Os meus pais, coimbrinhas convictos, acharam que fazer o terceiro ciclo dos liceus na pecaminosa Lourenço Marques, longe de Nampula e deles, sozinho num mundo de praias, turistas inglesas e boers e perdições várias, seria tentar o diabo. Vai dai, mandaram-me para Coimbra (abramos aqui um parêntesis para dizer que os pais, todos os pais, são de uma ingenuidade aterradora) e, claro está que dei com os burrinhos na água pois as notas dos dois primeiros trimestres estavam no ponto critico e balançavam assustadoramente para um chumbo a alemão. Zás: internato anexo ao liceu de Braga para ver se as coisas se compunham.
Finalmente, e pela última vez (espero) regressei a Coimbra nos alvores de sessenta para frequentar a Faculdade de Direito. Ponhamos que é esta a vez que conta, dado que as três primeiras foram episódicas e de curta duração.
Amesendei-me numa honesta pensão que, para os parâmetros coimbrões, era mesmo luxuosa. Aí conheci um par de amigos para a vida fora, e mais um que, volta e meia, quando menos o espero, aparece, toma um café comigo, recorda sempre as mesmas histórias: encontrámo-nos logo no dia de chegada, à mesma mesa, caloiros receosos da praxe e dos novos ambientes a que vínhamos. Tenho sempre prazer em vê-lo e ao mesmo tempo um frio terrível na espinha: não sei o nome dele, andámos para aí trinta anos sem nos vermos, e não queria ofendê-lo, ó pá afinal qual é a tua graça? Não imaginam os truques que já usei para saber como é que o tipo se chama mas nada!
Mas voltemos ao nossos trabalhos: rapidamente nessa pensão passei para uma mesa de oito pessoas onde entre outros conheci o herói da história de hoje: João Quintela, alto, grande desengonçado trunfa de filosofo, bem disposto, culto e vadio. Andava em Histórico-filosóficas depois do primeiro chumbo em Direito. Convém dizer que 99% da população de Histórico-filosóficas vinha dos Gerais espavorida com os professores e o curso de Direito. Aliás não conheço nenhum licenciado nestas matérias (e de alguma idade claro) que não tenha feito o seu tirocínio em Direito.
Ao fim de uma semana, o João, o Pedro Sá Carneiro, o Gunderico e mais dois ou três onde eu me incluía, já não nos largávamos. E a coisa foi em tal crescendo que entendemos todos que o João tinha de se mudar para a nossa pensão ou, pelo menos, para casa perto, pois ele queixava-se que a casa onde pernoitava era demasiado longe. E, contas feitas, nem sequer era mais barato viver numa casa particular e comer na nossa pensão. E a liberdade (ó palavra amável!) era outra. E aprazou-se o mês de Novembro, dia 1, para a vinda do João para a nossa beira. O problema principal consistia, segundo ele, na trasfega dos seus pertences, uns livros, a roupinha, e uma cadeira de braços dita de aviador, coisa grande de difícil carrego em táxi. Aliás a palavra táxi nem foi pronunciada. Estudante que se prezasse andava à pata, maxime de eléctrico ou à boleia.
Ofereci-me para o ajudar. Ao fim e ao cabo ele não morava assim tão longe. Era uma rua de Montes Claros que não distaria dos Arcos do Jardim mais que dois ou três quilómetros. Combinámos mesmo que faríamos percurso mais ou menos directo que evitaria a vergonha de passar pela Praça da Republica, centro estudantil por excelência, e que tomaria umas ruas calmas rodeando o jardim da Sereia e a Penitenciária e desembocando no topo norte dos Arcos. Trajecto discreto para quem não queria ser visto ajoujado a um par de malas e uma cadeira enorme de aviador.
O que o João não tinha dito era que os livros (em duas malas descomunais) pesavam que nem chumbo de tantos que já eram. Sopesadas as malas, observada a cadeira, concluímos que a nossa viagem requeria várias etapas para descansar e para mudar os carregos. Assim a pessoa que trouxesse as malas, sentar-se-ia no cadeirão durante os altos da viagem. Depois, mais descansado, de cadeira às costas, retomaria a viagem divertindo-se com o andar cambaleante do parceiro que transportava os dois malões.
E assim fizemos. Com uma pequena variante. Dois garotos que brincavam numa esquina ficaram fascinados com o nosso duo e resolveram seguir-nos. Quando atravessámos a rua Lourenço de Almeida Azevedo já eram sete e por alturas da Penitenciária eram onze, numero máximo atingido que, de qualquer modo, julgo ser um recorde na hipótese, aliás improvável, de mais dois maduros terem feito percurso semelhante e com carregos idênticos. Claro que este cortejo, lento e com paragens, ruidoso devido ao chilreio da garotada e ás nossas invectivas, despertou natural curiosidade nas ruas por onde passávamos. Descobrimos que casa sim, casa não, tinha raparigas estudantes hospedadas que vinham em enxames às janelas, ver o espectáculo, rir à gargalhada, apontar-nos a dedo, enfim uma troça pegada que dói quando se tem dezoito anos e se esta(va) num pais bisonho, feio e triste. Aliás a notícia desta caravana estapafúrdia correu mais depressa do que o nosso caminhar lento e cansado. Em chegando aos Arcos do Jardim, já lá estava, em pleno, o pessoal da pensão, com o Gunderico sentado numa cadeira que trouxera do seu quarto. Malta das casas mais próximas (entre eles o João Amaral) acorria em bando e os estudantes da república Ay-Ó-Linda mobilizaram uma dúzia de caloiros para nos prestarem honras militares. A coisa foi ao ponto de se organizar um jogo de futebol entre o bando de garotos do nosso séquito e os infelizes caloiros, meus colegas quase todos, sob a arbitragem do Mor da republica já citada. Para vergonha da universidade vetusta e da cultura em geral, os putos ganharam por dois a zero. E mais ganhariam se não tivesse entretanto aparecido uma patrulha da polícia que pôs fim ao jogo que se desenrolava em pleno largo dos Arcos do Jardim com notórios inconvenientes para a circulação de viaturas e peões (sic). Resta-me a alegria de saber que quem pagou a multa foi a malta da república, dado ser do conhecimento público ter sido ela a instigadora e o seu Mor o árbitro do jogo.
Bem feito!
E os livros perguntará alguma eventual (se as há) freguesa desta coluna? Pois li-os quase todos com farto proveito próprio e idêntico prejuízo no estudo do Direito.
Permitam-me os habituais e escassos leitores que me aturam com beneditina paciência que dedique esta á memória de João Granjo Pires Quintela: Amigos iguais felizmente h(aver)á; melhores nunca!
E como o João tinha um coração enorme e não pedia exclusivos, gostaria de dedicar esta tambem aos colegas de blogue, comentadores e leitores que passaram por Coimbra. Eles saberão apreciar esta história pois como diz o Palito Métriconos quoque gens sumus et bene cavalgare sabemus. Salve companheiros!















