Portanto o que aqui vai é decididamente pobre mas original. Ou seja é uma opinião num mundo e num tempo em que cada vez menos as há.
1º : Cavaco ganhou e os outros todos perderam. Aqui não há segundos lugares mas tão só derrotas.
2º: As vitórias morais são boas para a minha Associação Naval 1º de Maio, coitadita, que se viu a disputar um campeonato que não é manifestamente para ela. Na política não há vitórias morais embora possa haver vitórias pirrónicas...
3º: Com o fim do mandato de Sampaio e a derrota de Alegre a geração de 60 “tire sa réverence”, sai de cena. Sinto-o dolorosamente porque é a minha geração, são os meus amigos, fui cúmplice deles, temos uma história comum que fundamentalmente se caracteriza por termos passado meia vida às voltas com um regime autoritário, tosco, grosseiro e ineficaz do ponto de vista económico. Meia vida significa um mínimo de trinta e um máximo de quarenta anos. De todo o modo tivemos mais sorte que os nossos pais.
Postas que foram estas três evidências, permita-se-me uma pequena digressão sobre o que se passou. É vista pelo olhar de um proponente de Manuel Alegre, para que não haja dúvidas.
a) Estou triste, claro. Diz-me um amigo: “A coisa poderia ter corrido melhor. Afinal foram só umas décimas (40.000 votos)”. Não é verdade. Essas poucas décimas apenas significariam a possibilidade de ir à 2ª volta. E mesmo que se tivesse verificado um resultado inverso (Cavaco 49, 4% e os outros 50,6%) não é absolutamente líquido que o resultado final fosse uma vitória de Alegre. É verdade que a esquerda se consegue mobilizar, que o PCP faria uma transferência impecável de votos e que o mesmo poderia suceder com o bloco e eventualmente com o MRPP. Seria assim exactamente assim com os votantes do PS? A maioria sem dúvida. Mas todos? E não vale a pena virem-me com o argumento da primeira eleição de Soares. A situação política era absolutamente diferente, os campos estavam bem mais definidos e a esquerda não descria de si própria. Quem lá andou (e eu estava metido no MASP até ao tutano) sabe bem da trabalheira e da dúvida permanente quanto aos resultados.
b) A vitória de Cavaco não se deve a nenhum milagre do divino Espírito Santo, da irmã Lúcia ou de qualquer outro orago popular. Deve-se a um trabalho de equipa, profissional, solidamente organizado, começado há mais de um ano a que não são estranhos os cuidados do próprio candidato em não se misturar com aquela gentinha santanista. Convirá aqui relembrar que a tal gentinha (a da má moeda era o partido inteiro com a meritória excepção do dr. Marques Mendes) E que a maioria esmagadora dos notáveis santanistas esteve como um só homem atrás do Professor Cavaco. A bizarria das declarações, aliás patéticas, de Santana, acabou por funcionar a favor do candidato a quem por junto se aponta uma sobressaltada careta. E nem foi das piores. Cavaco é um tímido que não sabe rir. Faz caretas praticamente idênticas sem que isso incomode o povo sereno que o aclama como um Sebastião com mais juízo, casado pai de filhos e pouco dado a cavalgadas nos desertos marroquinos.
Cavaco começou a sua campanha há mais de um ano, dizia. Calmamente. Suscitando sondagens avassaladoramente favoráveis fosse contra quem fosse (Guterres, Ferro, Vitorino e já nem me lembro dos outros. O que era preciso era um candidato virtual para mostrar S Jorge a esmagar o dragão. Ainda Santana vagia, ensimesmado no seu débil sonho de governar e já os homens (e as mulheres) se Cavaco se mobilizavam, como aliás, acertadamente Alberto João Jardim previu e condenou sem que ninguém –como de costume e com alguma razão – lhe desse crédito.
c) O CDS ganhou pois provou uma coisa evidente: se apresentasse candidato próprio a 2ª volta teria sido inevitável e muito mais incerta. Na verdade, se a esquerda é o que é quanto a unir-se, a direita, benza-a Deus, só se reúne quando se vê seriamente ameaçada. E um presidente da República, em Portugal, dentro da União Europeia por mais que queira não passa de um “fantasma de Canterville”. Que factura apresentará? Pois provavelmente nenhuma. Não só ainda está a viver a sua crise de orfandade como, a não ser um par de comendas pelos 10 de Junho, dificilmente se descortina o que poderá exigir a um presidente da República. Todavia, aqui sim, há uma saborosa vitória moral e um reconforto para o seu periclitante líder. Vitória interna, portanto para Ribeiro Castro. Durante algum tempo manterá a actual trégua com os restantes chefes de facção.
d) Mais difícil parece ser a posição do dr. Marques Mendes: fora a pequena partida pregada ao eng. Sócrates (e de que não é autor, sequer principal responsável) o dr. Mendes, que sempre foi um honrado cavaquista tem contra si isso mesmo. Será que Cavaco se contenta em presidir ás reuniões do Conselho de Estado, distribuir condecorações, conversar às quintas feiras com o 1º ministro ou pretende antes federar todos os descontentamentos e atacar o engenheiro pela direita e pela esquerda baixa isto é prestando uma orelha atenta e complacente às queixas do povo que se sente desconfortável nesta eterna e durável crise que o abate e lhe dá cabo da auto-estima? E nesse caso, para que precisará Cavaco de um chefe de partido, do seu partido, se é ele quem tira as castanhas do lume? Se Soares entendeu regressar à ribalta (e em circunstâncias muito diferentes de Cavaco) não quererá Cavaco fazer o mesmo e remodelar o partido à sua imagem e semelhança, ungido desta vez com um estrondoso voto popular (muito acima da última votação do PSD de Santana ou até de Barroso)?
e) E finalmente Alegre. É doloroso pensar que perde um pouco por sua culpa. Só por sua culpa. Tivesse Alegre, em Viseu, feito o discurso que os seus então muitos apoiantes socialistas esperavam, e as coisas seriam diferentes. Não sei se suficientes para ganhar, mas notoriamente diferentes. À uma porque cortava cerce o poder de manobra que a sua hesitação concedeu a Sócrates. Alegre com aquele discurso hipocondríaco a dizer “nim” ou, se calhar, nem isso, permitiu que a guarda pretoriana do PS tivesse tempo para desmobilizar muitos apoiantes seus e, sobretudo, convencer Soares a regressar. Tenho as maiores dúvidas que Soares aceitasse um convite do PS se antes Alegre se tivesse claramente proclamado candidato. Já sei que haverá muitos leitores meus (se é que ainda os há) que me retorquirão que Soares apareceria sempre mas não é esse o meu sentimento nem vão por aí as informações que me foram chegando.
De todo o modo, a campanha de Alegre começou tardíssimo tendo em linha de conta que teria de ser feita numa base cidadã apoiada por voluntários desorganizados e vindos de diversos horizontes. Alegre cometeu o pior pecado possível num político: foi imprevidente e deu a sensação de arrogância ao defender com unhas e dentes um timing que o prejudicou bem mais do que se lhe apontou.
É claro que no dia seguinte, como o meu título indicava, é fácil encontrar argumentos e desculpas para um mau resultado. Como pobre defesa apresento o penúltimo parágrafo de “carta ao meu amigo Manuel”: “e se a loucura da sorte assim o não quiser [a eleição], gostaria, apesar de tudo, de te dizer que este é, e será sempre um belo combate....E essa vitória já ninguém no-la tira”. Isto foi escrito e publicado a 15 de Dezembro do ano passado.
Estou triste como já disse. Mas, apesar de pensar que á minha geração não serão dadas mais oportunidades, aviso que ainda não estamos mortos, que mesmo morto são sempre precisos quatro homens para o tirar de casa como dizia o senhor Marquês de Pombal e que a democracia manda respeitar os resultados mas não manda conformar-se com eles.
“A gente vê-se por aí”.
como repararão pedi boleia para acabar o meu texto a uma frase atribuída ao dr. Santana. Quem, como eu, tanto o aturou tem direito a esta pequena pirataria.













