10 junho 2006

O leitor (im)penitente 5

Em Coimbra menino e moço vergado ao peso da literatura

Aportei à Coimbra de lavados ares quatro vezes nesta vida que já leva uns anos redondos. Eu explico: nasci por acidente em Coimbra, trazido de supetão, ainda no ventre de minha mãe, da Figueira, mais precisamente do Cinema Peninsula onde, ao oitavo mês de gravidez, lhe rebentara o saco das águas; no fim dos meus doze anos, voltei a Coimbra para continuar a estudar no liceu, visto que na Figueira só havia o primeiro ciclo. Felizmente ainda nesse ano fomos para África onde me diverti que nem um cabinda.
Os meus pais, coimbrinhas convictos, acharam que fazer o terceiro ciclo dos liceus na pecaminosa Lourenço Marques, longe de Nampula e deles, sozinho num mundo de praias, turistas inglesas e boers e perdições várias, seria tentar o diabo. Vai dai, mandaram-me para Coimbra (abramos aqui um parêntesis para dizer que os pais, todos os pais, são de uma ingenuidade aterradora) e, claro está que dei com os burrinhos na água pois as notas dos dois primeiros trimestres estavam no ponto critico e balançavam assustadoramente para um chumbo a alemão. Zás: internato anexo ao liceu de Braga para ver se as coisas se compunham.
Finalmente, e pela última vez (espero) regressei a Coimbra nos alvores de sessenta para frequentar a Faculdade de Direito. Ponhamos que é esta a vez que conta, dado que as três primeiras foram episódicas e de curta duração.
Amesendei-me numa honesta pensão que, para os parâmetros coimbrões, era mesmo luxuosa. Aí conheci um par de amigos para a vida fora, e mais um que, volta e meia, quando menos o espero, aparece, toma um café comigo, recorda sempre as mesmas histórias: encontrámo-nos logo no dia de chegada, à mesma mesa, caloiros receosos da praxe e dos novos ambientes a que vínhamos. Tenho sempre prazer em vê-lo e ao mesmo tempo um frio terrível na espinha: não sei o nome dele, andámos para aí trinta anos sem nos vermos, e não queria ofendê-lo, ó pá afinal qual é a tua graça? Não imaginam os truques que já usei para saber como é que o tipo se chama mas nada!
Mas voltemos ao nossos trabalhos: rapidamente nessa pensão passei para uma mesa de oito pessoas onde entre outros conheci o herói da história de hoje: João Quintela, alto, grande desengonçado trunfa de filosofo, bem disposto, culto e vadio. Andava em Histórico-filosóficas depois do primeiro chumbo em Direito. Convém dizer que 99% da população de Histórico-filosóficas vinha dos Gerais espavorida com os professores e o curso de Direito. Aliás não conheço nenhum licenciado nestas matérias (e de alguma idade claro) que não tenha feito o seu tirocínio em Direito.
Ao fim de uma semana, o João, o Pedro Sá Carneiro, o Gunderico e mais dois ou três onde eu me incluía, já não nos largávamos. E a coisa foi em tal crescendo que entendemos todos que o João tinha de se mudar para a nossa pensão ou, pelo menos, para casa perto, pois ele queixava-se que a casa onde pernoitava era demasiado longe. E, contas feitas, nem sequer era mais barato viver numa casa particular e comer na nossa pensão. E a liberdade (ó palavra amável!) era outra. E aprazou-se o mês de Novembro, dia 1, para a vinda do João para a nossa beira. O problema principal consistia, segundo ele, na trasfega dos seus pertences, uns livros, a roupinha, e uma cadeira de braços dita de aviador, coisa grande de difícil carrego em táxi. Aliás a palavra táxi nem foi pronunciada. Estudante que se prezasse andava à pata, maxime de eléctrico ou à boleia.
Ofereci-me para o ajudar. Ao fim e ao cabo ele não morava assim tão longe. Era uma rua de Montes Claros que não distaria dos Arcos do Jardim mais que dois ou três quilómetros. Combinámos mesmo que faríamos percurso mais ou menos directo que evitaria a vergonha de passar pela Praça da Republica, centro estudantil por excelência, e que tomaria umas ruas calmas rodeando o jardim da Sereia e a Penitenciária e desembocando no topo norte dos Arcos. Trajecto discreto para quem não queria ser visto ajoujado a um par de malas e uma cadeira enorme de aviador.
O que o João não tinha dito era que os livros (em duas malas descomunais) pesavam que nem chumbo de tantos que já eram. Sopesadas as malas, observada a cadeira, concluímos que a nossa viagem requeria várias etapas para descansar e para mudar os carregos. Assim a pessoa que trouxesse as malas, sentar-se-ia no cadeirão durante os altos da viagem. Depois, mais descansado, de cadeira às costas, retomaria a viagem divertindo-se com o andar cambaleante do parceiro que transportava os dois malões.
E assim fizemos. Com uma pequena variante. Dois garotos que brincavam numa esquina ficaram fascinados com o nosso duo e resolveram seguir-nos. Quando atravessámos a rua Lourenço de Almeida Azevedo já eram sete e por alturas da Penitenciária eram onze, numero máximo atingido que, de qualquer modo, julgo ser um recorde na hipótese, aliás improvável, de mais dois maduros terem feito percurso semelhante e com carregos idênticos. Claro que este cortejo, lento e com paragens, ruidoso devido ao chilreio da garotada e ás nossas invectivas, despertou natural curiosidade nas ruas por onde passávamos. Descobrimos que casa sim, casa não, tinha raparigas estudantes hospedadas que vinham em enxames às janelas, ver o espectáculo, rir à gargalhada, apontar-nos a dedo, enfim uma troça pegada que dói quando se tem dezoito anos e se esta(va) num pais bisonho, feio e triste. Aliás a notícia desta caravana estapafúrdia correu mais depressa do que o nosso caminhar lento e cansado. Em chegando aos Arcos do Jardim, já lá estava, em pleno, o pessoal da pensão, com o Gunderico sentado numa cadeira que trouxera do seu quarto. Malta das casas mais próximas (entre eles o João Amaral) acorria em bando e os estudantes da república Ay-Ó-Linda mobilizaram uma dúzia de caloiros para nos prestarem honras militares. A coisa foi ao ponto de se organizar um jogo de futebol entre o bando de garotos do nosso séquito e os infelizes caloiros, meus colegas quase todos, sob a arbitragem do Mor da republica já citada. Para vergonha da universidade vetusta e da cultura em geral, os putos ganharam por dois a zero. E mais ganhariam se não tivesse entretanto aparecido uma patrulha da polícia que pôs fim ao jogo que se desenrolava em pleno largo dos Arcos do Jardim com notórios inconvenientes para a circulação de viaturas e peões (sic). Resta-me a alegria de saber que quem pagou a multa foi a malta da república, dado ser do conhecimento público ter sido ela a instigadora e o seu Mor o árbitro do jogo.
Bem feito!

E os livros perguntará alguma eventual (se as há) freguesa desta coluna? Pois li-os quase todos com farto proveito próprio e idêntico prejuízo no estudo do Direito.

Permitam-me os habituais e escassos leitores que me aturam com beneditina paciência que dedique esta á memória de João Granjo Pires Quintela: Amigos iguais felizmente h(aver)á; melhores nunca!

E como o João tinha um coração enorme e não pedia exclusivos, gostaria de dedicar esta tambem aos colegas de blogue, comentadores e leitores que passaram por Coimbra. Eles saberão apreciar esta história pois como
diz o Palito Métriconos quoque gens sumus et bene cavalgare sabemus. Salve companheiros!

09 junho 2006

“Viva a República! Viva o Rei!”



“O regime de que o mundo precisa para sair do atoleiro em que está metido é realmente o da Monarquia Portuguesa anterior a D. João I (este já bastante infectado de Europa) (...) Acima disso, o município, clara e inteiramente "republicano". Como "coordenador geral" e "inspirador" o Rei (...)”.
Que dizer deste pensamento ecléctico de Agostinho da Silva, que pretende fundir, num todo coerente, o que se lhe afigura de mais importante e valioso nas duas correntes?

Amanhã, Dia de Camões, textos inéditos de Agostinho da Silva, reunidos no livro “Viva a República! Viva o Rei!”, da autoria de Teresa Sabugosa, vão estar disponíveis na Feira do Livro em Lisboa.


São textos já elaborados no ocaso da vida daquele filósofo.

Através dos mesmos, percorremos questões políticas, filosóficas (como o interesse pela questão do divino, o sentido da vida, e o destino de Portugal). E, é claro, a questão do melhor regime político-constitucional para este cantinho da Europa.

Uma boa obra para comemorar o Dia de Portugal, o Dia de Camões, o génio da Pátria, que a representa na sua dimensão mais esplendorosa e gloriosa. Que se perdeu na bruma espessa do Tempo...E não se avista, no horizonte, nenhum (desejado) D. Sebastião que, desta feita, evite um qualquer Alcácer Quibir...

Cliente isento; advogado paga!

A vida reserva-nos algumas pequenas surpresas que nos fazem sorrir.

Há dias, a Câmara Municipal do Porto escreveu a uma Paróquia para juntar a um processo de licenciamento de obras os respectivos Estatutos. Fiquei com dúvidas. Teria de remeter os Evangelhos? Pensei melhor e resolvi aconselhar a juntar a fotocópia da participação ao Governo Civil da erecção canónica da respectiva Fábrica da Igreja Paroquial da Freguesia, efectuada em 1940 ao abrigo da Concordata. Parece que não servia! Talvez fosse melhor uma certidão.

Bom! Por via das dúvidas e para melhor andamento do assunto, resolvi requerer uma certidão ao Governo Civil, juntando uma fotocópia do documento.

No dia seguinte, foi recebida no escritório uma chamada telefónica duma senhora muito simpática que avisou a minha funcionária de que , se fosse a instituição a requerer, a certidão era gratuita; mas como o pedido estava subscrito por advogado tinha que pagar emolumento.

Bem, para não perder mais tempo, lá disse à minha funcionária para ir pagar a certidão. Dei-lhe 20,00 (tive dúvidas que chegasse, porque agora as certidões custam os olhos da cara). Lá foi e trouxe-me de troco 9,25 euros. A certidão quando requerida por advogado paga 0.75 euros (isso mesmo, setenta e cinco cêntimos).

Por favor, quando tiverem de pedir certidões, façam os clientes assinar o requerimento. Poupam 75 cêntimos.

Portugal: terra dos (des)enganos.



Atendendo aos soturnos lamentos de Marcelo, aqui se colocam uns versos de Álvaro de Brito Pestana, retirados da “Antologia do Cancioneiro Geral” (Editora Ulisseia 1994) de Garcia de Resende, publicado pela primeira vez em 1516.
Foi ontem, pois o Tempo, “esse grande escultor”, tudo relativiza…

Para que ele veja que não está só no seu lamento…

"Não sei quem possa viver
Neste reino já contente,
Pois a desordem na gente

não quer leixar de crescer;
A qual vai tão sem medida
que se não pode sofrer:
Não há i quem possa ter
Boa vida."


Nota: a imagem diz respeito às folhas iniciais do Cancioneiro Geral de Garcia de Resende. No centro da imagem vê-se o escudo das armas reais portuguesas, tendo na parte inferior a divisa de D. Manuel- a esfera armilar.

Propaganda à moda do Porto

O site da Câmara do Porto é um exemplo claro da forma como se utiliza espaço e dinheiros públicos para levar por diante uma estratégia de propaganda política e culto da personalidade do seu presidente, Rui Rio.

Com efeito, o site da autarquia não tem o habitual cariz institucional, assumindo-se pelo contrário como um meio de comunicação usado pela maioria que governa a Câmara para atacar as oposições e, pasme-se, os jornais que não bajulam a maioria PSD/CDS. A peça sobre a apreciação ao trabalho do “Jornal de Notícias” relativo à “inauguração” da Avenida dos Aliados é apenas a última das diatribes da maioria liderada por Rio, depois dos episódios anteriores com o “Público” e com o extinto “O Comércio do Porto”.

Quem se mete com eles, leva!

as olivenças que não queremos ganhar

Este é para ser um texto curto só para ver se não há azar com a sua publicação. Nos últimos dias toda a gente se queixa das dificuldades em comentar os textos abaixo ou sequer de abrir a zona de comentários. Até agora corre tudo bem, estou a batê-lo directamente no quadradinho (como raio se chamará isto?) posto á minha disposição sem grande dificuldade (eu falo de dificuldade porquanto, para um cavalheiro com esta provecta idade, a informática, a internet e os blogues são de facto coisas do outro mundo).
O que me consola é o facto do nosso freguês e comentador Francisco Bruto da Costa também não ter conseguido aceder à zona de comentários. Ah, ah, ah! E logo ele que faz o que quer com estes aparelhómetros modernos, e com a internet, e põe música e fogtafias e etc... (neste etc... não entra bem tudo, ao que julgo mas, se for esse o caso, também gostaria de aprender. Posso ser velho mas não sou trouxa nem poeta russo...).
Dito isto vamos às nossas encomendas que se faz tarde: como os leitores que, corajosamente, chegaram até aqui sabem há um simpático (presumo) grupo de cavalheiros que amam embevecidamente Olivença. E amam-na tanto que a querem retirar do domínio façanhudo de Castela para a voltarem a integrar no "torraozinho de açúcar" que Portugal é. Devem achar que os habitantes daquela perdida vila viveriam melhor sob a férula do senhor engenheiro Sócrates (ou da senhora Ministra da Educação).
E não se riam quando falo em Educação, pois é isso mesmo que vem escrito no organograma do governo. Educação. Ora toma que já almoçaste! A coisa poderia ser tomada por ironia, mas não. Aquela gente do tal ministério acha que é mesmo isso que anda a fazer. A educar. Claro que há por aí uns facinorosos individuos, que decerto não são de Olivença nem amam a dita cuja, que acham que as escolas no seu actual e interessante estado só parirão analfabetos, cretinos e criminosos. Tudo isto em minúscula: pequenos imbecis, pequenos marginais pequenos analfabetos, desses que sabem ler a palavra saldos, a frase aqui há bifanas e o texto corrido duma entrevista a uma dessas selectas criaturas que alimenta o imaginário jet set nacional.
Já me perdi, mas que querem?, quando ouço falar na Senhora da Educação fico logo com azia. De facto, o que eu queria era falar da minha visita ao Corte Inglês de V. N . Gaia. De Gaia, disse, escrevi e repito. O indíviduo que gere a Camara Municipal do Porto ama tanto o Dr Luis Filipe Meneses que lhe despachou um empreendimento que criou 1.500 postos de trabalho. Também não faz mal que no Porto não há desemprego. Nem arrumadores de carros. Nem palermas!
Bom deixemos o Dr Rui Rio com a sua esvoaçante glória e entremos no Corte Inglês. Deixemos os andares todos onde há tudo ou quase e paremos para mortificação dos nossos conspícuos industriais ou comerciais (ou o que quer que seja) donos de hipermercados. Entremos pois no supermercado do corte Inglês. E na loja gourmet. E na zona onde se vende comida pronta a levar. E comparemos com o que há cá nos outros sítios.
Não!, não vamos comparar. Há que ter dó dos nossos brilhantes empresários. Dos nossos imaginativos empresários. Dessa gentinha toda que acha que o Estado só tem olhos para os malandros da função pública, para os idiotas dos professores, para os magistrados privilegiados, para os médicos dos hospitais públicos e para... (Pára, mcr. pára quanto antes que ainda vais dentro!... ).
Se fossemos comparar, coisa que não faremos, veríamos que há mais espécies de peixe com melhor aspecto, com melhor atendimento. Que na estante das cervejas não há quatro ou cinco marcas mas vinte ou trinta, que os expositores de queijos e de carne são um regalo em abundancia e diversidade, que na secção de congelados é o que se vê, que a loja gourmet é mesmo gourmet e que no toca a pratos preparados nem se fala.
Eu frequento a Espanha invasora e maléfica há uns bons quarenta anos. Vi os espanhois na merda, a sobreviver, vi como eles abriam, espantados, os olhos quando viam um escudo que chegou a valer recordo-me duas pesetas e meia. Vi-lhes as estradas esburacadas, as cidades tristes, o Franco que o pariu de pata alçada, valente fascistóide que morreu na cama, vi-lhes os jornais em mau papel, o café que era uma zurrapa. Em quarenta anos é o que se vê. Melhores produtos, mais baratos (comparem os preços dos carros...) uma industria agro alimentar a anos luz á frenta da nossa, uma imprensa forte e diversificada.
Podia continuar mas, a mão já me treme de cólera, de raiva, de dor por este país que é o meu e que não quer, não sabe, não pode, melhorar. E destas elites, patuscas e provincianas, e destes empresários bons para exportar já para a Somália, para Mogadiscio mais exactamente, E destes governantes que podiam ir passar férias no Iraque ( em Bakuba, já agora, que desde a morte do Zarkawy está menos animada, e destas autoridades civis militares e religiosas que poderiam por exermplo ir até Timor ou em alternativa para as faldas daquele simpático vulcão em Java, o Merapi ou lá como se chama, o nome é indiferente desde que esta gajada parta já para o raio que a parta, depressa, muito depressa. a ver se isto tem conserto, porra!

PS: E alguem acredita que os de Olivença queiram mesmo vir para cá?

mcr escreveu em 9 de Junho dia de S. Ricardo, oblato, e dos SS. Efrén, Primo, julião e Feliciano. E com tantos santos esta vai ao cuidado de frei Delfim das Cinco Chagas, com aviso que estarei brevissimamente na "capital do império".

08 junho 2006

aviso

se me perguntarem,
eu digo.
se não me perguntarem,
afirmo:
tens dona.
és meu.

levas as minhas marcas,
todos (quase) os meus sinais,
e a minha sina.

são teus todos os meus versos.
alías, meu corpo, coração e alma.
o que não é teu, meu amor?

minha calma,
ao saber que és meu,
essa também é tua.

assim, que aos passantes,
os que apenas passam,
fique claro:
eu não passo.

tu me perpassas
um olhar,
e nessa profundeza eu fico,
perdida.
e tu em mim te perdes.

transito pelos caminhos,
os muitos,
e cá estás.
são tantos os signos.

dado o aviso
de que sei onde piso,
recolho-me ao silêncio
dos beijos
e dos olhares.

silvia chueire

Lido e respigado

Ontem foi dia de ir (finalmente...) à Galiza alugar um apartamento para passar a primeira quinzena de Agosto. Para meu espanto consegui arranjar o que queria a cinco metros da água (cinco metros!) perto do padeiro, da senhora da fruta, da papelaria onde compro os jornais.
Azar só foi não ter podido zangar-me com a Crazy Grazy ( que andou a adiar esta excursão durante semanas pelo que não merecia tal sorte) porque isto que nos aconteceu foi um bambúrrio. Por esta altura já não há nada a preço decente. E o que há é longe pra burro.
Mas do que eu queria falar é do "nosso" Francisco Bruto da Costa, comentador raro (Homem apareça mais vezes, que diabo!) que escreveu um belo artigo no Público de ontem (quarta feira) que li enquanto aviava um salpicon de rape con langostinos (ora tomem lá seus invejosos!). Tentei enviar-lhe um mail mas aparentemente não foi recebido no endereço brutodacosta @netcabo.pt. Mistérios! Ora, já aqui, um par de vezes, amigos demasiado bons para o que eu mereço passaram notícias de ocorrencias em que figurava este vosso criado. Não quero deixar passar em claro o texto de FBC pelo que ele tem de inteligente e importante. Boa malha, caríssimo comedor de caris infernais.

en passant: troxe, entre outros, um livro admirável sobre as "brigadas internacinais" na guerra civil de Espanha. Chama-se "Las Brigadas Internacionales" é de Cesar Vidal. A editora é a Edhasa e o prefácio deve-se a Stanley G Payne, um reconhecido e admirado hispanófilo. 380 paginas de texto e fotografias e quase outras tantas de documentação e apêndices. Um must!

07 junho 2006

A governação na sociedade civil

Vital Moreira lançou ontem na sua crónica no “Público” um tema que já me tem assaltado por diversas ocasiões – a forma como são governadas instituições da dita sociedade civil, muitas delas instituições de utilidade pública a quem o Estado confere prerrogativas especiais.

Fico-me pelo exemplo de dois clubes de que sou sócio, o Automóvel Club de Portugal e o Futebol Clube do Porto: ambos têm largas dezenas de milhar de associados e a sua governação não é escrutinada por mais do que umas dezenas de carolas que vão às assembleias-gerais anuais. As Direcções têm total liberdade para decidir e dirigir os destinos da casa, sem uma verdadeira fiscalização, gerindo estruturas que passam a ficar exclusivamente preocupadas consigo próprias e com a manutenção dos centros de poder. A minha única intervenção numa assembleia-geral do FC Porto, levantando um problema de apreciação às contas, pura e simplesmente não mereceu resposta. Nestas entidades, os centros de poder em exercício só têm a oposição dos núcleos que procuram organizar-se para conquistar esse mesmo poder.

Vital Moreira diz que há um verdadeiro défice democrático na sociedade civil e nessas instituições, identificando nesse campo associações, cooperativas, mutualidades, sindicatos, associações empresariais e patronais, sociedades desportivas, ordens profissionais e sociedades comerciais: “Hoje a “sociedade civil” é essencialmente estruturada por grandes organizações sociais que são inequivocamente instâncias de poder social q que mantêm uma interacção privilegiada com o poder político. Bastaria isso para poderem ser consideradas elegíveis para deverem observar formas mais exigentes de organização democrática. A bem do direito de participação dos seus membros e do escrutínio público da sua acção”.

Está lançado um debate que deveria merecer a atenção dos responsáveis políticos e demais entidades preocupadas com a governação das instituições que fazem a “malha” do país e que têm um papel fundamental em muitas áreas de actividade.

Um fim de tarde no "Reino dos Algarves"

(a propósito do antecedente postal do Cabral Mendes)


Há muito que não ia a Ferragudo, aquela terrinha à beira da foz do Arade, que já foi só de pescadores e que, durante mais tempo do que seria de esperar (que não de desejar), via da janela do seu vasto horizonte o crescimento do betão na outra margem sem se deixar por ele invadir. Relembrava o Sudeste, uma tasca à beira rio, onde se comia bom peixe assado (sim, assado, que é como em "algarvio" se diz grelhado no carvão...) em mesas colocadas a esmo por entre aparelhos de pesca, a suave fresca marinha a fazer esquecer a canícula diurna, as luzes de Portimão, na outra margem, quase a levar-nos ao olvido da fealdade do seu “skyline”...
Voltei agora para reencontrar amigos que, vindos de pontos tão distantes como Cidade do Cabo e Moscovo, numa feliz coincidência se encontravam, por estes meus dias algarvios, a retemperar energias na zona da esquecida Ferragudo, onde apetece dizer ao vento poemas de Nuno Júdice, também ele refugiado ali mesmo ao lado, na Mexilhoeira Grande.
A terrinha apresenta-se agora "de cara lavada": estacionamento ordenado, um "calçadão" à beira rio onde antes era terra batida, o Sudeste travestido de restaurante, enfim o progresso, ainda que à custa de algum charme perdido...
A construção disparou, claro, mas não de forma excessivamente visível, pois se é verdade que as falésias estão semeadas de moradias, a sua pouca altura e a vegetação circundante continuam a evidenciar que, entre as duas margens da foz do Arade, hesitante em ser ainda rio ou fazer-se já mar e mar, há dois modelos de crescimento com filosofias bem distintas.


Mas uma surpresa maior esperava-me, a mim que, sendo completamente indiferente ao "tema Olivença", recebo de há muito e regularmente (vá lá saber-se como e porquê) correio electrónico do GOL (Grupo dos Amigos de Olivença). Maior surpresa ainda, pela nova coincidvncia, ao ler o anterior post do Cabral Mendes, pelo que não resisto a colocar aqui a fotografia que tirei a uma casa junto ao rio, não pela qualidade que manifestamente não tem, mas pelo inusitado e pela coincidência temática...


Incursões: uma janela para a rua.


Tenho reparado que o nosso Incursões tem um mundo muito vasto de leitores e de diversas sensibilidades.
Lembro, à guisa de exemplo que, por via de um postal que aqui coloquei acerca de Olivença, tive o grato prazer de trocar correspondência com o Grupo dos Amigos de Olivença (GAO), louvando este a respectiva iniciativa, por via da importância crescente da blogosfera como meio de influenciar (e porque não) formar a opinião pública.
Não estamos, de facto, a escrever em circuito fechado mas, bem pelo contrário, a lançar no seio da sociedade as nossas ideias, quais sementes que um dia poderão frutificar. Desde que sejam boas...
Esta manhã, ao consultar o meu “mail”, deparei com uma mensagem e respectiva indicação de um link para um blog intitulado “ Quadragésima”.


Curioso é o facto, dada a temática do respectivo "blog", do nosso Incursões ali figurar numa lista de “favoritos” …grata surpresa... porque será?



Nota: Após este postalinho, e aproveitando a sugestão da nossa "o meu olhar" vou descansar por uns tempos...

Chateado no calabouço 6


VARIAÇÕES SOBRE OS PAPAGAIOS

Suponha-se um papagaio, ou melhor, uma tartaruga* Não! Uma tartaruga não, bicho indócil e inconfortável, demasiadamente reflectido, se é que Fenimore Cooper ("O último dos moicanos") e as anedotas correntes - todas, ao fim e ao cabo, devidas, directa ou indirectamente, a Zenão - têm algum fundamento, o que, de resto, nem sempre se pode afirmar. Além do que, uma tartaruga, animal marítimo por excelência, permite curiosamente, voos de imaginação** que, numa oração como esta, seriam se não descabidos, pelo menos de duvidoso valor científico. Permaneçamos, pois, no papagaio: bicho facilmente humanizável, dada a possibilidade que lhe foi concedida de responder ao "olá louro, dá cá o pé" e a outras objurgatórias do mesmo teor; além desta qualidade há que lembrar o facto do papagaio assumir no nosso folclore o estranho papel de alcoviteiro amável e grátis
"papagaio louro
de bico dourado
leva-me esta carta
ao meu namorado"

Por outro lado, o seu aspecto humanizável não é excessivo como acontece com o macaco, antepassado longínquo ou parente degenerado do "homo sapiens" -ou herdeiro (cfr. Pierre Boule "O planeta dos macacos")- e a quem, este, ao longo dos séculos tem tratado de uma maneira confrangedora atribuindo à honesta e pacífica ordem dos símios toda uma série de defeitos, na realidade demasiado humanos para poderem ser assumidos pelo referido primata. Há quem se lembre de torpes saltimbancos pavonearem, entre a cobra equilibrista e a mulher serpente ("espectáculo que já se produziu, ó meus senhores, em toda a Europa ocidental e nos países árabes" sic) macacos equilibristas vestidos à marinheira com um par de bandeiras na mão emitindo dislates por meio do alfabeto homográfico***. Portanto o papagaio: águia decaída, galinha promovida a ave trepadora com corrente e argola no pé, companhia de velhas hediondas, viúvas de marinheiros dos mares do sul, que não perdoam ao finado os soezes palavrões que a ave desbocada debita quando solicitada.

Que fazer com o papagaio, ave inútil que esconde sob um triunfo de plumagens vistosas uma carne seca e desenxabida? Que destino dar ao objecto destas laudas a que um humorista de verve amarga e inconsequente chamou "a aviação do Brasil"****?

Como conseguir celebrar o papagaio, sem por isso se ser apontado à execração e ao (sempre possível) castigo da sociedade pelo dedo vingativo e odiento da moderna inquisição ("... escriba ao serviço das ocultas e malévolas forças da desordem, critica os hábitos parlamentares, ofende as forças vivas da nação, propondo a subversão e atentando contra a existência de Portugal como nação independente ...") ou, o que é pior, ser olhado pela inteligentsia pseudo-progressista como um audacioso e atrevido intelectual, a que só é preciso tirar a gravata para o transformar em "contestatário" titulado e, rapidamente recuperá-lo, imortalizado em posters a preto e branco, sessões de autógrafos, colóquios, seminários, conferências, crónicas vagamente escandalosas, recitais, abaixo-assinados e um emprego "part-time" numa agência de publicidade?
Impossível provar boas, inocentes intenções*****. Impossível escrever só sobre o papagaio, sem tom de parábola, cheiro de crítica aos costumes, escrever como quem escreve um bilhete à lavadeira recomendando atenção e carinho pelos botões da camisa e energia quanto à nódoa de calda de pêssego no punho esquerdo.

A arte pela arte é um logro, concluir-se-á. Concedo. Concedo sem segundas intenções ou figas matreiras e inúteis. Concedo para evitar discussões, exorcismos no suplemento juvenil (a acne ideológica é temível) de algum jornal provincial ou cartas abertas de um grupo de sócios do Grémio Literário, muito embora se espere que tão venerável e selecta instituição, ocupada como anda em recepções, não dê ao assunto a atenção que ele possa merecer.

É que a arte não pode ser redutível à tíbia figura de um papagaio -o que só pretende significar que o papagaio não é arte.

Que esta última asserção não signifique altaneiro desprezo pelas crenças dos que entendem o mundo como obra divina. Acredito no diálogo (na esteira de Garaudy, bem entendido). Acredito no diálogo de que o papagaio -tudo o faz crer - monologante infatigável, é a mais rotunda negação.

Por isso termino aqui, provado que está não ser o papagaio, como o peixe (cfr. António Vieira, "Sermão de St.º António aos peixes”) ouvinte atento.


Notas

1)Não se cai aqui na vulgaridade de falar na "casa" que a tartaruga transporta às costas; também o caracol assim procede e nem por isso é chamado a capítulo. Em questões de toca portátil só um animal merece citação: o paguro, vulgo "casa-alugada" molusco astuto que terá inspirado os modernos ocupantes de casas devolutas. Não referem esta tese "Ocupação de casas em Odivelas" (vários autores, ed. Afrontamento) nem o "Nouvel Observateur" (Março, 1969).

2) Atribui-se a este bisonho animal, nas fábulas, uma grande inteligência cujo fundamento não se descortina. De positivo, e sobre tartarugas, apenas se pode afirmar que a carapuça foi, durante muito tempo, material predilecto para cigarreiras, caixas de rapé, pentes, leques e armações de óculos. Quanto á carne faz-se uma excelente sopa.

3) Este interessante meio de comunicação foi muito usado pelos filiados da mocidade portuguesa que, noutros tempos eram vistos em alegres marchas pela cidade transmitindo-se as ordens dos comandantes de castelo em alfabeto homográfico, quando passavam junto de hospitais para não assustar os doentinhos com as vigorosas ordens de comando.

4) “Se macaco é soldado / banana munição / papagaio aviação / Pode contar com a Nação”.

5) Só depois de escritas estas palavras nos veio à memória o título de um livro de Augusto Abelaira que, como é de calcular, nada tem a ver com esta despretensiosa crónica. Que nos conste Abelaira nunca se interessou por papagaios, araras, catatuas ou até mesmo pegas ou gralhas.


Coimbra, calabouços da PJ, Outubro-Dezembro de 1969

A lei do tabaco


Os proprietários de restaurantes, hotéis, bares e discotecas, afinal, não vão ser multados se um cliente for apanhado a fumar nos seus estabelecimentos.

A segunda versão da futura lei do tabaco prevê que seja o fumador a pagar se acender um cigarro em local interdito.

O meu pai, que Deus tenha, sendo fumador, um dia falou-me, vagamente, de uns fiscais que, surgindo do “nada”, subitamente apareciam junto de um cidadão quando este, de modo incauto, acendia, em público, o seu cigarro. Não, não era por razões profiláticas de saúde pública, sequer individual. Tratava-se de uma licençazinha por força da qual todo aquele que exibisse um isqueiro, tinha de ser portador da mesma…uma espécie de imposto…

Ora bem: nos dias de hoje, esse espírito que, por decoro, não quero aqui qualificar, talvez ressuscite nessa gentinha que sempre gosta de denunciar o próximo, nem que seja a troco de um “prato de lentilhas”, seja qual for o regime político-constitucional em que se encontre (aliás isso é coisa de somenos…).

Leo Ferre tem um belo poema intitulado “Poète, vos papiers !”

Quando agora, no fim de uma refeição, em gesto largo e desprendido, acendermos um bom charuto ou uma mais discreta cigarrilha, alguém nos sacudirá, ululando: Ici un Fumeur! La police! Arrêtez-vous!


Estamos no tempo dos “les cons dits modernes”!


A Verdade e as verdades

As minhas visitas ao Incursões têm rareado por força de uma vida que compliquei … por gosto. E como correr por gosto não cansa, eu não me queixo. Tenho é pena de não poder fazer tudo mas, a seu tempo, o Incursões voltará certamente a ter o seu espaço, no meu espaço.

Agora a questão da Verdade e das verdades. Ando há muito tempo com esta encravada nos dedos, a pedir que bata as teclas e que passe para aí o que tem estado só deste lado. Bom, aí vai. Não quero ser controversa (já cá temos um contraverso) mas eu costumo dizer que já não tenho idade para fazer de conta. Verdade verdade é que eu nunca gostei de fazer de conta. Antigamente também me desculpava com a idade, mas em sentido contrário: era muito nova e portanto levada a impulsos.

Tudo isto para dizer que abrir o incursões e deparar mais ou menos sistematicamente com mensagens de cariz religioso me aborrece. (Está dito e publicado!)

Sem ofensa para si caro Delfim, ainda por cima conheci–o pessoalmente e achei-o muito simpático, mas, não posso deixar de o dizer: aborrece-me o padrão religioso que o Incursões está a tomar. Estudei num Colégio de Padres Capuchinhos, adorei os anos que lá passei, tenho amigos padres e ex padres, tive educação religiosa mas há já muitos anos que tudo isso ficou para trás. Respeito as opções de cada um. Respeito mesmo e acho que as de todos deveriam ser respeitadas. Cada um tem as suas opções religiosas, tem o direito de as ter e não acho que seja uma coisa muito cordial esta rotina de assuntos desse cariz no Incursões.

Claro que esta conclusão não foi uma reacção imediata aos primeiros textos religiosos. Não. Pelo meio ficou muita reflexão que ia da liberdade de expressão, à tolerância, até ao questionar-me se eu não estava a ser intransigente. A conclusão tirei-a quando resolvi ser verdadeiramente sincera comigo e não apenas politicamente correcta.

Assim, e como sou dada a analogias, imaginei por momentos que tínhamos no grupo um fanático do FC do Porto (é só um exemplo) que nos manteria sistematicamente actualizados sobre as contratações do clube, eventos, citações de dirigentes, etc. Imaginei também que tínhamos aqui um alguém fortemente ligado ao PP/ PSD/ PS/ PCP/ Bloco de Esquerda ou outro partido, que nos brindaria com citações de ideólogos históricos ou contemporâneos, que nos poria a par das reflexões dos respectivos partidos, agenda noticiosa, etc. Imaginei e não gostei do resultado.

Em resumo, o que eu quero dizer é que, no quadro de um blogue como o incursões, termos liberdade de exprimirmos os nossos pontos de vista não deveria passar por transmitir, de uma forma sistemática, mensagens ligadas directamente a nenhuma religião, a clubes, a partidos. A não ser pontualmente, como foi o caso, de algum modo, das eleições presidenciais. Aqui, no incursões, essa questão fluiu de uma forma cordial, sensata e na dose certa, sem ultrapassar os limites dos outros.

Penso que no presente caso, a da questão religiosa, é também bem empregue a ideia que a nossa liberdade termina onde a dos outros começa.
Está dito.

06 junho 2006

Congresso Eclesial de Roma - Críticas à sociedade secularizada

Bento XVI denunciou ontem, em Roma, os ataques à família na sociedade actual, referindo que “a família, realidade humana fundamental, está seriamente corrompida e ameaçada".

Aos jovens e adolescentes pediu que se libertem do “preconceito amplamente difundido de que o Cristianismo, com os seus mandamentos e obrigações, coloca demasiados obstáculos à alegria do amor, impedindo de saborear aquela felicidade que o homem e a mulher procuram no seu amor recíproco”.


Bento XVI manifestou ainda a sua preocupação perante o que classificou de “duas linhas de fundo da actual cultura secularizada”:

A primeira é "o agnosticismo originário da redução da inteligência humana a simples razão calculadora e funcional”, que tende a sufocar o sentido religioso “inscrito nas profundezas da nossa natureza"; a outra linha seria a do “processo de relativização que corrói os legados mais sagrados e os afectos mais dignos do homem”.

(Fonte da notícia: Agência Ecclesia).


Nunca é, de facto, excessivo, realçar o valor fundamental da Família, enquanto Instituição pilar da nossa sociedade, a primeira (no tempo e na importância) escola de sociabilidade e de civilidade, contribuindo para a estabilidade e progresso da vida social.


tarde


é tarde nestes dias
cinzas,
o outono a morder-nos os olhos,
a cidade tocando um solo de violino
suave entre as gotas de chuva
e o vento frio.

é tarde, parece dizer.



silvia chueire

"Tank man"



O homem diante do tanque... (evocado por MCR)
Para que nenhuma ditadura, de qualquer génese, seja esquecida!

Retardado

A manchete do JN desta 2ª feira conta-nos que o fisco anda atrás de floristas, restaurantes, fotógrafos e outros que não pagam impostos dos serviços que prestam em festas de casamento. Para tanto, o fisco vai atrás dos noivos para saber o que pagaram. Boa ideia. Mas uma ideia retardada e de resultados duvidosos. É que, segundo a imprensa o fim de semana, o casamento está cada vez mais em crise e há cada vez menos casamentos. Diz a mesma imprensa que, pelo contrário, os divórcios crescem a olhos vistos. E mais: as festas de despedida de casados estão cada vez mais in. E há várias empresas que estão a explorar este mercado, com muito sucesso. Conselho ao fisco: há que mudar a agulha. Digo eu, que sou um retardado.

Alface

Dou uma volta pelos canais, páro em Marta Crawford (TVI), e vejo uma dissertação sobre técnicas de engate. 45 anos sem perceber nada do assunto, afinal! Explica a Srª Drª - sobre quem Prado Coelho já escreveu que consegue retirar qualquer erotismo às cenas mais eróticas - que quando se sai, há três sinais: ir vestido de vermelho, significa que não se está virado para o engate, assim género cueca de aço; ir de amarelo, pois, tudo depende, vê lá se consegues; ir de verde, pois claro, anda cá, miúda que eu estou aqui para ti. Afinal, a vida, na versão Marta Crawford, é um semáforo. Pois bem: na próxima noite em que sair, este vosso amigo vai parecer uma alface...

04 junho 2006

Mergulhar no Transcendente



Neste Domingo que agora finda, celebrou-se a memória litúrgica do Sacramento da Confirmação (Crisma) caracterizado pelo rito do fogo, pela invocação do Espírito Santo e pela profissão de fé.
Na Sé de Lisboa, com D. José Policarpo e os membros do Cabido, os problemas mundanos foram esquecidos. O espírito dos fiéis tinha mergulhado no Transcendente...

"No País dos Sacanas"

Jorge de Sena faleceu a 4 de Junho de 1978.

Neste tempo (como diria Augusto Abelaira) de bolor, em que nada é sagrado, tudo é denegrido, vilipendiado, destruído, faz-nos falta a visão crítica de um homem desta têmpera. Concorde-se ou discorde-se das suas tomadas de posição em diversas matérias.


Aqui deixo, no aniversário do seu passamento, o poema (intemporal) “ No País dos Sacanas”


No País dos Sacanas


Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?

Todos os são, mesmo os melhores, às suas horas,

e todos estão contentes de se saberem sacanas.

Não há mesmo melhor do que uma sacanice

para poder funcionar fraternalmente

a humidade de próstata ou das glandulas lacrimais,

para além das rivalidades, invejas e mesquinharias

em que tanto se dividem e afinal se irmanam.



Dizer-se que é de heróis e santos o país,

a ver se se convencem e puxam para cima as calças?

Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,

ingénuos e sacaneados é que foram disso?



Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.

Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,

porque no país dos sacanas, ninguém pode entender

que a nobreza, a dignidade, a independência, a

justiça, a bondade, etc., etc., sejam

outra coisa que não patifaria de sacanas refinados

a um ponto que os mais não são capazes de atingir.

No país dos sacanas, ser sacana e meio?

Não, que toda a gente já é e pelo menos dois.

Como ser-se então nesse país? Não ser-se?

Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.

Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

10/10/1973

Hábitos

Foi sempre assim, ou, pelo menos, já não me lembro que tenha sido de outra forma: aos domingos, a partir de meio da tarde, entristeço. Começo a pensar com mais intensidade no dia de amanhã, com os problemas de todos os dias para resolver, os prazos, as consultas, os telefonemas, as incertezas sobre alguns caminhos a seguir.

Dizem-me que não sou caso único. Acredito. Só que as outras pessoas que são assim, costumam desligar durante o fim de semana. Eu não. Lamentavelmente. E ainda lamento mais porque, cada vez mais concluo que nem durante as noites consigo desligar, no meu sono intermitente.

Estes dias que passam 28

O homem diante do tanque

Foi em directo, ou quase que o vimos. De pé, magro e nem sequer demasiado alto, com qualquer coisa numa mão, uma pasta, um embrulho pobre, um casaco dobrado. E em frente dele o tanque. Um tanque igual a tantos outros, os tanques são, de facto, todos iguais. Iguais e inúteis, a menos que numa facciosa lista de utilidades, figure a de matar, a de esmagar, a de destruir. Gente há, e nesse grupo, ocupo um modesto lugar, que afirma que a única utilidade dos tanques é a possibilidade de serem destruídos. Ou de serem domesticados.
E esse milagre ocorreu aí, em Tien An Men, há dezassete anos. Um homem de calças escuras e camisa branca, como em Espanha diante de um touro. Sem capa nem espada. Sem traje de luces, nem cuadrilla. Sem público.
Esperou o tanque a pé firme. E o tanque desviou-se. Voltou à frente do tanque e de novo o citou. E o tanque desviou-se. E terceira e quarta vez.
E o tanque sempre a desviar-se.
E o homem de pé, direito como um vime. Com umas calças escuras que não pareciam novas, e uma camisa branca.
Ele e a sua coragem. Ele e seu exemplo. Ele e a sua mensagem a um público que não ouvia, que não gritou olé nem o podia fazer sair em ombros pela Puerta del Príncipe.
Depois, tranquilamente, saiu da objectiva das cameras de televisão e mergulhou no anonimato. Onde está?
Dezassete anos, já. Quantos morreram?
Celebremos a memória de esse homem de calça preta e camisa branca. Não o esqueçamos. Tão-pouco poderemos esquecer os homens que o tanque transportava, que o comandavam. Atrás daquele sujo aspecto de aço e guerra havia homens incapazes de matar. Celebremos a sua coragem. Porque se o homem de calças negras e camisa branca se perdeu no meio da noite e do sangue, o número do tanque aparece bem claro e nítido. E atrás de um número há-de haver uma tripulação. Que se recusou a matar. Que ousou desobedecer.
E uma vez mais, como em Espanha, celebremos o toureiro e o touro.

Feito por mcr que detesta touradas mas estima a coragem. às 8 horas da noite de 3 de Junho de 2006

Tribunal XXI - justiça vai ser mais rápida no Algarve

A gravação em vídeo e áudio das audiências em tribunal, em sistema digital, vem garantir uma gestão da justiça mais segura, célere e económica. Os juizes de Faro estão a dias de ter o registo das audiências escrito no papel em três dias, o que levava semanas ou meses. O projecto é inovador a nível internacional.

O Tribunal Judicial de Faro vai receber, em Junho, a experiência-piloto do módulo de documentação das audiências de julgamento, integrado no projecto “Tribunal XXI”, resultado de uma parceria entre a Microsoft Portugal e a Associação Sindical dos Juizes Portugueses.
O novo sistema é visto pelos juizes como uma “revolução” na relação entre a justiça e a informática. As audiências previstas para o dia oito de Junho no Tribunal Judicial de Faro, já vão ser registadas em suporte digital através de vídeo, áudio para posterior passagem a papel (mediante o sistema de estenotipia digital), confirmou ao Observatório do Algarve o juiz-presidente do Circulo Judicial de Faro. Jorge Langweg (*) adiantou também que o projecto, pioneiro a nível internacional, vai ser objecto de analise pelo Instituto das tecnologias de Informação na Justiça (ITIJ) e pela Direcção Geral da Administração da Justiça (DGAJ).
A implantação do “moderno modelo” pretende substituir os já antiquados equipamentos de gravação, cujo mau funcionamento resultam, por vezes, na anulação dos julgamentos.Enquanto, “o novo equipamento digital conta com soluções de recurso em caso de alguma falha”, reforça o juiz Jorge Langweg, também coordenador do projecto.
O novo modelo tem estado a ser desenvolvido há meses. Nos últimos meses de 2005 foram efectuados os primeiros testes e os resultados agradaram aos juizes. O “Tribunal XXI” pretende assim assegurar com eficácia a documentação das audiências através de gravação digital em áudio e vídeo, acompanhada de transcrição da prova em tempo real.
Segundo fonte próxima do Ministério da Justiça terá sido gasto, no último ano, próximo de um milhão de euros em transcrições, que poderiam ter sido evitadas. Só as transcrições da prova produzida em audiência no julgamento da Brigada de Trânsito da GNR, que decorreu no Tribunal Judicial de Albufeira, custaram aos cofres do Ministério da Justiça 16 mil euros. Na área de Lisboa esse valor relativo a todos os processos que chegaram à audiência ascende aos 270 mil euros. O preço não é fixo e as transcrições tanto podem ser pagas por cada hora de uma cassete transcrita como por página, esta última é mais frequente, soube o Observatório do Algarve junto de diversos tribunais do distrito de Faro.
A morosidade das transcrições é, parte das vezes, responsável pelo atraso na apreciação de recursos por tribunais superiores. A mesma fonte explicou ainda que “actualmente, em caso de recurso da matéria de facto, mesmo em processos de arguidos presos, o processo aguarda a transcrição da prova e só depois os autos são enviados para o Tribunal da Relação e isso pode demorar meses (no caso dos julgamentos mais morosos), em que o arguido aguarda, muitas vezes preso preventivamente”.
Por seu lado, o juiz Jorge Langweg garante que no “Tribunal XXI” as declarações obtidas nas audiências levará não mais do que três dias para serem passadas a papel com o uso dos registos digitais, podendo assim rapidamente transitar para o Tribunal da Relação ou para o Supremo Tribunal.
O “Tribunal XXI” conta nos seus objectivos, o reforço da protecção dos direitos individuais do cidadão, garantir um acesso desburocratizado dos cidadãos a toda a informação processual a que têm direito.
Pretende, quando concretizado na sua totalidade, assegurar o segredo de justiça, simplificar a tramitação processual e as comunicações no interior do sistema, bem como, a partilha de informação jurídica, além do acesso instantâneo às bases de dados legislativas e de jurisprudência.

Por Jorge dos Santos, in
Observatório do Algarve

(lido no Vexata Quaestio, de João Benido Rodrigues, que, para além de inesgotável e actualizado veículo de informação sobre o mundo da justiça e do judiciário, publica agora, regularmenrte, magníficas imagens sob o título genérico "Justiça e Arte". Imprescindível no seu segmento!)
(*) Jorge Langweg acaba de criar o blog de informação - notícias, comentários e artigos de opinião sobre justiça, cidadania, cultura, ciência e tecnologia. Votos de longa vida a mais este projecto!

O discurso de tomada de posse do novo PGD do Porto

tal como relatado pelo Correio da Manhã:

O procurador-geral distrital do Porto, Alberto Pinto Nogueira, quer um “combate sério à corrupção, aí onde as regras democráticas são abalroadas”, mas avisa que “sem novos métodos de investigação a Justiça Penal não se realizará e adicionará desaires sobre desaires”.

Segundo o novo responsável pelo Ministério Público no Norte [Alberto Pinto Nogueira], não se deve “continuar no vale de lágrimas da falta de meios”. Neste momento, diz, “já ninguém se contenta com combates teóricos e com proclamações solenes sobre fenómenos de corrupção, de branqueamento de capitais, fraudes à comunidade “sob a veste de fraudes fiscais” e de “outras manifestações desviantes do convívio democrático, pois a corrupção com certeza abala os pilares da democracia”.

“Mas nunca é de mais acentuar que as generalizações são factores corrosivos e como se toda a gente quisesse julgar toda a gente no lugar do juiz penal”. Pinto Nogueira promete que “dentro do princípio da legalidade, o procurador-geral distrital terá uma atenção redobrada nessas matérias” e o MP “tem de assumir a direcção do inquérito e saber proceder a uma articulação profícua e sem preconceitos para com os demais órgãos de investigação criminal”.


Pinto Nogueira, a quem foi dada posse por Souto Moura, considerou que “a prisão preventiva, ainda em não poucos casos, é requerida – e é aplicada – como se se tratasse de regra e não de excepção”. O que acontece, “sobretudo numa flagrante oposição ao princípio da igualdade, quando estão em causa direitos, liberdades e garantias para cidadãos menos favorecidos...”. O magistrado referiu ser uma função do procurador-geral distrital velar sempre “pelo escrupuloso respeito pela legalidade”, através de “uma apertada atenção à Constituição e à Lei”.

Pinto Nogueira, que não fez parte dos nomes propostos por Souto Moura para o cargo, foi elogiado pelo procurador-geral da República.

Para o novo responsável pelo MP no Norte, “talvez seja o tempo de se tentar definir uma forma correcta de articulação com a Comunicação Social, que o estatuto do Ministério Público expressamente prevê”.

***

Alberto Pinto Nogueira, novo procurador-geral distrital do Porto, coordenou os recursos do processo ‘Apito Dourado’, no Tribunal da Relação do Porto, entre os anos 2004 e 2006, em que alterou muitas decisões do Ministério Público de Gondomar, no caso da alegada corrupção desportiva no futebol.
Alberto José Pinto Nogueira, de 60 anos, natural de Vila Nova de Gaia, de origens humildes, é filho de pais operários. Foi bolseiro da Fundação Calouste Gulbenkian, como estudante de Direito, na Universidade de Lisboa.
Ainda procurador da República, Pinto Nogueira integrou a Alta Autoridade Contra a Corrupção, liderada pelo coronel Costa Brás, na década de 1980. Iniciou funções em 1971, em Mondim de Basto, e passou por Felgueiras, Vila do Conde e Santo Tirso. Está há 20 anos na Procuradoria-Geral Distrital do MP no Porto.

03 junho 2006

As razões de uma ausência ou a história do "vipe" que me passou pela cabeça

Estranham alguns companheiros incursionistas, em anteriores posts e comentários, a ausência de alguns colaboradores, entre eles este vosso Nicodemos.
A minha ausência - quero eu convencer-me disso - terá uma simples explicação: recentemente decidi mudar de emprego e, de profissional liberal passei, num golpe de mágica, ou mais propriamente, de despacho publicado na II série do Díário da República, a - imaginem só - uma espécie de, não sei como dizê-lo, mas digamos, funcionário público. E logo nesta altura em que, ao que consta, os (nos ?) querem mandar para qualquer coisa com um nome esquisito, como quadro de supranumerários ou semelhante, isto provavelmente porque não os podem mandar para outro lado...
E vai daí, é natural que essa mudança tenha provocado algumas alterações na vida deste vosso amigo, uma das quais, e a não menos importante, foi a de ter que passar a viver a quase cem quilómetros de casa.
A experiência de passar a viver em local diferente não é nova, mas estava muito longe de pensar que voltaria a ter a sensação que já experimentara nos anos da tropa, no QG de Évora (ai as migas com pingo...) e, em anos mais recentes, num célebre convento que fica ali para os lados da Estrela, onde também me alistaram durante uns tempos (ali as migas eram outras e, acreditem, ainda mais indigestas).
O fazer a mochilita no início da semana, com a camisinha (sem segundas interpretações, se faz favor...) e a gravatinha, o caos do trânsito, a poluição, o comer na tasca da esquina e, last but not the least, os burocratas encartados(que pululam na capital e são uma das espécies mais nefastas de poluição, só comparável ao gás sarin), causaram alguma perturbação no quotidiano (e também no aparelho digestivo) deste vosso amigo, habituado que estava (pelos vistos mal, senão não tinha mudado) a ir de casa ao trabalho em menos de dois minutos, a comer à mesa com a famelga à uma da tarde e às oito da noite, e a não ter de aturar ninguém, a não ser, de vez em quando, algum cliente mais recalcitrante ou algum juiz mais chato (o que, diga-se, não é nada comparável a ter de aturar um manga de alpaca munido da III série de Diário da República de 1947).
Et voilá, aqui está, preto no branco, as razões da ausência, que se espera temporária, deste vosso humilde escriba.
Mas, cadê os outros ? Também lhes deu na mona armarem-se em parvos e mudar de emprego quando já deviam era estar a pensar na reforma (ou será aposentação ?...)
Vá Ruis, do Carmo e Cardoso, Anto, Forte, Contraverso e tutti quanti têm andado a fazer gazeta: digam também de vossa justiça, dêem notícias. Os leitores do Inc. e este vosso neófito manga de alpaca agradecem...

O leitor (im)penitente 4

Da imortalidade em letra pequena,
em pé de página ou em nota avulsa


Isto de livros e leitores é um mundillo como dizia o meu prezado Fernando Assis Pacheco, amigo paciente e leitor omnívoro. Basta estar um no sítio certo, ou em hora incerta (como a batalha, e vá lá leitorinhas gentis e preguiçosas, um esforço para descobrir esta inter-textualidade) e zás!, escarrapacham-lhe com o nome num livro. A primeira pessoa que me chamou a atenção para o fenómeno foi o Rui Feijó que se considerava o campeão das aparições em notas de rodapé. Só que há aqui que fazer uma advertência: este Feijó, Rui Maria de seu nome, é um homem das arábias, uma biblioteca, um repositório de piadas, de historietas, de grande cultura, um cavalheiro no mais puro sentido da palavra, ou como já tive oportunidade de dizer, um “fidalgo” a par do João de Azevedo Coutinho, amigo do meu pai de que só depois de morto soubemos que era marquês de Angeja e dos verdadeiros, dos antigos, nada dessa malta “Foge cão que te fazem barão! - Mas para onde se me fazem visconde?”. Já me perdi!
O Rui Feijó, dizia eu, foi o primeiro Delegado Regional de Cultura do Norte e, nessa qualidade, foi meu chefe. Volta e meia, recebia um livro com dedicatória extensa e elogiosa. Ficava como um cuco, como compreenderão. E ia ver o índice onomástico, onde, regra geral, lá aparecia em duas ou três entradas, quando não era em notas de rodapé. “Dezoito” – dizia-me ele, com ar contrito. E eu já sabia. Aquele livro, ou aquele autor, acabava de entrar numa especial categoria, a dos citadores de “Feijó, Rui Maria Malheiro de Távora e Castro...”. Eu acho que ele achava graça e se sentia, intimamente envaidecido. Aliás logo no primeiro livro que cometi, lá vem ele, logo na dedicatória, para não falar num par de textos por lá recolhidos. Suponho que na altura o número de citações já fosse aí na meia centena. Que o diabo do homem teve cá uma vida...
Bom, aviado que está o Rui, vamos ao que estas traça. Amigos meus, gente boa e gentil, vão-me, volta que não volta, advertindo, de aparições do meu nome, em revistas, jornais, livros. Um, longínquo e fora da vista (mas não do coração) há mais de vinte anos, até me mandou um e-mail (onde é que ele apanhou a minha direcção é que eu gostava de saber) para me dizer que me topara num artigo de autor para mim completamente desconhecido sobre a Coimbra dos anos de brasa. E abraços, choradeira, notícias de filharada e netos, vem até cá abaixo, pá, que ainda há um salpicão ou um presunto para encetar, ao canto de uma conversa, de uma lareira, de uma mesa franca e risonha, com seu vinho, seu pão fresco, seu sal... E vou, mano, é só apanhar uma aberta e aí me terás encabidado que temos uma conversa em atraso de vinte e muitos anos para pôr em dia...
E lá estou eu... cheguei a uma idade que não posso pôr o pé na rua, tantos são os desvios, as paragens, as voltas e reviravoltas. Até parece que escrevo com o taxímetro a funcionar, raios me levem! Falava então de aparições em letra impressa. Claro que nada que se compare com os do jet-set. Felizmente! Imaginem se eu agora desatava a contar as plásticas, as amantes, os orgasmos, os segredos de A ou de B, o iate de X. E ainda por cima, que me lembre nenhum dos meus amigos tem iate. Porra de amigos: nem um iate! O Manel tem um barco, feio como um polvo neurasténico, e um par de canoas para remar. E uma prancha de surf! Mesmo tudo junto não se chega ao iate. O Fernandinho tem um barco de pesca. Cheira-me que só para o rio. Alguém me disse que aquilo, o barco, não aprecia ondas. Um cunhado dele, o Wilfredo Sangaró tinha um barcalhão já com uns dois ou três metros: naufragámos pouco gloriosamente no Algarve há muitos anos. Melhor: ficámos sem combustível e fomos rebocados por um iate verdadeiro mas pequeno até Portimão. Uma vergonha! E é tudo. Nem jet, nem set. Nem dívidas, também, valha-me isso ao menos.
Portanto, eu em corpo dez, em livro, ou noutro suporte aliteratado. Pois num escasso mês foi um fartote. Mas, modesto, como convém, perante tanta glória, limito-me a dois títulos distantes nos anos mas lidos só agora e ao mesmo tempo. Comecemos pelo César Oliveira que escreveu umas memorias antes de estupidamente morrer há já um bom par de anos. Referindo-se ao ano de 75, noticia ele, a minha saída do MES, pouco depois da que ele, Sampaio, Cravinho, Mestre e Brederode, tudo amigões do coração, tinham protagonizado. É curioso: fomos colegas em Coimbra desde 60. Metemo-nos em todas as alhadas que nos foi possível. Em 62 enquanto eu ia para a choça ele era expulso, o que foi uma sorte pois mudou de Direito para Letras, História mais concretamente e deixou um rasto de livros bem interessantes sobre temas do século XX (sindicalismo, 1º República, Guerra de Espanha...). No Porto ainda nos encontrámos várias vezes sempre na conspirata que era um pouco a nossa vida. Mais tarde foi a aventura do MES e depois, durante anos, fiz parte de uma mesa de almoço no snack do Hotel Florida onde o sampaísmo tinha o seu quartel general. Em indo a Lisboa, o que me sucedia com frequência quase semanal era certo e sabido. Aí pela uma já estava instalado na mesa daquele grupo sendo por várias vezes o primeiro a chegar mesmo antes do Luis Nunes de Almeida que também já é uma saudade. Disto tudo, e não me estou a queixar, o César retira uma saída do MES. É assim que fico para a história.
Assim não, porque, no segundo livro, “À mesa da Brasileira” o meu primeiro patrono na advocacia, Dr. Alberto Vilaça, relata uma audaciosa fuga minha à polícia política. Em resumidos termos: “A Brasileira” tinha duas entradas. Graças a isso duas ou três pessoas terão tido a presença de espírito de, ao avistar um pide farejante, se porem ao fresco pela porta das traseiras que dava para a Praça Velha. Nesse lote, o Dr. Vilaça incluía o seu “estagiário fantasma”, isto é, este vosso criado. Lamento muito mas não foi assim. Antes fora!
De facto, estando eu de partida para um curso de direito comparado em Estrasburgo, caí na asneira de comprar um saco de viagem. A vendedora, e que bonita era, meu Deus!, reparou numa pequena mancha e propôs-se limpá-la enquanto eu beberia uma bica ali ao lado. Aceitei a ideia e marchei para “A Brasileira” onde alguém me passou, se não erro, o primeiro número de um jornalzinho copiografado do nascente MRPP: o “Bandeira Vermelha”. Quando vi um agente da pide, chamado Figueiredo (que a terra lhe seja pesada como chumbo!) espreitar pela montra para mim, entendi dever libertar-me daquele lastro perigoso pelo que, deixando o café a meio, subi ao andar dos bilhares cuja porta sempre aberta ocultava um pequeno buraco na parede. Depositei aí o papelucho subversivo e desci de novo as escadas para acabar o café. Estava já no último degrau de acesso ao salão do café quando uma turbamulta de pides me interceptou aos gritos aqui está ele! Aí sim, descemos mais um lanço ou dois de escadas para a porta das traseiras. Atravessei a Praça Velha e as ruas seguintes no meio de uma flotilha de sete agentes da “prestimosa” até um carro que nos esperava na Rua Direita. Pelo caminho cruzei-me com vários conhecidos “futricas” que ao ver-me em tão desgraçada companhia empalideciam. Houve mesmo um que se persignou. O resto já não importa porque já o terei contado: mais um estágio, em Caxias com vista para o rio. Nada que não fosse infelizmente habitual.
No meio de tudo isto, dois pontos a salientar: não paguei o café porque um empregado, o senhor Damião, fez questão de mo oferecer quando tempos depois voltei ao redil. Ofereceu-me, aliás, dois, o da saída e o do regresso. Era assim a solidariedade em 1971. Quanto ao papelucho devo dizer que me esperou fielmente no seu buraquinho. Uma vez lido, deixei-o em sítio idóneo para ser descoberto por outro conspirador atento. Espero que dessa vez a coisa tenha corrido melhor.
Como calculo que o Dr. Coutinho Ribeiro me pergunte pela bonita empregada e pelo saco que ficara aos seus cuidados, devo dizer que recuperei este último (que ainda anda por aí), limpo e pronto a usar.

Por falar em Coimbra e anos de brasa: fazem-me falta os textos do Rui do Carmo, do Anto e do Nicodemos. Então malta? A fazer gazeta ao blogue?


O Carlitos de Felgueiras e o Quim Manel de Soalhães

(A propósito do Carlitos de Felgueiras, que o JCP trouxe ao debate, em postal abaixo)

Recordo-me que tudo aconteceu mais ou menos ao mesmo tempo: aos cinco anos, eu já andava na escola, lia e escrevia, aprendi a conduzir automóveis e comecei a trabalhar. A trabalhar, sim. Creio que foi por aí que conquistei também a minha ansiedade crónica, a que me levava a transpirar tardes inteiras, claustrofóbico, quando o que apetecia era ir dar uns toques na bola ou ir jogar aos caubóis para o monte ali ao lado, onde os outros putos se matavam uns aos outros com pistolas arrancadas dos ramos das árvores, mas eu não podia, tinha de ficar na fábrica de biscoitos, a ensacar biscoitos, que nessa altura ainda não havia máquina empacotamento automático.

Cresci assim, sem férias. Eu já nem sabia o que era pior: se o ficar ali dias inteiros a ensacar biscoitos, ou ter de sair com o motorista distribuir biscoitos pelo Porto, por Vila Real, por todo o lado. Muitas vezes, uma tarde a entregar mais de 500 pacotes de 3 kg, cinco de cada vez, braços estendidos, a atravessar ruas movimentadas e tantas vezes a descer duas caves para os instalar nos locais indicados pelos clientes, indiferentes ao cansaço do puto, carregado de bicoitos e de calor e tantas vezes de indignação.

Já mais tarde, a partir do 15 anos, já estudava no Alexandre Herculano, e lá vinha o telefonema do meu pai, de véspera, para no dia estar no dia seguinte no cruzamento do Bonfim, porque era precio ir com o empregado à RAR carregar açúcar. Aí, tinha a normal solidariedade do meu amigo Mário Moreira que, à falta de dinheiro para o ginásio, via naquelas tardes uma boa solução para puxar músculo. E ali íamos, para a zona industrial do Porto, onde era preciso tirar os sacos de 50 kg da palete e acomodá-los na furgoneta. Para a coisa andar mais depressa e para puxar pelo físico, habituámo-nos a carregar dois sacos de cada vez, o que até nem era mau para a prática do ciclismo que acumulava na altura.

Já no ano propedêutico, as coisas agravaram-se, porque afinal não tinha muito que estudar. Passei a ser eu a conduzir a enorme Mercedes, norte acima, norte abaixo, com um empregado que, de tão lesma, me obrigava a fazer o serviço praticamente sozinho, mas paciência, afinal eu até já estava habituado e às vezes nem o levava, e pedia aos amigos para irem comigo, que assim as coisas até eram mais divertidas e o JCP ainda foi algumas vezes.


Na faculdade as coisas melhoraram um bocadinho, por causa da distância que tornava a colaboração impossível, a não ser nas férias, claro, que aí tudo voltava a ser igual. Lembro-me da última vez que trabalhei: já estava casado, já era advogado e, por altura do Natal, de visita a casa dos meus pais, a minha mãe, que atendia um cliente, distraidamente, disse-me: Pesa-me aí esses bolos-rei. E eu olhei-a com um sorriso e chamei um empregado e disse-lhe: Olhe, faça o favor de pesar esses bolos-rei.

Pois. E tudo para concluir: isso fez-me bem ou mal? Não sei. Se eu tivesse podido escolher, teria optado pelo inter-rail...

António Bispo do Porto


Fui ver "António Bispo do Porto", peça levada à cena no Teatro do Campo Alegre, pela companhia Seiva Trupe. Gostei de ver a peça. Aliás, gosto imenso do teatro, que mantém aquele fascínio da contingência e da imediação entre actores e público.

O texto dramatúrgico apresnetado revela, na minha modestíssima opinião, alguma fragilidade, na parte em que só é compreendida a narrativa por quem já conhece a biografia de D. António. É no entanto excelente na apresentação e resumo do pensamento (cada vez mais actual) do grande Bispo do Porto.

Os actores são excelentes, embora alguns gestos me tenham parecido demasiado forçados ("teatrais"). Porém, noutros momentos, a coreografia revelou grande beleza.

Pena é que na sala estariam umas duas dezenas de pessoas ( e pouco mais).

E era importante que se fosse mais ao teatro!

À margem: a praga dos arrumadores não nos larga nem à porta do teatro. Tem de se arranjar solução para esses indivíduos que não têm qualquer necessidade (pois não querem manifetsamente ser ajudados, porque isso implica que assumam compromisssos) e que vivem da extorsão sobre os seus concidadãos. Não se consegue circular livre e descansadamente na cidade.


Voltando ao assunto, podemos ler em www.seivatrupe.pt : "ANTÓNIO, Bispo do Porto - a SEIVA TRUPE, indo ao encontro de muitas sugestões e pedidos, estreou no dia 10 de Maio, precisamente o dia do centenário do nascimento de D. António Ferreira Gomes, um espectáculo sobre a vida e obra desta invulgar figura e hoje muito justamente considerado um dos vultos de maior importância do pensamento português do século XX."

Ai Timor, Selecção

Desculpem-me, mas eu não resisto a dizer as coisa que penso. E ando agoniado, por duas coisas.

A primeira: vou tentar ver os jogos do mundial em que Portugal esteja, mas já ando enjoado de tanto mundial. Não se pode ligar a TV, a rádio e outras plataformas, onde não haja um hino à Selecção, um anúncio que não meta futebolista, outro anúncio onde não se ofereça o que se comprou se Portugal chegar à final, ou à meia final ou aos quartos de final, outro anúncio onde se simula a voz de Scolari e capas de revista com tantas gajas boas que, necessitadas de dinheiro e de publicidade, se mancomunam com jogadores de futebol, que precisam de gajas boas para serem melhores jogadores e melhorarem a auto-estima.

A segunda: estou farto de Timor. Não tenho paciência para a voz monocórdica de Xanana, que é poeta e guerrilheiro, presidente da República nos tempos livres, nem para o nobel de salão ministro dos negócios estrangeiros (?) (como se chama o homem?), que deve estar tão farto de Timor quanto eu estou, que nunca lá estive. Ok. Sei que a nossa má-consciência nos leva a ter estas coisas paternais pelo Timor do sol. Mas há coisas que de que não me esqueço. Há alguma semanas - antes do conflito interno -, ouvi um timorense queixar-se - presumo que um intelectual local -, em entrevista na rádio, que Portugal olhava de forma demasiado paternalista para Timor. Não gostei. Nós que pusemos bandeiras e fizemos vigílias, como se fosse a selecção nacional, por causa de Timor e andamos e fustigar o mundo pela independência deles.

Fiel a mim mesmo, olhem, que se entendam e que respeitem as bandeiras.

Compadre

Já nem falo de LC, que percebo, nem de outros, que também percebo. Mas noto aqui a falta de alguns que não percebo. Um deles, o principal, o que me trouxe, é o Compadre Esteves. O Compadre animava isto, cirúrgico (não digo filósofo, que ele manda-me à merda), com os seus pensamentos, com a sua atitude politicamente incorrecta, que é aquela que eu mais gosto, ele, que é um homem livre, que pode partir a loiça. Venha daí, Compadre, camarada, mestre. O Incursões precisa de si.

02 junho 2006

Afinal, o MONSTRO é...a Escola dos nossos dias!


Vasco Pulido Valente, em crónica publicada hoje no "Público", coloca corajosamente o "dedo na ferida", dizendo toda verdade acerca da Escola dos nossos dias, verdade essa que todos fingem não conhecer.
A palavra a Vasco Pulido Valtente e à verdade:
"Quem não vive na lua está farto de saber o que a escola precisa e não precisa. Não precisa de psicólogos, nem de psiquiatras: precisa de um código disciplinar e de uma guarda que o execute."
"Não precisa de conselhos directivos, nem de lamechice pedagógica, precisa de um director (...) que ponha expeditivamente na rua quem perturbar a vida normal da escola, quer se trate de alunos, quer se trate de professores."
"Não precisa da ajuda, nem da "avaliação" dos pais (...); A escola que por aí existe, como a democracia a fez, não passa de uma garagem gratuita onde os pais por comodidade e tradição metem as crianças."
Não serve as crianças, que não a respeitam e, em grande percentagem, voluntariamente a deixam. Não serve os professores, que não ensinam e sofrem, ainda por cima, um vexame diário. Não serve a economia, a cultura ou o simples civismo dos portugueses. "
I Nota: Excertos retirados, com a devida vénia, do Jornal "Público" do dia 02 Junho 2006.
II Nota: a foto acima colocada diz respeito à antiga escola primária do Landal (concelho das Caldas da Rainha), hoje Museu Escolar do Landal, inaugurado no dia 18 de Maio 2006 - Dia Internacional dos Museus.

Não querendo meter-me numa discussão 2

ou sendo obrigado a querer

Outra vez! Desta feita os mortos são 11. Entre eles cinco crianças e três mulheres.Na sua absurda cruzada para levar a democracia ao Iraque, tropas americanas abateram onze cidadãos que os jornais, americanos também, qualificam de civis indefesos. As bocas começam a abrir-se e as mãos a apontar o que se vai passando.
Esta notícia é colhida nos noticiários desta tarde (Rai 1 e Arte)

Serralves (mais uma vez) em festa!

É já neste fim-de-semana que Serralves franqueia de novo ao público as portas da casa, do museu e dos seus belíssimos jardins, para mais um fim-de-semana pleno de festa (ver aqui o programa completo).

Das 8H00 de Sábado às 24H00 de Domingo, quem se descolar a Serralves poderá perder-se pelos magníficos espaços e assistir a espectáculos, exposições e ao mais variado tipo de performances artísticas, num dos locais mais acolhedores e interessantes do país.

Mia Couto e as memórias de infância



Mia Couto, de seu verdadeiro nome António Emílio Leite Couto, nascido na Província Ultramarina Portuguesa de Moçambique, mais precisamente na Beira, a 5 Julho 1955, lançou em Lisboa o seu recente livro “O Outro Pé da Sereia”. Em entrevista a Rita Pablo do “Expresso-África” afirmou que "é filho de um casal português que emigrou para Moçambique entre 1951 e 52".

Mais nos diz: “Lá vivi toda a minha vida. Foi uma infância extraordinária pois era um tempo em que havia tempo, em que a ideia de espaço era quase infinita. Recordo-me que durante a adolescência saía de casa com uma tenda e os meus pais nem sabiam onde estava. Não havia preocupações. Tal ambiente ficou como uma embriaguez que até hoje ando à procura”.

Eles, por vezes, confessam-se…E acredito que Mia Couto ainda ande à procura do Moçambique da sua infância. Mas, segundo amigos meus, que lá estiveram cerca de 40 e 50 anos e que hoje ainda lá vão, em missões humanitárias, dizem-me que tal busca é inútil: esse "ambiente" que Mia Couto refere desapareceu...

01 junho 2006

Um bairro assustador

Na semana passada, umas das minhas jovens colegas de escritório pediu-me ajuda para tentar perceber a história de um arguido, que defende oficiosamente, num caso de tráfico de droga (coisa pequena: seis gramitas). O homem não conseguia distinguir o norte do sul, o que tornava a conversa inútil. Decidiu a colega ir ao local da detenção, um dos santuários do tráfico no Porto. Achei que, como o sítio não é dos mais recomendáveis, devia ir com ela, na vépera do julgamento. E fomos: nós os dois e outra colega. O arguido já lá estava.

Eu nunca tinha ido ao famoso bairro. Achei estranho, a meio da tarde, tanta gente sentada por ali, pessoas jovens e outras de meia idade, com o tranquilo ar de quem não tem que se preocupar com as coisas comezinhas da vida, talvez por causa dos rendimentos de inserção, talvez por causa de actividades que dão pouco trabalho e muito dinheiro, e, apesar de serem apenas 4 da tarde, não se notava movimento na escola ali bem no centro. Os prédios degradados assustam, as mensagens ameaçadoras escritas nas paredes sugerem um mundo à parte. E tudo é ainda mais assustador, porque à volta do bairro, por todo o lado, a pouco mais de 50 metros, há condomínios de luxo, num contraste a fazer adivinhar que o bairro, com magníficas vistas para o rio, tem o tempo contado.

Um pouco mais acima, à entrada de uma das torres, drogados a esmo, traficantes a esmo, palavras em código que se soltam à nossa aparição junto deles (que era onde começava a história do arguido), recuo rápido para o interior das torres, o que me levou a levantar a mão ao que parecia ser o líder na tentativa de lhe explicar que não éramos bófias à paiana, e eles pareceram acalmar, olho desconfiado e o negócio a prosseguir. Pensei. Se os quiserem prender nada é mais fácil. Se em vez de virem pelo lado norte com carros identificados, aparecerem de surpresa pelo lado Sul com carros sem insígnias, eles não têm tempo para fugir.

Percebido o que havia a perceber, saímos de lá por volta das 5 horas.

Hoje à noite, leitura mais demorada do Público. Uma pequena notícia prendeu-me a atenção: na tarde de 3ª feira, na mesma tarde em que lá estivemos, uma vasta operação policial levou à detenção de vários alegados traficantes no bairro. Sobressalto. Presumo que a operação tenha sido feita depois de termos saído de lá, mas certamente pouco tempo depois, o que me levou a imaginar a cena que seria se a polícia tivesse investido quando lá estavamos, talvez umas bastonadas antes que tivéssemos tempo para explicar ao que íamos, digo eu, a brincar, que sei bem que a polícia não é dessas coisas... Mas se a operação foi feita antes de lá estarmos, a conclusão só pode ser esta: nada mudou. É que o negócio parecia próspero.

estes dias que passam 27

Marilyn, Marilyn

Ah, amigos e companheiros deste blogue, mailas leitoras gentis e, já agora, que também são gente, os leitores, que os há, desde o meu caríssimo Manuel Sousa Pereira, escultor de mão firme, e amicus certus in re incerta, a quem esta croniqueta vai dedicada, e um leitor nascido nos trópicos longínquos, em Nampula a bonita, makua portanto, não direi de raça ou de pele mas seguramente de coração, para quem vai um abraço.
Um abraço, não: vai uma ribambelle de nomes de terras, outra música: Ribáuè, Chinga, Muècáte, Meconta, Corrane, Nacavala, Mutivase e Namina. A saudade alimenta-se de pouco, de nada até. E esperemos que os imbecis de serviço, no quentinho da sua casota, não venham outra vez dizer que isto é neo-colonialismo, fortes cavalgaduras!
Mas eu não era das terras vermelhas e rochosas que vinha falar, a mão escapou-se, como una furtiva lacrima, mas já volto ao que queria.
Marilyn Monroe, dizem os telejornais faria hoje oitenta anos. Já?
Se calhar é verdade, eu é que não dei conta. Também é verdade que nunca a vimos com mais de trinta e poucos, que nela eram magníficos. A morte alcançou-a ela com uma dose fatal de barbitúricos, se é que não houve quem se encarregasse de a ajudar em tão desagradável tarefa.
Quem, naqueles anos cinquenta que viram nascer o rock, frequentasse já os cinemas recordará Marilyn magnifica em filmes hoje imortais mas na época vistos vesgamente pelos pruridos ideológicos que não eram poucos. Mas não eram só os stalinistas que faziam má boca à pulposa Marilyn. Os carocas de Igreja, de todas as igrejas, verdade se diga, uivavam indignações, impropérios, enquanto com o rabo do olho iam espreitando aquele corpo insolente, ouvindo aquela voz sussurrante, babando-se às escondidas perante aquela imagem do pecado que morava ao lado, junto de uma paragem de autocarro na selva de asfalto onde não há melhor negocio do que o show business (agarra lá esta, Manel!...).
Marilyn, para quem a viu naquele Scala de Lourenço Marques, depois dos documentários e de uma série que passava todas as tardes e que era maravilhosa pois em dez minutos fornecia um incalculável número de mortos e de perigos inenarráveis que nos deixavam positivamente ansiosos pela semana seguinte onde tudo se compunha ao primeiro minuto para descambar a partir do primeiro terço em mais mortes, mais perigos, mais suspense e até à semana. O meu amigo Faria ( o mesmo a quem a belíssima professora de francês acusava – provavelmente com razão – de passar as noites em claro só para fazer coisas horríveis na aula, e o Faria mudo e quedo a olha-la como um goraz de pinta preta pronto a ir para o forno) jurava que durante as primeiras doze semanas do “Barco Misterioso” (um barco de rodas que subia o Mississipi...) tinham morrido mais de trezentas pessoas, tinha rebentado a caldeira do barco quatro vezes (ou cinco?) etc... etc...
Finalmente descobrimos que o Faria tinha uma paixão pela professora de francês e mandava problemas charadísticos para o Notícias sempre baseados no nome da pobre senhora, cujo único pecado era ter uma carinha bonita e um corpo que convidava aos maus pensamentos. E aqui está a passagem para a Marilyn, viram? O acaso e a escrita a eito têm destes milagres.
Pois a Marilyn morreu com a idade dos amados pelos deuses. Permanece pois luminosa na nossa memória, inmejorable!, como me dizia um companheiro de estúrdia espanhol, que não falhava uma única sessão de mesa de pé de galo na esperança de entrar em contacto com o espírito da Marilyn. – Mas tu és ateu, marxista, incrédulo dos quatro costados, protestava eu. Ele olhava-me do alto do seu metro e sessenta, moreníssimo e manchego como o queijo, e acompanhado por uma alemã espampanante que lhe levava uns bons quinze centímetros de vantagem, descalça. E dizia-me, perante o ar embevecido da tudesca, boa como o milho, há que dizê-lo (e ciumentíssima!!!): Marcelo, para um espanhol só o vulgar é que é impossível. Mais dia menos dia, a Marilyn aparece.
Confortado com as palavras deste amigo distante, acabo aqui a minha crónica que celebra mais do que um mito, uma mulher bela e sensível, e uma juventude, a minha e a do Manuel Sousa Pereira, amigo certo na adversidade que, ao ler esta ainda vai dizer ao Manel Simas: o “Tio” está tolo de todo, mas que a Marilyn era um pedaço ai disso não restam dúvidas.”
-Pois não, Manel, pois não.

PS: se eu pudesse pôr música nisto, aviava já o Lulu is back in town. Como não posso, ou não sei, imaginem portanto, a musiquinha em questão tocada pelo Earl "fatha" Hines.


O Carlitos de Felgueiras

No Dia Mundial da Criança vale a pena reflectir um pouco sobre o destaque que o “Expresso” deu esta semana a uma situação de trabalho infantil em Felgueiras. O Carlitos de 11 anos estava a coser sapatos à mão para uma marca espanhola – a Zara – acompanhado de um irmão de 14 anos e dos pais. Um choque para a intelligentsia lisboeta que ocupa os media.

Quem viu a reportagem na televisão constatou a verdadeira miséria – económica, social e cultural – daquela família desestruturada. Um casebre lúgubre, pais de baixa médica à espera do desemprego, avós estropiados com uma reforma que ajuda a compor o mês, duas crianças com o futuro ameaçado, habituadas desde cedo a lutar pela sobrevivência.

Obviamente que o trabalho infantil é algo que deve ser banido e que os intermediários e as empresas que se alimentam destas situações devem ser perseguidos e severamente punidos, mas a mim o que mais me preocupa é todo o contexto que torna possível tais situações em pleno séc. XXI. Para quem tem de sobreviver e não aprendeu a reconhecer a escola como meio de aprendizagem e instrumento para a vida, é fácil cair na tentação de fugir à escola e preferir meter as mãos à obra, por vezes no sentido literal do termo. Sem emprego qualificado, sem oportunidades à vista, para quê andar tantos anos na escola se, no fim, não há saída e não há compensação?

Esta é uma realidade que urge combater e que está presente nas cinturas e nos bairros das grandes cidades e em muitas zonas do interior, agravando os números do insucesso e do abandono escolar. O que podemos fazer contra isto, para deixarmos de ver os pequenos nas obras, nos campos, nas fábricas ou nas oficinas quando deviam estar nos bancos da escola? E que futuro lhes podemos prometer?

Fraternidade...



Xanana Gusmão abraçado aos seus "Súbditos".
Imagem de solidariedade. De fraternidade. Impossível em qualquer outra parte do Mundo. Impossível na Europa "civilizada". Impossível no nosso País, apesar de algumas lágrimas de Sampaio...Somos mais frios, mais distantes...contudo, alguns dizem-se representantes do povo...
Nota: A foto é do "Público on-line", da autoria de António Dasiparu/AP.

15 anos

A minha filha e eu andamos zangados. Hoje, encontrámo-nos no messenger. Ela escreveu-me um poema:


A máscara branca que nos separa
Foi assim que o mundo
Levou o sentimento
Trouxe melancolia
Tantos pés descalços…
Quero conhecer o mistério
Em ti, por onde for
Não em mim.
Vales toda a força interior, puro
Que a todas as manhas
Entra pela janela e diz:
“Bom dia”
Sim, essa máscara branca
Vai revelar o Mundo
E a ti.
E esta noite?
Danças comigo?


Depois disto, fui procurar um texto já antigo do Compadre Esteves / Primo de Amarante
relativo ao dia do pai e decidi colocar aqui as duas coisas (o poema autorizado, expressamente, e o texto do Compadre tácitamente):

Pensamento para o "Dia do Pai"

Um dia, um pensador indiano fez a seguinte pergunta: "Porque é que os pais gritam com os filhos?". "Gritamos porque perdemos a calma", disse um deles.
"Mas, por que gritar quando o filho/a está ao seu lado?" Questionou novamente o pensador. "Bem, gritamos porque desejamos que o/a filha nos ouça", retrucou outro discípulo.
E o mestre volta a perguntar: "Então não é possível falar-lhe em voz baixa?"
Várias outras respostas surgiram, mas nenhuma convenceu o pensador. Então ele esclareceu: "Vocês sabem porque se grita com um filho/a quando se está aborrecido? O facto é que, quando pai e filho/a estão aborrecidas, os seus corações afastam-se muito. Para cobrir esta distância precisam gritar para poderem escutar-se mutuamente. Quanto mais aborrecidas estiverem, mais forte terão que gritar para se ouvirem um ao outro, através da grande distância. Por outro lado, o que sucede quando pai e filho/a gostam muito um do outro? Eles não gritam. Falam suavemente. E por quê? Porque os seus corações estão muito perto. A distância entre elas é pequena. Às vezes os seus corações estão tão próximos, que nem falam, somente sussurram. E quando o amor (pai, mãe e filhos) é mais intenso, não necessitam sequer de sussurrar, apenas se olham, e basta. Os seus corações entendem-se. É isso que acontece quando uma família se sente próxima, porque se ama.
"Por fim, o pensador conclui, dizendo: "Quando vocês discutirem, não deixem que os vossos corações se afastem, não digam palavras que os distanciem mais, pois chegará um dia em que a distância será tanta que não mais encontrarão o caminho de volta".
Mahatma Gandhi (texto adaptado)