeiro é feio vir tirar desforço de outros por ter, quanto muito, cumprido a lei.
Segundo, convém não comparar demasiado não vá dar-se o caso, como se dá, de verificar que vários governos do mesmo Partido do Senhor Primeiro Ministro foram incumpridores. Pior: o actual Senhor Primeiro Ministro fez parte desses mesmos governos, ou seja, incumpriu.
Depois, com tanta comparação, ainda se arrisca a voltar a datas anteriores a 25/04/1974. E, se não estou em erro, esses governos pagavam a tempo e horas... Não cumpriam outros deveres do cargo mas lá pagar, pagavam.
Os senhores deputados que aplaudiram fervorosamente o Senhor Primeiro Ministro ficam agora com o ónus de o patear quando na Assembleia se verificar algum deslize do Governo. Só assim terão mérito esses aplausos.
Por exemplo: que dizem os senhores deputados à recente classificação de risco de Portugal cujo rating vai estar sob apertada vigilância nos próximos tempos? É que isto significa muito em juros a mais a pagar pela dívida pública... Para mais esclarecimentos façam o favor de ler o que se diz a pp 28 e ss no jornal “Público”.
Há dias em que mais vale o silêncio não vá uma má notícia ensombrar a que se pretende vender por boa.

*na gravura: uma caricatura política de Rafael Bordallo Pinheiro. O fundador da fábrica que está em risco de fechar.

A varapau 5

Justiça atributiva e distributiva

Oliveira e Costa está preso preventivamente. Há um inquérito em curso que, obviamente está em segredo de justiça. Há um magistrado a tratar disto, as polícias têm-se mexido, enfim o normal.
Ao que parece uma comissão parlamentar achou que deveria “ouvir” Oliveira e Costa. Com recato, sem a incómoda presença da “comunicação social” para evitar que a imagem do arguido piore (ou melhore, sabe-se lá) e para mostrar aos magistrados que estes últimos são uns nabos. Ou então para prestar aos magistrados uma ajuda que estes, ao que se sabe não pediram.
Pergunta-se se os senhores (e senhoras) deputados/as não tem mais que fazer.
É que no capítulo comissões de inquérito o Parlamento tem mostrado o que vale, e que é muito pouco. Ou nada: haja quem se lembre das variadíssimas comissões “Camarate” e dos resultados que essa montanha ingente de inépcia investigativa pariu: nem um rato, mesmo um desses de laboratório que agora se clonam clandestinamente e à dúzia.
A que vem este furor investigante sabendo-se como se sabe que Costa está por conta da magistratura normal? Que mensagem se pretende fazer passar ao cidadão contribuinte? Que o Parlamento está cheio de brio, que transpira actividade, que não dorme só a pensar na defesa dos dinheiros públicos? Ou, tão só, uma desconfiança, mais outra, no Poder Judicial?

Um vereador de uma importante Câmara Municipal entendeu chegada a hora de se retirar. Aplaude-se a intenção, tanto mais que não é costume esta gente sair por seu pé dessa mordomia pouco trabalhosa.
Já se aplaude menos quando se sabe que, afinal, o senhor vereador quer reformar-se. Com, exactamente 50 risonhos anos. Parece que a ele não se aplica a lei geral que atira a reforma para lá dos sessenta.
E reforma-se com um ordenado superior ao que auferia como vereador. Alguém resolveu premiar a sua abnegação transformando-o em licenciado apesar de apenas ter o 9º ano de escolaridade. É que para ser reformado como Técnico Superior de 1ª Classe costuma exigir-se uma licenciatura mesmo dessas manhosas que agora se compram em algumas universidades privadas.
Mas há mais. Tendo a reforma já na mão este operoso rapaz já está nomeado para um empresa obviamente de capitais públicos participada por várias câmaras. O convite partiu de um camarada presidente de uma delas cuja amantíssima esposa é, calcule-se, secretaria do pobre reformado.
As más línguas calculam que este novel reformado esteja já a ganhar cerca de 5.000 euros. Líquidos. Vereador é uma carreira de futuro, como se vê.

d'Oliveira

As Contas do SPE

O Tribunal de Contas divulgou a auditoria às dívidas de 20 empresas do Sector Empresarial do Estado. Como era de esperar o resultado confirma que as empresas públicas pagam muito tarde. Ou seja, não são apenas os organismos da administração pública que pagam com atrasos muito superiores ao aceitável. As empresas públicas seguem-lhe o exemplo.

As consequências são conhecidas: i) às empresas fornecedoras do Estado ou das Empresas públicas criam-se fortes constrangimentos ao seu desenvolvimento e obrigam-nas a um permanente sufoco financeiro; ii) os contribuintes vêem os seus impostos serem usados para pagar o acréscimo de despesa pública (= aos juros pagos), improdutiva, que os atrasos no pagamento gera. Ou seja, se as famílias estão sobreendividadas, esta Auditoria do Tribunal de Contas vem mostrar que as empresas do SPE também o estão e sem capacidade de responder aos compromissos de curto prazo, donde avultado volume de juros (604 milhões em 2007) que pagam por atraso nos pagamentos.

A comunicação social desta vez não agarrou o tema, a mostrar que esta coisa de não se pagar a tempo e horas já não é assunto para vender jornais e tempos de antena. A que pegou no assunto preocupou-se em divulgar a dimensão dos juros pagos por essas 20 empresas e pouco mais. A verdade é que o Relatório do TC bem merecia melhor detalhe e debate. Não para discutir os números ou a gestão corrente daquelas empresas. Antes para questionar os princípios e as opções que têm conduzido a gestão do Sector Público Empresarial do Estado.

Outro elemento interessante que a comunicação social poderia debater é o conteúdo do Contraditório, apresentado pelo MOPTC, que ao mesmo tempo que reconhece que os atrasos nos pagamentos consubstanciam uma barreira ao crescimento das empresas, apresenta um vasto conjunto de medidas tomadas tendentes à resolução do problema. Nesse sentido, são identificadas, no relato do contraditório, 4 Resoluções do Conselho de Ministros e 5 Decretos-lei.
Como é óbvio não são as Resoluções nem os Decretos que vão criar liquidez nas tesourarias. Contudo, ajudam a mostrar a atenção que o Governo dá ao problema e, neste caso, ajudam a atenuar as conclusões dos auditores.

Numa dada situação, contestando a conclusão dos auditores no sentido de terem sido as “dificuldades de tesouraria que determinaram a necessidade de recurso ao financiamento bancário de curto prazo”, o Contraditório, contrapõe: “não foram as dificuldades de tesouraria que determinaram a necessidade de recurso ao financiamento de curto prazo, mas sim a estratégia de gestão de tesouraria que, em qualquer empresa, leva a que haja um mix de maturidades do passivo. Tanto quanto possível, a dívida deve ter maturidades semelhantes às dos activos. O mix de financiamento (de curto e de médio e longo prazo) parece apropriado às maturidades do activo à data de referência”.

De facto, não é fácil assumir que não se tem dinheiro para pagar as dívidas no prazo em que são exigidas.

Opções Ferroviárias

A comunicação social de hoje dá conta que, lá para o Verão, vai ser lançado o concurso público para a construção do TGV entre o Porto e Vigo. Esta obsessão governamental deve deixar-nos muito felizes, porque aquilo que a Região Norte mais precisa é da ligação por TGV entre o Porto e Vigo.

13 janeiro 2009

Portugal sob “Vigilância negativa”

A agência Standard & Poor's colocou sob vigilância negativa a dívida do Estado português, o que só pode significar o reconhecimento do aumento do risco inerente à dívida pública de Portugal e a pouca confiança na recuperação económica.

A única vantagem que esta notação pode ter é a de obrigar o Governo a rever o seu programa de mega investimentos público e as mega parcerias público-privadas.

Presidência estranha

Cavaco Silva não teve o meu voto na sua caminhada para a Presidência da República. Não me revejo nem na forma nem na substância do nosso Presidente, que nos últimos tempos tem andado muito agitado politicamente. Depois do Verão quente, sob o “anticiclone” dos Açores, Cavaco começou a preocupar-se em demasia com a agenda mediática e com aquilo que os jornais dizem ou presumem.
Após o magnífico comunicado na sequência de rumores que o relacionavam com o BPN e com os seus gestores, surge agora um outro comunicado a desmentir fontes não identificadas e que defendiam que o Presidente tinha ideias fixas e definidas quanto ao agendamento dos próximos actos eleitorais, em oposição ao Governo. Cavaco desmente rumores e fontes, mas não se fica por aqui. Segundo Mário Crespo denunciava ontem no JN, o chefe da Casa Civil do Presidente, o experimentado Nunes Liberato, ex-secretário de Estado e ex-secretário-geral do PSD sob a liderança de Cavaco, escreveu à administração (!) da SIC, desmentindo as referências que Mário Crespo fizera aos rumores que fizeram transparecer para os meios de comunicação que a Presidência se preparava para não promulgar a Lei do Orçamento de Estado.
Tanta efervescência e tanta irritabilidade, em tempo de crise e a dois anos ainda das próximas presidenciais, são motivo de estranheza e incompreensão. Será estilo ou falta dele?

Silêncio de Chumbo

Oliveira Costa foi à Assembleia e ao inquérito disse nada. Os deputados do PSD compreenderam o silêncio e terão ficado de consciência mais tranquila. O silêncio de Oliveira Costa é antigo, pois Dias Loureiro também nada sabia do que se passava no BPN.

12 janeiro 2009

Para o povo não há paraísos

Paulo Baldaia, Director da TSF, escreveu há dias no JN um artigo de opinião que merece um especial destaque por se tratar, do meu ponto de vista, duma síntese exemplar do que está verdadeiramente em causa na presente crise. Aqui vai o final desse texto. Para ler o início ver aqui.

Empresários e accionistas por todo o mundo recebem milhões de lucros quando tudo corre bem e fecham portas ou estendem a mão ao dinheiro dos contribuintes quando as coisas correm mal. E assim vamos vivendo, num sistema em que a riqueza nunca é bem distribuída, mas em que a ambição de todos valida o sucesso de uns poucos. Importa viver na ilusão de que todos podemos ter cada vez mais, mesmo que seja evidente que isso é impossível.

Aqui chegados, são preciso políticos com coragem. Chega de discursos bonitos sobre o papel do Estado, é preciso acabar rapidamente com os 'offshore", que significam a possibilidade de conduzir a economia sem "estar sujeito às leis nacionais", ou seja, sem "estar sujeito à legislação fiscal do país de que se faz parte". É aquilo que o povo conhece como "paraísos fiscais". Conhece mas não pratica, porque no mundo em que vivemos os paraísos (fiscais) são um luxo dos ricos.

A crise global é uma crise do sistema, não é apenas, como nos querem fazer crer, uma crise financeira e económica. Ou se mudam as regras que favorecem os que já têm muito, ou vai continuar tudo na mesma até à próxima crise, que terá inevitavelmente contornos mais graves que a actual.

O Homem precisa de regras que controlem a sua ambição de riqueza. O comum dos mortais apenas precisa de um trabalho com que ganhar a vida e é isso que vai faltar. E tudo isto acontece porque o mundo pouco ou nada é governado pelos políticos eleitos em Democracia, mas pelos Madoff e Oliveira e Costa a quem as leis do mundo livre - feitas pelos políticos eleitos - só se aplicam quando as coisas correm mal. Neste mundo em que vivemos, para os ricos, roubar não é crime. Crime é ser apanhado.

Contratação Pública mais fácil

O plano que o Governo gizou para combater a crise inclui algumas medidas que deverão merecer atenção especial, quer dos media, quer das entidades com tutela ou algum poder de supervisão sobre a aplicação dos dinheiros públicos.

O novo Código dos contratos Públicos, com escassos meses de aplicação, alterou o limite do ajuste directo nas empreitadas de obras públicas de 25 mil euros para 150 mil euros e o ajuste directo na aquisição de bens e serviços de 5 mil euros para 75 mil.

Com estes novos valores uma boa parte das entidades públicas já poderiam executar uma parcela significativa do seu Orçamento sem ter de submeter as adjudicações a concurso público ou consulta a um número determinado de fornecedores ou empreiteiros. Apesar disso, recentemente, o Governo alterou, de novo, os limites da contratação pública, elevando o ajuste directo de 150 mil euros para os 5 milhões de euros. Na prática, esta decisão significa que a maior parcela do Orçamento da maioria das organizações públicas deixa de estar sujeita ao regime da concorrência, na medida em que as respectivas administrações poderão escolher directamente a entidade a quem pretendem entregar a obra, sem terem que justificar o que quer que seja sobre a escolha efectuada.

De facto ao permitir que se possam adjudicar, sem concurso e por escolha directa do fornecedor ou empreiteiro, até ao valor de 5 milhões, está a ser dado um passo demasiado ousado, que pode dar lugar a factos de consequências irremediáveis. No que respeita as autarquias locais aquela medida significa que as autarquias podem deixar de realizar, pura e simplesmente, quaisquer concursos, uma vez que, salvo três ou quatro Municípios, poucas terão obras ou adjudicações de montante superior ao que a lei agora definiu como limite para obrigar a concurso público.

A partir de agora dependerá da vontade dos gestores submeter ou não determinada obra à concorrência. Numa perspectiva de gestão e de salvaguarda da transparência parece que será aconselhável que efectuem consultas, quando mais não seja para terem a percepção do posicionamento do mercado, apesar de, do ponto de vista legal, estarem cada vez mais desobrigados de consultar o mercado, para escolherem fornecedores ou empreiteiros.
Uma coisa me parece certa, esta maior liberdade na realização da despesa pública se por um lado pode funcionar como maior agilidade e celeridade na realização das obras, por outro lado pode constituir um poder discricionário, sem quaisquer limitações, na escolha do fornecedor ou empreiteiro, com a agravante que não se vislumbra como as entidades inspectoras ou de supervisão possam corrigir o que quer que seja ou mesmo intervir em sede de controlo de prestação de contas.

Será que o tempo ganho, com a não realização da consulta ou concursos públicos, compensa os riscos em que se incorre com a adjudicação directa, isto é, sem concurso público? Confesso que tenho dúvidas, muitas dúvidas. Contudo, também é natural que muitos defendam que se com essa medida se vai injectar, mais depressa, dinheiro na economia, então, isso será bom, porque ajuda no combate à crise.

O gato que pesca 6



O.M.O. manda mais….

Os gatos (e sobretudo as gatas, claro!) percebem perfeitamente a linguagem dos humanos que, por sua vez, não fazem a mínima ideia da nossa. Todavia, se miarmos convenientemente eles pensam que nos entendem e lá se vão abrindo connosco.
Hoje, o mcr foi almoçar com dois camaradas de blog: o JSC e a “o meu olhar” doravante referida por OMO.
Ai vocês pensavam que eu estava a falar dessa saponária idiota que pretende lavar mais branco do que os nossos estimabilíssimos bancos? Que tolo engano. Eu queria apenas falar dessa amiga e colega do mcr que, segundo ele conta, lhe pagou o almoço. Vê lá tu, Ingrid, eu a comer á borla. E quem me pagou a soupe a l’oignon e o coq au vin não foi um monstro antediluviano, nada disso. Foi uma bonita mulher, loura até dizer basta e com uns olhos claros que nem te digo nem te conto. Bem, vinha de marido a tiracolo, mas pagou o almocinho á mesma, o que para um cavalheiro que já entrou na terceira idade, não é coisa de somenos.
Finalmente, o que o mcr queria dizer é que esteve em amena cavaqueira com dois colegas de blog (meus colegas, também, ao fim eo fim e ao cabo...). Parece que a OMO quer mudar o visual do blog.
Não me digas que ela é como a CG!, alarmei-me eu num miado três oitavas acima do normal. Convém explicar que a nossa casa anda numa reviravolta espantosa. A CG viu-se livre da empregada, começou a achar que estava tudo sujo, e toca de tirar tudo dos armários e barrela com tachos, panelas, copos, frigideiras, chávenas, travessas pires enfim uma boa tonelada de coisas repetidas, tri-repetidas, um horror!... O mcr anda em bicos de pés, escafedendo-se por tudo o que é buraco, resmungando coisas ininteligíveis em línguas ininteligíveis, deve ser o tal famoso dialecto de Buarcos, uma mistura de fenício antigo com palavrões lusitanos...
“Pr’aí, pr’aí", respondeu num sussurro o mcrque fingia estar a arrumar as sagas islandesas. Achas que a saga de “Njall o queimado”, fica bem ao pé da d’ “os chefes do vale do lago”?
Nem lhe respondi, que aquilo era pura retórica, quero lá saber das vizinhanças de histórias de crimes e violências inauditos, ocorridos há mil anos entre islandeses mal humorados.
O mcr entretando lá me confidenciou que a OMO queria dar uma volta ao blog, põ-lo mais atraente, mais “actual”, mais interventivo. “Parece que ela quer que haja mensalmente um responsável que esteja sempre a deitar achas na fogueira. E diz-me isso a mim, que escrevo que nem um galego, que me esfalfo a puxar pelas pobres células cinzentos do senhor Poirot para servir as minhas freguesas de prosa, boa, abundante e bem confeccionada, como se diz nos quartéis a propósito do rancho da soldadesca. Tu já viste isto, Ingrid. E não te faças de parva que se esta coisa vai para a frente nem as gatas escapam. Uma vez posto um post, o autor tem de dar ao dedo senão...
Vê-se bem que o mcr não percebe nada de gatas e menos ainda de mulheres, mesmo loiras, inteligentes bonitas e de olhos claros. O que a OMO quer (e nisso vai certamente obter entusiástica aquiescência da Kami e da Sílvia) é acção.
Nenhuma mulher resiste ao apelo da mudança, seja ela qual for. Só os homens se instalam na preguiçosa rotina. O mcr diz que não. E exemplifica com os livros da sua biblioteca: “Tu já viste o que seria eu tentar mudar a ordem dos livros de três em três meses? Já nem falo de cada livro mas apenas dos romances, da poesia, do teatro etc... Olha se começava a mudá-los de estante... E se em vez de ser por grandes famílias fosse mesmo livro a livro. Tu já viste o que era mudar dezassete mil livros? Dezassete mil duzentos e trinta e dois, sem contar com os quatro ou cinco que estão em cima da estante da janela para dar entrada, pensei eu, mas não lhe disse nada. Nestas ocasiões devemos deixar a macharia em geral, humana ou felina, carpir as suas mágoas. Faz-lhes bem. É como quando as mulheres choram. Lavam a cara com o rimmel que escorre e lavam a alma.
E o mcr continuava. Ainda por cima a OMO gosta de Kandinsky, estás a ver? Claro que não estou a ver nada. O mcr adora os expressionistas, a pintura alemã dos anos dez a trinta, o “Blaue Reiter”, o grupo “Die Brücke”, a malta que se juntava à volta da Gabrielle Müntner em Murnau e que foi amorosamente coleccionada pelo von Lenbach e que está hoje exposta na Lenbachhaus em Munique. Todavia não sei o que é que isso tem a ver com o blog e com a pertinaz tentativa da OMO de nos pôr a trabalhar.
É que não se pode dizer não a uma pessoa que gosta de Kandinsky, explicou-me o mcr. Parecia mal...
Portanto., leitores meus e leitorinhas do mcr. Preparem-se. Vem aí mudança grossa. Barrela geral. Novo visual. O mcr vai ter de aprender várias coisas, inclusive pôr música (de jazz, disse-me ele, só jazz, árias de ópera, e coisas barrocas pequeninas. E alguma da maravilhosa música dos sixties.)
Desliguei. O homem, quando lhe chega a nostalgia dos sessentas não pára. E eu, francamente, para o rock já dei. Dei e não dou mais. Nós as gatas temos princípios. E um deles é os músicos que se amanhem que não há nada que se compare ao miar de um gato preto de olhos verdes.

Ingrid Bergman de Andrade

* na gravura, "Blaue Pferde", Franz Marc, 1913.
** ao lado esquerdo, foto de costas da autora num momento de inspiração bloguística.


11 janeiro 2009

Expedição

Hoje não me apetece falar da crise. Também não me vou preocupar com o frio nem com o medo que rdp.s e tv.s vão espalhando a pretexto de nada.
Não sei porquê, mas ocorreu-me que o arrasamento programado de Gaza se destina a construir um imenso campo de futebol. Talvez um estádio com catacumbas, apetrechadas para recuperar os jogadores lesionados na refrega do jogo. É isso. Hoje o que vou é pensar em futebol. Talvez comprar a Bola ou pesquisar na net notícias sobre o chuto na bola. Se tivesse a mestria de Camilo José Cela bem poderia escrever os novos Contos de Futebol e pôr-me a fazer prognósticos. O problema é que hoje, como no tempo de Cela, “o mundo anda muito agitado e a cada dia que passa é mais difícil fazer prognósticos” Então o que é que acha da época das transferências? Acha que os gajos vão aguentar a pressão? É provável que sim, apesar de tudo. Estão a cair-lhe em cima e a organização dos árbitros nunca mais recebe os relatórios. A equipa do outro lado está muito desfalcada, aliás aquilo até nem é bem uma equipa, é um amontoado desorganizado, com muitos treinadores. Um jogo assim não faz sentido. O prognóstico não é saber o resultado. É saber qual o dia do funeral. Não sou adepto deste jogo. É como iniciar um jogo de xadrez em que um dos adversários só dispõe de peões. Um absurdo, mas que os regulamentos toleram. Alguns adeptos poderão pensar que este jogo tem lógica e que limpa a alma dos vencidos. Por isso agitam planos e palavrões sob os quais se escondem as sociedades comerciais que vendem os bonés, os very lights e gerem as equipas em confronto. Depois há o inefável papel dos intermediários. Quem são esses? Ah! Não sabe? Pois bem, são os portadores do formol e das drogas que fazem secar as consciências ao mesmo tempo que fazem mexer as pernas e lançar mais longe o sangue das claques. Nunca se sabe bem quem são e qual o seu poder real para poder fazer parar o jogo, apenas se sabe que aparecem e desaparecem com as luas. Depois, fica um rasto ou lastro de caretos, como que a mostrar a descontinuidade da vida. Morre-se por que se é civil e morre-se por outra coisa qualquer. Morre-se em qualquer idade, mas nunca se morre na idade certa. Como se sabe, os futebolistas vêm de todo o lado, mesmo da Etiópia ou da Gronelândia, terra que Cela pode ter percorrido durante a Segunda Guerra Mundial, para captar a grande sabedoria sobre o frio, como mostra o que escreveu: “um homem em hibernação rejuvenesce em função directa do quadrado do frio que conseguir suportar, expresso em graus centígrados, dividido pela raiz quadrada do seu ângulo facial, expresso em graus, minutos e segundos”. Ainda segundo Cela, este Teorema “é de grande utilidade nas indústrias carniças e na expedição de futebolistas para confins longínquos”.

10 janeiro 2009

Au Bonheur des Dames 164


Chiça que faz frio! Olha esta lembrou-me o nome de um restaurante ali para os lados da velha Escola Politécnica, em Lisboa. “Faz frio” chamava-se o estaminé. Dei por ele, se não erro, num dia longínquo (“dia do estudante”, ou coisa do género) nos anos sessenta, em que apanhámos um arraial da polícia de choque. A polícia, batia na rapaziada porque estava frio. Aquecia-nos os lombos juvenis e contestatários. Era para nosso bem, diziam. E mais uma chanfalhada! Nessas correrias terei procurado refúgio no dito cujo “FAZ FRIO”. E comia-se bem. Bem e à fartazana, como Deus manda e os dias frios exigem. É que o inverno pede sustância, comida que se veja, pratos da velha e tradicional cozinha portuguesa, cozidos, feijoadas, bacalhau com todos (e mais alguns como diria o famoso escultor Sousa Pereira, Manuel de seu nome, que exige prato de arroz seja com o que for um! Com o bacalhau, Manel? Com o bacalhau, pois claro! E fica muito bem. Este Pereira é tão arrozeiro que uma vez lhe fizeram um jantar de arroz com arroz! E ele comeu-o com um à vontade que espantaria o mais pintado. Aliás em matéria de jantares, o homem está por tudo. Ainda recordo o dias, aliás noite, em que ele, impenitente sedutor, decidiu correr uma lebre no seu próprio terreno. Para o efeito precisava de dar de jantar à potencial seduzida. Só que, no capítulo cozinha & assimilados, o Manel vale zero. Aliás, menos do que zero. Como o frio, hoje. O homem nem uma mesa sabe pôr. Claro que lá foram uns amigos sigilosamente, pela porta de serviço, cozinhar o que havia de ser cozinhado, tenho ideia que fazia parte desse imortal grupo de “chefs” humanitários e protectores de amores clandestinos. O jantar foi um êxito e o MSP averbou uma vitória clamorosa no seu próprio campo. Desconheço o resto desse romance tão auspiciosamente começado mas a verdade é que os amigos são para isso mesmo, para dar uma mãozinha aos incapazes, no caso, como é sabido, incapazes apenas culinariamente que o homem no resto dava cartas...
Mas eu falava do frio, do taró, do grisu, ou griso, enfim destas temperaturas indecentes que só têm uma fraca virtude: nisto estamos como o resto da Europa: a bater o dente enquanto os noticiários televisivos se excedem em reportagens sobre umas neves que caem aqui e ali. Eu mesmo, hoje, pelas dez e pouco, onze da matina, vi claramente visto uns vagos flocos de neve em plena avenida da Boavista.
Pessoalmente, a neve diz-me pouco. Apanhei fartas doses dela nas alemanhas, sobretudo na Baviera vai para mais de vinte anos. Detestei. Eu conto: cheguei a Munique num domingo duplamente festivo porque além deste vosso criado, chegava aquelas terras ardentemente católicas, apostólicas romanas e bávaras, o Papa. Por razões que não vêm ao caso não nos pudemos encontrar sequer para beber uma cervejola na Schwemme. Meti-me num comboio para Murnau e a meio da viajem apesar de não serem mais do que três da tarde, e estarmos em fins de Abril, o céu enegreceu e caiu um nevão que nem vos digo, nem vos conto. Eu de casaquinho leve, enregelado num comboio fantasma que parou numa estação fantasma onde se não via vivalma. Tiritando, desgraçado turista em terra germânica, ali fiquei até que surgiu um táxi salvador. Para o hotel bradei. Qual?, perguntou-me o teutão. O que estiver mais perto desde que no centro de Murnau. E assim cheguei, miserável e mais frio do que a múmia de Tutankamon, a um hotelzinho que me acolheu. Tomei um banho quentíssimo para ver se recuperava algum do muito calor perdido e depois arrastei-me até ao salão. Um afável empregado perguntou-me se queria jantar. Às cinco da tarde?, perguntei. Tem alguma alternativa melhor?, retorquiu-me o bávaro que falava uma espécie de brasileiro. Não tinha. E lá veio um “Eisbein” gigantesco com puré. Comi meio prato e, é com vergonha que o confesso, fui-me deitar. Às seis e pouco já dormia o sono dos justos ou pelo menos dos resfriados.
E durante os meses que se seguiram apanhei um forte par de nevões que me deixaram vacinado contra os prazeres da neve. Vacinado e constipado.
Por isso, não me comovi com esta chuva fria com vagos flocos à mistura. Pata que a pôs! Ainda por cima, a novidade da neve, atirou o resto das notícias, mesmo as mais graves, como a do desastre do futebolista que desfez cento e sessenta mil euros de automóvel, ou a prestação do engenheiro Sócrates todo amante das artes. Nem sequer essa miudeza que é a guerra no médio oriente teve honras de primeira página. Também não valia a pena. Nenhum dos contendores quer parar. É o Far-East em todo o seu esplendor. Nem durante o período (escasso) de tréguas os alucinados do Hamas pararam. Depois, gritam que os estão a massacrar. Claro que estas abébias que Hamas dá a Israel, são fartamente aproveitadas por este. Ai queres música? Toma que já bebes.
Voltemos ao frio que é mais saudável. Querem combatê-lo com eficácia? Aqui vai uma receita fácil e teutónica: comprem um pernil de porco. Cozam-no. Juntem-lhe umas salsichas alemãs. Variadas. Há algumas que se grelham e são óptimas. Chamam-se “Bratwurst”. Ao lado cozam batatas. E juntem-lhe uma lata de Sauerkraut, ou seja de choucroute. Vem feita, basta aquecer. Com uma bela mostarda de Dijon, faz-se a festa. Para beber: fartas doses de “boémia” ou qualquer cerveja do mesmo tipo. Um tinto decente também serve. Se convidarem o MSP não se esqueçam de acrescentar o arroz. E passem um bom fim de semana. No quentinho, como Deus e a prudência mandam. E neste quentinho cabe tudo, mesmo isso, leitorinhas, em que estão a pensar. A lascívia no inverno não é pecado. E mesmo que fosse...
Schuss! Alles gut. Viel spass!

*na gravura: "casas em Murnau", Kandinsky

09 janeiro 2009

08 janeiro 2009

Diário Político 97


Regresso aos ensinamentos
do grande timoneiro

Se bem recordo foi Mao Zedong (ou Mao Tse Tung, como então se escrevia) quem numa brochura célebre, “A guerra revolucionária”, propunha uma série de regras para a chamada guerra de guerrilhas. Mao, nesse momento, enfrentava o Japão, ou seja, enfrentava o melhor e mais disciplinado exército oriental e porventura um dos melhores exércitos do mundo. Os japoneses iriam, aliás, prová-lo liquidando os exércitos inglês, francês e holandês sem sequer defrontar as mesmas dificuldades que tinha defrontado na China.
Derrotado o exército regular chinês, reduzido a pequenos bastiões sem importância, sem ligações e sem real capacidade ofensiva, apenas restava aos japoneses resolver o problema dos guerrilheiros comunistas baseados no longínquo Yenan. É desta época, se não erro, que data a brochura acima citada. Mao escreveu-a (provavelmente com a ajuda de alguns dos seus generais, Liu Xao Xi, Lin Piao entre outros) para servir de manual politico-militar da sua gente em armas.
Nessas páginas, escritas num tom demasiado simples mas não desprovidas de uma extrema lógica, Mao explica e propõe princípios absolutamente básicos hoje mas que na altura o não seriam. Agora parece evidente dizer que quando o inimigo ataca se recua no caso de não ter forças suficientes ou de a defesa mesmo vitoriosa resultar num sacrifício desproporcionado, que se o inimigo para, se deve hostilizá-lo e se ele recua há quer atacar com redobrada violência.
Depois, o mesmo Mao explica que no caso de ataque contra o inimigo há que fazê-lo com o maior número de forças possível, com uma superioridade numérica quatro cinco ou mais vezes superior de modo a liquidá-lo definitivamente.
No capítulo da movimentação guerrilheira, além do já famoso slogan, o guerrilheiro move-se no seio das massas como peixe na água", Mao explica que entre combatentes e apoiantes não devem existir quaisquer contradições ao mesmo tempo que, para certas circunstancias, não há sacrifícios a que se não deva recorrer. E por aí fora. Os interessados poderão, decerto, encontrar na internet o livrinho pelo que me dispenso de o citar mais.
Isto que venho de escrever deveria estar dentro da cabecinha de todas as almas que se comovem com o que se passa no médio oriente. E por uma razão fundamental: guerrilheiros do Hamas e Tsahal conhecem perfeitamente este texto fundador do maoísmo. Conhecem-no por vias diferentes. Tsahal é herdeiro do Palmach e da Haganah, organizações armadas do pré-Estado israelita. Não eram as únicas como já anteriormente se disse porque havia lateralmente organizações puramente terroristas a quem coube a parte mais vergonhosa da “luta de autodeterminação israelita”. Do mesmo modo, depois das duras derrotas sofridas pelos árabes, as novas organizações “revolucionárias” palestinianas aprenderam a mover-se nos campos de refugiados e nos territórios ocupados como “peixe na água”. Dentre elas apenas a Fatah, com o peso das funções oficiais que lhe couberam, que usurpou, ou que ganhou á força de votos, é que emergiu distinta e diferenciada. Os restantes grupos, clandestinos ou para-clandestinos continuaram submersos na população.
No caso do Hamas, a exemplo do Hezbolah libanês, a organização foi mais longe. Manteve uma direcção político militar clandestinizada e, em certos casos, emigrada, mas ao mesmo tempo criou redes sociais que o frágil Estado da OLP não conseguia formar ou formava mal. Criaram-se escolas, postos médicos, serviços de assistência religiosa e social, enfim uma multiplicidade de organizações civis que ou duplicavam as estruturas existentes ou respondiam a necessidades básicas da população da Faixa de Gaza.
Entre estes diferentes níveis as ligações são totais, obviamente. O Hamas não é exactamente uma organização caritativa (que também é) e sabe que pode e deve tirar dividendos políticos dessa imensa actividade.
Quer isto dizer que todas as escolas, postos médicos, serviços de assistência são velhacouto de guerrilheiros com uma granada atada à cinta e uma kalashnikov guardada no armário? Claro que não! Quer isto dizer que todos os funcionários que trabalham nestas organizações são guerrilheiros, logo inimigos combatentes do invasor israelita? Também não.
Todavia nenhuma destas organizações, como nenhuma das suas sedes, por mais cruzes vermelhas, crescentes vermelhos que ostentem, pode considerar-se território exclusivamente civil. Quando um destacado dirigente do Hamas nos declara com naturalidade que ao contrario dos seus adversários que amam a vida, os guerrilheiros amam a morte está apenas a referir uma das primeiras regras da ideologia do partido.
Poder-se-ia tentar fazer o exercício de pesquisar o momento em que esse bárbaro fatalismo se tornou uma verdade pelo menos para os mais politizados habitantes de Gaza. Poder-se-ia perguntar o que fez Israel durante os longos anos de potência ocupante (e perceber que em certa altura deu uma mãozinha ao Hamas para enfraquecer o Fatah). E perguntar finalmente o que é que foi feito pelos países irmãos para minorar a sorte desta desgraçada população. Só que isso, neste momento, é um exercício inútil. Primeiro porque há documentos mais que suficientes, públicos, esclarecedores da realidade da região. Depois porque agora há uma guerra em que ambos os lados levam a cabo com a eficiência possível as notas que um já longínquo político chinês escreveu para instruir o seu exército de camponeses.
Repete-se, e repetir-se-á o número necessário de vezes, que em Gaza não só está enraizada a ideia dos escudos humanos, do sacrifício até às últimas consequências, da guerra por todos os meios contra o inimigo sionista, como no campo contrario também se aprendeu que na dúvida os alvos são todos militares, que é preciso atacar com o máximo de força para liquidar depressa e totalmente o inimigo. Aliás com mais uma contrainte: o exército israelita sabe perfeitamente que o que tem a fazer tem de ser feito depressa. Ao contrario do Não-Estado do Hamas, Israel responde perante uma comunidade de nações, está sob o escrutínio de uma miríade de observadores, nem sempre neutrais, e tem de acatar (tão tarde quanto lhe é possível) as injunções da comunidade internacional e da sua própria opinião pública.
A campanha que decidiu levar a cabo tem objectivos limitados: derrotar temporariamente o Hamas, reduzir-lhe a eficácia e os meios, isolá-lo tanto quanto possível da população local e cortar-lhe as vias de abastecimento militar (os famosos túneis na fronteira egípcia...). numa palavra: retardar o momento de tréguas, de conversações, inverter a relação de forças Hamas-Fatah no território.
É ainda provável que estas operações militares possam obedecer a outra linhas de força. A administração americana está paralisada até 20 de Janeiro, há eleições políticas em Israel brevemente, e os problemas com que se debate a maioria dos países ocidentais também impedem que exerçam grande influência, tanto mais (e isso é fundamental) que são os checos quem dirige a União Europeia. Como aliás já se viu logo na primeira declaração sobre o conflito.
E finalmente, uma vez mais, uma nota sobre alguns dos protestos levados a cabo por pequenas franjas da esquerda radical: não se consegue perceber o que propõem, para além da condenação habitual de Israel. Quais são as soluções que defendem para o conflito no Médio Oriente? Que pensam do terrorismo? Que política propõem quanto ao Líbano, essa vacuidade política inventada pela França quando teve o mandato dos antigos territórios turcos dependentes da antiga província de Damasco no final da primeira guerra mundial? E para a Síria? E para o Irão? E, já agora, para o Iraque?
Porque, ao fim de quase um século nesta região, as coisas estão ainda pior do que no tempo do império turco. E é duvidoso que as populações sejam mais felizes... Ou que controlem melhor (ou mais) o seu destino enquanto povo.

* "Mao Tsé-toung: La guerre revolutionnaire" 10-18, UGE, 1962. Este livro consta de dois textos: "Problemas estratégicos da guerra revolucionária na China", e "Questões de estratégia na guerra de guerrilhas anti-japonesa" de 1936 e 1938 respectivamente.

d'Oliveira

O gato que pesca 5 (adenda)

Separar o trigo do joio

De acordo com os dados disponíveis relativos ao primeiro semestre de 2008 o número de pessoas alvo de despedimento colectivo aumentou. Segundo o JN a Autoridade para as Condições de Trabalho vai acompanhar o encerramento de empresas, despedimentos colectivos e reduções ou suspensões de actividade para assegurar o cumprimento da lei e a protecção dos trabalhadores.

Segundo o inspector-geral de trabalho, Paulo Morgado de Carvalho "Há empresas a tentar por todos os meios sobreviver, mas, noutros casos, pode haver tentativas de se aproveitarem da conjuntura e nós temos que separar o trigo do joio".

Nem mais. Esta fiscalização é sempre importante mas, em alturas de crise cerrada, como a que estamos a viver, é verdadeiramente essencial. De louvar pois esta intenção que esperemos passe para a acção.

07 janeiro 2009

O gato que pesca 5

Lenin, os dadá, o computador avariado
e a economia resplendente

“Não sei como sobrevivi tantos anos sem a tua ajuda!”
, disse o meu dono à Ingrid.

Espantei-me com tal afirmação tanto mais que a Ingrid estava deitada em cima de uma folha de jornal que o mcr estava a tentar recortar. Qualquer coisa que o fazia resmungar contra um senhor espanhol chamado Rivero que escreve numa das últimas “Babelia” um artigo sobe um livro que o hospedeiro muito recomenda: “Lenin Dada” de Dominique Noguez.
Consegui perceber (eu sou pouco dada ao dadaísmo”, prefiro os grandes clássicos, Flaubert entre todos...) que o livro estava escrito em tom humorístico mas que o tal Rivero o levava a sério, mesmo vinte anos depois da sua publicação.
A Ingrid provavelmente também se leva a sério quando se senta sobre o papel que o mcr tenta recortar e guardar num sítio de que nunca mais se lembra. Ela teme que o mcr se afogue em comunicação, se é que o já não está. Isto de se irritar com um critico eventualmente muito conhecido em Espanha mas irrelevante entre nós pode ser sinal disso. Fazer uma tempestade num copo de água, como se diz por aí.
Cheguei a temer que o mcr ainda andasse irritado pela série de chatices que o tem atingido. Mas o carro já cá está em casa (detesto aquele carro: é o que nos leva à veterinária...) e hoje o mcr esteve numa oficina apple onde lhe terão dado algumas esperanças quanto à reparação do computador Imac G4. Um senhor que tem um cão com pulgas (mas os cães têm sempre pulgas, coitados, não dão para mais...) chamado Pedro Aniceto meteu-se ao barulho e recomendou o colossus da Maia. Ai não sabiam que a Maia também tem um colosso? Tem, pois claro. Tem até um em latim. Não é como o de Rodes mas para tratar de um produto apple está por ali.
"Gente simpática, Kiki, vamos lá a ver...", sussurrou-me enquanto me pegava ao colo. Por acaso até fui eu quem lhe saltou para os joelhos, as gatas tem de amimar os donos sobretudo se está frio e eles tem uma barriga boa e quente.
Aliás a onda de solidariedade que o seu patético relato nestas páginas despertou já teve efeitos: ofereceram-lhe um portátil mac que o mcr prontamente aceitou. "Se não há quem o use...", justificava-se.
Mas a grande notícia é o frio. Parece que os humanos queriam chuva no nabal e sol na eira. Queriam um inverno estilo verão moderado. Enfim um inverno manso como se em tempos de crise os invernos não fossem mesmo assim. A CG tem a teoria de que o inverno também entrou em recessão. Não dá para mais do que seis ou sete graus.
O único humano optimista que conheço é um senhor chamado Constâncio que terá declarado que o rendimento das famílias portuguesas vai aumentar!
Sobretudo o daquelas em que um dos membros do casal foi, ou vai ser, despedido. Como ocorre todos os dias...
Então se marido e mulher forem para a rua, é uma festa: com os subsídios de emprego vão encher os bolsos.
Uma série de cavalheiros, obviamente banqueiros, e assimilados, gestores de grandes empresas públicas ou quase, estão para ali a dizer que a situação é boa para quem quiser aproveitar as ocasiões. Por exemplo podem comprar-se acções em baixa. Estão a ver o casal, desempregado de fresco, a comprar acções do BCP? Se não se acautelam ainda chegam ao Conselho de Administração do banco. Eles que se cuidem. A situação está má para os membros dos conselhos de administração. Ah se eles soubessem teriam preferido ser operários toda a vida...

Kiki de Montparnasse

* “cãocompulgas”, blog de Pedro Aniceto, animador da mailing list "o correio dos outros”
**Colossus, uma das oficinas apple que tenta animar os desamparados.
***"Lenin Dada" Dominique Noguez, Robert Laffont, Paris 1989

esta crónica deveria sair com uma bonita fotografia minha mas o computador diz que se verificou um erro e não sai fotografia por mais que se tenta KdM

A Sustentabilidade da Crise

Segundo ouvi, agora já podemos falar de recessão. O Governador do Banco de Portugal mostrou os números. O Ministro das Finanças apresentou o receituário. O Primeiro Ministro usou a palavra. Contudo, a cura e convalescença anuncia-se prolongada. Segundo Vítor Constâncio só lá para 2011 é que “a gente” sai da recessão.

Depois de tanto sacrifício para trazer o défice para os dois vírgula tal por cento, lá vai o Governo de ter de deixar subir o mesmo défice para os três por cento. Nem houve tempo para respirar do sacrifício.

Depois de 2011, com o fim da recessão prevista pelo Governador do BP, vamos ter como desígnio nacional baixar o défice, de novo, para os dois virgula qualquer coisa por cento. Se não fosse o caso de ninguém saber o que vai acontecer até 2011, salvo Vítor Constâncio, bem poderíamos concluir que esta coisa da luta contra o défice é uma bênção para todos nós, que já nos adaptamos a este ritmo da crise. É que enquanto nos mantivermos mobilizados na luta contra o défice não precisamos de inventar uma outra qualquer crise.

Assim, até meados da próxima década já temos definido o grande objectivo nacional: expandir o défice agora, para o reduzir a seguir. Assim, não precisaremos de mudar nada. Nem a natureza da própria crise, o que, no dizer de alguns especialistas, só nos dará vantagens relativamente a outros povos, porque, provavelmente, não têm objectivos tão estáveis e duradouros.

06 janeiro 2009

Falar verdade

Muito embora fosse a Noite de Reis, com direito a bacalhau, vinho, rabanadas, bolinhos de chila e aletria, pois claro, ainda assim foi possível saber o que Sócrates ia dizendo na entrevista à SIC ontem à noite. Falou verdade, é o que é. Não foi isso que Cavaco pediu na mensagem de ano novo? Sócrates reconheceu as dificuldades, admitiu que vem aí a recessão técnica, porque a outra, a verdadeira, sabemos que já cá mora, mostrou energia para combater os tempos difíceis, anunciou a (esperada) candidatura a secretário-geral do PS e a disponibilidade (hélas!) para ser de novo candidato a primeiro-ministro, disse que ia pedir uma maioria absoluta aos portugueses.
Só não sei se falou verdade quando manifestou vontade de convidar Manuel Alegre para as listas do PS. Mas jogou a cartada certa. Se Alegre não aceitar o convite, ele é que se auto-exclui e Sócrates não fica com o ónus de postergar os adversários internos.
Será difícil, por este andar, travar o passo a José Sócrates.