Recordo-me que o meu filho estava comigo nesse dia, que acordou mais cedo do que eu, que me foi acordar na sua perplexidade pelo terror, siderado à frente da televisão. Pequeno ainda, ele não sabia bem se aquilo era uma cena real, ou se era o Rambo a desoras, e eu, crescido mas ainda pouco afeito ao terror que via, também fiquei uns minutos mal acordado a tentar perceber se aquilo era notícia ou uma reprise actualizada de Orson Welles. Era verdade, rapaz, e, aí, percebi que estavamos em guerra e que tu conseguiste ganhá-la.
Não sei se algum dia iremos encontrar-nos. Espero que não. Mas eu sei que tu andas por aí. Talvez eu te veja por aí e não saiba quem és. Mas tu conheces-me. E conheces muitos outros. Para ti, somos todos iguais, inimigos na igualdade, inimigos apenas porque não te percebemos, nem louvamos a tua vocação de mártir, nem partilhamos contigo as mesmas crenças, nem queremos que tu as estabeleças entre nós. Crês num Deus? Eu também. E muitos outros também. Eu não tenho a pretensão de que o meu Deus seja melhor do que o teu. Mas concede-me o direito de não ser obrigado, à lei da bomba, a ter de aceitar que o teu Deus é melhor do que o meu. Fiquemos assim: tu ficas com o teu Deus. Eu fico com o meu. Eu respeito o teu. Tu respeitas o meu. E deixemos as bombas fora disto, porque eu não acredito que o teu Deus ou o meu gostem de bombas.
Olha, rapaz. Eu juro que nunca assinei um qualquer documento a protestar contra as atrocidades que vocês, em nome do vosso Deus, praticam contra as mulheres muçulmanas, contra os pequenos ladrões muçulmanos, contra os direitos básicos do teu povo. Sou contra, claro, mas acho que não devo meter-me nas vossas crenças. Quem costuma assinar essas coisas, é a esquerda, a mesma esquerda que é tão tolerante com aquilo que tu fazes em nome de um Deus em que ela acredita ainda menos do que eu. E posso até garantir-te que, se um dia, por um qualquer motivo, tivesse de ir viver para o teu país ou para um qualquer outro do género, eu seria um seguidor das regras que, não sendo minhas, teria de aceitar como minhas. Posso dizer-te mais: eu não vivo satisfeito com este caminho de "infiéis", onde tantas vezes me sinto pouco à vontade. Não gosto deste mundo de famílias desfeitas, de crianças largadas ao mundo, de leviandades sem nome, deste mundo corrupto que não sei onde nos leva. Mas é o meu mundo. E é um mundo onde tu podes viver, se quiseres, se te adaptares, se aceitares as regras. Não tens é o direito de querer mudá-lo, contra a vontade dos que cá estão. Ou melhor: até podes ajudar a mudá-lo, desde que não seja à força das bombas e desde que não seja para regressar ao tempo da barbárie.
Por tua causa, rapaz, por causa das bombas que alegremente trazes coladas ao corpo, prontas para rebentarem a qualquer momento no teu desejo de martírio e de agradares ao teu Deus que provavelmente chora com o que fazes, a minha vida já não é o que era. Tu fazes-me medo a toda a hora, sobretudo quando estou num sítio onde há muitas pessoas. Por tua causa, evito andar de avião. Por tua causa, tenho pesadelos por causa dos meus filhos, e dos meus pais, e dos meus amigos, e dos que não conheço mas que não têm culpa de nada. Por tudo isto, rapaz, é que eu acho que já ganhaste a guerra. Só não sei é como tudo isto vai acabar.






Mas eis-me, afinal, a maravilhar-me com a beleza daquela pequena praia, que marca a transição entre os imensos areais do barlavento e as encantadoras prainhas escondidas por entre rochas recortadas que se estendem até à zona da Galé, já a sotavento. Praia agora iluminada por forma a realçar ainda mais os seus recortes rochosos e a permitir as brincadeiras de crianças supervisionadas pelos adultos que se passeiam no recém-construído calçadão, interdito a carros e que dá acesso aos dois restaurantes sobranceiros à praia de que o Carteiro já falou
Por ficar logo ali à mão abancámos no La Cigalle (aquele que tanto desgostou o nosso Carteiro), onde uma pequena mesinha para dois mesmo junto à balaustrada sobre a praia parecia esperar-nos. Serviço simpático e eficiente qb, talvez potenciado por alguma rebeldia e mostra de conhecimento que dei do que é a tradição do bem comer algarvio (até uma “saladinha montanheira” para acompanhar o peixe assado nos fizeram, pois geralmente não se dão a esses “luxos”, que esta salada leva mais tempo a fazer que a banalíssima salada mista de todos os restaurante portugueses…)



o Projecto de Revisão do Código de Processo Penal apresentado pela Unidade de Missão que coordeno é tímido. Como "meio de prova", invoca um artigo da minha autoria sobre a crise de identidade dos sujeitos e sublinha que algumas das ideias que aí defendi não foram acolhidas. 

