22 agosto 2006

A guerra que tu já ganhaste, rapaz.


Claro, rapaz, que tu já ganhaste a guerra que tens comigo. Começaste a ganhá-la precisamente no 11 de Setembro, quando as Torres Gémeas foram arrasadas pelos aviões que os teus irmãos sinistramente conduziam, num imenso desprezo pela vida, pela vida deles e pela minha e pela de todos aqueles que gostamos de viver.

Recordo-me que o meu filho estava comigo nesse dia, que acordou mais cedo do que eu, que me foi acordar na sua perplexidade pelo terror, siderado à frente da televisão. Pequeno ainda, ele não sabia bem se aquilo era uma cena real, ou se era o Rambo a desoras, e eu, crescido mas ainda pouco afeito ao terror que via, também fiquei uns minutos mal acordado a tentar perceber se aquilo era notícia ou uma reprise actualizada de Orson Welles. Era verdade, rapaz, e, aí, percebi que estavamos em guerra e que tu conseguiste ganhá-la.

Não sei se algum dia iremos encontrar-nos. Espero que não. Mas eu sei que tu andas por aí. Talvez eu te veja por aí e não saiba quem és. Mas tu conheces-me. E conheces muitos outros. Para ti, somos todos iguais, inimigos na igualdade, inimigos apenas porque não te percebemos, nem louvamos a tua vocação de mártir, nem partilhamos contigo as mesmas crenças, nem queremos que tu as estabeleças entre nós. Crês num Deus? Eu também. E muitos outros também. Eu não tenho a pretensão de que o meu Deus seja melhor do que o teu. Mas concede-me o direito de não ser obrigado, à lei da bomba, a ter de aceitar que o teu Deus é melhor do que o meu. Fiquemos assim: tu ficas com o teu Deus. Eu fico com o meu. Eu respeito o teu. Tu respeitas o meu. E deixemos as bombas fora disto, porque eu não acredito que o teu Deus ou o meu gostem de bombas.

Olha, rapaz. Eu juro que nunca assinei um qualquer documento a protestar contra as atrocidades que vocês, em nome do vosso Deus, praticam contra as mulheres muçulmanas, contra os pequenos ladrões muçulmanos, contra os direitos básicos do teu povo. Sou contra, claro, mas acho que não devo meter-me nas vossas crenças. Quem costuma assinar essas coisas, é a esquerda, a mesma esquerda que é tão tolerante com aquilo que tu fazes em nome de um Deus em que ela acredita ainda menos do que eu. E posso até garantir-te que, se um dia, por um qualquer motivo, tivesse de ir viver para o teu país ou para um qualquer outro do género, eu seria um seguidor das regras que, não sendo minhas, teria de aceitar como minhas. Posso dizer-te mais: eu não vivo satisfeito com este caminho de "infiéis", onde tantas vezes me sinto pouco à vontade. Não gosto deste mundo de famílias desfeitas, de crianças largadas ao mundo, de leviandades sem nome, deste mundo corrupto que não sei onde nos leva. Mas é o meu mundo. E é um mundo onde tu podes viver, se quiseres, se te adaptares, se aceitares as regras. Não tens é o direito de querer mudá-lo, contra a vontade dos que cá estão. Ou melhor: até podes ajudar a mudá-lo, desde que não seja à força das bombas e desde que não seja para regressar ao tempo da barbárie.

Por tua causa, rapaz, por causa das bombas que alegremente trazes coladas ao corpo, prontas para rebentarem a qualquer momento no teu desejo de martírio e de agradares ao teu Deus que provavelmente chora com o que fazes, a minha vida já não é o que era. Tu fazes-me medo a toda a hora, sobretudo quando estou num sítio onde há muitas pessoas. Por tua causa, evito andar de avião. Por tua causa, tenho pesadelos por causa dos meus filhos, e dos meus pais, e dos meus amigos, e dos que não conheço mas que não têm culpa de nada. Por tudo isto, rapaz, é que eu acho que já ganhaste a guerra. Só não sei é como tudo isto vai acabar.

(olha, se isto te faz contente, a casa onde vivo foi comprada a um iraniano que gostava de mármores e em quem confiei)

PGR: PS não quer consenso com o PSD

NOTÍCIA DN, esta terça-feira

O Partido Socialista não está disponível para chegar a qualquer consenso com o PSD em torno do nome ou do perfil do próximo procurador-geral da República. Ao DN, Vitalino Canas diz que "o Governo e o Presidente da República farão aquilo que a Constituição diz. O PR nomeia, sob proposta do Governo".O deputado e porta-voz do PS fecha assim a porta à proposta lançada por Eduardo Azevedo Soares, vice-presidente do PSD, na Festa do Pontal. Ao pedido laranja, Vitalino Canas reage: "É pena que o PSD só se lembre dos consensos agora". Para o deputado, a ideia não faz sentido, apesar de no passado a escolha já ter sido alvo de acordos entre os dois maiores partidos do sistema político, aqueles que podem, só por si, rever a Constituição (...)
(Já agora, convém ler o Editorial de Eduardo Dâmaso, também no DN, sobre esta matéria)

21 agosto 2006

As férias…que já se foram!

Regressado de férias há alguns dias, e depois de ter lido o que se foi escrevendo por cá neste entretanto (como gostava de ter ido com o MCR e mais uns amigos por umas tapas e uns pescados à Galiza!), deixo aqui as minhas referências aos in’s e out’s (pretensiosismo bacoco) das minhas três semanas e meio de descanso, divididas entre o Algarve, o Marco de Canaveses e o Porto:

In

Férias em finais de Julho – menos gente, mais espaço e mais tranquilidade

A companhia dos amigos (além da família, claro está)

As praias e as esplanadas – o pôr-do-sol com uma cerveja na mesa torna-se ainda mais deslumbrante

A gastronomia algarvia – da serra e dos mares

O jantar do “Conselho de Administração do Incursões”, com mais uns assistentes como convivas, num restaurante da Ilha de Faro debruçado sobre a ria Formosa

A grata investida em praias do litoral norte – Moledo (sem convite para o picnic do MCR) e Pedras do Corgo, em Lavra – Matosinhos (há quantos anos não me acercava da cervejaria Paradise!)

A exposição de fotografia sobre o rio Ovelha, em Marco de Canaveses – mais uma iniciativa da associação ambientalista que luta pela preservação e valorização daquele afluente do Tâmega

Out

O péssimo acesso à magnífica praia do Barranco das Belharucas, ao lado de Olhos de Água – ali começa a longa praia que se estende até Vilamoura. O mau acesso é para castigar quem? O mais elevado magistrado?

O desencanto com alguns restaurantes no Algarve – no La Cigalle, em Olhos de Água, quase fomos corridos da sala para fora e no restaurante de Querença faltou o serviço de outros tempos para acompanhar os pratos da serra algarvia

A “tia” Cinha Jardim – os botox’s e as plásticas já não escondem o essencial, não é carteiro amigo?

Diário Político 25

Da má fé, do mau gosto na boca depois de uma borracheira, da traição, da cobardia e de outras coisas igualmente detestáveis

Anda por aí uma polémica entre dois cavalheiros que terão passado por distintos grupos maoístas. A causa acidental terá sido a edição de um livreco onde um dos contrincantes narra a sua história da carochinha.
A criatura terá entrado num pequeno grupo maoísta ainda em tempos do Estado Novo. Terá sido presa. Terá sofrido maus tratos da polícia política (coisa obviamente a requerer prova efectiva dos factos...). Terá em função disso “falado”. Ou como se diz na tropa: borregou. E borregou ao que parece, forte e feio. Não fez apenas confirmações quanto à sua actividade, coisa aborrecida mas, enfim, desculpável em quem provavelmente teria escassa formação política e ideológica. Parece que denunciou camaradas. Que terão, ou não, sido presos, o que pouco importa, tanto mais que a polícia nem sempre ia atrás dos recém identificados.
Posteriormente passou a ser “confidente” da polícia política, “informador”, quiçá provocador até. Desconheço, porque me recuso a sujar o olho no seu patético livro, se era pago pela tarefa de espiar outros jovens como ele tinha sido.
Em chegado o 25 de Abril, terá sido descoberto e preso. Que maldade! Prenderem um “bufo” por denunciar, espiar, camaradas e amigos! Já não há justiça!
Entretanto a criatura, ou lá o que é, parece sentir à sua volta um toque de reprovação social.
Logo ela, a criatura, que na cadeia ou até antes, teve, como os pastorinhos a revelação do mal execrável que era o comunismo, o maoísmo, o stalinismo, o bolchevismo, e mais uns tantos ou quantos ismos que os leitores quiserem acrescentar. Mal execrável esse que parece justificar a traição, o jogo do esconde e aponta, o amancebamento com a PIDE & similares!
Indo por pontos:
Quem não sabe não se estabelece. Trocando em miúdos: quem acha que a acção política clandestina tem riscos graves (a prisão, a tortura, a morte até) toca viola em casa, faz renda de bilros ou assobia para o lado.
Quando esse alguém é um estudante universitário, com o mínimo de cultura que na época era suposto ter a coisa ainda piora porquanto não se desconheciam os riscos da acção política legal ou ilegal. Eram conhecidos! Havia livros e manuais, lembremos apenas o “Se fores preso, camarada” ou as descrições maoísantes da gesta prisional dos seus principais dirigentes então em Peniche. Era conhecida a luta destes contra os “rachados”. A rapaziada “m-l”, então, andava sempre com isso na boca para arrear forte e feio nos “revisas” do PCP. A cultura de esquerda em Portugal (até em Portugal...) mamava nos romances heróicos de Aragon (Les Communistes) de Jorge Amado (Os subterrâneos da liberdade) nos portugueses que copiavam o neo-realismo italiano e que eles também faziam a apologia do heroísmo frente à polícia e a condenação da delação.
Enfim e para não se gastar mais papel com tão ruim defunto, quem estas traça teve o azar de conhecer a prisão por mais de uma vez, de lá dentro ter sido confrontado com declarações que o implicavam, com declarações que até o implicavam em coisas jamais feitas. Teve também o azar de, numa salinha esconsa do último andar da Rª António Maria Cardoso, sob o olhar atento e benevolente da matilha policial, passar alguns dias sem dormir e sem se sentar ou deitar. Por sorte, por convicção, por respeito e por vergonha futura, não prestou declarações. Não confirmou acusações e muito menos delatou quem quer que fosse. Teve sorte, muita sorte. Se calhar mais um dia ou dois e pimba!, toma lá nomes, datas, pseudónimos, e tudo o resto. Todavia para além da sorte (inegável) sabia duas coisas:
à polícia e aos costumes diz-se nada.
O respeito por nós impede-nos de ser, como dizia Antero, um esgoto moral.
E tinha obviamente a sensação, exaltante e esmagadora, de ter lá fora gente que amava, que o estimava, que o respeitava, que confiava nele e que sofria por ele.
Quem estas escreve passou pelos alvores do maoísmo português. Meteu-se nessa guerra, foi “controlado”, controlou outros camaradas, viu caírem companheiros, camaradas e amigos e teve sempre a certeza que não o delatariam. Recebeu festiva, terna e comovidamente muitos que vinham das prisões. Nunca lhe passou pela cabeça que, fosse qual fosse, o seu comportamento diante da polícia, eles sequer pensassem em espiar por conta daquela, por dinheiro ou por fé recentemente adquirida, pelo sindroma de Estocolmo ou por outra coisa parecida.
Saiu do maoísmo discretamente depois de saber um par de coisas desagradáveis ocorridas durante a “grande revolução cultural e proletária”. Continuou o combate político mais só, mais triste, mais desenganado mas com a mesma determinação. É que de um lado estavam as vítimas e de outro os carrascos. Não havia escolha possível.
Um famoso revolucionário russo, um dos primeiros membros do CC do partido comunista (b) da Rússia, foi como quase todos os seus camaradas acusado pela clique de Stalin de ser um traidor. Como tinha origens proletárias, um passado heróico, deram-lhe a hipótese de se retratar e assim evitar a condenação num dos famosos processos de Moscovo. A sua resposta, simples e exemplar foi esta: Digam ao camarada Stalin que tenho sessenta anos de idade e quarenta e cinco de revolucionário. Não me parece ser esta a boa ocasião para estragar a minha biografia.
Foi julgado, condenado e executado.
Em Caxias em 1971, tinha essa frase na cabeça, no coração e nas restantes vísceras transidas de medo. Mas maior, como no poema de Fernando Pessoa, era “a vontade que me atava ao leme”. E a porra da biografia que eu queria estimada e sem nódoas.
E o que agora digo, aconteceu à imensa maioria dos que se viram nestes mesmos e negregados trabalhos. Ou seja: nem sequer tive o privilégio de ser excepção à regra. E é isso a nossa honra. A nossa pequena, humilde, reconfortante vitória.

“...e mais que o mostrengo que me a alma teme
e roda nas trevas do fim do mundo
manda a vontade que me ata ao leme
de el-rei D João segundo.


...Trairei amanhã, hoje não,
amanhã.
É preciso uma noite para me resolver,
....
para renegar, para abjurar, para trair.
Para renegar os meus amigos,
Para abjurar o pão e o vinho,
Para trair a vida,
Para morrer.
....”



o segundo excerto pertence ao último poema de Marianne Cohn, fusilada aos 23 anos (in Vértice, nº 40-42, Vol III, Dezembro de 1946

Ora continuem lá a dizer que eu sou contra o MP...

Lê-se no PD. Caso para dizer: bora lá arranjar alguém que não incomode!

"A justiça portuguesa precisa de "tranquilidade" e é necessário "bom-senso entre o Governo e a oposição" na escolha do próximo procurador-geral da República (PGR). Este apelo lançado, na noite de sábado junto à praia de Quarteira, pelo vice-presidente do PSD Azevedo Soares acabou por marcar o jantar da Festa do Pontal, que este ano se transferiu para esta cidade do concelho de Loulé."

Aturem-me lá um bocadinho...

Sinto que alguma coisa estranha está a acontecer. Coisas da idade, suponho. Mas, esta noite, noite baça, prelúdio do dia quente que os meteorologistas anunciam, senti-me cansado da cidade, incomodam-me as luzes tristemente desfocadas sobre o rio, com a noção exacta do autómato urbano em que me transformei à custa de rotinas desmazeladas.

Presumo que seja coisa passageira. Uma espécie de luto pelo fim, hoje mesmo, do sítio onde janto habitualmente, no Arrábida Shoping, aquela imensa passerelle à frente do cinema, que me ajudava a simular que estava sempre no centro do mundo. Eu não consegui pôr fim à rotina, mas o eng. Belmiro fez as coisas por mim. Ponto final. O homem mandou arrasar a parede, alargou o shoping, acabou com os restaurantes naquela zona e, no último dia do mês, quem quiser jantar vai para a zona nova, assim mesmo, uma despersonalizada praça da alimentação onde ao que parece terei de andar com o tabuleiro na mão à procura de um sítio onde me possa sentar. E comer. E ler os jornais. E fumar. E ver as miúdas.

Não sei se aguento. Atentemos no facto: depois de muitos anos a viver na cidade, apenas consegui perder o sotaque. As raízes ficaram. As raízes do provinciano que nunca quis deixar de o ser. Plantei a minha vida sobre o facto. E o facto tramou-me, num mundo que não se compadece com provincianos. Confesso: sempre gostei de alguma luzes. De alguma ribalta. De ter palco. Mas, também é verdade, sempre achei que todas essas coisas só fazem sentido quando são merecidas, quando se faz alguma coisa por isso. Não me apetece o palco só porque existo, ou porque escondo as raízes e pinto a cara com cores que não são as minhas. Sintetizando: ser conhecido nunca foi o meu objectivo - prefiro ser reconhecido. O que torna tudo mais difícil. Muito mais difícil.

Mas voltemos à noite de hoje. Pensei várias coisas. Uma delas, é que preciso de trocar de carro. Outra: preciso de tornar a minha casa mais acolhedora. Ok. Nada de novo. O que verdadeiramente me impressionou, é que tive uma vontade incontornável de comprar uma casinha pequena num sítio pequeno, numa aldeia inexplorada de fins-de-semana pacatos. Um sítio onde, apesar de tudo, possa comprar o jornal e onde haja um café que me garanta comidas simples e onde não tenha de andar com o tabuleiro na mão.

O assunto é grave. Esta repentina vontade de sossego só pode significar que o tempo tem passado (ou será que desisti?). Mas isso é uma coisa a que ninguém pode fugir, pois não?

Estes dias que passam 32

Antes que me esqueça

Parece que o dr. Marcelo Caetano nasceu há cem anos. É uma efeméride que talvez me não suscitasse grande vontade de escrever não fora dar-se o caso de a RTP ter resolvido fazer uma longa reportagem sobre o último e malogrado Presidente do Conselho do Estado Novo. Não vale a pena estar aqui a indicar as asneiras factuais (eu aqui no blog já me enganei um bom par de vezes quando conto alguma história com foros de verdade nua e crua. Porém um blog é um blog e não a principal televisão pública do país…). Realço apenas uma espantosa e que me toca: o ano de 69! O annus horribilis de Caetano. Ora a querida RTP fala, en passant, dum crise académica de 69 em Lisboa sem sequer, ao menos, lhe juntar Coimbra onde de facto houve uma crise.
A crise de 69 (em Coimbra) foi a única em que uma greve aos exames resultou, que acabou com um ministro (Hermano Saraiva) obrigado a demitir-se, foi a única que fez o poder recuar libertando estudantes presos e reenviando para Coimbra todos (suponho) os estudantes incorporados á força no exército como castigo pela sua actividade politica e associativa. Foi também a única greve que levou à demissão de um reitor e à sua substituição por um professor prestigiado, que obteve o beneplácito dos estudantes (caso único ao que sei em greves estudantis portuguesas).
Marcelo Caetano foi, e ninguém o nega, um excelente especialista de direito Administrativo e um reitor da Universidade de Lisboa que teve a ousadia de se demitir por discordar da politica repressiva levada a cabo pelo governo da altura.
Como politico foi sempre medíocre, quer seja como Comissário Nacional da Mocidade Portuguesa, onde não ousou sequer organizá-la convenientemente, quer como Ministro da Presidência de Salazar onde foi insignificante. Quando finalmente foi chamado a desempenhar o cargo de Primeiro Ministro foi pobremente cinzento. Despertou alguma curiosidade, pouquíssimas esperanças (logo desvanecidas) e mesmo o famoso programa económico do seu consulado ficou aquém do que poderia e deveria ter feito. Nesse ponto não teve o arrojo da Opus Dei espanhola chegada ao poder no pais vizinho em 62 (seis anos antes de Caetano!!!). Hoje em dia parece que os comentadores benévolos de Caetano esqueceram o ambiente económico da Europa nessa época. Talvez assim percebessem melhor as razões da politica desenvolvimentista (!!??) de Caetano.
O último ponto que cumpre assinalar no panegírico de Caetano é o da sua propensão a usar a televisão (as chatíssimas “conversas em família”). Caetano seguiu o exemplo, entre outros, de De Gaule que sabia (e de que maneira!) usar a televisão. Não inovou, portanto, e foi sempre baço nessa tarefa. Via-se à légua que estava a ler um texto sem chama nem entusiasmo. Nem vontade de convencer os espectadores…
Tem pouco a pouco vindo a afirmar-se, neste país, a ideia peregrina de valorizar o desastre de quarenta e muitos anos de chumbo, quer mantendo a ideia de que o regime republicano arruinara o país (como se os dois últimos decénios da monarquia não tivessem sido o que foram…), quer tentando usar o argumento da falta de autoridade, de civismo, de segurança que ora se cola aos tempos que correm. Como se o civismo tivesse sido moeda corrente no regime anterior! Quanto á autoridade e segurança têm toda a razão: havia muita e muito forte. Um outro ponto que já vi também brandido pelos saudosos órfãos de Salazar é o da corrupção. Segundo estas alminhas inocentes isso era chão que não dava uvas nos quarenta, cinquenta e sessenta. Dava, estejam descansados, havia corrupção á fartazana. Com uma diferença: não vinha nos jornais. Como também não vinha mais nada, nem sequer as (poucas) viagens do Dr. Oliveira Salazar pelo pais. Não só não eram publicitadas como também só depois de efectuadas é que o pagode sabia que Sª. Ex.ª tinha estado em Alguidares de Baixo. Era até por isso que chamavam ao homem o “Esteves” (de esteve, estão a ver?). Os ditadores, na versão lusitana e cavernícola, temiam os atentados e não poupavam nas cautelas.

P.S. que não tem nada a ver: o ditador Stroessner, trinta e cinco anos de impunidade criminosa, morreu tranquilamente na sua cama em Brasília, com noventa e tal anos. O Paraguai, em tempos próspero, continua na miséria.

20 agosto 2006

Será que os advogados mandam alguma coisa?

Diz o CORREIO DA MANHÃ, hoje, domingo:

Os juízes admitem que os processos estiveram parados em Julho, os funcionários judiciais confirmam e os advogados não têm dúvidas de que foram os mais prejudicados com a nova lei que reduziu as férias judiciais de Verão ao mês de Agosto.

Diz o SINE DIA (Maia Costa), um destes dias:

Aliás, uma análise objectiva da "produtividade" da redução das férias nunca poderá ser feita por uma das partes "interessadas", não é verdade?
E não me enganarei muito se predisser que esta "importante alteração legislativa" ainda vai ser revista por pressão... dos advogados.

19 agosto 2006

Férias para que te quero 4

(de bandeiras, de picnics, do trisavô e de meninos
(dos que fomos e dos que estão a chegar))
Quinta feira

Os incêndios estão para durar segundo diz o jornal. Todavia a praia estava menos sombria, havia mesmo sol, avistavam-se a margem sul e Portonovo, pelo que espero que as pessoas comecem a ganhar esta batalha temível. Pelo menos, e isso é um bonito gesto, apareceu pela região autonómica o primeiro ministro declarando que vinha assumir todas as responsabilidades. Eu, que não sou um fã incondicional de Zapatero, tenho que lhe louvar a dignidade. E também não sendo um patriotaço como já por várias vezes aqui declarei, devo dizer que me tocou e orgulhou a presença de bombeiros portugueses chegados para ajudar. E gostei de ver a bandeira nos autotanques e nos restantes equipamentos. Esta bandeira vale cem golos, perdoarão a insistência.

Sexta-feira
Os incêndios não acabaram. Mudaram apenas de sítio mas isso explica que a cinza já não apareça tanto, e que o ar que se respira seja menos pesado. De todo o modo há pelo menos duas cidades importantes com o fogo a chegar às casas: Ourense e Santiago. As coisas são de tal modo que começo a pensar se nisto não andará mão organizada. Com que fins é difícil sabê-lo, e é isso que me contém as convicções. Mas que estes fogos começam sempre da mesma maneira, nas zonas mais inacessíveis para abrir caminho até povoações disso já não restam dúvidas. E de todo o modo os fogos são ajudados por dois factores: o vento de nordeste que de dia quase se não sente e à noite aumenta de intensidade, e a desbragada plantação de eucaliptos cujas copas ardem violentamente propagando assim com extraordinária rapidez as chamas vorazes. Se o primeiro factor não pode ser controlado (no Verão e nas zonas costeiras ocidentais da península o vento sopra geralmente do quadrante norte, a “nortada rija” que me recorda a Figueira natal...) já o segundo é única e exclusivamente obra do homem. Além de secarem tudo à sua volta os eucaliptos precisam de fogo para crescer e renovar-se. É claro que a plantação selvagem e desregrada deles e o abate das espécies indígenas tem consequências temíveis e que já se conhecem.
Todavia deixemos este tema, e passemos, a outros mais amáveis: por exemplo a praia e as multidões que agora, num frenesi desesperado, percorrem a beira mar a marchas quase forçadas. Alguém terá dito às criaturas que andar pelo areal faz bem. Vai daí isto parece a olimpíada da terceira idade. Não param! Avançam em pequenos grupos, em passo estugado, ar concentrado, como se só assim gozassem a praia. Como se com um par de quilómetros na areia fossem a absolvição de onze meses de falta de movimento. Como se o stress urbano, o ir para todo o lado de carro, pudessem ser compensados com duas semanas de passeios matutinos à beira mar. Tanto mais que não são passeios, mas marchas determinadas e forçadas a meio trote. Isto para já não falar nos solitários que percorrem o areal raivosamente, sozinhos, com auscultadores nos ouvidos. Para eles nem sequer o existe o barulho da rebentação, os gritos da miudagem, só uma meta longínqua, o fim da praia, a meia volta e o recomeço desse jogging desigual sob o sol inclemente do Verão.

sábado
Contra todos os hábitos de cavalheiro civilizado que, ao ver-se chegado a uma idade respeitável, já não dispensa as suas pequenas comodidades, transigi em participar de um picnic que os meus velhos amigos (e amigas, pois claro!) veraneantes da praia de Moledo, a que me ligam tão boas, e tão exaltantes, recordações, todos os anos organizam. Também eles acusam o peso dos anos e o gosto pelo conforto. O picnic ocorreu na casa da Isabel e do Manel “electricista”, havia cadeiras, muito comida (e boa!) e a excelente conversa do costume. E uma excelente piscina para um mergulho pela tardinha para abrir um apetite entorpecido pelos, como já se disse, muitos e excelentes pitéus. Como dizia o António Martins, outro dos convivas, chegámos demasiado depressa à idade do desperdício. Tendo comido como abades, a mesa continuava cheia de coisas boas que davam para mais dois encontros destes. Como as minhas pacientíssimas leitoras terão adivinhado isto passa-se com um grupo de pessoas de esquerda que, apesar de tudo, lá vai tentando manter viva a chama de há vinte, trinta ou mais anos, quando corríamos à frente da polícia, como bem lembrou uma ex-cliente minha surgida do nebuloso ano de 1972 ou 73 quando ela estava acusada de distúrbios na universidade e eu advogadinho fresco e com o sangue na guelra a defendia e a mais umas dezenas de colegas. Foi bom ver-te, ó caloira ignorante mas insurrecta, mais indignada que revolucionária, foi bom ver-vos amici miei (faltaram o Carlos Brandão e o Manuel Sousa Pereira, mas enfim, não se pode ter tudo). Foi bom ver o João Simas babado com a hipótese breve de um rebento, foi bom ver a Rosa Lu, última descendente (até ao momento!) dos Azinheiras, oito meses feitos, nada e criada no meu Berlim, no Berlim do trisavô Ernst Richard Heinzelmann. Rosa Lu (ou Lou?) que nome tão prometedor! Em tempos que também já passaram, o Manuel Simas, o Anto e este que estas traça, com muitos outros, fundaram uma editora que se estreou publicando a “Praça da Canção” do Alegre e o famoso “Partido, massas e sindicatos” da Rosa Luxemburgo. Fã que sou de Nietzsche e de Rilke se este Lu da azinheirinha for Lou lá está uma bela homenagem a Lou Andreas Salomé. E vai tudo dar ao mesmo!

...los niños.

Sus ojos como absortos
Qye nos miran, envuelven.
La tremenda confianza en nosotros!

Los niños increíbles
Que ahí están, como nada,
Y nos miran, nos miran...
...pensemos en los niños.
Un silêncio espectante
Reluce en esos quietos ojos interrogantes.

Gabriel Celaya: excerto de “los niños miran de frente” in “Cantos Iberos” 1954




A brigada vem aí

Uma mega campanha do Governo contra a obesidade de quatro milhões de portugueses, entre adultos e crianças, vai ser lançada em Setembro. A indústria alimentar terá de colaborar nesta autêntica ‘frente nacional’ pela saúde, com a redução das quantidades de açúcar e de sal, bem como a produção de mais alimentos ‘light’ (com baixas ou nulas calorias e gorduras). É o que nos diz o Correio da Manhã deste Sábado. Por outras palavras: Sócrates - que já anunciou o propósito de perseguir os fumadores - quer-nos todos magrinhos, musculados, à sua imagem de atleta. Não tarda, obriga-nos a vestir uns calções de licra côr-de-rosa para ir correr no calçadão. Eu já tinha alguns motivos para nunca aceitar ir jantar a casa do homem. Agora tenho mais um. (Dúvida: não era o velho Adolfo que também tinha destas cismas?)

(Bem. Nesta foto surrupiada ao Expresso, o calção não é côr-de-rosa)

Entretanto, conta o Portugal Diário, que Camille Loiseau, «a deã dos franceses» morreu sábado, com 114 anos e seis meses. A senhora poderia ter chegado aos 115, se não fumasse e tivesse cuidado com a alimentação - terá dito o nosso Sócrates.

Se eu tivesse uma destas profissões, até pensava que... Burnout

Burnout é, segundo o Portugal Diário, citando o Insituto da Inteligência, «uma forma muito severa de esgotamento mental e físico devido a excesso de stress intelectual e emocional» que, segundo o neuropsicólogo Nelson Lima, atinge entre «10 a 40 por cento da população laboral». Entre os mais expostos, estão estudantes, controladores de tráfego aéreo, taxistas, jornalistas, professores, gestores, artistas e médicos. O especialista explica que «pode demorar um ou dois anos para recuperar, mas algumas sequelas mantêm-se por muitos anos».

A doença resulta de stress ocupacional extremo e apresenta-se com três diferentes componentes: «exaustão emocional, despersonalização e ausência de realização pessoal». Os atingidos pela doença «manifestam, entre outras queixas, falta de energia, fadiga crónica, tensão, irritabilidade, aumento da susceptibilidade à doença, desânimo, esgotamento emocional, baixa auto-estima, falta de concentração, problemas de sono, sentimentos depressivos e evidente diminuição do rendimento no trabalho».

18 agosto 2006

respirar


respirar o fogo;
a chama a encerrar(-me)
tão fundo no peito
-punhal e prisão-
arde sobre a ferida.
sobre a noite em grades.

morder os lábios,
os músculos crispados
a combater a lágrima
e o corpo vazio.

dobrar a dor
meticulosamente
e (simular) guardá-la
fora do alcance.


silvia chueire

férias para que te quero! 3

(onde se fala da família, do fogo e do tentado extermínio dos mexilhões.
E de livros, claro!)
4º dia
A prima Maria Manuel e o Eduardo apareceram para almoçar, dar dois dedos de conversa e ir por livros ao cafarnaúm que é a Libreria Michelena em Pontevedra. A perigosa Maria Manuel veio ajoujada de romances acabados de sair. Descobri que já tenho com quem falar de autores espanhóis, paixão comum, vê-se que somos família...
O tempo continua a surpreender tanto o calor que faz. Os banhistas agradecem mas a televisão traz notícias terríveis dos incêndios que grassam um pouco por toda a parte e sobretudo aqui perto. Até nisto somos parecidos, galegos e portugueses. Deixamos arder um património que nos foi legado, deixamos arder uma floresta que desnaturámos com eucaliptos e outras espécies de crescimento rápido.
6º dia cheira a fumo por todo o lado. Dir-se-ia que os incêndios nos cercam. O céu está escuro de fumo, não se consegue ver a margem sul da ria e no nosso terraço há cinza trazida pelo vento.
“Menuda queima!” diz a empregada do bar enquanto serve uma garrafa de água mineral. Oiço este galego saboroso e mestiço, menuda é castelhano e queima galego e digo-me que menudo traballo espera os cavalheiros que querem à viva força fazer uma nova língua galega. Antes de prosseguir gostaria que as escassas leitoras reparassem na ironia deste menuda que aqui quer dizer rigorosamente o contrario: grande, grandíssima. A aventura da língua é para mim um viagem infindável. Sou, quase sem o querer, um tradutor a tempo (quase) completo. Com algumas balizas: só traduzo de línguas em que possa fazer palavras cruzadas e insultar o próximo como um carroceiro indígena. Estou limitado por isso ao espanhol ( galego e catalão, incluídos) e ao francês. E um pouco ao italiano língua em que nunca experimentei as palavras cruzadas mas em que me desembaraço nos insultos.
Voltemos porém ao fogo. Se quisesse armar em irónico diria que isto parecia o Portugal do ano passado. Os fogos aparecem por todos os lados e os bombeiros “no dan abasto”. Há um vento preguiçoso mas suficientemente irregular para trocar as voltas a quem combate os incêndios. Os jornais falam em fogo posto mas, sem querer negar essas situações, penso que os autores do fogo foram os proprietários gananciosos, as autoridades imprevidentes, o habitual deixa andar que é uma das características que irmanam galegos e portugueses.
Segunda feira,
A praia hoje era varrida por uma brisa ligeira que trazia cinza e um forte cheiro a fumo. Ao nevoeiro da manhã juntou-se o fumo de parte dos 46 fogos que assolam a província (distrito) de Pontevedra. Terá sido isso que provocou uma tão grande baixa de banhistas nesta segunda semana de Agosto?
Baixa também e significativa no número de portugueses nestas praias. E todavia continuam a ser de preços moderados comparados com os do Algarve. O pequeno comércio queixa-se desta temporária (?) deserção lusitana. As minhas habituais fornecedoras de pão matinal, fruta, a empregada do bar onde tomo a primeira bica da manhã e o cavalheiro da papelaria onde vou também pela manhã buscar o jornal todos se conjugaram em perguntar-me a que se deve a ausência dos compatriotas. E, mesmo antes de responder, alvitram, o euro! E, curiosamente, nisto vão ao encontro dos seus congéneres portugueses: no dia em que parti ouvi a mesma queixa quando comprava o último exemplar de jornal português durante estes quinze dias. Ou seja, como de costume, os de baixo, para citar Brecht, põem o dedo na ferida e contradizem os economistas que nos prometiam dias de leite e mel. Sem querer armar-me em populista sinto-me inclinado a concordar com estas vozes que se vão ouvindo. O euro está a tornar-nos a vida cara, muito cara. Aliás o que agora se vai ouvindo com mais insistência por cá ouvi eu no ano passado em Itália e há ano e meio em Paris. O euro, passada a euforia, fez disparar os preços.
Quarta feira
Falai no mau e preparai o pau. Enfim, isto foi só para usar o provérbio porque nem falei no mau e muito menos preparei o cacete vingativo à moda de Fafe (com Fafe ninguém fanfa! ... e eu a dar-lhe!!). Hoje chegou o casal Simas para uma brevíssima visita, apesar dos nossos protestos e do quartinho que já lhes estava destinado. A Cândida veio confessadamente dar uma mão ao extermínio dos mexilhões mas aquilo foi mais ameaça do que outra coisa. Sim, porque, para quem a ouvir, ela é o Atila da espécie mexilhoeira, a suma theologica do extermínio dos simpáticos bivalves. Houve até alguém que terá agarrado no simpático brocardo do mar a bater na rocha para o transformar em quando a Laurinda aparece quem se lixa é o mexilhão! Ao fim duma travessa estava rendida. A aquacultura galega tremeu mas não caiu. Podem vir à Galiza que ainda não foi desta que o mexilhão se extinguiu.
Foi bom ver, estar com os amigos que também foram (e são) camaradas!

Cada cual tuvo entonces un origen distinto.

Yo sé donde acabaran nuestras revoluciones,
Pero donde empezaban nuestros sueños?

Si empezaron por culpa del dolor,
Hay motivos recientes para seguir soñando.
Si empezaron por culpa
De nuestra envenenada estupidez,
Puedes seguir soñando,
Pues también hay motivos.



(Luis García Montero: poema “compañero” in Habitaciones Separadas, Visor, 1994)


Mil Fontes, a "princesa" porcalhona




Reparei na notícia (Público, quinta-feira), porque os meus filhos estão por lá: a praia da Franquia, uma das principais de Mil Fontes, está impraticável, em consequência de descargas de dejectos. Os banhistas estão revoltados. Com razão: como é possível, em pleno séc. XXI, que uma das principais e mais bonitas praias da Costa Vicentina possa, em pleno Verão, estar sujeita a este atentado à saúde pública? Mas o curioso da questão não se esgota aqui. Lida a notícia, avancei para a página seguinte. E que vejo, senhores? Um anúncio de meia página, a cores, com o título: "Vila Nova de Mil Fontes, Princesa do Alentejo"! Meia página de apologia à "princesa". O despropósito não podia ser maior. Teremos de concluir que a "princesa" é uma porcalhona.

Boas notícias

Notícia CM
Governo anuncia novos tribunais...

O novo tribunal de Vila Nova de Famalicão estará pronto em 2007; o de Silves será inaugurado ainda este ano; o Tribunal de Trabalho de Lisboa, no primeiro semestre de 2007 (trata-se de um novo edifício no Largo de Santa Bárbara); o novo Tribunal de Execução da Maia abrirá até ao final deste ano. Finalmente, o novo Tribunal do Trabalho de Viana do Castelo estará pronto em 2007.

...e obras em 30 que já existem

Os trinta tribunais onde estão a decorrer obras são: Castelo Branco, Ovar, Vila Verde, Maia, Leiria, Lagos, Lourinhã, Tribunal do Trabalho de Viana do Castelo, Relação de Lisboa, Évora, Valpaços, Esposende, Juízos Criminais do Porto (Bulhão), Juízos Criminais de Lisboa, Palácio da Justiça de Lisboa, Tribunal de Execução de Penas de Lisboa, Aveiro, Viseu, Beja, Tribunal da Boa-Hora, Juízos Criminais do Porto (S. João Novo), Seixal, Fornos de Algodres, Montemor-o-Novo, Marinha Grande, Figueiró dos Vinhos, Ponte de Lima, Caminha e Santa Maria da Feira.

Vida difícil para Isaltino

Notícia DN

Três juízes desembargadores do Tribunal da Relação de Lisboa (TRL) antevêem que Isaltino Morais, a sua irmã Floripes Almeida e o ex-jornalista Fernando Trigo serão condenados pelos crimes de corrupção passiva, branqueamento de capitais e abuso de poder. Na apreciação de um recurso do Ministério Público (MP) sobre as medidas de coacção aplicadas aos três arguidos, os juízes afirmam que os "elementos factuais constantes dos autos, fortemente sustentados em termos de prova indiciária, colocam-nos perante condutas delituosas de elevados graus de ilicitude e de culpa, fazendo antever como muito prováveis futuras condenações". (ler mais no DN desta sexta-feira)

17 agosto 2006

férias para que te quero 2

(notícia de uma língua, de amigos sempre presentes,
da memória a redescobrir e da coragem )

2º dia
Se há coisa com que a Crazy Grazy engalinhe é com a simples suspeita de que, nalgum esconso da casa que ocupa, por uma vida, ou por quinze dias, haja um temível grão de pó. Esta nasceu com a mania da higiene. Resultado: adivinham quem esteve durante uns largos minutos a lavar louça? Quem votou CG enganou-se e volta para a casinha do inicio neste jogo da gloria veraneante. Quem estas dedilha no iBook G4 esteve de faxina durante um tempão para a louça vulgar. Amanhã iremos comprar lixívia, esfregão palha de aço, remédio contra as formigas, idem contra os mosquitos. Com o treino que estou a ter posso montar uma empresa de limpeza a domicílio.
Para espanto e inveja dos confrades que se atiram para o Algarve, a água do mar aqui tem estado a temperaturas mediterrânicas! Um escândalo! A Galiza tinha boa fama mas era mais no que respeitava ao chope-chope do que à calidez das suas águas.
Desde que este aquecimento não signifique mais lenha para a fogueira independentista que assola sectores minoritários das autonomias espanholas, força! É que uma das tolices que ouvi por várias vezes é a da perdida soberania galega. Convém lembrar que, fora uns escassíssimos anos que se perdem nas brumas medievais, nunca a Galiza foi independente. E mesmo nessa incerta época de estados a fazerem-se e desfazerem-se num xadrez para que também contribuímos, a ideia de Espanha, herdada dos visigodos, era o fio condutor das políticas peninsulares.
E com esta, aproveitando a boleia, vamos à língua galega. Indo por partes. Se bem recordo ouvi Rodrigues Lapa defender que o galego era tão só um português parado no tempo e que só no português teria futuro. É uma opinião, respeitável mas só uma opinião. Na verdade, o galego não parou totalmente, sempre se falou entre o povo, a arraia miúda, os “labregos e mariñeiros”, ou seja camponeses e pescadores. Os “señoritos”, a burguesia galega, os emigrantes adoptaram sempre o espanhol, que era como Camilo José Cela chamava ao castelhano. E a inteligentsia galega escreveu sobretudo em espanhol. Ou foi bilingue. D. Ramon del Valle Inclán deixou proibido por testamento a encenação das suas peças usando o galego. E isso porque, justamente, eram tantos e tão saborosos os galeguismos na sua especial língua que a tradução os mataria, destruiria o dinamismo daquela riquíssima linguagem que tantos lhe invejavam. Torrente Ballester, Cela, seguiram-lhe o exemplo, escrevendo em castelhano. O grande Cunqueiro escreveu muitos dos seus textos em castelhano e por aí fora. A emigração galega, sobretudo a argentina e a cubana, foram vectores de espanhol e não do galego original que os seus maiores teriam falado, como pobres que eram. O mesmo ocorreu com os galegos (e foram tantos) que vieram enriquecer Portugal, enriquecendo-se eles também.
Mas para mim, turista desde há tantos anos nestas terras, e neste mar, o problema há muito que se resolveu: falo português semeado de palavras galegas se as sei e por pura simpatia. Gosto da palavra nai bem mais do que da lusitana mãe e teria pena se esta última substituísse a primeira.
3º dia
A história da minha relação com a Galiza vem de longe como a esquecida fama doLicor Beirão (ou seria do brandy Constantino?). De facto, na minha estouvada mocidade liceal, quando tive de ler (e que bom que foi!!!) os trovadores galaico-portugueses, já me perguntava como seria esta terra, se as “ondas do mar de Vigo” eram iguais às de Buarcos (não são, claro, as de Buarcos além de fortes tem o perfume e a frescura dos primeiros anos, dos primeiros amores, dos primeiros sobressaltos ao adivinhar um seio em flor pudicamente escondido num daqueles fatos de banho incríveis que se usavam no rançoso Portugal de cinquenta.
Depois dessa descoberta de afinidades literárias, veio a descoberta da terra pobre, deste litoral perdido, longe de tudo, que os meus amigos emigrados demandavam para poderem estar um pouco mais perto da pátria madrasta. E aqui vinha eu, acolher-me, por uns dias, à jovial hospitalidade da Luísa Feijó e do Octávio Cunha, amigos antigos, doces amigos, que alugavam uma casinha de lavradores na perdida aldeia de Noalla em frente da Lanzada praia enorme e deserta como quase deserto eram Sanxenxo e O Grove.
Por essa época, acabada que fora a nossa tumultuosa vida académica, o temível Manuel Simas Santos, magistrado recentíssimo na fronteira, desafiou-me para a aventura de passador clandestino de clandestinos fugitivos políticos e de militares relapsos à guerra infamante de África. Com a Cândida Laurinda, corajosíssima, o Zé Teixeira Gomes e o Zé Ataíde entre outros estudamos aquela fronteira toda, quilómetro a quilómetro, passo a passo e podemos, hoje, gabar-nos de 100% de êxito nas passagens que fizemos.
E se recordo essa aventura é tão só para poder recordar melhor Manuel Alves, pai da Laurinda, soldado da República espanhola, na brigada Máximo Gorky que fez a guerra nas Astúrias. O senhor Manuel Alves, ex-mineiro, ex-contrabandista mas sempre homem de bem, foi, enquanto soldado republicano, clemente com os inimigos desarmados. escondidos e aterrados a tal ponto que, no campo de prisioneiros onde a derrota o conduziu, foi reconhecido como tal por alguém a quem perdoara a vida. De volta a Portugal, acolheu fugitivos republicanos, protegeu-os, alimentou-os e salvou-os sabe-se lá de quê. Possivelmente da morte... Em época de Ley de la Memória Histórica há que relembrar que Portugal não foi só a retaguarda dos franquistas, o berço dos “viriatos”, a entrega infame de fugitivos aos carrascos do outro lado. Muita gente, a melhor, arriscou muito, por esses desgraçados acossados pelas polícias dos dois países. É bom lembrá-los através desse meu velho amigo senhor Manuel Alves, que curiosamente foi o pretexto do meu primeiro texto neste blogue que fidalgamente me acolhe. E é tempo de escrever o que sabemos senão o que vimos.

...No. No dejan ver lo que escribo
Porque escribo lo que veo.
Yo me sento en el estribo.

E escribi sobre la arena:
Oh blanco muro de España!
Oh negro toro de pena!


(Blas de Otero: Excerto de “no quiero que le tapen la cara con pañuelos” in “Que trata de España”, 1964)


16 agosto 2006

No verão

Naquele tempo o mundo era jovem e enorme. Ou nós éramos pequeninos. Mas lembro-me perfeitamente.
Os principais cafés daquela cidade perdida entre o mar, a serra e o rio, o Nicola e o Oceano, tinham orquestras, jazzbands dizia-se. E nas esplanadas do “picadeiro” as pessoas vestiam-se com cuidado, pelas tardes e pelas noites.
Eu lembro-me de algumas tardes na “cervejaria Cristal” (a Agustinha) em que um grupo de jovens médicos, algum advogado e um professor e um engenheiro, bebiam a cerveja bem tirada, a única digna deles e dos seus sonhos, e conversavam, e riam, e esperavam um mundo novo para eles e para a criançada onde eu me incluía.
E a minha mãe, lindíssima (e não sou eu que o digo, atenção, que para os filhos as mães são sempre bonitas), bebia um gole da cerveja do meu pai e dizia na inocência dos seus vinte e três anos (já eu ia com quatro!) que aquilo lhe fazia doer todos os ossinhos do corpo!
E nós corríamos por aquele bendito quadrilátero de ruas fechadas ao trânsito, só parando para mendigar uma bola de Berlim (só uma!) e volta a correr. Anos mais tarde, haveria de descobrir que o verdadeiro nome daqueles bolos era Pffannkuchen em Berlim e Berlinerpffannkuchen no resto do mundo. E nessa cidade, onde perdi um bom par de ilusões, lembrei-me dos anos inocentes, ao ver senhoras de chapéu e luvas nas esplanadas da Kurfürstendamm.
Outras vezes os crescidos iam para o Pátio das Galinhas, o pátio do Casino Peninsular, que a estupidez construtiva de um punhado de imbecis destruiu sem perceber que ao destruir essa esplanada, algumas casas, um enorme parque e dois cinemas destruíam a cidade e tudo o que durante dezenas de anos a tinha definido. Foi nesse pátio que a tia Néné vendo um homem de casaco branco de costas o tomou por um empregado e encomendou o seu chá. Azar dela: era o Toninho Neves, nosso vizinho, que amavelmente lhe disse que o casaco era branco e de bom alfaiate mas que ele não servia chás.
Desta história não me lembrava mas a minha mãe, ainda hoje a conta, com uma imitação tão perfeita da estupefacção da irmã e do embaraço do Toninho, que me faz inveja.
E aproveitando esta boleia do Toninho, convém lembrar que o Verão naquele tempo durava três meses longos, o que permitia a realização de cem jogos de futebol na praia, a centenas de banhos de mar, a fugas audaciosas pela janela do quarto onde nos obrigavam a dormir a sesta! Era a hora em que a praia era melhor porque sabia a proibido, a aventura, a desafio.
Adolescentes, íamos numa ranchada deste a “praia”, nossa zona, até ao centro da cidade, num percurso que só pareceria errático a quem desconhecesse os subtis segredos da juventude, a descompassada geografia dessa feliz ignorância que depressa se perderá quando o Verão se encolher até não ter mais de duas ou três semanas.
Passaram-se já muitos verões depois desses que recordo com uma desnorteada ternura. Os amigos que bebiam cerveja na Agustinha já não estão entre nós. Nem um! Morreram todos antes de chegar aos setenta, morreram a contra-corrente, morreram e não tiveram substitutos à altura, tristemente o digo.
O mundo alargou-se para nós meninos desses anos dos fins de quarenta e princípios de cinquenta. Agora as férias, quinze dias, três semanas, passamo-las em sítios absurdos aos quais nada nos liga, a que provavelmente não voltaremos, praias perdidas num mapa que já não sentimos nosso e que, de facto, não o é.
Escrevo isto enquanto na televisão passa Paco Ibañez cantando “la poesia es una arma cargada de futuro”. E isso atira-me para um verão quentíssimo em Madrid, num Madrid que continuava subterraneamente a resistir, e depois de assistir casualmente a uma manifestação gigantesca a favor de um morto vivo chamado Francisco Franco, que morreria logo a seguir. Depois de ver a manifestação, gigantesca repito, encontrei-me com militantes de esquerda num pequeno bar que tranquilamente diziam que antes de acabar o ano Franco apenas seria uma recordação. E eu, metido naquela onda mansa, propus que Franco morresse no dia dos meus anos. Foi por pouco: morreu seis dias antes do meu trigésimo quarto aniversário. Bem se vê que os ditadores até na morte nos fazem fintas.


d'Oliveira



férias para que te quero! 1

(um diário de bordo)

Então vocês leitorinhas gentis, que desprevenidamente foram a banhos, pensando que finalmente estavam livres deste escriba desbocado que aturam com essa gentileza paciente de quem sabe que se “os vellos non deben namorarse” sempre há que ter com eles a indulgencia que se tem com os nenos.
Está-se mesmo a ver que escrevo da Galiza, da Galiza galega, da Galiza que fala (xá falamos, diziam há uns anos) esse idioma de “labregos e mariñeiros” como dizia o meu amigo Xesus Alonso Monteiro há muitos, muitíssimos, anos em Coimbra, quando no CITAC ensaiávamos uma peça sobre a vida de Castelao. E com ele tinha também vindo desta Galiza, terra de “meigas” o Luis Seoane, pintor, escritor, intelectual, tudo, para connosco, jovens estudantes de Coimbra, nos idos de 68/69. e com o Ricardo Salvat, catalão de Girona, fazermos um teatro que fosse épico, à maneira de Brecht, interventivo como os tempos exigiam e verdadeiro como era a nossa esperança nesses anos de vinho e rosas, de cólera e chumbo, anos da nossa juventude, anos intensos como o cheiro do pão acabado de cozer a fazer figas à nossa fome de paz, de liberdade de democracia como dizia o slogan.
E agora que já atirei à esquerda, como convém, que querem que vos diga? Pois que saímos do Porto com chuviscos, bem dizia a dona Rosa que me vende diariamente o jornal, “primeiro de Agosto, primeiro dia de Inverno”. Raios e diabos, logo hoje que começam as férias lamentava-se a Crazy Grazy que trazia debaixo da roupa viajeira o biquíni posto! Isto só a mim!
Mas mal o mar espreitou no fim da ria de Pontevedra e já o sol se anunciava, macio e quente, como se deve no Verão. O apartamento, á beira ondas, estou a escrever isto a quatro metros da água!, estava apetrechado com tudo o que necessitam duas criaturas em paz consigo, e entre si.
O mar estava excelente pelo que me permiti uns breves mergulhos a fazer boca para uma caña e azeitonas (não apareceu ninguém, apesar do convite, aqui mesmo feito. É o que perdem!).
Os confrades bloguistas quererão saber se eu cumpri o menu anunciado. Claro que cumpri. Almoçamos uns mexilhões ao natural, os pimentos do Padron (uns pican otros non) e uma travessa de gambas grelhadas. E por hoje é tudo. Tudo não, porque temos agora tempo para uma vez mais gozarmos a paisagem.

...Beberei a paisaxe
num amencer de lírios
As campanas do mar
nos ventos fuxidios.

Cada intre un paxaro,
cada pulso un latexo.
Unha espada de chuvia
Cortando a frol do vento ...

(excerto de um poema de Celso Emílio Ferreiro[1912-1979] com o título spiritual, in “Longa noite de pedra” , El Bardo, Madrid, 1968

Se alguém não perceber o galega que diga para eu fornecer a tradução!


15 agosto 2006

Meus caros amigos

Mal recomecei, já anuncio interrupção... pois é, cabe-me a mim ir agora para longe dos terminais informáticos; talvez espreite uma vez ou outra, se se apresentar oportunidade, mas suspeito que para onde vou ainda devo pagar mais por minuto do que o Carteiro no Algarve... e ainda por cima numa moeda estranha! Querem saber qual? Deixo uma pista em seguida - mas não dou prémio a quem adivinhar porque é demasiado fácil :)


Quem sabe trago inspiração para um ou outro postalito, de preferência (eu sei!) mais pequenos que o anterior :)
Abraços e fiquem bem

PS - Sílvia, estarei de volta ainda antes de Setembro. Estou a contar abraçá-la "de verdade", em breve!!!

14 agosto 2006

Enganos

Notícia do Portugal Diário. E é caso para dizer que, afinal, os defensores das posições do Hezbollah andavam enganados. O Hezbollah ganhou a guerra, garante o seu próprio líder.

Tiros de celebração ouviram-se, por toda a capital libanesa, Beirute, quando o chefe do Hezbollah, xeque Hassan Nasrallah, declarou vitória sobre Israel, escreve a agência Lusa.
Hassan Nasrallah, reivindicou uma «vitória estratégica e histórica para todo o Líbano e para a resistência», depois do cessar-fogo com Israel.
«Trata-se de uma vitória estratégica e histórica para o Líbano, para todo o Líbano, para a resistência e para a unma (nação islâmica)», disse ele a uma cadeia de televisão do seu movimento, a Al Manar.

Para ler

"Diz alguma coisa de direita" é o título do texto de Francisco José Viegas no JN desta segunda-feira (página de Opinião). Vale a pena ler.

12 agosto 2006

Postais do Sul - II

Magnus e os Olhos d' Água

Numa decisão súbita, inspirada na vontade de jantar e na não menos insidiosa vontade de, no pouco que restava de noite disponível, deixar uma vislumbre que fosse do “meu” lindíssimo Algarve àquele jovem estrangeiro a quem trazia de boleia desde Lisboa e que partiria já no dia seguinte rumo a outras paragens, eis-me a inflectir caminho mesmo a tempo de, ao invés de rotineiramente prosseguir para Vilamoura, descer aos Olhos de Água, onde ultimamente evitava ir.

O jovem, como convinha à situação de quem, com um parquíssimo orçamento, amealhado com esforço em trabalhos não qualificados, viajava há quase seis meses por lugares tão distantes e tão diferentes da sua terra natal (uma pequena vila no norte da Suécia) como a Índia, a Tailândia, a Malásia… nada sugeria e a nada levantava objecções.
Transportava-o a rogo da minha filha, que o conhecera e a quem dera abrigo por uma semana devido a circunstâncias inesperadas que não vêm ao caso (e, imagine-se, passam por encruzilhadas várias entre este nosso cantinho à beira-mar, Marrocos, Moçambique e países limítrofes) e que se condoera ao sabê-lo plantado na estação de serviço de Palmela havia já três longas e escaldantes horas, sem conseguir inspirar confiança em nenhum dos inúmeros viajantes a caminho do sul, pese embora a sua pele branca, os seus olhos azuis, o seu cabelo louro e o seu aprumo e asseio.

Ainda assim, pouco conhecedora deste tipo de viajantes – muito embora ele já me tivesse referido que, mais do que as paisagens, o que realmente o entusiasmava era o contacto com diferentes culturas e com as pessoas (ou não fosse ele estudante de sociologia) - lá fui avisando que queria mostra-lhe um sítio bonito mas que corríamos o risco de ter de voltar para trás por falta de estacionamento, porque a construção no Algarve… blá blá blá. Mas, até por a hora já tardia desaconselhar buscas mais longínquas de outros locais de beleza comestível, avancei intrépida pelo pricipal acesso à praia, tornado ainda mais estreito pelos carros estacionados de ambos os lados, à continuada falta de alternativa parqueante.
Do lado esquerdo ergue-se agora um hotel que na acentuada pendente se agiganta, qual muro de betão a escarnecer do que já foi uma minúscula aldeia de pescadores a qual, pese embora a construção há muito desenfreada para lá das pequenas casas bordejando o lado direito da estrada, ainda matinha uma aparência de equilíbrio naquela rua que é o coração daquele lugar que deve o nome às nascentes de água doce que borbotam à beira-mar.

Mas eis-me, afinal, a maravilhar-me com a beleza daquela pequena praia, que marca a transição entre os imensos areais do barlavento e as encantadoras prainhas escondidas por entre rochas recortadas que se estendem até à zona da Galé, já a sotavento. Praia agora iluminada por forma a realçar ainda mais os seus recortes rochosos e a permitir as brincadeiras de crianças supervisionadas pelos adultos que se passeiam no recém-construído calçadão, interdito a carros e que dá acesso aos dois restaurantes sobranceiros à praia de que o Carteiro já falou aqui. Por ficar logo ali à mão abancámos no La Cigalle (aquele que tanto desgostou o nosso Carteiro), onde uma pequena mesinha para dois mesmo junto à balaustrada sobre a praia parecia esperar-nos. Serviço simpático e eficiente qb, talvez potenciado por alguma rebeldia e mostra de conhecimento que dei do que é a tradição do bem comer algarvio (até uma “saladinha montanheira” para acompanhar o peixe assado nos fizeram, pois geralmente não se dão a esses “luxos”, que esta salada leva mais tempo a fazer que a banalíssima salada mista de todos os restaurante portugueses…)
As ameijoas estavam óptimas, a sangria de vinho branco idem, o peixe e a salada também e a sobremesa igualmente. A maré vaza, transfora a pequena praia num areal aceitável, o marulhar das ondas abafando algum excesso de entusiasmo das crianças brincalhonas, os namorados passeavando-se em busca da discrição de uma falésia menos iluminada e eu ouvindo histórias vividas em selvas inóspitas, em rios com sanguessugas, em aldeias hindus, em campos de ajuda humanitária, em Varanasi (um dos lugares onde a solidão mais pesara ao jovem que era mesmo muito jovem, msis jovem que o meu jovem filho). Horrorizei-me ao saber que contraíra uma espécie perigosíssima de malária, mau grado a medicação preventiva tomada e apertou-se-me o coração também ao pensar nos pais ao sabê-lo só e indefeso num qualquer hospital malaio, a muitos quilómetros e coroas de distância.
Sobreviveu a estas e outras maleitas, ficou uma fragilidade geral e uma fragilidade digestiva que o repasto não incomodou.

Ao pagar a conta pensei, por um segundo, no “aspecto”que poderia dar aquela cena e ri-me de mim para mim, não olimpicamente indiferente ao eventual diz-que-diz, mas sim impante por me dar o gozo de me estar nas tintas mesmo sem ser em terra alheia.
Rumei ao meu cantinho algarvio, contente por ter encontrado lugar para estacionar o carro na sobrelotada Olhos de Água, por ter encontrado uma terra e uma praia mais cuidada, limpa e bonita do que me lembrava, por ter proporcionado ao jovem hitchhiker uma boa refeição e por ter podido embandeirar em arco com as belezas “da minha terra ao sul”.
As únicas que aqui terá visto, por certo, pois no dia seguinte desistiu de visitar outros locais, receoso de ter o mesmo azar da véspera, em Palmela. Por isso lá o deixei numa estação de serviço que me pareceu propícia a um qualquer encontro com um camionista que rumasse a Espanha, daqueles a quem o excesso de quilometragem solitária solta a língua à vista do primeiro interlocutor interessado – o ponderado objectivo do jovem sueco naquele dia era chegar ao país vizinho, onde o aguardavam, e poder continuar a conversar sobre a vida em cada país no que, no seu dizer, os camionistas são um must.

O Magnus não deu mais notícias, pelo que concluí que desta vez não fora difícil apanhar boleia. Estará talvez já por essa Europa mais a norte, que o regresso a acasa urge, o dinheiro mesmo mesmo a acabar e a família está saudosa. Talvez já para o ano os pais vão viajar pela primeira para fora da Suécia. Querem ir para um sítio bem diferente do seu pais, com sol, mar e um passado histórico e cultural diverso. Ele, que gostou de Portugal, pensou na hipótese de lhes sugerir esse destino. Eu aconselhei a Turquia…

Entretanto o Magnus regressará ao trabalho, aos estudos e ao pequeno apartamento que paga e que arranjou pelos 18 anos, a pedido dos pais, quando as três irmãs começaram a crescer e pareceu chegada a hora de ele se fazer à vida. Disse-me que mudara de opinião, durante esta viagem de 6 meses, quanto à bondade da entrada da Suécia na UE - agora é a favor e vai "difundir a boa nova" na sua terra.

Magnus e os pais do Magnus. Dou voltas à cabeça a tentar encontrar algo de comum entre a sua maneira de viver e educar e a nossa, a portuguesinha. Talvez um dia os encontre e seja a minha vez de perguntar esta e outras coisas.

Postais do Sul - II série

Com Protal ou sem Protal, no Algarve, onde ainda restavam algumas figueiras e alfarrobeiras naquela nesga de terra ressequida que separa o mar da EN 125, a cada ano emergem, quais cogumelos alucinogéneos de crescimento ultra-rápido, mais e mais prédios de fachadas arrebicadas, variantes pobrezinhas do “estilo Parque dos Príncipes” revisto por desenhadores de vão de escada ao serviço de patos bravos, tudo muito integrado no ambiente natural envolvente, como será fácil imaginar…
Quando compreendi que não havia volta a dar, pois se tratava dos celebrados “direitos adquiridos”, passei a tentar não reparar, sob pena de andar constantemente irritada cada vez que me afastava do meu refúgio mais do que 5 kms.
Parece ter sido uma boa opção. Num qualquer momento que não consigo já determinar, eis-me a reparar agora nos esforços feitos para reordenar o possível e devolver às praias um ambiente minimamente amistoso, não só aos amantes da areia e mar (dunas e vegetação protegidas, areais limpos, funcionais e bonitos "apoios de praia"), mas também àqueles que gostariam de estar e passear num entorno em que as belezas paisagísticas e o clima ameno possam ainda compensar e, se possivel, obnubilar, a agressividade do excesso construtivo.

Este o pretexto e o mote para alguns postais que se seguirão, na senda de um ou outro que aqui deixei no tempo em que a escrita era uma necessidade (e um gosto)...

Base de Dados Ius Lusitaniae


Ius Lusitaniae
- Fontes Históricas do Direito Português é uma base de dados que tem como finalidade a divulgação e o estudo de um conjunto de textos fundamentais para a história do Direito português.

11 agosto 2006

Fernanda Câncio é a namorada do 1º, não é? O que quer dizer-nos? (DN, esta 6ª)

Assumir a relação
(Fernanda Câncio)

Aquela coisa que em tempos era, com sobranceria, apelidada de coscuvilhice alcandorou-se a profissão. Há gente que vive de policiar a vida alheia. Há revistas só para isso, jornais que fingem fazer outras coisas mas só fazem isso, tempo de antena para isso.

No programa da manhã da SIC, uma ex-Miss Portugal e uma astróloga ou taróloga ou lá o que é, mais uns rapazes que para além daquilo não se sabe o que fazem, discutem com desembaraço vidas sortidas, explicando o que se pode e não se pode fazer, o que fica e o que não fica bem, e quais as "obrigações" das "figuras públicas". Na TVI, um grupo de senhoras que parecem ter sido escolhidas por não se saber quem são e o que fazem discorrem com igual alegria sobre os mesmos assuntos.

E os assuntos são, invariavelmente, quem anda e não anda com quem, quem está feliz e quem está infeliz, quem assume a relação e quem não assume a relação. Para este universo, o "assumir da relação" é uma espécie de climax. Para a indústria chamada "do coração", que vive de vigiar as "relações", existentes ou a existir, entre os que apelida de "famosos", as assunções plenas e fotografadas olhos nos olhos e mão na mão junto à lareira/piscina, com declarações mútuas de dedicação para além da morte e de paixão e felicidade sem limites, são uma exigência. Tudo o que não se pareça com isso é clandestino, suspeito, talvez até ilegal.

"As pessoas têm o direito de saber", ouve-se nas rodas de comadres das TV e repete-se em publicações consideradas de "informação geral", em nome, imagine-se, da "democracia". Este "direito de saber" inclui as fotos à traição e à força, "revelações" sobre quem dançou com quem , quem beijou quem, quem fez topless. As regras são simples: é fora de casa, é público; é público, é publicável; quem se mostra uma vez legitima todas as intrusões; quem não se mostra está a esconder algo, logo, legitima todas as intrusões. A indústria tem sempre razão.

Contra isto, nenhum argumento é aceite, nenhuma lei eficaz. Proteste-se ou processe-se e é-se acusado de "falta de transparência", "censura", ou, mais uma vez, "ter algo a esconder". Para esta nova polícia de costumes, preservar é sonegar, recusar "esclarecimentos" é crime. Em poucos anos, aqueles que decorreram desde o triunfo desta inquisição, o que era considerado o cúmulo da vulgaridade - a exposição da intimidade -, passou a norma. Na relação entre o direito à reserva da vida privada, garantido pela Constituição, e o "direito" à intrusão, proclamado pela confederação dos alcoviteiros, ganhou o que vende mais. Perdeu a liberdade, claro. E essa coisa chamada amor. Mas isso, assuma-se, nunca interessou a ninguém.

E não há 300 metros?

Medalha de ouro. 200 m. Campeonato da Europa. É português. Não se chama Silva. Parabéns duas vezes, Francisco

10 agosto 2006

O mundo está perigoso

Excerto de uma notícia do Portugal Diário. Claro que isto deve ser tudo mentira. Ou será que os aviões visados iam todos ocupados com soldados israelitas? Estranho o silêncio dos habituais comentadores, sempre tão pressurosos quando morrem civis.
O atentado terrorista que as autoridades policiais neutralizaram esta quinta-feira tinha «dimensões globais», afirmou esta quinta-feita o chefe da unidade anti-terrorista da Scotland Yard, sub-comissário Peter Clarke. Um outro sub-comissário, Paul Stephenson, classificou o plano como «um assassinato em massa de uma dimensão incalculável».
Nos Estados Unidos, o responsável pela Segurança Interna, Michael Chartoff, afirmou que o plano descoberto pelas autoridades britânicas aponta directamente para o envolvimento de elementos da Al-Qaeda. Acrescentou, no entanto, que as investigações prosseguem, pelo que estas conclusões ainda não são definitivas (...).

09 agosto 2006

Serviço público

La Cigalle, em Olhos de Água, está fora de causa, por muito que os roteiros o recomendem. Não se come propriamente mal: é caro e o serviço péssimo, daqueles sítios onde os empregados estão mortinhos por nos verem pelas costas. Vale a pena meter os pés na areia, mesmo quando é preciso tirar os sapatos, e seguir ao longo da praia, 50 metros ao lado ou isso, e subir ao Pássaro Azul. É caro, claro. Mas vale a pena. Ninguém nos manda embora depois do robalo.

Em Paderne, as Moiras Encantadas também justificam a viagem. Sossegado. Sítio bonito. Boa comida. Não tão caro. Atendimento demorado mas personalizado. Borrego e polvo.

As Três Palmeiras, entre a Oura e Albufeira propriamente dita. Sem muitos requintes, um sítio calmo, um proprietário comunicador, antigo combatente em África com algumas contradições no discurso político, mas, pronto, também não foi para falar de política que lá fomos. As sardinhas estavam muito bem. E até o medronho...

O já falado Roque, aqui mais abaixo, extraordinário, com o arroz de lingueirão. Boa malha. Nada caro.

E, por fim (logo no primeiro dia), o Manel dos Frangos, mesmo ali ao lado do Hotel Montechoro. Frango. Eu gosto de frango e estava com saudades do frango do Manel. Porque tem uma curiosidade: eu destesto tomate, mas como tomate no Manel dos Frangos com uma paixão violenta. Barato, claro.

Montechoro? Não tenciono voltar nos anos mais próximos. Digo eu todos os anos, até perceber que vou tarde de mais para encontrar outro sítio.

Medalha de ouro. 100 m. Campeonato da Europa. É português. Não se chama Silva.

A boa forma de Cavaco

O presidente Cavaco parece ser o único portuguêm em forma física. Eu vi. Algures numa praia pequena, perto de Santa Eulália, o presidente Cavaco, óculos escuros, a mulher ao lado, dois seguranças armados atrás, os netos no guarda-sol, passeava junto ao mar. Passeou para lá, voltou, passou por nós, cumprimentou e nós, demasiado gordos e a encolher a barriga para não parecer mal, a olhar e a invejar o homem na sua boa forma. Os portugueses estão gordos, senhor presidente, apeteceu-me dizer-lhe. Não disse, que eu não sou dessas coisas.

...?!

NO JN DESTA 3ª FEIRA - Não merece comentários.
.
Nem Winston Churchill pode fumar na Escócia. A lei antitabágica, que sofreu um duro teste no Festival de Edimburgo (um dos maiores festivais de arte do Mundo), não abre excepções. O actor britânico Mel Smith, que veste a pele do antigo primeiro-ministro britânico na peça de teatro "Allegiance", teve de resignar-se quando ontem subiu ao palco do festival. A peça estará em cena sem fumo até ao próximo dia 13. Sob a ameaça de que o espectáculo seria interrompido e o auditório fechado pelas autoridades policiais, o comediante, de 53 anos, não teve outra alternativa do que deixar o cigarro apagado e interpretar um Winston Churchill não fumador.

08 agosto 2006

O Roque e os amigos


Quem visse - e viram - até podia pensar que era uma reunião informal do Conselho de Administração do blog. Não, não era. Era um jantar de amigos onde se falou alguma coisa de blogs, pouco do INC, pouco das pessoas do INC, muito das outras coisas da vida que há para além do blog, como por exemplo, do excelente arroz de lingueirão e aquela fritada de peixes. Uma estreia para mim, o repasto, ali, no Roque, na Ilha de Faro.

Eu gosto vagamente de comer. Melhor: tenho uma relação dúbia com a comida. Posso passar dias a comer quase nada, com posso passar dias a sentir o prazer da comida. Mas, comer, não faz parte dos meus prazeres solitários. Eu só consigo comer quando estou acompanhado, quando gosto da companhia, quando me sinto distendido. Foi assim, no Roque. Não porque estava o JCP e a família, que esses são companheiros de muitos dias em férias e fora delas. Mas não é todos os dias que se está com a Kami. Nem com o José António. Não é todos os dias que a vida nos dá a vivacidade da Kami ou o humor inteligente e corrosivo do José António, que salta de uma conversa para outra, recentrado aqui e ali pela Kami.

Até breve, companheiros. E obrigado.

Tribunais com gabinete de imprensa a partir de 2007

A estreita relação entre tribunais e comunicação social é já uma prática institucionalizada em vários países da Europa.

Quando ninguém manda...

"Com o vazio de poder que se instalou na PGR, cada um, cada grupo, faz o que quer e o que pode. No mais é só perguntar-se uma pessoa com que objectivos, se por vaidade, ambição ou ideologia. É assim quando ninguém manda."
continua aqui


reactivações várias aqui, acoli e acolá

Cercal

Cercal do Alentejo é uma encruzilhada. Melhor: uma rotunda com casas à volta, onde converge um cruzamento de estradas. Lisboa, Santiago do Cacém, Lagos. Perto de tudo e de nada. Perto dos sítios onde não há alojamentos. Longe do resto, a não ser da estradas que descem ao sul e trepam ao norte.

Pela segunda vez - a primeira foi há 12 anos - estacionei na Residencial Ramos. O Sr. Ramos está mais velho. Eu também.

A vida no Cercal circula à volta da Rotunda. Restaurantes, cafés e esplanadas e gente conhecida. Primeira noite: jantar. Um restaurante com ar de restaurante, mesas reservadas, mas sempre com mesa para dois, antes que chegassem os reservantes. Boa comida. Barata! O lado mau: ainda estavamos na sobremesa e já o homem nos enxotava.

Fui ao café ao lado. Comprar cigarros. O meu filho - 10 anos - pediu-me para pôr as moedas na máquina. Deixei, coisa que não é habitual, não vá o miúdo habituar-se. Raspanete do dono: o miúdo não pode comprar cigarros! Eu sei, não pode, mas não é ele que está a comprar - sou eu -, ele só está a meter as moedas. Quer que chame a GNR? Não, não vale a pena, eu meto as moedas. Apeteceu-me pedir o livro de reclamações pela primeira vez na vida, e chamar a GNR quando me dissessem que não tinham livro de reclamações. Achei que não - fui fumar para a rotunda.

No dia seguinte, Segunda, fim da manhã, pequeno almoço num café vizinho, ainda na rotunda, pois. Pedimos. Dois refrigerantes e duas sandes mistas ao fim de 15 minutos de espera. Mais 15 minutos. A mocinha: as sandes vão demorar um pedaço, porque a cozinha está atrasada. Olhei: seis pessoas no café-restaurante. Bem, está bem, traga os refrigerantes. Entraram pessoas, 12 talvez. Pensei: agora as sandes vão demorar muito mais. Olhei as empregadas e elas não me viam. Paguei os refrigerantes. Três euros por metade deles. Saimos. Adiei a ideia de pedir o livro de reclamações.

Café ao lado. Tem sandes? Sim. Ok, dois refrigerantes e duas sandes mistas, obrigado. Ei! Espere. Não sirvo às mesas, já viu o letreiro? Não, não tinha visto, está bem, eu sento-me aqui e vou buscar ao balcão. Estás bem, João? Estou, pai, bora, temos que ir buscar a Mariana à Zambujeira. Também aqui não pedi o livro de reclamações.


07 agosto 2006

Campo de refugiados


Eu nunca estive num campo de refugiados, mas temo que seja assim, como aquilo que vi hoje, na parte de trás do recinto do Festival do Sudoeste, onde a organização montou um parque de campismo, incluído no preço do bilhete. Lixo. Lixo. Gente de olhos desorbitados. Lixo. Lixo. Garrafas vazias. Lixo. Lixo. Gente que se arrastava. Lixo. Lixo. Uma enorme mancha de pó que se entranha e que ainda sinto agarrada à garganta. Lixo. Era o princípio da tarde. Fui lá buscar a minha filha. O meu filho comigo. Estava tudo de partida. Foi por acaso, juro que foi por acaso que vi, não tinha percebido muito bem as indicações e acabei a dar uma volta ao parque de campismo. Lixo. Lixo. Lixo.

(Afinal, a residencial do Sr. Ramos, em Cercal do Alentejo, apesar do cheiro a mofo nos quartos, é um sítio extraordinário. Sobre o Cercal há várias coisas a dizer...)

Fui à última noite do festival. Tinha convites. No próximo ano, mesmo que me paguem, não vou. Fui lá, porque a minha filha me pediu para passar por lá, no regresso ao Porto. Queria boleia. O meu filho aproveitou a deixa e também insistiu. E fui. Cheguei cerca das 10 da noite ao recinto. Saí já depois das 3.30 H, no fim do concerto dos Xutos. Cansado. Pegajoso. Porco. Pior que isso: zonzo. Um cheiro a haxixe por todos os lados. Aqui, o tolo, cansado, deitado no chão. Uma pisadela. E outra. E outra. A proteger o puto das pisadelas de gente que atropela tudo. Imagine-se: deitado no chão, que os pés e as costas doíam-me, caramba...

Fora isso, foi tudo bonito. O concerto dos Xutos. E o poder fumar cigarros sem olhares assassinos. E a alegria do puto a cantar a minha alegre casinha. Mas o que ficou mesmo na retina, foi o campo de refugiados. Lixo. Lixo.

06 agosto 2006

Sim, há reforma do Processo Penal...


Rui Pereira, Coordenador da Unidade de Missão para a Reforma Penal
in DN



A dr.ª Fátima Mata-Mouros, juíza pela qual tenho genuína consideração, acaba de sustentar que o Projecto de Revisão do Código de Processo Penal apresentado pela Unidade de Missão que coordeno é tímido. Como "meio de prova", invoca um artigo da minha autoria sobre a crise de identidade dos sujeitos e sublinha que algumas das ideias que aí defendi não foram acolhidas. [Processo Penal - afinal não há reforma? DN-link]. A título de exemplo, refere o fim das delegações genéricas nos órgãos de polícia criminal e a recorribilidade do despacho de pronúncia concordante com a acusação do Ministério Público. Ironicamente, acusa de falta de "garantismo" uma revisão que já foi criticada por ser "garantista" em excesso.

Não creio que a crítica proceda. O que está em jogo é uma reforma, embora não uma ruptura com o modelo consagrado na Constituição de 1976 e no Código de 1987 - com o qual, aliás, concordo no essencial.

A demonstração de que está em causa uma verdadeira reforma (e não clarificações supérfluas) é fácil de fazer.

O Ministério Público, que possui hoje um domínio quase fictício do inquérito, passa a intervir em alguns momentos cruciais. Se agora se pode limitar a arquivar ou acusar no termo do inquérito, terá de validar a constituição de arguido e tomar conhecimento das escutas telefónicas para posterior entrega, em 48 horas, ao juiz de instrução. Por razões de exequibilidade, não foi possível acabar com a constituição de arguido pelos órgãos de polícia criminal ou com as delegações genéricas, mas as alterações preconizadas são da maior relevância.

Os órgãos de polícia criminal, muitas vezes entregues a si próprios, manterão um contacto mais frequente com o Ministério Público. Assim, prevê-se um prazo máximo para comunicarem notícias de crimes, denúncias manifestamente infundadas ou a constituição de arguido (dez dias), bem como para entregarem os materiais das escutas ao Ministério Público (15 dias). Deste modo, põe-se cobro à insegurança reinante, em benefício da investigação e da validade da prova recolhida.

O juiz singular vê reforçado o seu papel, tanto no julgamento, através do alargamento dos processos sumário e abreviado, como nos recursos, mediante a atribuição de competências ao juiz relator para julgar os casos mais simples e aos juízes-presidentes para julgarem matérias como os conflitos de competências. Além disso, os regimes dos impedimentos e recusas deixarão de constituir pretextos para o atraso do processo. De resto, é a preocupação de celeridade que leva a que se eliminem recursos interlocutórios e se continue a prescrever a irrecorribilidade do despacho de pronúncia concordante com a acusação do Ministério Público (apesar de eu considerar que seria outra, em teoria, a solução correcta). É a própria Constituição que associa, no n.º 2 do artigo 32.º, a celeridade à presunção de inocência.

O arguido beneficiará do direito de informação sobre os factos e, na medida em que não haja prejuízo para a investigação ou para os direitos fundamentais, sobre os meios de prova. A Constituição já manda que se faça assim, mas a jurisprudência constitucional recomenda o esclarecimento legislativo.

Por outro lado, o despacho de aplicação das medidas de coacção será fundamentado circunstanciadamente. A previsão de um limite máximo de duração dos interrogatórios (quatro horas), para os compatibilizar com os direitos humanos, está longe de ser um "pormenor". E contempla-se, pela primeira vez, um direito de indemnização para arguidos inocentes que tenham estado privados da liberdade, mas não se estende esse direito a quem tenha sido absolvido por outras razões (como a prescrição ou a amnistia).

O defensor, considerado com frequência um intruso, vê ampliada a sua actuação. Assim, é obrigatória a sua presença no interrogatório de arguidos detidos ou presos, dada a situação de vulnerabilidade destes. Dando cumprimento ao artigo 20.º da Constituição e tendo até em conta que as testemunhas podem ser transformadas em arguidos, admite-se que elas sejam acompanhadas de advogado.

Por fim, a vítima não é esquecida. Por exemplo, ela será avisada da fuga ou libertação de arguido ou condenado que possa pôr em perigo a sua segurança.

Todavia, para evitar a "privatização" do Processo Penal, exclui-se a passagem ao julgamento nos crimes particulares quando o Ministério Público entender que não há indícios suficientes. Nesses casos, o assistente terá de requerer a instrução, em homenagem ao direito do arguido de não ser julgado quando não há indícios contra ele.

Estas e muitas outras alterações (sobre segredo de justiça, segredo profissional, protecção de testemunhas, reconhecimentos, perícias, buscas, escutas, prisão preventiva, documentação da audiência, recursos e aplicação retroactiva da lei mais favorável) permitirão melhorar o desempenho dos sujeitos processuais. Porém, as alterações legislativas são condição necessária mas não suficiente de um processo mais justo e funcional. É nas mãos dos advogados, dos magistrados do Ministério Público e dos juízes que repousa o futuro da reforma.

minha casa

minha casa de palavras tem seus muros
tardiamente construídos.
recobre-os às vezes musgo,
às vezes a buganvília vermelha.

as paredes caiadas são irregulares
tijolos toscos,
a janela aberta, um quadro,
o céu muito azul, pendurado.

entro nela casualmente,
escrevo uma frase qualquer.
ela me abraça e me envolve
numa viagem,
ao outro lado do mundo.



silvia chueire

01 agosto 2006

Mais que mar e sol A SUL


Inauguração na ARTADENTRO, em Faro
5ª feira 3 de Agosto, 22 horas


Cíclico

exposição-instalação de Maria José Oliveira
objectos, desenho, pintura e fotografia








(artes plásticas e música)






Programação da Casa das Artes de Tavira
**

Feiras do Livro (acrescentem-lhe a de Vilamoura)
**

Teatro, dança, música, artes plásticas, sessões especiais de cinema e mais...
da Delegação Regional do Algarve do M. da Cultura

super havit de PGAs ?

O Governo decidiu acabar com o serviço de auditoria jurídica em todos os ministérios. A medida, prevista nas novas leis orgânicas, abre o caminho para o afastamento dos magistrados do Ministério Público (MP) que ali têm a missão de elaborar pareces jurídicos sobre os actos governativos. Este serviço vai ser entregue a juristas privados, o que, aliás, vai ao encontro do que defende a Ordem dos Advogados (OA). Ao que o DN apurou, os procuradores deverão abandonar os ministérios a partir de 15 de Setembro.

Os ministérios poderão extinguir as auditorias jurídicas, mas alguém terá de assessorar juridicamente os governantes. Os ministérios mais importantes, como o da Administração Interna, da Justiça, da Defesa, da Agricultura, entre outros, têm aqueles serviços assegurados por procuradores-gerais adjuntos (PGA), auferindo o vencimento normal de um magistrado do MP, cerca de 5200 euros ilíquidos.

Vários PGA ouvidos pelo DN, garantem que a medida vai sair cara ao Estado.

In DN Online (excertos)
***

Comentário do Vexata Quaestio:

Afinal a iluminada sugestão de um ilustre causídico nacional sempre parece ter tido eco no templo ministerial. Com efeito, será que estes tais de "juristas privados" farão parte das três maiores sociedades de advogados do nosso país???... Não estamos em crer!
O Estado fará concerteza uso do brilhante regime do apoio judiciário vigente e procederá à nomeação de uma série de defensores oficiosos (se forem estagiários bem melhor...), que verão pagos os seus honorários 3 ou 4 anos após a prestação dos seus serviços...
...Dúvidas não haja, estamos perante uma verdadeira obra prima de gestão e contenção orçamental!!!

Comentario da Kamikaze:

Aos PGAs potencialmente excedentários nos Ministerios não faltam lugares nas estruturas do MP! Vamos é ver se, em Setembro, não aparecem por aí uns lugarzinhos à medida de quem já mal lembra as lides tribunalícias!

Obrigado!

Obrigado a todos. Parabéns à Silvia. Isto está a correr bem. Estou de férias, e pronto! Já não é mau, ainda que não seja por muito tempo, ou talvez eu consiga esticar a coisa. Vou tentar.

Abraços a 200 à hora! (o JCP também cá anda)

para a Sílvia

porque do outro lado do mar ainda é dia
dia da Silvia
e deste lado é noite
mais uma e outra noite silente
e os olhos da Silvia são da cor de todo o mar
e a sua alma profunda como todo o oceano
encontro-a nas ondas desfeitas
na espuma e no sal
que abraçam as falésias vermelhas
do sul




(Sagres)

PROMONTÓRIO

venho ao promontório encontrar-me
com os espiritos
e nenhum navegador fala comigo,
nenhum astrónomo,
enhum cartógrafo, nenhum atlante.

exactamente no centro da rosa-dos-ventos
encontro apenas a alma luminiscente
da rapariguinha fenícia que se perdeu
para sepre
no obscuro brilho desta noite silente.

Amadeu Baptista