13 janeiro 2008

ÍTACA




Quando partires de regresso a Ítaca
deves orar por uma viagem longa,
plena de aventuras e experiências
(…)

Que sejam muitas as manhãs de Verão,
Quando, com que prazer, com que deleite,
Entrares em portos jamais antes vistos!
Em colónias fenícias deverás deter –te
para comprar mercadorias raras:
coral e madrepérola, âmbar e marfim,
e perfumes subtis de toda a espécie:
compra desses perfumes quanto possas
e vai ver as cidades do Egipto,
para aprender com os que sabem muito.

Terás sempre Ítaca no teu espírito,
Que lá chegar é o teu destino último.

Mas não te apresses nunca na viagem.
È melhor que ela dure muitos anos,
que sejas velho já ao ancorar na ilha,
rico do que foi teu pelo caminho,
e sem esperar que Ítaca te dê riquezas.

Ítaca deu –te essa viagem esplêndida,
Sem Ítaca não terias partido.
Mas Ítaca não tem mais nada para dar –te.

Por pobre que a descubras, Ítaca não te traiu.
Sábio como és agora, senhor de tanta experiência,
terás compreendido o sentido de Ítaca.


Constantino Kavafis (1863-1933)
(versão de Jorge Sena)

Seguindo em frente

(...)
"Dizem que o sofrimento faz crescer, mas isso é uma grande treta: esta ideia (um mero mecanismo de compensação) é uma muleta, como deus, que nos ajuda a suportar a bordoada e a ultrapassar os estragos. A dor não nos amadurece; antes, torna-nos mais pungentes as fragilidades e inseguranças, definindo a carvão grosso o nosso sentido de mortalidade. Não seguimos em frente por causa da dor; seguimos em frente apesar dela. O que nos faz maiores e mais lúcidos, o que nos empurra pelas costas, é o amor, isso sim. "
(...)
excerto de um belíssimo post da vieira do mar, que pode ser lido na íntegra aqui

Diário Político 74



No ano de 1975, se a memória não me falha, tive a honra de conhecer e ouvir durante um par de horas Don Pepín Bello. Em 1982 voltei a ter o prazer o de o ver e ouvir numa sessão da Residencia de Estudiantes.

no momento da sua morte, seja-me permitido, tirar lenta e metaforicamente o chapéu e dizer, também eu, "ola Pepín!

E muito, muito, obrigado

d'Oliveira

O leitor (im)penitente 30


Os três mosqueteiros eram quatro

Creio que nenhuma leitora contestará a razoabilidade do meu título que, mais do que uma homenagem a esse homem generoso que se chamou Alexandre Dumas, vem apenas deixar uma pequenina flor na tumba do último membro da geração de 27.
Refiro-me, claro, à geração de Lorca, Buñuel e Dali e à famosa “Residencia de Estudiantes”, em Madrid, ponto de encontro de uma plêiade de intelectuais onde não faltam Cernuda, Salinas, Neruda, Alberti e sei lá quem mais. De longe em longe, de muito longe em longe, aliás, acontece um milagre destes. Convenhamos que aqui tão perto, e tão longe ao mesmo tempo, é obra. Portugal assistira no meio da geral indiferença ao eclodir da geração do “Orfeu” que passou despercebida até bem tarde e que nos anos trinta estava esquecida e enterrada sob o manto espesso de uma literatura semi-oficial e subserviente. Em Madrid (mas também em Sevilha, Valência, Granada ou Barcelona) os tempos eram clementes para a criação artística e literária. E o público, que o havia e não era escasso, reconhecia e reconhecia-se nessa geração impetuosa que só por si teria justificado uma Espanha nova e viva.
Morreu ontem, sexta feira, aos 103 anos (bonita idade) José Bello Lasierra, Pepín, o amigo íntimo, o cúmplice, o defensor dedicado, desse grupo de amigos de que ele, “sem ser poeta nem pintor (Buñuel), foi um dos pilares.
É extremamente difícil pensar a geração e a maneira de estar de alguns dos seus mais destacados membros sem recorrer ao incontornável Pepín. Para além de se lhe poderem seguramente atribuir algumas das trouvailles surrealistas do cão andaluz e de ter sido um dos mentores da homenagem a Luis de Gôngora em Sevilha, sabe-se que era à volta dele que se reuniram as estrelas da casa!!! Centenas de cartas de e para ele forneceram e ainda fornecem pistas interessantíssimas e entusiasmantes para o estudo da geração e sobretudo dos “residentes”. A permanente disponibilidade de Pepín, a excelente memória que nunca perdeu tornaram-no uma testemunha imprescindível e generosa a que recorreram quase todos, senão todos, os estudiosos. Aliás foi até à sua morte presidente de honra da Asociación de Amigos da la Residência de Estudiantes e era Amigo e Bienhechor de la Institución Libre de Enseñanza, hoje Fundación Francisco Giner de los Rios.

Na fotografia: da esquerda para a direita: de pé ao fundo, Lorca (6º), Buñuel (8º) Alberti (10º) Neruda (13º). Sentados Maria Teresa León (6ª) mais tarde mulher de Alberti. À frente, Pepín (3º)

12 janeiro 2008

Afinal eles sabiam…

Acerca do processo BCP, a questão que muitos colocavam era a de saber qual o papel do auditor das contas do Banco no meio daquela parafernália.

Uns diziam que não podia ser, que o auditor se cumprisse plenamente o seu papel teria detectado as irregularidades. Outros acreditavam que estava tudo feito, que quando muito o auditor teria colocado algumas “ênfases”, mas sem problemas de maior. Bom, mas a ser assim, questionavam, então, também se deveria por em causa o auditor. Que é nada mais nada menos que a multinacional KPMG.

Entre muitos, o Catedrático de Economia, ex-ministro das Finanças (dois meses para aumentar a taxa do IVA) e ex-vice-governador do Banco de Portugal, Campos e Cunha criticou o auditor e revisor oficial do BCP, perguntando: "Não viu nada? Como é possível não cuidar da verdade das contas, estando em causa, mais uma vez, montantes muito grandes, mesmo para um banco tão grande como o BCP?" Depois de Marcelo Rebelo de Sousa se ter referido ao auditor, até que enfim que uma autoridade como o ex-Ministro das Finanças, Campos e Cunha veio a terreno questionar o papel do auditor.

Contudo, agora, a KPMG responde a Campos e Cunha. E o que é que se conclui da resposta da KPMG? Que afinal de contas o Banco de Portugal e a CMVM, de três em três meses, receberam toda a informação sobre as contas do BCP.

Porque é que não agiram? Bom, esta pergunta não é para ter resposta… porque o que importa é aprender com os erros. E eles (ainda não garantiram) vão garantir que passarão a ler, minuciosamente, os relatórios e as “ênfases” do auditor e revisor oficial de cada uma das entidades bancárias.

Entretanto, Santos Ferreira liderará o novo BCP e tudo o que se passou deixa de ser notícia.

11 janeiro 2008

E vão duas...

Será?

Lido NoIndex

«Não é que o dinâmico advogado, político, empresário António Lamego também «emprestou» o nome (por razões formais, claro) à empresa ("a constituir") que comprou da Cadeia das Mónicas? Alguém me convença de que não há aqui um vago cheiro a «putinismo» (esquema de transferência de bens do Estado soviético para as mãos de empresários apaniguados do apparatchiki do novo poder do Kremlin.»

L’aéroport à l’Ota? Jamais!

Meio ano depois de aqui ter escrito o que pensava (e continuo a pensar) sobre a questão central que deveria fundar a decisão sobre a localização do novo aeroporto de Lisboa, vejo que a anunciada decisão do Governo continua a receber apreciações primárias de jornalistas e políticos. O que os excita? Tão só os milhõezecos a mais ou a menos, as contrapartidas, os terrenos, o tempo de viagem, as acessibilidades, as novas pontes e por aí fora.

Quanto ao essencial – que visão estratégica para o país encerra uma decisão desta natureza – nada se diz e ninguém questiona. Já agora, será que ficaremos finalmente a saber quem pagou o fantástico estudo da CIP? Sim, porque um estudo que ajuda a derrubar em meia dúzia de meses teses construídas, por técnicos e políticos, ao longo de dezenas de anos só pode ser absolutamente extraordinário. Até por revelar o estado a que chegaram as presumidas elites deste país.

Aviso à navegação


Kamikaze, por estes tempos e pelos mais próximos, travestida de capitão perna-de-pau, ainda que do sabre apenas se sirva da bainha, vem chamar a atenção de tripulantes e companhia para as alterações feitas às listas de blawgs e blogs na side bar, esperando que sejam do vosso agrado. Os critérios de selecção foram do mais pessoal que há - os colocados são os que visito ou gostaria de visitar e, propositadamente, não incluí os ditos blogs "de referência", geralmente de cariz mais político, excepção feita ao Causa Nossa (porque o vejo regularmente, ainda que para me irritar).

À co-administradora "o meu olhar" digo: "não se acanhe em acrescentar a lista!", aos demais incursionistas: "sugiram!", a quem souber como se faz, de maneira simples, a colocação da lista de "etiquetas" na side bar (sem usar o "new blogger"), peço: "uma dica!", de novo a todos os incursionistas: "se continuam a ser tão criativos na escolha de etiquetas, a lista vai ficar tão, mas tão tão grande que se tornará impublicável, tornando inútil a "dica" atrás pedida"... :)

ADENDA em 15 Jan. 08:

dada a ausência das solicitadas "dicas", a proliferação de "etiquetas" temáticas, o elevado nº de posts a etiquetar (são hoje um pouco mais de 4.100 e só recentemente passámos a usar esta função de "etiquetagem"), informo que criei novas categorias - tantas quantos os nomes dos contribuidores actuais e passados, a saber: L.C., compadre Esteves-primo de Amarante (J.B.M.), carteiro (C.R.), til, Tomás, Kamikaze (L.P.), Nicodemos, Gastão, Rui do Carmo, Sílvia Chueire, Rebeldino Anaximandro, Amélia Pais, JCP, mocho atento, M.C.R., Simas Santos, Rui Cardoso, Cabral Mendes, contraverso, Forte, Anto, d'Oliveira, o meu olhar, JSC.

A pouco e pouco irei colocando as etiquetas nos quase 5.000 posts. Não se preocupem, isto está a funcionar para mim como imagino funcione para quem tricota (coisa que nunca fui capaz de aprender e a minha mãe bem tentou ensinar-me): mãos ocupadas em tarefas basicamente mecânicas, enquanto o pensamento flui e se organiza sem propósitos prévios. É só um interlúdio nas demais ocupações sedentárias a que estou limitada.

Para pesquisa sugiro que utilizem as páginas mensais (vide "Arquivos", na side bar), pois se usarem a função "pesquisar neste blog" vão aparecer muito poucos postais.

Para que o trabalho valha a pena terão é de, cada um de vós incursionistas, passar a incluir o vosso nome, tal como consta das etiquetas, em cada um dos postais que escrevam.

"Caso Esmeralda"


Texto do Acórdão do STJ (10.1.08)
relator: Cons. Simas Santos

Art. 30º do C.P.: valeu afinal a pena

ter suscitado o problema!
Mau grado quantos tentaram desvalorizar as críticas...

"Ante a polémica suscitada a propósito do artigo 30º do Código Penal, o PGR emitiu a seguinte directiva, a qual visa, no essencial, evitar o automatismo da aplicação da figura mitigadora da continuação criminoso a casos em que, mau grado a unidade de vítima, não estejam, em concreto reunidos os pressupostos que justifiquem a atenuação da responsabilidade penal. Eis o texto da louvável circular:

«1­ A eventual subsunção jurídica dos factos apurados à figura do crime continuado, prevista pelos n.º s 2 e 3 do art.º 30º do Código Penal, quando se verifique a realização plúrima do mesmo tipo de crime ou de vários tipos de crime que fundamentalmente protejam o mesmo bem jurídico, dependerá sempre, nos termos da lei, da verificação de circunstâncias de facto que, em concreto, devam considerar­-se como aptas a justificar um juízo de considerável diminuição da culpa do arguido;
«2­ Sendo assim, quando no inquérito se suscite a eventual verificação de uma situação de continuação criminosa, deverá proceder-­se ao rigoroso apuramento, em concreto, dos pressupostos de facto de que depende a imputação da prática de crime continuado, quer no que se refere à exigível “homogeneidade da actuação” do arguido quer no que respeita à existência de uma “mesma situação exterior”, susceptível de diminuir consideravelmente a respectiva culpa;
«3­ Subsequentemente, se tais pressupostos estiverem inequivocamente apurados, os factos integradores da “continuação criminosa” deverão ser rigorosamente descritos na acusação, não podendo esta limitar­se à afirmação conclusiva da sua alegada verificação; 4­ Caso não se revele possível, no momento do encerramento do inquérito, fundamentar, em factos concretos, a imputação da prática de crime continuado, nos termos atrás expostos, deverão os senhores Magistrados do Ministério Público abster­-se de invocar esta figura jurídica, no âmbito das acusações que vierem a ser deduzidas».

Do preâmbulo da dita directiva respiga-se o seguinte elucidativo trecho:
«(...) Ora, sem entrar aqui em elaborações doutrinais mais aprofundadas, no âmbito duma matéria que integra os próprios princípios estruturais do sistema punitivo, há que reconhecer que a mera possibilidade da atenuação da punição em casos que poderiam ser punidos de acordo com as regras do concurso de crimes, justificará um particular cuidado na avaliação e valoração das circunstâncias factuais cuja verificação, no caso concreto, poderá implicar a punição a título de crime continuado».

Valeu afinal a pena ter suscitado o problema! Mau grado quantos tentaram desvalorizar as críticas, afinal, havia mesmo problema... E de tal modo que o PGR circula à estrutura do Ministério Público para que tenham, nesta matéria, um «particular cuidado». Em nome das vítimas, bem haja por isso!"

copiado daqui: http://patologiasocial.blogspot.com/

texto integral da directiva:
http://www.pgr.pt/portugues/grupo_soltas/actualidades/directivaslei59-2007.pdf

Acrescento eu:

Um bem haja também à procuradora-adjunta, Dra. Aurora Rodrigues que, na sua qualidade de membro do CSMP, no mesmo suscitou a questão da necessidade de emissão de directiva neste sentido, não tendo esmorecido no seu propósito pese embora o silêncio e apatia (pelo menos aparente) dos demais membros daquele órgão!



lê-se aqui: http://www.simplex.gov.pt/

"processo de consulta pública do programa Simplex’ 08.
Apresentam-se as propostas de medidas a desenvolver.
Queremos sobre elas ouvir a sua opinião.
Queremos também receber e apreciar os seus contributos para novas medidas.

Participe até 15 de Janeiro"

rectificação

Um erro de que me penitencio já fez-me confundir o Dr. José Lamego, ex-maoísta como referi, com o Dr António Lamego, irmão do primeiro e antigo subordinado do actual Ministro da Justiça (em Macau) como se vê no comentário ao texto publicado na "missanga a pataco" última.
Lamento quaisquer incómodos que esse meu texto possa causar ao Dr José Lamego que, aliás, conheço e que, por mais essa razão, me custava a ver nas vestes de empresário imobiliário. Ou de empresário imobiliário neste negócio e desta maneira. 
Agradeço à minha camarada de galé Kamikaze a chamada de atenção já citada acima e que me permite corrigir um erro e, desde logo, pedir desculpa ao José Lamego.

10 janeiro 2008




(porque será que a notícia linkada me fez recordar estes
ventos do oriente?
)


missanga a pataco 40


Da Venda e da Compra

Quando eu andava na faculdade, em Coimbra, recordo-me de por várias vezes, ouvir falar de uma esperança que frequentava Direito em Lisboa. Atribuía-se-lhe um inteligência impar e o que era mais importante uma dedicação ilimitada à causa do associativismo progressista estudantil. Alberto Costa era o nome deste herói de turno na conturbada história académica dos anos sessenta.
Depois, alguma desilusão terá começado a grassar porque alguém mo definiu como demasiado tacticista, se é que isto queria dizer alguma coisa. Mais tarde, começou a ser acusado de “recuado” de fazer fretes já não sei a quem mas enfim, de herói já teria pouco. E eu, sem conhecer a criatura, ia apenas juntando notícias das suas actuações, lia textos dele já nem sei onde, e confesso, perguntava-me, com alguma surpresa, onde se escondia o génio que antes me proclamavam.
Desse tempo até hoje a minha opinião pouco mudou. Não creditava o dr Costa com nenhuma das excelsas virtudes com que em tempo alguém o nimbara. A passagem dele pelo governo Guterres só por piedade pode ser esquecida. Foi fraco, incapaz de conseguir suscitar entre os votantes do PS qualquer assomo de simpatia. Era mesmo difícil sentirmo-nos solidários com ele apesar de lhe terem dirigido alguns ataques despropositados a roçar o soez. Costa era um caso perdido, ou pelo menos assim me parecia. Quando o vi ser reabilitado e premiado com a pasta da Justiça, murmurei para mim mesmo que ali estava o castigo merecido por alguns juízes e outros tantos magistrados que me pareciam um desastre. Agora julgo que, uma vez mais, me excedi: o dr Costa continua a parecer-me um fraco ministro e as coisas na justiça se não estavam bem estarão agora pior.
Mas tudo isto poderia provir dessa vaga falta de simpatia (nunca de antipatia porque para isso também é preciso que o antipático se esforce...) que nutria pelo homem.
Hoje porém, as coisas terão atingido um point de non retour. A história da venda de um edifício público por menos dinheiro do que custou (e não interessa saber se o anterior preço funcionou apenas entre dois ministérios, porque mesmo assim é um preço de referência) parece-me extraordinária. Sobretudo porque, de há uns anos para cá a propriedade imobiliária não se desvalorizou, antes pelo contrario. Depois, porque se sabe que entre entidades públicas os preços são fixados mais ou menos a olho e sempre por baixo. Finalmente porque aquele imóvel, no sítio onde está implantado, é sempre susceptível de se valorizar largamente consoante o destino que se lhe der e a capacidade construtiva que se conseguir. E esse valor é que deveria ser tido em conta, salvo melhor opinião. Um terreno vale o que for possível erguer nele. Se não fosse assim, provavelmente não pegariam no tal convento.
Ora a nota do gabinete do Ministro (cfr Público, 10-01-08, p. 5 em destaque) é “deroutante”: o Estado não perdeu dinheiro porque a passagem da Defesa para a Justiça é intra-Estado (sic). Foi por raciocínios destes que eu desde sempre não alcei o Dr Costa ao meu pobre altar de campanha.
Mas a história que parece surpreendente não pára aqui. De facto, o ter sido comprada por um ex-sócio do senhor Ministro, respaldado por uma empresa que ainda não estava constituída no momento do negócio, tem algo de nebuloso que francamente se deveria evitar. É que à mulher de César não basta ser honesta...
Claro que tudo isto pode ser, espero-o bem, muito simples e muito terra a terra. Mas custa ver o dr Lamego, herói maoísta do antigamente transformado em empresário imobiliário, numa transacção que dá azo a uma notícia de jornal. Eu sei que a moral vigente manda ser revolucionário aos vinte e conservador aos quarenta ou cinquenta. Sei também que nisso não vai pecado algum. É a vida e pronto. Mas mesma a tal vida rege-se por regras de clareza que aqui parecem soturnas. Nada impede o dr Lamego de comprar um terreno ao Estado. Mesmo se do outro lado o vendedor é um ex-sócio que por acaso é ministro. Todavia o acaso é uma faca de dois gumes e, aqui, ambos podem ferir. E do lado do Ministério parece claro que uma outra regra de bom viver e melhor negociar foi esquecida. Nada deve ser vendido abaixo de um preço base. Na falta de melhor, o anterior, correspondente à aquisição do imóvel. E esse haveria sempre de ser quatro milhões de euros e não três virgula dois se as minhas contas são boas. Diz-se que havia mais propostas (seria bom conhecê-las) e ainda mais baixas. Não é desculpa. Imagine-se que o comprador oferecia apenas metade do preço e que os restantes (a existirem) ainda menos. Vender-se-ia mesmo assim o tal convento? Isto está tão mal que serve qualquer preço?
No caso eventualmente improvável do Ministério querer vender a Penitenciária de Lisboa, desde já declaro a minha disposição de comprar, assim o preço seja simpático. Prometo criar uma empresa, já agora nos mesmos prazos da do dr Lamego. E sugiro um preço base: o custo da prisão quando se construiu. Como se vê sou generoso, não peço nenhum abatimento

09 janeiro 2008

O omnipresente Cunha Vaz (quem?)

António Cunha Vaz possui uma empresa de consultoria em comunicação – a Cunha Vaz & Associados – que tem entre os seus clientes importantes grupos empresariais, partidos políticos e candidatos eleitorais, clubes de futebol e outros interessantes “parceiros de negócio”. Sabe-se, por exemplo, que Luís Filipe Menezes e o PSD lhe pagam, com tranquilidade, umas dezenas de milhares de euros mensais e que outro Luís Filipe, Vieira, mais o seu SLB lhe pagaram o suficiente para se tornar o porta-voz oficial do clube.

Como nestas actividades não se dá ponto sem nó, fiquei boquiaberto quando vi ontem nas televisões António Cunha Vaz a fazer de assistente pessoal/hospedeiro de Carlos Santos Ferreira, o candidato à presidência do BCP, na sua chegada e saída à reunião do Conselho Superior do banco. Pelo meio dos pingos da chuva, Cunha Vaz ciceroneava Santos Ferreira, contornando os jornalistas e abrindo a porta do carro ao Senhor Doutor.

Nesse momento, lembrei-me que Cunha Vaz também assessora Luís Filipe Menezes e que, depois de levar Santos Ferreira a casa, poderia muito bem ter ido reunir-se com Menezes para lhe preparar um guião para as suas intervenções em que “desfaz” a candidatura política-encomendada-partidária-vergonhosa de Santos Ferreira ao BCP. Incompatibilidades? Nem por sombras.

E lembrei-me também de outra coisa: quem estaria naquele momento a pagar a Cunha Vaz? Seria o próprio Santos Ferreira, de forma individual? Seriam os accionistas que promoveram a candidatura de Santos Ferreira? Seria um seu apoiante mais convicto? Sim, porque já não poderia ser a CGD, uma vez que Santos Ferreira pediu a exoneração do banco público em finais de Dezembro. E também não era certamente o BCP a esforçar-se por receber bem os diferentes candidatos à liderança, até porque não vi Cunha Vaz a abrir a porta do carro a Miguel Cadilhe!

Enfim, dúvidas e perplexidades…

08 janeiro 2008

Estes dias que passam 89


Ano novo, vida velha

Ah, os mistérios gozosos... Os da política, claro que os outros andam de asa murcha. Ao que leio nos jornais, o senhor Primeiro Ministro está indeciso mas poderá inclinar-se por propor um referendo ao tratado de Lisboa. Ou seja, Sua Excelência ter-se-á lembrado de uma promessa eleitoral e, uma vez sem exemplo, poderá achar que esta é para cumprir.
As escassas leitoras que me aturam recordar-se-ão que já por aqui insisti nesse velho princípio: as promessas, como os contratos, cumprem-se. Isto, apesar de pensar que se temos um Parlamento e se vivemos em regime parlamentar, pareceria mais sensato entregar aos senhores deputados esta questão. Sou pouco favorável a referendos e boa parte dos que me caíram em cima nada mais representaram do que uma fuga dos deputados às responsabilidades. Por todos recordo o do aborto. As criaturas não queriam assumir-se pelo que se escapuliram pela direita baixa e deixaram ao pópulo a resolução da questão. Uma vez decidida esta, foi um ver se te avias de virtuosas declarações sobre o aborto.
Portanto, corremos o risco de ser chamados a resolver mais este imbróglio. Como se os portugueses se pudessem dar ao luxo de dizer não. A Europa, isto é os governos da Europa alarmam-se. Então não se tinha combinado resolver as coisas no silêncio dos gabinetes parlamentares e não dar confiança à arraia miúda?
Todavia, eu tenho um vago pressentimento que tudo isto, este suspense de revista do Parque Mayer é só isso: um truque, uma brincadeira. Deixa-se correr que talvez se proponha um referendo, a Europa alarma-se, os telefonemas de altas personalidades chovem e finalmente tudo reentra na calma. Pode, porém, ocorrer que o boato tenha pernas para andar e que mesmo que se não queira se desemboque numa situação tal em que não haja escapatória. E aí teremos o PS, as criaturas que ontem rosnavam que era inadmissível um referendo, porque o tema é difícil, porque afinal, as coisas, depois de Lisboa, não são como eram na altura da promessa exaltada e aventureira, a dizer sim senhor, muito bem, eu sempre achei que as promessas são sagradas enfim um chorrilho de vacuidades que parece ser o destino actual da parlapatice paralamentar.
Ou seja, com esta deixa descaída para os jornais, o senhor Primeiro Ministro prepara-se para ganhar em todos os tabuleiros mesmo que isso mostre ainda mais a fraca conta em que ele tem os seus mais directos colaboradores. Convenhamos que a maioria destes também não merece mais.

Nos Estados Unidos vai um alvoroço: Barak Obama pelos vistos não foi sentido como demasiado preto pelos eleitores do Iowa e ao que consta leva uma confortável maioria sobre a senhora Clinton no New Hampshire, um Estado onde era ela que à partida parecia ser a favorita. Os Estados yankees seriam os bastiões para um senadora tão sofisticada, tão “experiente” (esta da experiência deixa-me boquiaberto) tão WASP. O pastor King deve estar a dar voltas na tumba. He had a dream, do you remember?

No Paquistão, nação extraordinária que tudo desune excepto a religião (ou nem ela?) o partido da falecida senhora Bhutto resolveu dotar-se de um novo líder. Como aqui, também implicitamente se aflorou, não arranjou melhor solução do que agarrar num adolescente tímido e atirá-lo para o centro do alvo dos tiros dos terroristas. O jovem Bhutto, é asim que agora se chama, tem dezanove anos, quase não conhece o país por ter vivido boa parte da sua curta existência no exílio, é estudante. Traz em cima a maldição de um nome, oxalá não partilhe o destino dos seus tios, mãe e avô.
Não duvido que Benazir fosse uma mulher corajosa, devotada e interessada pelo destino do seu povo, ou pelo menos dos habitantes do Sind. Não era uma democrata tal e qual costumamos definir e o seu partido era mais uma multidão arregimentada e unida por ligações clânicas e familiares do que um verdadeiro partido. Os ocidentais adoram pensar que lá as coisas se passam como cá. Já tinham cometido o mesmo erro com um líder afegão, o senhor da guerra Massud, o leão do Panshir, também ele assassinado por ordem de outros senhores da guerra, por intermediários talibans ou nem isso. Benazir, a democrata, que ofereceu ao Dr Mário Soares uma fotografia dedicada que o ancião mira embevecidamente, foi também a dirigente política que se aliou aos talibans e lhes deu forte cobertura na fronteira do noroeste. Minúcias de que ninguém gosta de falar...

O Presidente dos EUA vai ao Médio Oriente. Parece que agora lhe deram as pressas para suscitar um acordo de paz entre Israel e os palestinianos. Convenhamos que só por milagre o conseguirá mas, enfim, ele é, de há uns anos a esta parte, um homem de fé. A mesma fé que depositava na existência das armas de destruição maciça e no futuro radioso que aguardava o Iraque uma vez desembaraçado de Saddam?

Os jornais contam que já começaram as denúncias contra estabelecimentos onde alguém se atreveu a fumar perante a passividade do respectivo patrão. Autores das denúncias: zelotas higienistas e fanáticos? Nada disso. Patrões de estabelecimentos concorrentes. Já Irene Pimentel anotava com argúcia que a imensa maioria dos informadores da PIDE agiam por inveja, vingança ou interesse monetário. Estão de volta os tinhosos, estão de volta aureolados outra vez pelo espírito de cruzada, de missão, de superior interesse nacional. É a chamada vocação para oxiuro.
(isto é escrito por um ex-fumador).

na gravura: uma brigada da GESTAPO polícia que também zelava pelos bons costumes. Arianos de preferência.

07 janeiro 2008

Diário Político 73


O Dr Correia de Campos entendeu, já entrado o ano, produzir algumas declarações que mais não são do que enviesadas respostas ao Presidente da República. Como é sabido, este, fez-se eco de algumas preocupações que começam a ser consensuais num país de população envelhecida que vê desaparecerem-lhe das redondezas os SAP, as urgências enfim o que até à data lhe parecia ser uma segurança contra as maleitas da idade, os achaques vários de um povo pouco saudável e rudemente castigado pela inépcia dos serviços de saúde. Só quem nunca entrou num Centro de Saúde, desesperado e sem médico de família, como este que se assina, é que sabe o percurso derrotante que tem de seguir. Dá vontade de desistir e ir morrer tranquilamente para casa. Ou de, tendo dinheiro, e não pouco, arriscar uma consulta na privada.
Dos hospitais nem vale a pena falar. Ainda há bem pouco fui num fim de tarde ao Santo António (esse mesmo o do Porto...) com um familiar que se sentia mal. Verdade seja dito que não foi difícil entrar na urgência. E foi rápido o primeiro exame que lhe fizeram, um electrocardiograma. Só que... depois foi uma longa espera por um médico (digamos que a coisa ultrapassou as três horas, para sermos comedidos e não contar os largos minutos a mais). A criatura que se sentia mal nem uma cadeira tinha, para esperar, como Job, a palavra do Senhor. Às tantas sentou-se numa mesa enquanto via circular à sua frente todas as misérias do mundo. Cá fora, eu esperava e desesperava numa sala cheia de gente que disputava um lugar sentado. Um bar a pedir urgentemente uma visita da ASAE dispensava umas sanduíches duvidosas e uns sumos que, parece, se serviam nuns copos de onde, tal qual a esperança no portão de Dante, a higiene tinha desaparecido.
A criatura minha familiar lá se salvou daquela confusão depois de convenientemente assistida por uma médica. Afável aliás, contou-me. E contou-me igualmente que, lá “dentro”, a confusão era indescriptível: corriam médicos aqui e ali a chamar pelo mesmo doente, como se não houvesse pacientes que chegassem para mais um batalhão de esculápios. O povo resignado assistia àquilo sem uma queixa, sem uma lamúria, com a estóica paciência com que os humildes esperam enganar a morte ou pelo menos obter um adiamento.
Isto ainda com vários SAP abertos. A ver vamos como será depois. O Santo António não estica, as pessoas envelhecem e adoecem com facilidade.
O Dr Correia de Campos não tem culpa do país ser assim. Mesmo sendo português e pertencendo a uma elite que há quarenta anos governa e desgoverna o torrãozinho de açúcar lusitano. Porque como ele mesmo diz, ele é “um servidor público. Já tinha idade para me reformar, tenho 65 anos, 42 de serviço, tenho um sentido do dever. O Estado pagou-me bolsas de estudo, tornou-me provavelmente uma pessoa conhecedora, acima da média, dos problemas de saúde dos portugueses....” Ou seja o Dr Correia de Campos acampou na direcção de vários serviços onde deu o litro e recebeu um salário. Foi várias vezes responsável, suponho até de um qualquer quinto governo provisório ou coisa semelhante. Paulatinamente terá feito o seu caminho de Damasco desde uma esquerda revelada durante a crise de 62 onde foi inclusivamente expulso de uma universidade até à passagem pela alta administração pública ainda mesmo em tempos da “outra Senhora”. Nada tenho contra isso, um técnico é um técnico mas a verdade é que nem todos os anti-salazaristas tiveram a sorte de verem os seus méritos reconhecidos por sucessivos governos desde Salazar até Sócrates.
Todavia as declarações do Dr Correia de Campos enfermam de alguns pequenos vícios que não são apenas de forma. Ninguém põe em causa as excelsas qualidades de que se arroga, ainda que alguma humildade não lhe fizesse mal à epiderme, ninguém contesta que ele tenha sido um fiel servidor público, coisa que de resto está bastante generalizada entre nós, ou que tenha conhecimentos acima da média. Só que isso faz um técnico mas não faz um político. E o Dr Correia de Campos, porventura a contrecoeur é um político. Um ministro. Dir-se-á que, tal e qual como Cavaco em seu glorioso tempo, o senhor Sócrates não liga muito aos ministros e delega-lhes uns vagos poderes mantendo-os de rédea curta. E de freio e bridão, até, se for o caso, como sucede com a senhora da Cultura. Mesmo assim, eles são ministros. São políticos. E como tal seria bom que agissem. Ora como político, custa-me dizer, o Dr Correia de Campos está abaixo da média. Não convence, não explica (aliás admite “alguma falta de dialogo do Ministério da Saúde”... o que sendo pouco já é começo sobretudo se substituirmos ministério por ministro) e quando o vejo na televisão é a arrogância que predomina. Os portugueses mesmo quando não se revoltam como deviam, não merecem ser tratados como débeis mentais, como retardados ou pior como gentinha. E, por muito que o Dr Correia Campos não queira, é isso que transparece de cada vez que Sª Exª se digna debitar alguma rara pérola da sua incomensurável sabedoria.
Também não colhe o argumento (e a velada ameaça de largar tudo?) de que já tem idade para se reformar mas está aqui por "dever", ou seja por amor dos portugas. Por favor, Dr Correia de Campos, ame-nos menos, estime-nos apenas como um vago conhecido que, com tanto amor, a malta arreia. Tem 65 anos? Parabéns e não se canse mais. Deixe o lugar a um incompetente que saiba explicar para onde vamos ou para onde vai o seu atribulado ministério. Para onde vão as maternidades, os SAP, os funcionários, os doentes, as doenças, as ambulâncias os helicópteros enfim essa pangaiada toda de que nos fala e que volta e meia chega tarde e a más horas. Más horas para nós, não para Vª Exª que provavelmente nunca teve esta maçada de levar, com o coração nas mãos, alguém a um hospital.
O Dr Correia de Campos pode ter carradas de razão nos encerramentos de serviços hospitalares. O interior desertifica-se, as despesas aumentam, os cuidados de saúde para ser bons sairiam demasiado caros sobretudo havendo um hospital a cinquenta quilómetros. Todavia há quilómetros e quilómetros como talvez não saiba porque nem tudo é auto-estrada. Depois nem toda a gente tem transportes rápidos e eficazes. Acresce que a percentagem de idosos cresce continuamente e serão estes os que mais acorrerão a um serviço que, ao estar longe, os descoroçoa, abate (em todos os sentidos possíveis da palavra) e confunde. O país não é exactamente aquela abstracção que eventualmente o Dr Correia de Campos supõe mas algo mais real, mais ignorante, mais pobre e mais desconsolado. As medidas que são bonitas e eficazes no papel podem ser profundamente desumanas e levar-nos a crer que os alvos da nossa atenção além de meros números são gente a mais com o prazo de validade ultrapassado. E isso, ou o que pode passar por isso, é insuportável. Pelo menos para muita gente que, como o Dr Correia de Campos, andou pelas greves universitárias, desejou um país diferente e vivo, serviu o público mas não deu o passo fatal (ou não mereceu...) que leva um técnico competente a um gabinete ministerial. Gente que, provavelmente, não se desdobraria em declarações sobre a declaração de Cavaco mas pura e simplesmente lhe enviaria uma cartinha de demissão. É chato mas é assim mesmo que faz quem se sente.

na gravura: um hospital medieval. Morria-se muito mas com mais apoio e piedade.

No inicio do ano, d'Oliveira deseja aos seus leitores saúde e impaciência.

Cursos de Formação Avançada Justiça XXI

Cursos a promover no ano de 2008 pela ASJP com o Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra/Observatório Permanente da Justiça Portuguesa

. 1º curso - Garantias e eficácia no quadro da nova reforma penal -
Incrições abertas até ao dia 16 de Janeiro de 2008
. Novos desafios do Direito do Trabalho
. Imigração, integração e direitos humanos
. Organização e gestão dos Tribunais
. A nova intervenção da Justiça Administrativa

Destinatários -
Os cursos de formação avançada são dirigidos a todos os profissionais da justiça ou com especial ligação a este sector, designadamente magistrados judiciais e do Ministério Público, advogados, funcionários judiciais, órgãos de polícia criminal, meios de comunicação social, técnicos de instituições do Estado, de associações ou de organizações não governamentais.

Formadores - O corpo de formadores pretende-se ajustado à multidimensionalidade dos domínios temáticos trabalhados em cada curso de formação. Contará com a colaboração de académicos, investigadores, profissionais do foro (magistrados judiciais e do Ministério Público e advogados) e outros profissionais detentores de conhecimento específico e relevante no âmbito das temáticas formativas.

Regras de participação - Inscrições limitadas a 40 participantes. As inscrições deverão efectuar-se desde o anúncio do curso de formação até 15 dias antes da data prevista para o seu início. A prioridade é dada às inscrições por ordem de chegada. Em cada curso 25% das vagas são reservadas aos associados da Associação Sindical dos Juízes Portugueses.
Dois dias após o fecho das inscrições, será enviado a todos os inscritos um plano do curso com a indicação das matérias e questões que os formadores prevêem desenvolver, bem como a documentação relevante para o acompanhamento do curso (legislação, bibliografia, textos de apoio).
Até 5 dias antes do início do curso, os formandos poderão suscitar, no âmbito do tema agendado, outras questões que considerem igualmente relevantes e que gostariam de ver discutidas no decurso da formação.
Todos os participantes no Curso passam a ter acesso ao Fórum de discussão on-line, dinamizado pelas entidades organizadoras.

Local de funcionamento - Os cursos decorrerão nas instalações do
CES (Coimbra), da ASJP (Lisboa) ou, sempre que se justifique, noutros locais do país.

Mais informações em:

rio de janeiro-restinga da marambaia *













Logo


Logo as chuvas
inundarão as ruas e os relâmpagos
riscarão as tardes.
O verão se eleva sobre as criaturas.

Nenhum nome se ouvirá?
Talvez.
As palavras se desdobram em muitas,
derrubadas
pela pedra da realidade


Silvia Chueire

*rio de janeiro-restinga da marambaia

06 janeiro 2008

o leitor (im)penitente 30



O José António Barreiros manda-me um mail a chamar a atenção para a “revoltadaspalavras.blogspot.com”, um dos muitos blogs que anima e que, como os outros é imperdível, com a notícia da morte do Luiz Pacheco.
Ligava-nos, entre outras coisas, esta comum admiração pelo Pacheco, escriba que me acompanha desde os anos sessenta. Apesar de serem 26 os seus textos guardados na estante, ocupam escassos 30 centímetros (medi-os agora mesmo, por razões que a seguir se esclarecem). Ponhamos que me faltarão quatro ou cinco folhetos, entre perdidos, “desviados”, em parte incerta ou simplesmente nunca encontrados. Está nisto a trágica ironia duma escrita combativa, irremediavelmente solitária, duma escrita que é fácil acusar de marginal (e, de certa maneira, era-o) mas duma escrita que não poucas vezes foi sumptuosa, irradiante e quase sempre certeira.
Não sei o que é que o futuro destinará a Luiz Pacheco. O futuro, sobretudo o português tem destas coisas, é difícil predizê-lo, sobretudo no caso Pacheco que, por razões diversas e algumas culpas próprias, nunca se pode ocupar dele, tão atrapalhado estava para viver o seu presente, difícil presente, há que acrescentar.
Na hora da morte há quase sempre um tácito acordo: não se referem os pecados e só se exaltam as virtudes. No caso dos escritores a coisa complica-se. A literatura (e temos casos emblemáticos desde Pound ou Céline até Cela para vir mais para perto) vê-se muitas vezes confrontada com a vida dos seus autores.
Conheci o Luiz Pacheco há cerca de trinta anos. Já era seu leitor graças sobretudo a um editor inteligente e sabedor, António Carlos Manso Pinheiro (Estampa). Suponho que antes dele só a Ulisseia (“Critica de circunstancia”?, meados dos anos sessenta e fanada pela PIDE numa das suas incursões à minha biblioteca) é que se dera ao trabalho de o publicar. O resto aparecia sempre sobre a chancela da “contraponto” a editora inventada por Pacheco. Algum dia se falará desse seu trabalho, das revelações literárias que originou, do apurado gosto do editor, do seu amor pelos livros e por uma outra, e nova, literatura.
No final dos setenta e princípios de oitenta, encontrava-o muito pela “Opinião” e não me fiz rogado para entrar na lista dos “mecenas” já não com “vintinhos” mas com “cemzes” (de acordo com esses anos de inflação) com que LP ia angariando a vida sempre difícil. Uma que outra vez transigia em ir jantar à “Trave” do Jaime e do Santos antes deste partir para a aventura do “Primeiro de Maio”. Não recordo, porém, nenhuma conversa sensacional, nenhum segredo literário, nenhuma revelação definitiva sobre os anos surrealistas ou a vida literária de fins de cinquenta até ao 25 A.
E foi por essa época que, inocentemente, colaborei com ele nas suas piratarias editoriais. Em 78, Herberto Hélder publicou, numa edição & etc... “o corpo o luxo e a obra” (600 ex, 100 fra do comércio). À cautela eu encomendara o livro em vários lugares de modo que me couberam dois exemplares. Alguém, cujo nome já não recordo, informado desse bambúrrio, procurou-me para me comprar o exemplar a mais. Tais artes terá tido que eu, burro confesso mas generoso, lho ofereci. Tempos depois, à entrada de um espectáculo de teatro do FITEI fui surpreendido pelo destinatário da minha generosidade que vendia “o corpo o luxo e a obra” numa contrafacção assinada contraponto com a única diferença de incluir um texto de Maria Estela Guedes como prefácio. Vamos andando que me ofereceu um exemplar da “nova edição”. Os anos foram passando e as notícias de Pacheco, salvo os livros que iam saindo que, nem sempre alcançavam a qualidade dos textos anteriores e sobretudo do “libertino passeia por Braga...”, “comunidade” etc...
O passeio, a atribulada mas excitante viagem de Pacheco, acabou. Pelas minhas contas andou por cá oitenta e poucos anos. Ou seja gastou o melhor da sua vida num país tristonho, embiocado em relentos do século dezanove, se não do dezoito, pouco atreito à liberdade livre que Pacheco e os seus, mais que proporem, defenderam e viveram. Com todos os riscos que isso implicava. E com as dificuldades, muitas, algumas prisões pelo meio, processos de toda a ordem, toda uma aventura. Muito mais do que coube, cabe ou caberá, á maioria de nós todos.

A oposição no Parlamento

Não é fácil o papel da oposição no Parlamento, para mais numa situação em que há uma maioria absoluta de um só partido. Se ainda lhe acrescentarmos lideranças de bancada problemáticas (o PSD com as fragilidades de PSL e a ausência de Menezes; o CDS liderado de direito por um deputado substituto do Porto, Diogo Feyo, mas liderado de facto por PP; o PCP com a liderança pouco marcante de Bernardino Soares e onde se nota mais as saídas de Odete Santos ou Luísa Mesquita do que as entradas de novos quadros; no BE, Louçã vai vendo sucederem-se de forma quase anárquica os seus colegas de bancada), tudo piora.

No que diz respeito às Comissões Parlamentares, a sua missão tem vindo a ser progressivamente secundarizada, uma vez que não assumem na plenitude a sua vertente de entidade fiscalizadora da acção governativa e de centro de debate e de reflexão legislativa sobre as respectivas áreas de governação. O que tem acontecido, vezes demais, é banalizar-se a acção das Comissões Parlamentares, fazendo deste órgão uma mera câmara de ressonância de temas descobertos pela comunicação social. As Comissões não agem, apenas reagem ao que vem a público, caindo na tentação de chamar às suas reuniões todo o “cão e gato” identificado pelos jornais como tendo intervenção directa num determinado tema.

Vêm aí agora os debates quinzenais entre Governo e oposição, com regras menos favoráveis ao Primeiro-Ministro, esperando-se que seja possível com este novo modelo assegurar mais debate concreto e efectiva fiscalização do Governo e menos show-off dos intervenientes.

Uma oposição forte e estruturada, com instrumentos e iniciativas pertinentes, é fundamental para fazer o contraditório a uma maioria absoluta.

05 janeiro 2008

o leitor (im)penitente 29



Um ano de livros

Ou seja: alguns dos livros que o leitor, este leitor, comprou, leu e recomenda. Outros há, mas ou não li, não gostei, não vi ou inclusivamente esqueci. Na medida do possível referem-se livros aparecidos em 2007 pelo que da inicial lista saltaram os editados anteriormente.
E comecemos pela poesia. A poesia é quase o navio almirante das letras pátrias. Das letras até para ser mais preciso. No caso português ocorre que, por razões de todo em todo desconhecidas, temos, sem quaisquer dúvidas ou nacionalismos serôdios, uma plêiade de poetas de primeira água. Infelizmente para os mais apegados ao chão pátrio, não há olimpíadas de poesia pelo que lá se vai uma medalha de oiro quase certa. Paciência e fiquemos com a leitura dos poetas.
Echevarria, Fernando: um cavalheiro façanhudo com bigodes que já se não usam. E um talento, um senhor talento! Saiu a “Obra Inacabada” (afrontamento) um belo tomo que reúne toda a poesia anterior. Imprescindível em qualquer biblioteca.
Baptista, José Agostinho: um percurso silencioso que urge descobrir. Comecem pelo último: “Quatro luas” (Assírio e Alvim) que ainda não desapareceu das estantes das livrarias.
Mendonça, José Tolentino: “A noite abre meus olhos” (Assírio e Alvim) outra recolha da obra anterior. Com a vantagem de se perceber agora, muito bem, a alta qualidade deste poeta.
Nunes, Rui: “Ofício de Vésperas”. De um prosador de culto, “difícil” (!!??), um livro de poemas que já se adivinhavam. Quem esperou, ganhou.
Braga, Jorge de Sousa: “O poeta nu” (Assírio e Alvim) outra recolha da obra anterior publicada. JSB é uma voz bem original e mesmo quando usa a sátira há nele um sopro lírico que merece uma leitura atenta. E gozosa.
E das estranjas? Pois comecemos pelo nº especial de Telerama (Fr) sobre René Char que é um mimo. E bonito. Mais bonito ainda, maior, mais ilustrado e com uma larga cópia de poemas, o número 241 da Litoral (Esp) sobre José Manuel Caballero Bonald, um poeta da geração de cinquenta que não cessa de me maravilhar.
Ovídio (“Amores”, cotovia) voltou ao convívio dos portugueses. Bom tempo para os clássicos? É provável tanto mais que do longínquo e frio norte nos chegou uma outra pérola, “Kalevala”, (Ministério das letras) traduzido com amor, com paixão, por Orlando Moreira.
Do Japão, outro grande clássico: “O gosto solitário do orvalho” de Bashô. Ninguém consegue falar de haiku sem o referir.
Continuando no Japão, passagem á volúpia e à inveja: As edições Dianne de Selliers acabam de apresentar uma integral do “Genji Monogatari” em três volumes dentro de uma caixa, com 500 reproduções de gravuras japonesas dos séculos XII a XVII. Custa a módica soma de 480€ pelo que aqui se abre uma subscrição para oferecer ao cronista esta prendinha...
No romance, helás, uma confissão: leu-se pouco. Mas desse pouco convém ressalvar desde já “Hoje não” de José Luís Peixoto que, com a novela “Ao acaso da paisagem” de Rui Graça Feijó representam a produção nacional. Peixoto é conhecido, Feijó não. Mas vale a pena. Está escrita com segurança, inteligência e uma trama bem pensada. Fui eu quem a apresentou no Porto e confesso que me deu real prazer. De Feijó corre por aí em secretíssima edição “Camilo e Casimiro” um texto que o autor considera libreto de ópera e que vale muito a pena.
Outro português que não pode ser esquecido neste balanço é Jorge Silva Melo.Século passado” que já foi anteriormente referido e “Fala da Criada dos Noailles” um divertimento delicioso e como de costume bem escrito (muito bem escrito) deram-me um par de horas de muito gozo.
Do estrangeiro refiram-se o sumptuoso “Veneno y sombra y adios” (Alfaguara) de Javier Marias o terceiro tomo de uma obra que concitou louvores gerais: “Tu rosto mañana”. Com “El corazon Helado” (Tusquets) Almudena Grandes confirma todas as esperanças que nela se têm depositado e que (espero que brevemente) poderão ser aquilatadas pelos leitores portugueses. De facto traduzi para a D QuixoteOs ares difíceis” onde alguns dos temas deste novo romance já afloravam, entre eles, obviamente a guerra civil. Noutro registo mas igualmente seguro e bem construído “Un dia de cólera” de Arturo Perez Reverte revive com fidelidade esse “dos de Mayo” que Goya imortalizou e que de certo modo inaugurou a guerra peninsular onde os generais de Napoleão souberam como era lidar com povos em fúria.
E a este propósito cite-se o brilhantíssimo “Ir para o Maneta” de Vasco Pulido Valente. Qualquer pessoa se reconcilia com a História ao ler este texto magnificamente escrito, bem pensado e económico. Aliás o ano foi pródigo no capítulo história. De Irene Pimentel (que colaborou em “Vítimas de Salazar” sob a direcção de João Madeira, um especialista a quem já se devia “Os Engenheiros de Almas”) a Maria Alice Samara (“Verdes e vermelhos” (Notícias), edição antiga mas só agora encontrada) começa a ser perceptível um acrescido interesse sobre a história mais recente a que se junta o cuidadoso texto “Passagem para África” (Afrontamento) de Cláudia Coelho. Outro jovem historiador, Luís Miguel Duarte oferece uma excelente “Aljubarrota” numa escrita viva, moderna e desembaraçada. Bem mais velho mas com um talento indesmentível, Fernando António Almeida, poeta, romancista, autor de guias e roteiros resolveu-se a publicar a sua tese sobre Fernão Mendes Pinto, graças ao apoio da Câmara Municipal de Almada: os leitores que conhecem FAA encontrarão a mesma escrita sugestiva e um sólido conhecimento desse autor genial da nossa literatura de quinhentos. Terminemos a referência à história com a boa notícia da edição de mais um dos livros de “Histórias” de Heródoto: o quinto livro. Pouco a pouco Heródoto vai sendo traduzido. Cruzemos os dedos para ver se em 2008 esta boa disposição editorial continua.
Refira-se ainda “Um escritor na guerra” de Vassili Grossman, o autor de “Vida e destino” que, suponho, ainda não foi traduzido. “Vida e destino” é um romance com um fôlego idêntico senão superior ao melhor Soljenitsine e os textos de “Um escritor na guerra” não lhe ficam atrás. Grossman, um autor que só foi reconhecido depois da sua morte. Quantos, como ele, ainda esperarão, o tardio reconhecimento dos leitores.
No capítulo memorias: “Descascando a cebola” de Gunther Grass. Pessoalmente, entendo que, quem cresceu no nazismo não é culpado de aos 17 anos se engajar num batalhão SS depois de ser recusado pela Marinha. Aos 17 anos é-se, com sorte, muita sorte, um adolescente cheio de dúvidas, nunca um criminoso político. Os urros que a confissão de Grass provocou parecem-me do mais refalsado que li nos últimos tempos. Pretendeu-se descredibilizar um livro honesto e uma carreira de escritor de grande fôlego.
Outras memórias dignas de menção: “Souvenirs retrouvés” (José Corti ed) de Kiki de Montparnasse. Para quem não saiba, Kiki foi uma modelo de extraordinário êxito nos anos loucos de Montparnasse. Mais, foi uma excelente pintora, admirada por Soutine, Man Ray, Eluard ou Hemingway que a prefaciou (!!!) e ficou famosa pela inteligência e humor de que sempre deu provas. Ficaram famosas as suas intervenções nas reuniões dos surrealistas que a trataram com carinho e respeito. E já que estamos com a mão na massa, recomende-se o belíssimo álbum “El Paris de Kiki, artistas y amantes, 1900-1930”, Tusquets ed. Trata-se de uma das melhores introduções à história artística dessa época, profusamente ilustrada, centenas de fotografias, de anedotas, de notícias que se lêem com um prazer enorme.
E continuando nos álbuns: “5 siécles d’art royal au Benin” (Snoeck), súmula excelente da grande exposição patente no Musée do Quai de Branly. Com o interesse especial de nela figurarem muitas esculturas de mercenários portugueses ao serviço da corte africana.
Outro álbum de inegável qualidade “Eros au secret, l’enfer de la bibliotheque” (Biblioteca Nacional de França) com uma belíssima selecção de gravuras licenciosas, e iconografia variada dos livros condenados à reserva. A BNF aliás distinguira-se meses antes com outro belíssimo catálogo sobre René Char. Com um aliciante: preços perfeitamente decentes tendo em conta a qualidade dos catálogos.
Quase catálogo será o belo livro de Panonika Konigswarter, a baronesa que gostava de jazz, “Les musiciens de jazz et leurs trois voeux” (Buchet-Chastel): cerca de 300 músicos de jazz fotografados por “Nica”. Os retratos são acompanhados por curtos depoimentos dos retratados que referem os seus três principais desejos. Em casa de Panonika viveram Parker ou Monk e a ela foram dedicadas muitas composições. Uma amadora, uma conhecedora e finalmente uma mulher a quem se devem retratos extraordinários (para os interessados: 35€).
Outro quase catálogo: “4 poetas en guerra” (Planeta) de Ian Gibson. Lorca, Machado, Miguel Hernandez e Juan Ramón Jimenez, vitimas da sua lealdade à democracia e à república. Informação exemplar e boas ilustrações.
A propósito, já que tocámos algo de história literária: Alexandre O’Neil uma biografia literária” de Maria Antónia Oliveira é outra obra imperdível. O’Neil merecia esta atenção e os leitores também.
Uma banda desenhada: “Peanuts, obra completa” de Charles M. Schulz, Afrontamento. Os amigos do Snoopy e do Charlie Brown estão que nem uns cucos.
Um dicionário: “The Virgin Encyclopedia of Jazz”, ou como há sempre uma qualquer coisa que desconhecíamos.
E para acabar uma homenagem aos leitores de Fruttero e Lucentini, sobretudo ao livro “A mulher dos domingos” se é que houve tradução portuguesa. E ao filme que era delicioso (Jacqueline Bisset, Marcello Mastroianni e Jean-Louis Trintignant, realização de Luigi Comencini, 1975). Como é sabido Franco Lucentini suicidou-se, acabando assim a mais interessante dupla literária italiana. Carlo Fruttero acaba de publicar, cito a edição francesa que é a que tenho e li, “Des femmes bien informées” (Robert Laffont). Uma homenagem ao livro que os fez famosos e que acima referi. Três dos meus leitores são fans deste duo e decerto gostarão de saber que a velha fonte não secou. Ora aqui está um toque de nostalgia que fica sempre bem num balanço de livros.

A ilustração: Jacqueline Bisset em “A mulher dos domingos”.

03 janeiro 2008

Farmácia de Serviço 41


Sobre a Pharmacia

Entra no seu terceiro ano esta série. Melhor dizendo está lá quase. Em boa verdade, acabo de me certificar, foi em Março de 2006 que começou a Farmácia de Serviço. Tratava-se de, num blog de acentuadas características jurídicas, introduzir pequenas chamadas de atenção para o ar do tempo noutras disciplinas menos graves mas igualmente vitais.
Com uma outra pequena característica: nunca se pensou numa agenda cultural, sequer em referir coisas particularmente importantes do ponto de vista cultural. Nada disso. Ou muito pouco disso. Essa forte responsabilidade ficou reservada para os cavalheiros e damas que tem escritório com tabuleta e porta aberta para a praça das Letras, Artes & Similares.
O cronista é apenas alguém que gosta de ler como gosta de sardinhas, de pintura como de passear pela praia e por aí fora. Para a cultura com C maiúsculo, très a la page, já dei e há muitos anos, tantos que nem me lembro. Fartei-me de ver, criaturas pomposas carregadas de conhecimentos profundos e respeitáveis, ao par das últimas escolas, dos últimos “chismorreos”, das modas evaporantes que duram menos do que as mariposas, discorrer gravemente sobre assuntos que espantavam o público e o faziam fugir a cem à hora. Ou então, igualmente penoso, vi, de nariz apertado pelos dedos que me restam, e são todos, felizmente, louvaminhar as piores inconsequências, as facilidades, o tradicional lusitano, a cultura dos retroseiros e daquele ministro pacóvio que veio ao porto dançar com as vendedoras do Bolhão perante o olhar entusiástico do senhor Dr. Rui Rio, outro que tal.
Ou seja: a Farmácia tem navegado entre escolhos e nem sempre se safou de algum encontrão, de alguma roçadela. Não foi a pique e essa não é a sua menor vitória.
A seu favor tem apenas esta coisa simples: nunca, ou rarissimamente, se recomendou poção que o boticário não tivesse provado. Livros, discos, exposições, concertos e tudo o resto passaram pela rasa do patrão da loja. Há melhor? Seguramente! Esqueceram-se acontecimentos, obras e situações importantes? Sem dúvida. Mas aqui escreve-se para gente normal com alguma inclinação pelas artes e letras. Sem excluir essa outra e importante: a cidadania. E seguindo a máxima de um senhor bispo de Viseu que recomendava aos seus fregueses tomar a religião como se toma o sal na comida. Nem muito nem pouco, apenas o necessário.
Dito isto passa-se ao balanço do ano que se finou. E pelos mortos começamos: morreram três pessoas que merecem uma palavra: A Fernanda Botelho, uma escritora que nunca se pavoneou mas que escrevia com o próprio sangue, ou algo semelhante. O Alberto Lacerda, outro que passou despercebido a tantos, a quase todos, mas que em matéria de poesia “tinha a noção da galinhola” se a citação me é permitida. E o Eduardo Prado Coelho, um amigo de trinta anos que li diariamente, que me irritou vezes sem conta, com quem discuti in mente tantas vezes, que me enfureceu duas ou três, que me comoveu mais do que eu quereria, que tinha espírito, humor, fragilidade, ingenuidade, inteligência, apetite, vontade de viver tudo em quantidades excessivas. Ainda há uns tempos esteve aqui em casa, contando-me peripécias da sua movimentada vida sentimental que me fizeram rir a bandeiras despregadas ao mesmo tempo que me maravilhava com a sua inocência e ingenuidade e com a sua bem humorada confissão. Faz falta o EPC, faz falta o gordinho, faz falta aquela sua perpétua inquirição, a paixão pelas ideias, aquelas negaças que ele fez à maligna, como se fora um toureiro (!!!) desajeitado mas valente. Irritei-me, já o disse, com a sua defesa desta pobre imitação de socialismo praticada por esta pobre imitação de governo, mesmo sabendo que, tête-a tête, o EPC lhes disse um par de verdades. Está morto e apodrece um dos espíritos singulares da segunda metade do nosso século XX. Não deixa herdeiros e esse será o pior dos seus veniais pecados.
Não vou falar do Ministério da Cultura. Hoje alguém contactava-me indignado com um abaixo assinado contra a Ministra. Propunha outro abaixo assinado a favor. Disse-lhe que não assinava o primeiro por o desconhecer e o segundo por conhecer a obra feita. Isabel Pires de Lima terá qualidades, será uma queiroziana de mérito mas não tem jeito para aquilo. A sua navegação de cabotagem pelas costas rochosas da cultura é feita de erros e de errâncias, fez o frete vezes demais, foi inconsistente nas batalhas em que se meteu (e perdeu...) chegou tarde e a más horas às conclusões acertadas (quando chegou) numa palavra foi ainda pior em termos de comunicação do que outro nortenho que também se estampou nas lides ministeriais: Fernando Gomes.
Não tenho o menor gosto em dizer isto porquanto tinha dela uma boa impressão e julgava a equipa da cultura adequada aos dias que se vão vivendo. Já não o julgo. Demorei demasiado tempo porque antepus sentimentos pessoais a uma “análise concreta da situação concreta”, como diria um dos maîtres a penser da equipa ministerial... que provavelmente já dele se esqueceu, mas isso é outro falar.
Também não me parece oportuno babar-me sobre esse cavalheiro, barão da finança, que dá por Berardo. Estou farto, fartíssimo, de lhe ouvir patacoadas, acho que de benemérito não tem sequer o ar, a colecção é pirosa, o uso e abuso de Belém só foi possível num país como este que, subitamente, descobre o cheiro do dinheiro e o venera destemperadamente. Tinha de ser um governo “socialista” (boa piada!...) a dar de mão beijada um espaço para aquilo. Que há lá coisas boas? Claro que há. Mas também há muita lantejoula e isso daqui a pouco tempo será evidente. Deixem-nos poisar...
Em contrapartida, celebremos como se deve (e não se celebrou) os gestos discretos que estão no nascimento de duas instituições culturais: O Museu de Arte contemporânea de Elvas onde estaciona a excelente “colecção Cachola” e a fundação António Prates, em Ponte de Sor. Ora aqui estão iniciativas cidadãs de alta qualidade, de desinteressado patriotismo (feia palavra!) e de claro sentido cultural.
Não vou referir a desinspirada observação de uma ministerial criatura que regougava dislates sobre o facto da colecção Berardo colocar Lisboa no coração dos percursos culturais peninsulares. A pobre mente não deve saber de Bilbao, de Valência, de Madrid, de Barcelona, de Mérida e de mais dez cidades onde a palavra cultura se pronuncia mais simplesmente, menos sonoramente e menos impudentemente.
A televisão surpreendeu tudo e todos com duas realizações: Joaquim Furtado e António Barreto mostraram que cá também se pode usar a televisão para coisas interessantes, como sejam meditar um pouco sobre nós próprios e a nossa circunstância.
Uma mulher desarmada tem mostrado que em matéria de ONG se podem fazer milagres: Isabel Jonet é o rosto da persistência e da organização. O Banco contra a Fome é eficaz, chega a tempo e e não faz dez por cento do espalhafato de outras organizações cujo nome se omite. De propósito.
Outra mulher mostrou como a força de vontade, à falta de meios mais substanciosos, pode servir de base a uma história de êxito: Irene Pimentel ganha o “Pessoa” e ganha o público. A sua “História da PIDE” merece ser lida. Pela seriedade, pela sobriedade, pela honradez.
Uma última palavra sobre esse espantoso negocio da compra de editoras. De repente os fiananceiros, ou financistas se quiserem, descobriram que as editoras podem ser um bom negócio. Editor falido (enfim com mais cem amigos...) da Centelha só tenho pena de não termos chegado vivos até hoje. Provavelmente teríamos dito não ao maná mas isso ter-me-ia enchido de gozo. Todavia, pergunto-me: as editoras dão mesmo dinheiro? Há assim tanto leitor por aí à solta a comprar livros à doida, como um certo mcr que eu conheço e que nem se atreve a dizer quantos livros comprou em 2007? É que ainda pode haver alguma lei contra os perdulários e aí ficaria como os fumadores: pendurado no pelourinho, réu reincidente. Livra!
E tenham bom ano (os que até aqui chegaram).

A gravura: não tenho nenhum amor pela cocaína mas não resisto a pensar que neste momento os cocainómanos são mais bem tratados do que os fumadores. Injectam-se à vontade, vão buscar a sua dose tranquilamente, aos lugares do costume, conhecidos de toda a gente, até da polícia, pedem uma moedinha que poucos recusam com medo de represálias, tem salas de chuto e vão ter ainda mais, custam mais dinheiro do que os amadores do cigarro, volta e meia roubam e podem mostrar-se ás criancinhas das escolas sem receio de serem confrontados com a ASAE. Essa mesma cujo director rapa de cigarrilha num casino. Já agora: Os casinos são instituições de utilidade pública reconhecida? Além de sacarem o dinheiro aos parvos que os frequentam (muito dinheiro!) ainda têm direito a lei própria sobre o tabaco? gand'a país!!!

* Sou ex-fumador pesado (4 maços/dia) há mais de dez anos. Abandonei o tabaco sem razão alguma: sentia-me bem, não tinha catarro, tosse, falta de ar, nada. Decidi deixar de fumar e pronto.
** Não se referem outras figuras desaparecidas porque isso foi a seu tempo feito nesta ou noutras secções que também assino. De livros falar-se-á com vagar no "leitor (im)penitente"


01 janeiro 2008

Pinto Monteiro e o MP

O PGR tem beneficiado, desde o início do seu mandato, daquilo a que soe chamar-se “boa imprensa”. Depois de ter feito punching bag do seu antecessor, Souto de Moura, outra coisa não seria de esperar da nossa comunicação social a pouco mais do que uma voz.
Mas Pinto Monteiro chegou “em alta” ao final de pouco mais de um ano como PGR, tendo-o o Correio da Manhã apontado como “figura nacional de 2007”. Haverá nisto já algum mérito seu?

Do meu ponto de vista, a entrevista que deu à Revista deste diário (dia 30 de Dez.), quer pelo tom quer pelo conteúdo, não só não envergonha em nenhum ponto como é digna de aplauso na generalidade dos aspectos focados (esqueço o último destaque da entrevista, que estamos em época de indulgências).
Também me pareceram adequadas e pertinentes as palavras que dirigiu ao MP no jantar de inauguração da nova sede do SMMP, a 7 de Dez., que aplaudi com sinceridade e até algum entusiasmo. Mais, seguramente, do que os muitos que me estavam próximos (e, para que conste, não eram nada, mas mesmo nada, afectos à direcção do SMMP!).

Na verdade, ao contrário do que Pinto Monteiro refere naquela entrevista, a maioria do MP, desde os servos da gleba aos seus mais nobres elementos (que P. Monteiro e seus colaboradores próximos, quais avestruzes de cabeça enterrada na areia, teimam em confundir com o SMMP) está ainda longe de se sentir representada por este PGR, a que manifestamente ainda não aderiu pela razão e muito menos pela alma e coração.
E também creio estar errado P. Monteiro quando aponta como "prova" desse desamor a oposição do CSMP (que também teima em "colar" ao SMMP) à nomeação para Vice do magistrado por ele indicado. Alguma desconfiança que possa ter havido logo de início, se passou a desamor foi-o por via da forma como reagiu à dita oposição, tudo agravado com declarações posteriores, naquele estilo populista light que vinha, até agora, caracterizando as suas entrevistas e ditos em aparições públicas ou entrevistas "de rua".

Mas parece então, retomando o fio à meada, que Pinto Monteiro fez progressos, o que permite um fio de esperança para as bandas do MP/sistema de justiça em 2008. Sei que, ao escrever isto, muitos do MP pensarão que estou a ser ingénua, outros tantos que sou tola. Talvez, mas não se iludam, ao ver a árvore não esqueço a floresta:
o episódio da nomeação do Vice gerou “traumas” sérios, expressos só de forma aparente como boutade, a dos condes, duques e marquesas… e por muito que P. Monteiro faça por ter a imagem de paladino da defesa da autonomia do MP perante o poder político, convém não esquecer que essa autonomia passa muito pela composição do CSMP, matéria à qual, uma vez que está na calha a revisão do estatuto do MP, o PGR tem vindo a dar especial atenção, sabendo-se que a actual composição e, maxime, forma de nomeação de alguns dos seus membros, não são do seu "agrado", nem, presumivelmente, do Governo.

Em 2008 não faltarão a Pinto Monteiro ocasiões para demonstrar que sabe e quer tomar medidas para melhorar o funcionamento da estrutura e performance do MP (para além das pontuais de forte impacto mediático mas pouca ou nenhuma ressonância interna geral).

Fico, desde já, na expectativa de conhecer as medidas (tão necessárias e algumas tão óbvias e simples!) que vai tomar para cumprir o dito ao CM: "Vou oficializar em 2008 o seguinte: no Ministério Público quem investiga tem de acompanhar o julgamento."
E, claro, também fico na expectativa das revelações sobre "tanta mentira e meias verdades" que diz ter lido e ouvido sobre "a chamada violência na noite do Porto".
E fico, sobretudo, na expectativa de saber até que ponto está Pinto Monteiro disposto a pugnar para que o Governo, em cuja boa vontade tanto diz confiar, atenda os seus, aliás, bem moderados pedidos, desde a alteração de certas normas do CPP, mormente no que respeita aos prazos para investigação dos crimes mais complexos e "de colarinho branco", à atribuição de poderes ao MP para fiscalizar processualmente as polícias, passando pela promessa de criação de um sistema de base de dados que, ao que sei, está longe de vir a ser concretizada em moldes minimamente aceitáveis.

Se, como diz na entrevista, «o que dá prestígio ao Ministério Público é a opinião do pedreiro, do médico, do taxista», o que dará prestigio duradouro a Pinto Monteiro não são as amáveis crónicas jornalísticas mas o reconhecimento, por parte da generalidade dos magistrados do MP, de que ele é, por via dos actos praticados e das atitudes tomadas, não só um dos seus mas o melhor dos seus.

Assim seja, a bem dos cidadãos deste país.

Entradas a pé coxinho


Amigo d'Oliveira, demais amigos incursionistas, estimados leitores

À ex-capitoa desta barca, que há muito navega intrépida sem necessidade de timoneiro - ou não fosse a tripulação da estirpe dos que tomam nas mãos as rédeas (ou, melhor dito, os cabos) do seu próprio destino - soube bem ler
este post, um escrito cheio de graça e estilo e, sobretudo, um MIMO que cai sempre bem, oh se cai, ademais nas circunstâncias de confinamento a que está adstrita a ex-capitoa, tornozelo esquerdo apenas luxado, tornozelo direito deslocado e correspondente perna partida, que isto de esquerdas e direitas em mim não quebra nem torce por uma simples, ainda que infausta, desatenção ao campo minado em que se tornou a zona defronte de minha casa, em obras de recalcetamento.

Depois do choque inicial - surpresa, dor e muito medo que, sejam indulgentes, eu tinha de recorrer ao mal afamado Hospital de FARO -, já ultrapassada essa longa noite na Urgência em que a Lei de Murphy se concretizou, caprichadamente, minuto a minuto, hora após hora, como se em vendetta por, pese embora o meu habitual optimismo, as suas regras me terem assombrado o espírito logo desde o infausto tropeço e, finalmente, superada a fase de adaptação às novas condições físicas e parafernália da logística correlativa, eis-me mais arribada de ânimo. Ainda assim, o post-MIMO do d'Oliveira foi o pretexto sine qua non no alcançar de forças para quebrar o enguiço que me vem afastando do convívio escrito (que não de leitura) com os meus companheiros de blogoesfera.
(livrem-se de vir para aqui dizer, amáveis, que, sendo assim, a desatenção ao estado da calçada até foi uma coisa boa! Citando d'Oliveira: "Nenhum mal vem por bem, digam os rifoneiros o que quiserem.")


E não querendo começar o ano Novo com palavras de mau-agoiro nem sequer deprimentes, não resisto, contudo a, aqui e agora, preveni-los do seguinte:

- se tiverem o azar de uma descalçadela e desconfiarem que partiram algum membro locomotor, ainda que tenham quem vos leve de carro à Urgência do Hospital, chamem a ambulância! É só para não ficarem na contingência de haver por ali, ou não, algum cidadão solidário que ajude a ajudarem-vos a vencer a distância entre o estacionamento e a sala de espera e (bem mais tarde, claro), entre esta e a sala de triagem, por não haver cadeiras de rodas nem funcionários ou paramédicos que não se estejam nas tintas para o vosso estado lastimoso;

- se o médico vos mandar para casa depois de, a sangue-frio, vos endireitar a ossatura e pôr o gesso, não vão na cantiga, lá porque de momento as dores acalmaram! É que se a manobra não tiver sido bem feita, as dores vão reaparecer em breve e a triplicar, e vai ser preciso recomeçar do zero, além de que convém ficar algum tempo em observação, pois pode haver complicações circulatórias...

- se o médico (avisando logo que só trabalha no Hospital, não vá haver mal-entendidos), vos aconselhar a ir para uma clínica privada para fazer a inevitável cirurgia, alegando que ali não se sabe quando haverá vaga para o efeito, mas seguramente nunca antes de 3 semanas (em Faro, disse-me o médico, só há bloco para ortopedia às 3ªas e, se calham num feriado, como aconteceu nos dias 25 Dez. e 1 Jan., menos operam ainda - o bloco está fechado, disse-me, mas recuso-me a acreditar! - e há que tratar 1º dos casos que estão em lista de espera -
sigam o conselho do médico e ponham-se ao fresco!

- se ficarem internados para observação, por 24 a 48 horas, como eu fiquei, pensem que o mais provável é ninguém saber que é para isso que estão ali naquela cama de enfermaria, porque ninguém passa informações dadas oralmente e ninguém lê a nossa ficha clínica, se é que nela fica escrito alguma coisa a esse respeito! Alerta pois, senão podem acabar por não sair a caminho da tal clínica privada (haja seguros!) e antes ficar a contribuir para o aumento das estatísticas das cirurgias em lista de espera e para o acréscimo das despesas hospitalares... quem de nós, cidadáos respeitávies e cumpridores, deseja tal opróbio?


Mas chega deste tema, que os postais hoje, atenta a data, deviam ser prazenteiros.
Saltitarei pois, mais logo, ainda deselegantemente, pois que a pé coxinho e para mais luxado, para outro tema.
Dizia-me ontem outra incursionista que sentia falta, no Incursões, de mais temas relacionados com a Justiça. Aproveito a embalagem e irei deixar, noutro post, no estilo shallow que é meu timbre(*), algumas considerações sobre o Procurador Geral da República, Pinto Monteiro. E mais do que isto não prometo por agora, pois amanhã começa o 2º capítulo desta medíocre novela e vou ficar sem poder blogar por uns dias.

(*) quem quiser reflexões aprofundadas pode sempre (e deve) ler o José, na Grande Loja do Queijo Limiano, entre outros (usem a lista de blawgs e blogs na side bar, que é para ser usada que a pus lá, ora!).

Diário Político 72


Carta de um modesto grumete à grã capitoa desta barca, Madame Kamikaze


Permita-me Senhora que a este modesto membro da tripulação desta galera que Vossa Senhoria dirige com mão de ferro em luva de veludo, seja concedida a honra de em nome da restante equipagem Vos exprimir os tradicionais desejos de Bom Ano de 2008.
Não tenho para esta missão outro título que não seja a minha absoluta devoção às Vossas instruções que, valha a verdade, são mais raras que as boas notícias vindas do governo da Nação. É que, Senhora minha e nossa, tem sido notória e notável a Vossa falta junto não só da marinhagem que tão dedicada Vos é mas também junto do público em geral.
Pelo imediato da barca, camarada (é assim que a marinhagem se trata entre si, os camaradas) Carteiro tive a infausta notícia de um acidente em que Vossa Grandeza foi involuntária protagonista. Em curtas palavras soube, com o desgosto que certamente adivinhais, que havíeis partido um pé, melhor dizendo um tornozelo.
Não me tendo sido especificado se o direito se o esquerdo e não querendo agora explorar esse tema sempre melindroso e politicamente conotado que neste caso poderia facilmente passar por provocação, sempre direi que não fica bem a uma Senhora de vossa posição meter o pé na argola a pontos de num forcejar descuidado mas perigoso o partir. Não fica bem, Excelente Comandante, andar por aí ao pé coxinho.
À uma é difícil. Depois, tereis de convir, é falho de elegância. E pode dar azo a ditos e dichotes que nisso os nossos compatriotas são mestres. Há-de haver por entre a populaça ruim e infrene quem diga que Vossa Honra meteu a pata na poça, embora se possa dizer que não há coisa mais natural no mundo do que um palmípede a flutuar numa meia rasa de água da chuva. Ora aí está algo que os franceses nunca poderão fazer: a expressão que usam é “mettre les pieds dans le plat, vê-se que se trata de um país de gourmets que usam sem rebuço o vocabulário das arts de la table para caracterizar um mundo que para eles nunca está longe dos fogões. E ninguém quereria ver, sequer imaginar, a Augusta Timoneira desta galera vagamunda (exactamente: vagamunda) servida num prato fosse ele o mítico das lentilhas ou essoutro bem mais actual do bacalhau com todos, tão desta época.
E tudo isso, o pé desmanchado, como o da Luisinha Carneiro, se recordo bem o meu Eça, passou discretamente, no silêncio dos estóicos, das estóicas diria eu, sem que ninguém durante largo tempo soubesse desse acidente. Não é por acaso que o Vosso nome de navegante no éter é Kamikaze, há que dizê-lo.
Nenhum mal vem por bem, digam os rifoneiros o que quiserem. O máximo que se poderia dizer de um mal sobrevindo é que poderia ter sido ainda pior. Fraca consolação!
Outra fraca consolação é dizer que o pior já passou. Também não faltava mais nada. O que é demais é moléstia.
Ponhamos, Excelsa Almirante, que esse pé em estado deplorável nos pode servir para despedir 2007 sem excessivas tristezas e, ao mesmo tempo, augurar para 2008 um ano melhor. Para Vós, para os tripulantes desta nau, para os passageiros que em nós confiam e até para o resto das muitas e desvairadas gentes que perpassam neste espaço virtual e democrático pese embora a pesada critica do Dr Pacheco Pereira. O homem está zangado com o mundo ou pelo menos com as suas entranhas. Esperemos que também isso lhe passe. A vida é curta.
A Vossos pés, humildemente
D’Oliveira, embarcadiço na barca “incursões”