14 janeiro 2006

Diário Político 11

Em defesa do meritíssimo Joaquim Cangato
juiz por mérito próprio
Um cavalheiro angolano que, segundo consta, se reclama da pouco conspícua profissão de jornalista, entendeu que Angola era um país democrático e publicou um par de artigos acusando o Sr. José Eduardo dos Santos da prática de algumas malfeitorias de carácter económico.

Justamente indignadas pelo despautério delirante do escriba, as autoridades de Luanda começaram por o prender e, posteriormente, moveram-lhe um processo que está agora em fase de julgamento.

Os jornais noticiam que o pleito em curso corre seus termos no tribunal provincial de Luanda e que o julgamento é presidido por Joaquim Cangato, coronel da polícia política. Também já se sabe que, num douto despacho, o juiz já suspendeu - e por seis meses! - da sua actividade o advogado do réu. Este queixa-se que assim Rafael Marques (o escriba) fica sem defesa ao mesmo tempo que contesta a legitimidade do juiz para o suspender, sustentando que tal suspensão só poderia ser decidida pela Ordem dos Advogados.

Entretanto Rafael desdobra-se em entrevistas aos media portugueses e continua, com mais inconsciência do que temeridade, a acusar Dos Santos de malbaratar bens do Estado.

Pratiquemos, pois, sobre este fait-divers (onde é que já ouvi esta?) tropical que tanto excita o dr. Mário Soares e um par de associações de defesa de direitos humanos.

Angola, pese embora a opinião pouco credível que Marques terá do uso das liberdades de crítica e de imprensa, não é, nem disso se gaba, um estado democrático. Em África, segundo um dos seus mais conhecidos intérpretes, a democracia é supérflua e, geralmente, é tida como uma das más consequências do colonialismo. Ora sendo o MPLA um movimento anti colonial consequente não é crível e muito menos sensato que perca o seu tempo a aturar a opinião pública ou os seus fazedores.

Em segundo lugar, o poder nos países africanos (e por todos consultem-se as opiniões de Marcelino dos Santos) tem uma outra latitude daquela a que estamos habituados neste decadente ocidente. O poder para o ser não precisa, antes prescinde, de barreiras sejam elas jurídicas, éticas ou culturais. O senhor Dos Santos não faz menos nem mais do que o senhor Mugabe já fez ou pretende fazer. Ou do que o senhor Mobutu Sese Seko. No limite não difere especialmente do senhor general Amin, de Sª Alteza Imperial Bokassa Iº ou de tantos outros pais de pátrias africanos ou sul americanos. O finado e hoje pouco chorado Ceausescu, conducator da Roménia e “Esplendor do pensamento político do Danúbio” era desta mesma madeira. A diferença comportamental tinha a ver apenas com a famosa e leninista análise concreta da situação concreta. Isso mesmo, de resto, foi, há dias reafirmado pelo parlamento chileno quando entendeu testemunhar e legiferar sobre o exercício do poder presidencial e consequente inocência dos seus titulares.

Carece portanto, mais uma vez, de razão o senhor Marques e os protectores ocidentais dos seus (dele) direitos humanos.

Sendo o poder do presidente da república (que também é presidente do partido e presidente do governo) absoluto parece claro que o erário público se confunda com a sua fortuna privada e que ele use de ambos sem rédea. Se é assim, a que título pode o senhor Marques arrogar-se o direito de criticar o soba actualmente em exercício no Futungo de Belas?

E se não deve, nem pode, criticar, como se espantarão Marques e os defensores de, em resposta a um artigo, o prenderem? E uma vez que se não assustou, como devia e era prudente, o julgarem?

O tribunal é presidido por um cavalheiro que não possui o curso de direito mas que, em contrapartida, tem muita experiência em lidar com subversivos uma vez que fez carreira na policia política onde, aliás, e por mérito próprio ganhou os galões de coronel.

Este facto fez com que alguém tivesse a desfaçatez de questionar a qualidade da justiça a ser rendida pelo tribunal. Convirá salientar que, ao contrário do que criticam, um coronel e ainda por cima com passado na polícia política é honra demasiada para um simples jornalista. Rafael Marques mereceria, quanto muito, um sargento ou até mesmo um cabo de esquadra. Concederem-lhe um coronel só prova a magnanimidade do regime de Luanda.

Eu bem sei, já os estou a ver, os corta-cabelo em quatro, os buscadores de pelo em ovo de galinha, a retorquir que no tribunal comandado pelo valoroso coronel se prepara uma condenação à morte, tanto mais que o juiz já expulsou o advogado de defesa. E depois? Acaso a morte se tornou caso raro em Luanda onde entre o massacre dos “nitistas” e o aniquilamento da Unita se arranjam sem dificuldade cinquenta ou sessenta mil mortos?

Rafael Marques deveria até estar satisfeito: a sua condenação não só o torna conhecido no mundo inteiro como inclusivamente imortalizará o tribunal ao mesmo tempo que fará avançar a ciência jurídica um bom passo. Finalmente o excessivo garantismo que todos actualmente criticamos é posto em causa pela decisão corajosa de um juiz. Mais: o facto deste não ser oriundo de uma faculdade de direito vem fortalecer a sociedade civil a quem sempre se impôs uma regra jurídica que ela não entendia, servida por um calão científico que a tornava ininteligível aos ouvidos dos leigos.

Agora, graças ao meritíssimo Joaquim Cangato, o povo simples ganha os pretórios e a justiça popular abre caminho. A hipocrisia do direito ocidental está em cheque mesmo que a seu favor se relembre a decisão de libertar Pinochet ou de condenar três sérvios e dois croatas deixando por perseguir todos os cavalheiros que napalmisaram o Vietnam, ou que provocaram danos colaterais no Iraque, no Kossovo ou em pequenos países da América Central.

Moral desta crónica? O petróleo lava mais branco e o dr Jaime Gama só chama “bokassa” ao da Madeira.

Porto 28 de Março, dia de S Xisto, papa.
Vai esta para o Pedro Mendes de Abreu que nunca percebeu nada destas políticas nem aferiu direitos consoante a latitude e a cor da pele dos sacripantas que os violam. Ainda por cima faz anos no dia das mentiras. Parabéns, pá e que se repita por muitos e bons.

Nota: este texto ainda é do tempo do senhor Mobutu. Publica-se hoje porque infelizmente o país parece estar a converter-se numa república bananeira sem bananas. Situação desesperada mas não grave. E relata as façanhas de um juiz porque...sim! Entendem os leitores ou precisam que lhes faça um desenho?

d'Oliveira fecit

EXCEL

Ser português, aqui

Confesso: é quase manhã, chego a casa depois de uma noite atípica, com emoções fortes, oportunidades perdidas, zangado com a vida, preocupado com a minha filha que ontem fez 15 anos e que me desilude com os seus 15 anos (não, não há cartas de amor que resistam, e eu não resisto e estou farto de ser o pai-amigo que é torpedeado, coisa injusta - desculpe lá, Rodrigo, mas as coisas são o que são - e não estou a ironizar - mas são o que são, as coisas), e chego a casa, e olho para as notícias e penso que estamos todos dementes. Notícia do 24 horas? Jornal popular? É. Mas nem por isso menos sério. Vejam a manchete do Expresso: Souto Moura sem perdão. Sem aspas. Título conclusivo. Ou facto? Alguém vai ter que ser tramado. Souto Moura? "O Sampaio"? (Desculpe, José, a des-honra do PR...), o "24 Horas"? O Expresso? Atalhemos: alguém vai ficar tramado e isso é bom, porque não podemos ficar assim...
Portugal éum sítio que foi. E nós somos a paisagem...

13 janeiro 2006

Uma enorme perplexidade

Para o comum observador, o já designado caso “Casa Pia/ Escutas” gera uma enorme perplexidade, sem se saber ao certo a quem dar razão.

Fazem sentido as declarações do director do “24 horas”, bem como o comunicado da PGR e da PT. E isso pode significar que nenhuma destas entidades tem a verdade total ou que há quem, entre elas, minta.

As dúvidas e até mesmo a confusão estão instaladas. A tentativa fácil de explicar esta situação pode estar no recurso á velha teoria da conspiração, tanto para diabolizar o ministério público como o “24 horas”.

Mas, utilizar este recurso também lança uma outra dúvida: como é possível que um sistema que se pretende rigoroso nos procedimentos seja permeável ao embuste conspirativo?!...

É sobre tudo isto que a reflexão deste caso deve recair. Só, assim, no meu modesto parecer, se abrirá espaço àquilo que Weber chamou a ética da responsabilidade. Precisamos de desenvolver a ideia de avaliarmos as consequências dos nossos procedimentos para dessa forma evitarmos (pelo menos ao mínimo) os efeitos nefastos que as nossas acções podem causar. E este sentido da responsabilidade é também uma competência indispensável à credibilização das instituições.

Casa Pia/Escutas:

Noticia a LUSA: «O Presidente da República, Jorge Sampaio, fará uma comunicação aos portugueses às 19:45 horas desta sexta-feira. O chefe de Estado irá abordar as questões levantadas pela notícia do jornal 24 Horas».

Que País!!!!....

Segundo o “24 horas” de hoje, a Portugal Telecom forneceu ao Ministério Público, a pedido deste, dezenas de disquetes com registos de chamadas telefónicas e números de telefone sem que (no parecer do Jornal) qualquer justificação legal fosse avançada para justificar o pedido. São milhares de telefonemas feitos pelas mais altas figuras do Estado Português, registando-se, entre estas, os números de telefone privados de Jorge Sampaio, Souto Moura, Mário Soares, António Guterres e Mota Amaral, que aparecem nos autos do processo casa Pia sem que tenha sido encontrado o despacho do juiz a legitimar a presença de tais listas no processo.
Refere o mesmo Jornal que, ao cruzar-se a informação desses telefonemas, não é encontrada nenhuma ligação com os arguidos ou testemunhas do processo Casa Pia. Dessa forma, altas figuras do Estado português, sobre as quais não havia qualquer indicação de poderem estar ligadas ao processo Casa Pia, acabaram por ser envolvidas neste processo..Esta situação levou o Presidente da República a convocar o Procurador-Geral da República para uma reunião. Como já é público, o PGR garantiu, no final da reunião, que sobre esta matéria se iria proceder a um rigoroso inquérito.
Este chocante caso, terá necessariamente de colocar muitas questões que passarão não só pelo funcionamento da justiça, sua independência, formação e avaliação dos seus operadores, mas também pelas regras do sistema numa sociedade democrática. E este debate (aliás já abordado neste blog) impõe-se como um desígnio nacional.
Sem um funcionamento credível da Justiça nada pode funcionar neste País.

Notícia extraordinária

Jornalistas apanham carro de Cavaco em excesso de velocidade

Depois de um jantar em Castelo Branco a comitiva do professor passou que nem uma flecha por vários carros de jornalistas em plena auto-estrada. Os repórteres ainda tentaram acompanhar o ritmo, mas não tiveram sucesso. (...)Com uma agenda apertada, os candidatos presidenciais parecem não ter alternativa senão pisar no acelerador para cumprir os horários marcados. Depois de Mário Soares ter sido detectado por um radar quando circulava a 200 quilómetros por hora, foi a vez de a comitiva de Cavaco Silva também ter sido vista em excesso de velocidade, não pela polícia, mas pelos jornalistas.

Ora aqui está uma notícia extraordinária, manchete do Portugal Diário! Por este caminho,não tarda estão a verificar a velocidade a que andam os carros da polícia, dos bombeiros, as ambulâncias, e por aí adiante... Como devem calcular, é com notícias como estas que os portugueses vão determinar em quem votam no dia 22.

12 janeiro 2006

Última sondagem

De acordo com uma sondagem da Intercampus/TVI publicada hoje e realizada nos dias 9 e 10 de Janeiro, através de 1010 entrevistas, 53% das quais a mulheres ( com uma margem de erro de 3,08%, para um intervalo de confiança de 95%.), as intenções de voto são as seguintes:

Cavaco Silva 52,4% dos votos (em relação à sondagem de Dezembro, desce 1,9%)
Manuel Alegre 17,4% (sobe 2,4%)
Mário Soares 17% (desce 0,7%)
Jerónimo de Sousa 6,9% (sobe 1,2%)
Francisco Louça 5,8% (desce 1,7%)
Garcia Pereira 0,4%.

De acordo com esta sondagem, Manuel Alegre continua a ser o melhor colocado para uma segunda volta, recolhendo 42%, enquanto Mário Soares só atingiria 31,5%

Uma posição de esquerda

Noticia o “Público”: Ana Gomes, eurodeputada que integrou a Comissão Política de Ferro Rodrigues, escreveu, ontem, no blog “causa-nossa”:

«Joaquim Pina Moura devia ter a decência de abandonar o Parlamento (…) A Comissão de Ética da Assembleia da República devia considerar o caso e declarar a incompatibilidade, para credibilizar a função parlamentar (…) Governantes e dirigentes socialistas deviam parar de dar cobertura a tal promiscuidade. Militantes socialistas deviam deixar de continuar calados.»

Para que a noticia não se apague

Noticia o “Público”: Morreu Hug Thompson.

Na manhã de 16 de Março de 1968, Thompson na aldeia de My Lai viu do seu helicóptero um grupo de marines americanos a disparar contra civis vietnamitas. Uma mulher que gritava desesperadamente por ajuda era morta á queima-roupa. Thompson não hesitou e aterrou o seu helicóptero for forma a servir de barreira entre os soldados e os civis. E não hesitou em apontar as armas aos seus compatriotas, forçando-os a parar com os disparos.

Thompson não chegou a tempo de evitar a morte de cerca de 500 vietnamitas civis desarmados, mas salvou algumas mulheres e crianças.

Muitos anos depois, ao regressar á aldeia onde se deu o crime de genocídio, reconheceu três mulheres a quem tinha salvo a vida e o engenheiro Ho Chi Minh que na altura tinha nove anos.


O encontro foi indescritível e marcou o reconhecimento do supremo valor da vida humana.

Entretanto, Thompson havia participado aos seus superiores o genocídio, contou tudo o que viu: a vala com 170 cadáveres executados a tiro, o desespero da mulher que gritava por ajuda, os disparos contra tudo o que mexesse, homens, mulheres, crianças e velhos. Como obrigam as normas, foi ordenado um inquérito para salvar a decência do Pentágono. E como é normal na decência da guerra, a conclusão foi uma farsa. Trinta anos depois, o pentágono atribuiu uma importante condecoração a Thompson e enviou-lha discretamente. Mal a recebeu, Thompson deitou-a num caixote do lixo. Um reconhecimento envergonhado não se harmonizava com as vidas salvas. Thompson. respondeu que só aceitava a condecoração se fosse atribuída em cerimónia pública, realizada em Washington, junto ao memorial do Vietnam.

Os anos foram passando e em Março de 1998, por pressão das organizações dos direitos humanos, Thompson teve a cerimónia que finalmente o reconheceu publicamente como um herói.

Que a sua memória nunca se apague!

Vá lá, pá...

Estou assustado e velho. O meu amigo António S., jornalista que assinou comigo a primeira peça do "Sãobentogate" teve um enfarte. Somos da mesma idade. Ele que, ainda há dias, trazendo-me a casa, me explicava que eu devia deixar de fumar e que tinha comprado um barco para ter uma vida menos sedentária. Ele, que tinha deixado de fumar - coisa estranha, de um momento para o outro deixou de ter vontade de fumar e deixou - e que achava que isso de deixar de fumar é coisa fácil.
Vá lá, pá, temos de voltar a sair por aí, para falar com a malta mais nova sobre o jornalismo de ontem e o de agora...

11 janeiro 2006

Troca de cromos

Há dias, a jantar com um distintíssimo e muito mediático colega de profissão, a conversa descambou para as coisas da política. Ele foi, há anos, candidato a uma das maiores Câmaras do país. E perdeu. Eu fui, mais tarde, candidato à mediática Câmara do Marco, ainda nos tempos de AFT e perdi também. Foi uma verdadeira troca de "cromos". A ele, quem o convidou, prometeu-lhe uma campanha com mundos e fundos para o convencer a ser candidato e acabou - palavras dele, por certo um bocadinho exageradas - "falido". A mim, prometeram as mesmas coisas, e até mais porque ninguém queria ser candidato naquelas circunstâncias, e só não acabei falido porque acabei por ter juízo (sem falar no dinheiro com que alguns se abotoaram...). A ele, deram toda a liberdade para fazer as listas, mas acabou por ser pressionado para liderar um lista que não era a dele. A mim prometeram o mesmo e depois foi o que se sabe que foi. Por causa disso, ele ameaçou deixar de ser candidato. Por causa disso eu deixei de ser candidato (depois voltei). Ele, quando regressou ao escritório depois de todos aqueles meses de dedicação à causa pública, percebeu que tinha o escritório por um fio. Eu também. Ele ficou com má impressão sobre a forma como os partidos funcionam. Eu também. Não cheguei a perceber se ele gostou de fazer campanha. Eu, tirando a parte em que julguei que enlouquecia, gostei. Mas há uma coisa que ele me garantiu: não volta a dar para o peditório. Eu também não.

memória


carregas a minha boca na tua,

esta memória que arde em ti.
e ainda assim te vais,
teu corpo e tua alma marcados
pelo amor,
meu corpo, minha alma.

hão de falar-te de mim os teus lábios,
a tua pele onde andaram os meus,
as nossas vozes misturadas
de palavras e sussurros.
lembrar-te-ão a cada dia.


silvia chueire

10 janeiro 2006

Ensino superior

Ministério Público está a investigar ISCE de Felgueiras - Responsáveis indiciados por corrupção, tráfico de influências e favorecimento pessoal

  • O Ministério Público está a investigar o Instituto Superior de Ciências Educativas (ISCE) de Felgueiras por alegadas irregularidades no seu funcionamento, disse fonte ligada ao processo, citada pela Agência Lusa.
    Os responsáveis alegadamente envolvidos são indiciados por corrupção, tráfico de influências, favorecimento pessoal e participação em acto ilícito.
    Fonte do Ministério Público confirmou à Agência Lusa a existência de um inquérito, mas escusou-se a adiantar mais pormenores, afirmando que o processo se encontra em segredo de justiça.
    Em causa estarão várias irregularidades alegadamente relacionadas com o Conselho Científico, com a acumulação de funções e horários de docentes, funcionamento ilegal de cursos, docentes a exercer sem possuir grau superior e equivalências assinadas em nome do presidente do Conselho Científico por outra pessoa.
Notícia do JN de hoje. Não me espanta. Há já vários anos que previ que esta proliferação de escolas "superiores" não ia dar bom resultado. Percebi isso quando dias depois de ter decidido ir fazer outro curso superior fui convidado para dar aulas na escola onde tinha decidido ser aluno... É engraçado, não é?

Lamentável

A campanha eleitoral vai de mal a pior. Confesso que já estive mais longe do voto em branco, tal é a profusão de disparates e cenas lamentáveis entre os candidatos à esquerda.
Depois de ter participado nas eleições autárquicas de 2001 no Marco, contra Ferreira Torres, acreditava que já tinha visto tudo o que era possível em campanhas eleitorais. Mas ver Manuel Alegre, acompanhado de apoiantes e jornalistas, a discursar junto à sepultura de Fernando Valle, julgo que no cemitério de Arganil, atingiu o inimaginável. Ao aristocrata fugiu-lhe, desta vez, o pé para o chinelo…
Por outro lado, Soares e os seus apaniguados atiram-se à comunicação social e em particular ao grupo de Balsemão, queixando-se de parcialidade na cobertura da campanha. Então Soares, a quem sempre se permitiu o maior dos à vontades em todas as situações, vem agora lamentar-se por causa de uma fotografia em que coça a cabeça e fecha os olhos e de outra em que surge amparado a sair do comboio? O velho animal político acha que isso é uma campanha de perseguição política? De Balsemão, que deve ser o militante do PSD que menos simpatias terá por Cavaco Silva? Ora, caros estrategas do MASP III, arranjem outros focos e escolham outras bandeiras, porque essas só servem para entreter os mais incautos.

O que é isto?

Manuel Alegre recusou os serviços de segurança da PSP, a que os candidatos presidenciais têm direito, por recear actos de espionagem do PS, nomeadamente do Ministério da Administração Interna (MAI). Ao JN, Alegre disse que a opção não foi sua, afirmou que confia nos agentes e nas hierarquias da PSP, mas remeteu-se ao silêncio quando questionado sobre se contratou segurança privada por temer fugas de informação "patrocinadas" pelo ministro António Costa.
Uma fonte do MAI afirmou, ao JN, que "a situação é tão patética" que "nem merece comentários".


Extracto de uma notícia do JN de hoje, 3ª. E assim vai este país. Ou esta Pátria. Seja ou não verdade, a perplexidade é a mesma.

Forum das Pequenas Instâncias Criminais

http://forumpeqinstcrime.blogspot.com

Blawg nascido em 26 de Dezembro de 2005, da autoria da juiza de direito Raquel Prata, e que visa fomentar o debate das questões judiciárias que surgem no âmbito dos Tribunais de Pequena Instância Criminal.

09 janeiro 2006

Um aviso à navegação

Esta tarde, numa visita aos estaleiros da Lisnave, um operário, em discurso directo e perante as Câmaras das televisões, virou-se para Mário Soares e disse: «o sr.dr. é responsável pelos anos de fome que passamos, aqui, no Distrito. Desculpe que lhe diga, o seu governo foi igual ao do dr. Cavaco».

Mário Soares, depois de trocar algumas palavras com o operário, virou-se para os jornalistas e afirmou: «Agora estamos em campanha, é outra coisa, eu não vos falo directamente, fala ele», apontando para o seu assessor de imprensa.

A declaração de Mário Soares foi entendida como afirmação de «blackout». Em nome do candidato, os assessores explicaram, posteriormente, que Mário Soares pretendeu apenas «disciplinar os contactos com os jornalistas».

Não imagino que efeitos na opinião pública surtiam ser por conferências de imprensa o contacto de Mário Soares com os jornalistas, mas gostava de poder avaliar…

Naturalmente, as declarações do operário, transmitidas pelas televisões, não ajudam a promover o candidato e, por isso, compreende-se a irritação de Mário Soares. Mas, como é público e notório, parece que, no nosso sistema partidário, só pode ambicionar ser presidente da República (e como ambicionam!...) quem já foi “chefe” de partido e primeiro-ministro.

Sendo assim, é bom que lhes seja avivada a memória da sua governação para que se convençam que fazer campanha não é só ter lábia para dar espectáculo. O povo é sereno, mas há sempre quem não esqueça.

A memória é a nossa raiz e são as raízes que não nos deixam andar ao sabor do vento ou dos espectáculos.

Ora, aqui está um bom aviso para a governação! É, até, o mais positivo desta campanha.

Cristo e eu

A revista americana Higt Times, citada por The Guardian, sugere que Jesus e os seus discípulos usavam droga para levar a cabo curas milagrosas. Vai mais longe: tenta demonstrar, através de um estudo das escrituras, que Cristo daria uma passas. A ser verdade, eu pergunto: se Cristo, que era Cristo, podia dar umas "passas", por que motivo eu, simples mortal, não posso fumar os meus cigarrinhos de tabaco em paz, neste mundo que enlouqueceu e que vê em cada fumador um criminoso?

Boa notícia

A Autoridade da Concorrência (AdC) propôs a eliminação dos concursos para a instalação de novas farmácias, de todas as restrições existentes ao trespasse, da intransmissibilidade do alvará, a cessão de exploração e relocalização e, ainda, a revogação da obrigatoriedade da direcção técnica de farmácia ser exercida pelo seu proprietário.

Segundo alguns cálculos, o fim deste injustificado proteccionismo pode fazer com que os medicamentos baixem cerca de 30%.

Portanto, uma boa noticia!

A Fiscalia de Espanha e as escutas

Dentro do tema que nos vem ocupando é de todo o interesse a Circular que a Fiscalia do Estado Espanhol lhe dedicou em 1999.
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Circular 1/1999, 29 de diciembre de 1999, sobre
la intervención de las comunicaciones telefónicas en el seno de los procesos penales
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La Circular expone los principios que hay que respetar para que la intervención de la comunicación no se vea anulada y pueda ser utilizada como prueba en el juicio oral, así como la actuación a desarrollar por el Ministerio Fiscal en su labor de garante del cumplimiento de esos principios.
Los Sres. Fiscales deberán velar especialmente para que en las intervenciones de las comunicaciones telefónicas, acordadas en el seno de un proceso penal, se observen todas las garantías previstas en la adopción y ejecución de la medida. La posición del Ministerio Fiscal de garante de la pureza del procedimiento le obliga a oponerse a la posibilidad de que la medida de intervención se acuerde en diligencias indeterminadas, debiendo exigir que se haga en el seno de alguno de los procedimientos penales previstos legalmente. La importancia del Auto judicial exige de los Sres. Fiscales un detallado análisis del mismo para cerciorarse de que existen indicios suficientes para proceder a la adopción de la medida y que ésta aparece delimitada tanto desde el punto de vista subjetivo como objetivo, debiendo oponerse cuando el Auto no cumpla con estas exigencias.
Quedan prohibidas las escuchas predelictuales o de prospección, desligadas de la realización de un hecho delictivo concreto, es decir, aquellas encaminadas a ver qué se descubre, por puro azar, para sondear, sin saber qué delito se va a descubrir.
Está plenamente admitida la posibilidad de que las intervenciones recaigan sobre aparatos cuyos titulares sean terceras personas y no el presunto delincuente, siempre y cuando éste los utilice para sus comunicaciones.
En el caso de que se acuerde la prórroga de la intervención, ha de hacerse mediante resolución motivada, sin posibilidad de remitirse a la fundamentación expresada en el acuerdo inicial de la medida, evitando así prórrogas indiscriminadas.
El Fiscal deberá valorar, en cada caso, la oportunidad de estar presente en la audición de las cintas, acudiendo a este acto cuando considere conveniente participar en el proceso de selección de las conversaciones, indicando aquellas que tengan trascendencia para los hechos investigados.
Es necesario que la resolución judicial indique el tipo delictivo que se está investigando, no siendo admisible que se decrete la intervención de las comunicaciones para propiciar el descubrimiento genérico de posibles infracciones penales.
Una vez que el Juez tenga conocimiento del hallazgo casual de un hecho delictivo distinto al investigado, la solución dependerá de que se trate de un delito relacionado con el inicialmente investigado, esto es, que exista conexidad entre ambos, o, por el contrario, se trate de un delito totalmente autónomo e independiente del anterior. En el primer caso, deberá darse una orden judicial ampliatoria del ámbito de la escucha telefónica y proseguir la investigación en la misma causa; por el contrario, en el segundo supuesto, el Juez deberá, tras volver a examinar las cuestiones de proporcionalidad y la competencia, dictar una expresa autorización judicial que permita la continuación de la escucha e incoar la oportuna causa, tras deducir el correspondiente testimonio, en la que se prosiga una investigación diferente de la que ha sido el mero punto de arranque.
En los casos en que no se aprecie una vulneración del derecho fundamental al secreto de las comunicaciones, no devendrá aplicable sin más la prohibición de utilización contemplada en el artículo 11.1 LOPJ, sino que habrá que enjuiciar el valor procesal de esa prueba defectuosamente incorporada a las actuaciones del proceso.
El Fiscal ha de estar, más allá de su papel de garante o controlador de la legalidad procesal en su conjunto, particularmente sensibilizado para evitar que pueda desplegar su virtualidad en el proceso una diligencia de prueba vulneradora de un derecho fundamental del imputado.
El Fiscal debe, al serle notificado un auto por el que se acuerda la intervención de una comunicación telefónica o su prórroga, comprobar que el auto reúne los requisitos mínimos para disipar cualquier duda razonable de que el derecho fundamental al secreto de las comunicaciones haya podido ser vulnerado. De no ser así el Fiscal deberá recurrir la resolución, Si se hubiera acordado la medida sin haber declarado al mismo tiempo el secreto de las actuaciones, deberá instarlo el Fiscal, ya que de otro modo no se podría impedir que las partes tuviesen acceso a las diligencias sin conculcar su derecho de defensa. Por el mismo motivo, si es el Fiscal quien solicita la medida de intervención de las comunicaciones telefónicas, deberá instar al mismo tiempo que se declaren secretas las actuaciones.
Si a pesar de la vigilancia del Fiscal para impedir la intervención de las comunicaciones telefónicas sin habilitación judicial suficiente, ésta ha tenido lugar y se pretende su incorporación al proceso, el Fiscal hará todo lo posible para que por el órgano jurisdiccional se declare la nulidad de esa actuación, y para que tal declaración de nulidad tenga lugar lo antes posible, recobrando así su plena vigencia el derecho fundamental injustamente conculcado. En la fase intermedia del proceso, la actuación del Fiscal puede coadyuvar también a la expurgación de la fuente de prueba obtenida con vulneración del derecho fundamental. Si no se detecta vicio alguno de ilegitimidad en la interceptación de las comunicaciones, el Fiscal propondrá la prueba para su práctica en el juicio oral, solicitando que estén presentes las cintas originales por si alguna de las partes interesa su audición. También de esta manera se pueden subsanar posibles vicios de legalidad ordinaria que hayan tenido lugar en la incorporación de la fuente de prueba al proceso.
Parece oportuno que los señores Fiscales planteen también en su caso, en el procedimiento ordinario, el incidente de nulidad de las intervenciones telefónicas como artículo de previo pronunciamiento o al comienzo de las sesiones del juicio oral. Al Ministerio Fiscal no sólo le es lícito recurrir, sino que está obligado a ello cuando, de forma incorrecta, se haya declarado la nulidad de la prueba, ya que ésta es la única posibilidad de que se declare conforme con la Constitución la intervención practicada y pueda entrarse a valorar la prueba obtenida, de la que el Fiscal se había visto indebidamente privado en el ejercicio de los derechos e intereses de la sociedad cuya representación tiene atribuida.

Uma ética "à maneira"

Pina Moura, ex-comunista ortodoxo, ex-ministro das Finanças heterodaxas e eleito deputado pelo albergue do PS recebeu do Millennium BCP Investimentos SA, em 2004, 120mil euros por trabalho de consultoria que se prendia com a Iberdrola e dizia respeito a uma área que, como ministro controlava.

O ex-ministro e actual deputado representante em Portugal da Iberdrola descobriu que a ética republicana é o cumprimento da lei, concepção que não é original, pois há mais de 2mil anos essa concepção já havia servido de lema aos fariseus com as consequências que desde então se conhecem.

O PGD do Porto e as escutas telefónicas

A notícia do Expresso do passado sábado, intitulada “MP do Porto questiona escutas” levantou polémica. No Incursões os debates decorrem aqui e aqui (e propostas foram feitas ali). Para que todos leiam e/ou comentem com conhecimento de causa, pareceu-me fundamental divulgar o texto da notícia, que assim transcrevo em seguida.
(os negritos são os que constam da notícia tal como publicada no Expresso)

«O Procurador-Geral Distrital do Ministério Público (MP) no Porto, Alípio Ribeiro, reconhece que há descontrolo nas escutas telefónicas e determinou que os seus subordinados passem a comunicar superiormente todas as situações que envolvam aquele meio de prova. A medida, inédita no MP, visa disciplinar essas práticas e criar uma cultura de responsabilização dos procuradores.

Alípio Ribeiro – que supervisiona a acção do MP no caso do Apito Dourado, cujas investigações se apoiam fortemente em escutas telefónicas – comunicou isso mesmo a todos os procuradores do distrito do Porto. No documento a que o Expresso teve acesso, diz que ignora quais as escutas legais autorizadas bem como as eventuais utilizações indevidas. Tal desconhecimento resulta de não haver no MP quaisquer registos globais e sistemáticos das escutas que os seus próprios magistrados requerem aos juízes de Instrução Criminal.

Até hoje o MP nunca fez o levantamento quantitativo e qualitativo das escutas telefónicas. A única tentativa conhecida de ser apurado o que, em concreto, se passava, foi feita pelo actual procurador distrital do Porto, que, no entanto, saiu gorada. A sua pesquisa junto dos magistrados do MP permitiu concluir que cada um deles contava apenas com a sua memória.
Ora, em face do “uso excessivo e inadequado” das escutas, Alípio Ribeiro considera que o MP deve assumir uma actuação que "melhor se adeqúe lei”. Nesse sentido, proferiu um despacho, no passado dia 16, no qual determina que os magistrados do MP passem a comunicar-lhe todas as situações que envolvam o recurso ás escutas.

Em declarações ao expresso, Alípio Ribeiro diz pretender criar uma “cultura de exigência crítica” e adverte os magistrados do MP de que não devem requerer escutas de "ânimo leve, mas com rigor”, competindo-lhes, sempre, “verificar as condições de legalidade, para evitar depois que condenações por crimes graves venham a ser anuladas por decisões dos tribunais superiores”.»

E já vai uma...

«O que aconteceu ao infeliz bebé de Viseu provocou as inevitáveis reacções ainda em curso, nomeadamente nos meios de comunicação social.
Essas reacções são naturais e, porventura, reveladoras de que, ao contrário do que, em dias de maior pessimismo, sou tentado a pensar, o chamado «país real» ainda está, na essência, de boa saúde.
Mal de nós no dia em que, perante acontecimentos trágicos como aquele, o cidadão comum e a comunicação social ficarem indiferentes.
O problema é outro.
Já se anda a fazer diagnósticos apressados do que funciona mal e a anunciar medidas. Segundo li, estas últimas serão em número de 10 - não fazem a coisa por menos! »

(excerto de post de Vítor Sequinho dos Santos, a 6 de Janeiro, e que continua ali no Monte dele…)

«“Alberto Costa, ministro da Justiça, também anunciou (...) que a detecção das falhas terá consequências ao nível de alterações legislativas. “Vamos dar claros poderes ao Ministério Público para desencadear a acção penal”, afirmou o Governante, esclarecendo depois que o crime de maus tratos deixará de depender de queixa, podendo o Ministério Público exercer, mal tenha conhecimento, a acção penal. “Esse foi um problema que temos vindo a detectar como sendo um bloqueio. E que pretendemos que seja claramente ultrapassado”, esclareceu” – leio no Público de hoje, a propósito do caso do bebé de Viseu.

E fico estupefacto! Porque o crime de maus tratos a crianças nunca dependeu de queixa! »

(post de de Rui do Carmo, a 6 de Janeiro, no Mar Inquieto )

«Já é conhecida a primeira das dez medidas que referi no post anterior.
Está devidamente analisada AQUI (partilho, aliás, a estupefacção manifestada).
Fico a aguardar, ansiosamente, pelas outras nove...

(Seria bom que se lembrassem de que não estamos a tratar de cheques carecas, pagamento de prémios de seguro ou, sequer, de furtos de carteiras, mas daquilo que há de mais importante e mais indefeso - crianças em risco. Por isso, ao menos aqui, haja cuidado!) »

(de novo VSS n’O Meu Monte, em post de 7 de Janeiro)

08 janeiro 2006

Vão-se os anéis, salvem-se os dedos

Quando há anos atrás soube que a Assembleia Municipal do Marco (com um voto contra) havia aprovado uma proposta para que fossem recusadas as minhas crónicas neste Jornal, pensei que isso se reduzia à concepção que Ferreira Torres tinha da democracia. Mas, ressalvadas as devidas distâncias, tenho de reconhecer que está a ser desenvolvida uma cultura de poder que tem da informação uma noção parecida. Perdeu-se a noção de que a liberdade de imprensa é um bem da sociedade antes de ser um direito de profissionais. E, como bem fez notar Hannah Arendt, tal liberdade só pode ser exercida do exterior da esfera política e, em democracia, não existe delito de opinião. A responsabilização dos jornalistas faz-se pelo direito de resposta e pelo recurso aos Tribunais.

Mas, para além do procurar banir a escrita de um cronista inconveniente ou do “blackout”, o poder político encontra sempre outras formas de coagir a liberdade de imprensa: pressiona os jornalistas a desenvolverem, no seu trabalho, uma autocensura que embarace a sua livre interpretação dos factos, restrinja o seu sentido crítico e escrevam ou revelem somente o que é agradável. Para além deste tipo de pressões, já se procura atingir as questões mais subliminares, como, p.ex., o caso de um candidato a presidente da República considerar falta de isenção uma eventual publicação da sua imagem com o dedo no nariz. E porquê?!... Porque se passou a privilegiar o espectáculo em detrimento das ideias. E, como se trata de Mário Soares, não se pode dizer que estas lhe faltem. O problema parece ser outro: é que a produção da crença nas ideias ou nos argumentos não surge apenas da competência das palavras que são ditas, mas da coerência com o que se disse noutras ocasiões. E, havendo contradição nessa relação, a única saída é a de tratar o eleitor como um consumidor de espectáculos e não como cidadão. O político fica, então, reduzido ao domínio da aparência, do puramente teatral, e, nesta circunstância, o dedo no nariz é uma imagem que não seduz e, por isso, se torna perigosa.

A recusa desta cultura dá, cada vez mais, força a Manuel Alegre. É que, paradoxalmente, do sucesso de Manuel Alegre depende a renovação do PS.

JBM in: JN

Imagens



Esta é uma imagem que eu preferia não ver. Mas compreendo-a. Já não compreendo tanto que um candidato presidencial que vá visitar o presidente do Governo Regional dos Açores não visite o da Madeira. Como não ficaria bem que um Presidente da República ostracizasse um presidente de um governo regional, seja ela qual for. Até porque é membro do Conselho de Estado. Isto, mesmo sendo certo que eu gostaria de de ver AJJ definitivamente no armário.

Coisas de nada

Passei todos os anos da minha vida a tentar não falhar. Por mim, mas sobretudo pelas pessoas que amo e que não queria desiludir. Talvez por isso, nunca tenha saboreado os sucessos do momento, preocupado já em não falhar nos desafios seguintes. Falhei muitas vezes e fiquei infeliz por isso e desiludi outras tantas e fiquei mais infeliz ainda. Percebi tarde, tenho vindo a perceber, que essa não é a melhor forma de vida, porque nos cansa e não nos deixa conhecer verdadeiramente o sabor das coisas boas. É uma mudança. Mas há uma coisa que nasceu dali e que nunca vai mudar, mesmo que eu nem sempre saiba manifestar os afectos: fico muito contente quando vejo as pessoas que gosto e quando vejo que estão felizes. Esta noite de sábado foi assim.

Ainda o Procurador-Geral Distrtital do Porto e as escutas

Hoje coloquei aqui uma nota sobre a matéria do título e que apontei como um exemplo a seguir.
Li, depois, o post sobre a mesma notícia que o Dr. José António Barreiros deixou no Patologia Social:

«Palavra de escuteiro
Há um procurador importante do Ministério Público que veio dizer para a imprensa que há "descontrolo nas escutas". Vem no «Expresso» de hoje. Os advogados andam a dizer o mesmo, há anos. A eles, porém, ninguém os escutou, salvo ao telefone, claro. Ora vão todos apanhar ar, porque hoje é sábado!»

A leitura que fiz da expressão "descontrolo das escutas" referida pelo jornalista foi bem diversa.
Não a entendi como aceitação pelo PGD do Porto de que a "escutas estivessem fora do controlo" no sentido de que ultrapassavam os parametros legais, mas sim fora do controlo da hierarquia, na medida em que sobre elas a hierarquia não tinha informação que lhe permitisse acompanhá-las na sua necessidade e legalidade.
Daí o teor da determinação de serviço de que a notícia se fazia eco.

07 janeiro 2006

O Procurador-Geral Distrital do Porto e as escutas telefónicas

Um exemplo a seguir

Notícia o EXPRESSO de hoje, pela pena de Aurélio Cunha, que o Procurador-Geral Distrital do Porto, Alípio Ribeiro determinou que os magistrados do Ministério Público do Distrito Judicial do Porto lhe passem a comunicar todas as situações que envolvam escutas telefónicas.

E fê-lo pelas melhores razões: disciplinar essas práticas e criar uma cultura de responsabilização, suprindo a falta de informação e formação resultante da falta de registos globais e sistemáticos das escutas que os seus próprios magistrados requerem aos juízes de Instrução Criminal e a falta de levantamento quantitativo e qualitativo da utilização das escutas telefónicas que daí decorria.

Confessadamente, parte essa determinação da necessidade, sentida perante a proliferação de escutas telefónicas, de evitar o seu «uso excessivo e inadequado» e encontrar uma forma de actuação que «melhor se adeqúe à lei» assim criando uma «cultura de exigência crítica» no recurso a esse meio de prova que não deve ter lugar de «ânimo leve, mas com rigor».

Perante a jurisprudência dos Tribunais Superiores, que têm considerados nulas as escutas em variados casos, e do Tribunal Constitucional (veja-se a propósito a Ac. deste tribunal referido em nota anterior) é da maior importância um especial cuidado na verificação e controlo das condições de legalidade das escutas.

Esperemos que o exemplo frutifique.

06 janeiro 2006

Centenário do Alexandre Herculano

Decorre este ano o centenário do Liceu (deixem-me dizer assim) Alexandre Herculano. E eu que fui "alexandrino" no seu cinquentenário!! Verdade! E ainda tenho guardado o livrinho comemorativo, número especial do "Prelúdio", o jornal dos estudantes do Liceu.
Lá estou eu, na 1ª fila da foto dos alunos do 4º ano, turma C, nº 11.
E lá estão os meus professores ao longo dos anos: Cruz Malpique, Camilo Fins do Lago, Olívio Costa Carvalho, António Melo de Carvalho, Maria Isabel Chorão Aguiar, Amadeu Saraiva Regadas (profe de canto coral, que tinha uma alcunha a propósito mas que não digo aqui, e onde eu me sentava no grupo dos "desafinados"...), João Gaspar da Costa (ai, as aulas de Latim..), e tantos outros!
Ali conheci, entre muitos, o Adriano Correia de Oliveira a quem eu chamava "Papa big legs", e me castigava fechando-me nos enormes cacifos de madeira!
Mas não sei de contactos, do programa do ano, nada! Será que algum outro "alexandrino" me pode dar uma dica?

Frustrações

Já lá vão alguns anos, num hotel do Porto, o Prof. Francisco Lucas Pires, de quem tenho saudades e por quem sempre tive uma grande estima intelectual e pessoal, que nasceu era eu ainda um miúdo e cresceu quando fizemos praticamente sozinhos a campanha para as europeias de 1989, disse-me: «Quase todos os políticos são jornalistas frustrados». Eu lembro-me que nessa altura lhe respondi qualquer coisa como: «E o inverso não será também verdadeiro?»
Ficámos naquela e eu, que passei pelos dois lados e acho que me frustrei em ambas as coisas, razão pela qual me dediquei a esta saudável coisa que é escrever nos blogs, nunca me esqueci dessa conversa, pelo menos na parte em que me ajudava a perceber um trajecto de vida. O meu e o de alguns outros.
A que propósito vem isto? Ah, já sei: vem a propósito de um postal verrinoso da bem regressada kami, um pouco mais abaixo, sobre o envolvimento de algums figuras da magistratura na comissão de honra de Mário Soares. Se bem se recordam, logo na altura em que a coisa foi pública eu manifestei aqui a minha perplexidade, tão pouco me parece curial a situação, mas explicaram-me que a atitude dos magistrados em causa não pode ser entendida como envolvimento em actividades político-partidárias, logo, não viola o seu estatuto. Olhei de viés para a explicação porque, de facto, não estou a ver a diferença entre o magistrado do cachecol na sede do PS na noite das legislativas e os magistrados na comissão de honra e, para além disso, sempre achei que para além de um estatuto há sempre um código de conduta que, não tendo força de lei, arrasta uma enorme exigência moral. Eu sei que sou curto de inteligência, mas, pronto, a não ser que me façam um desenho, eu não consigo ver a diferença entre uma e outra coisa.
E foi por isso que me lembrei de Lucas Pires e da nossa conversa. E pergunto-me se as frustrações que se aplicam a jornalistas e políticos, não se aplicarão também a alguns magistrados. Infelizmente, já não temos por cá Lucas Pires para lhe perguntar o que pensa ele disto...

In memoriam

Nação

Aqui jazes
entalada na dobra dos tecidos
num esgar enfeitado de sargaço.

como gelatina do mar
esmagada entre dedos
esvai-se-te o sangue pútrido das veia.

Secularmente se te acumularam os adubos
ao longo das dunas domesticadas
e na brisa os chorões gastaram as sementes.

A água salgada veio com peixes mortos
realimentar-te as prais.

Agora, devagarinho lambida pelas ondas
jazes esventrada.

do livro "Gracejos à Solidão" (Inova, Porto, 1972) de Margarida Losa (1943-1999).

Quem aqui passar relembre com alegria a Ilse, o Arménio ("Carmo") e a Margarida Losa. RIP

Duas noticias

Uma sondagem da Universidade Católica para Antena 1/RTP/Público, divulgada pela rádio às 17:00 horas desta sexta-feira, dá a vitória a Cavaco Silva, que deverá obter 60% dos votos.
Em segundo lugar surge o candidato independente Manuel Alegre, com 16% dos votos, ficando o candidato apoiado pelo PS, Mário Soares, na terceira posição, com 13%.
O candidato apoiado pelo PCP, Jerónimo de Sousa, tem 7% de intenção dos votos, Francisco Louçã 4% e Garcia Pereira 0%.

No Diário Digital (LUSA) dá-se noticia: «A comitiva de Mário Soares seguia a pé pelas ruas de Gondomar, quando, de forma inesperada, se dirigiu à Biblioteca Municipal de Gondomar, onde Valentim Loureiro esperava à porta.

Mário Soares e Valentim Loureiro deram um prolongado abraço perante dezenas de jornalistas, com o autarca a elogiar o ex-Presidente da República. "Mário Soares é uma pessoa que não esquece os amigos, cultiva uma palavra e um sentimento que é gratidão", declarou o ex-dirigente social-democrata».

Ilse Lieblich Losa(1913)

Faleceu, hoje, na sua residência, na Pasteleira, Ilse Losa. Refugiou-se em Portugal em 1934, fugindo às perseguições nazis. Escreveu contos, sobretudo para crianças. Os motivos da sua obra encontram-se nas experiências da nazificação da Alemanha, sua Terra natal, e nas dificuldades de adaptação à sua pátria de exílio, Portugal. A sua obra foi publicada pelas editoras Afrontamento e ASA. Fazem parte da sua obra, O Mundo em Que Vivi (1949, volume de estreia), Histórias Quase Esquecidas (1950), Rio Sem Ponte (1952), Aqui Havia Uma Casa (1955), Sob Céus Estranhos (1962), Encontro no Outono (1965), Estas Searas (1984), Caminhos sem Destino (1991) e À Flor do Tempo (1997, Grande Prémio da Crónica de 1998).

Para crianças, escreveu A Flor Azul (1955), Na Quinta das Cerejeiras (1984, Prémio Calouste Gulbenkian), A Visita do Padrinho (1989) e Faísca Conta a Sua História (1994). Possui ainda uma obra de crónicas de viagem, Ida e Volta — À Procura de Babbitt (1959).

Em 1984, a Fundação Calouste Gulbenkian atribuiu-lhe o Grande Prémio de Livros para Crianças, pelo conjunto da sua obra.

Era de uma ternura imensa para com os amigos. Foi professora na antiga Escola do Magistério Primário do Porto e tive a honra de ser aí seu colega e a partir daí seu amigo. O seu marido e a sua filha já tinham partido.

Informação Jurídica

Desculpem o atrevimento e a imodéstia, mas como este blog tem uma elevada percentagem de Juristas, e vi publicado o trabalho final que apresentei no Curso de Pós-Graduação em Direito Penal Económico Europeu (Faculdade de Direito de Coimbra), intitulado "A construção dogmática dos crimes contra a Segurança Social", informo os interessados nesta (raramente tratada) matéria que o mesmo está disponível no site: www.verbojuridico.com
Já agora, desculpem a publicidade...

Farmácia de serviço nº 15

QUI SE MANGIA BENISSIMO
ou a vera receita do spaghetti alla bolognese
que animou muitas noites berlinenses

para a Lena agradecendo jantar
poesia e piano
e para o Didi em não podendo nós
desfazermo-nos dele


Nos idos de 70, e durante um par de meses, estanciei em Berlim para acompanhar a minha legítima (a 1ª, a Maria João, para quem segue um beijinho) num curso de alemão no Goethe-Institut. Aproveitei a boleia para me enfronhar, de novo e melhor, nos ínvios caminhos da língua e cultura alemãs pelo que assentei praça no Grundstuffe 1 enquanto a João navegava já pelo 3.

Pese embora o muro, Berlim era uma festa e o Goethe o seu vero umbigo pois ficava a menos de cem metros da Kurfürstendamm e a 500 da Technische Universität, cidadela revolucionária por excelência de uma cidade que venerava Rudi Dutschske e a Rote Armée Fraktion.

No GI coube-me por colega, entre outros igualmente bizarros, um italiano, natural da Sardenha, que logo no primeiro dia -e na primeira aula!!!- ao ver a nossa professora, assobiou num sardo puro e grandiloquente e rematou: Che bell culo!

A exclamação do sardo teve eco imediato em dois cavalheiros respeitáveis: um espanhol assistente de história chamado Martin e o próprio que estas vai traçando. O "sedere" da Frau "não sei quantos" era merecedor do entusiasmo do ilhéu e o resto também e a descaradona sabia-o.

A Sardenha é uma ilha de poucos recursos turísticos e de muitos pastores que, nas horas vagas, raptam cidadãos normalmente ricos para obter o respectivo resgate. Não tem a fama merecida da Sicília até porque os seus bandidos além de discretos operam individualmente a maior parte das vezes. Todavia nesta arte de redistribuir o PIB italiano, trasfegando da península para a ilha farta dose de liras a troco de um raptado, mostram-se admiravelmente eficazes. Quando lhes dá para ser cidadãos sérios (signifique isso o que significar na Itália) emigram para o continente e entram no mercado de trabalho comum à maioria dos emigrantes: por baixo e mal pagos.

O sardo desta história de que não recordo o nome (lembrando-me todavia do da namorada piemontesa que dava por Gabriella e era grande e bem feitona - ainda hoje me pergunto porque raio me hei-de sempre lembrar das mulheres e seus atributos e não dos marmanjões que elas trazem à arreata -) caiu-me logo no goto e, com o espanhol Martin, dois americanos ambos John, respectivamente "little" e "big", uma espanhola Maria, uma francesa Martine, a João e a Gabriella organizou-se uma trupe para gozar a cidade, o curso e a nossa "juventud, divino tesoro" da melhor maneira possível. Por grata amizade e para que não vá anonimamente ao encontro da glória literária fica o sardo doravante crismado de Giuseppe, Peppino para amigos e meninas.

Aproveitar Berlim e o resto significou organizarmo-nos, dividir os maravedis (lá eram marcos, moeda forte que na altura valia oito escudos dos nossos e quatro marcos da RDA no mercado negro), comprar os géneros na cantina do exército francês que aquartelava, como nós de resto, na zona de Wedding, tradicional bairro proletário. Farto gozo nos deu, enquanto durou, a escandalosa e ilícita compra nos estabelecimentos militares, dirigida pela atrevidíssima Martine, rapariga de peito de rola, olho azul e minha emérita professora de argot.

Comia-se pois, muitas vezes, em conjunto nas acolhedoras cozinhas do Studentenheim que nos servia de casa. Quando a faxina calhava ao casal italiano era certo e sabido que para a mesa saía uma farta dose de spaghetti alla bolognese.

Não sei ainda hoje, e já lá vão 25 anos, meia vida, se o spaghetti era realmente bom, se a nossa fome o sublimava ou se, simplesmente, eram os nossos sonhos e o cheiro de Berlim que transformavam, com a ajuda de um "Valpolicella" barato mas tinto, esses jantares em festins.

Fosse o que fosse era bom. Aqui vai pois a receita aldrabada no acidental mas garantida no essencial de

SPAGHETTI alla BOLOGNESI
(berliner Art)

ingredientes:

cebola, cenoura, tomate descascado e sem pevides, azeitonas pretas descaroçadas, alho, azeite, orégão, louro, sal, pimenta acabada de moer, carne de vaca acabada de picar, presunto, toucinho fumado, salpicão, vinho branco e obviamente as massinhas (por favor: spaghetti e se possível italiano!!!)

modus operandi:

refogue-se a cebola e em azeite enquanto um amigo/a serve um pouco de vinho branco seco (um vinho de conversar...) e nos recita a "oda a la cebolla" de Neruda ( "Odas elementales")
em estando a cebola meio loira junte-se-lhe o alho finamente cortado a cenoura picadinha (quantidade ao gosto da clientela) e aloira;
ao som de Bandiera Rossa entra em funções o tomate, pelado e despevidado que foi, e vai frufrulhando em lume brando. Meio copo de vinho branco pode, nesta altura, baptizar o petisco;
as carnes picadas e devidamente abastecidas de sal pimenta e orégãos começam o seu banho lustral nos líquidos que murmuram no tacho. Para que a cerimónia siga os veros rituais entra em cena um cavalheiro natural de Sevilha e que corre mundo sob o nome de Fígaro (recomenda-se a gravação que conta com a divina Callas no papel de Rosina). Deixe-se correr, inteiro, o 1º acto. Na impossibilidade de se operar com Rossini ( a quem se deve um tornedó) é permitido pela maioria dos autores recorrer aos serviços do senhor Wolfgang Amadeus Mozart e testemunharemos, com a conveniente compostura, as Bodas ou, pelo menos, todo o 1º acto;
durante este rosário de adições à frágil cebola foi-se usando de cuidado, tirando ou repondo, colher a colher (e lembremos que, a todo o momento, "a colher na boca" de Hélder é bem vinda), colheradas do molho espesso que empoça qual lava cheirosa o vulcão domesticado em que por artes musicais se transformou o amável utensílio de alumínio.

E as azeitonas? - perguntará maliciosamente a Lena. -As azeitonas ó nefelibática pianista, as azeitoninhas pretas e cortadas, entraram em seu tempo já as carnes tinham ganho cor e já ténue, mas decidido, o perfume do cozinhado invadia a sala onde se oficiará dando ao dente.

E o vinho? -insistirá, desta feita, o dono da casa, a calva vermelha e luzidia e a cara idem mas de malícia. "O briol" ,branco como se disse, e se deve, entrou de contrabando com o barbeiro de Sevilha mas só um copinho, e mal cheio, que isto é mediterrâneo o mesmo é dizer pouquidão de recursos e muita, mas muita, imaginação.

a latere:
a latere ( se bem que traiçoeiro o latim é muito útil) ferve, já, em recipiente autónomo, água com a pitada de sal que Deus manda e algumas gotas de azeite. Em estando as molhangas mais rescendentes que um chulo parvenu em sábado de festejos (litros de Tabac, brilhantina ou gel em excesso, unha comprida e guitarreira manicurada como se deve) sacrifiquem-se os spaghetti em toda a sua inteireza no caldeirão de Pero Botelho e aí permaneçam 10 minutos ou o tempo que for necessário para ficarem "al dente".

Nesse exacto momento escorrem-se os spaghetti, constipam-se em água fria e corrente e voltam ao fogo no mesmo tacho em que sofreram a anterior sauna e serão energicamente remexidos num pouco de manteiga que os esperava já meio derretida.

finale maestoso:
em recipiente apropriado servir-se-ão os spaghetti bem misturados com o molho que há de estar quente, espesso e cheiroso. É geralmente aceite pela doutrina e pela maior parte da jurisprudência, o uso discreto de parmesão ralado com que se polvilhará o prato que copiosamente enchemos.

Bom apetite e que os deuses imortais que regem o mare nostrum pai da Europa nos permitam encher a mula por muitos e bons e em boa companhia e, já agora, que o vinho seja do das bodas de Canãa ou, pelo menos, do Douro e com mais de dois anos.

Nota: esta receitinha tem já barbas (e provectas, valha-lhe Deus) e foi como no começo se diz dedicada à Lena e ao nosso querido companheiro Anto a quem alguns coimbrinhas de outras épocas chamam carinhosamente Didi. Ele merece. E ela ainda mais que o atura desde sempre.

nota final : no texto fala-se de uma estadia em Berlim"há vinte e cinco anos". Claro que agora já são 35!

nota ainda mais final: num comentário á morte do António Gancho eu esperneava e chorava baba e ranho por não encontrar a minha "Edoi Lélia Doura". Os Reis Magos fizeram o favor de me iluminar e lá a encontrei junta com as coleccção completa dos caderninhos Oiro do Dia. A altura do volume não lhe permitia a sã convivência com as restantes obras do H. Helder.

Ah que belo Dia de Reis!

Minha Querida Kamikase,
Eu já tenho poucas coisas realmente interessantes em que acreditar ou, como dizia o outro, sou macaco de rabo pelado. Contudo, por estouvamento consubstancial, por ingenuidade suicidária ou por burrice congénita sempre acreditei nalgumas máximas que o nosso povo, linguareiro e facilitador, usa e abusa. Uma delas será: quem está vivo sempre aparece ou estoutra: não há mal que sempre dure...
Tudo isto para Lhe dizer, aqui e não em comentário ao seu texto (está cheio de caracteres horríveis e inidentificáveis...) da grande alegria em vê-la regressar, triunfal e acutilante, mais "vento divino" do que nunca, e a arrear a giga comme il faut! Já telefonei (logo eu tão inimigo desse objecto fatal...) a não sei quantas pessoas para acudirem a este jovial ajuntamento e lerem com os próprios olhos como se destila meio quilo de cicuta em estado puro.
Eu nunca fui muito de Pai Natal, esse patusco avermelhado em honra da coca-cola. Mesmo que agora mo queiram impingir como S. Nicolau, seja o de Mira, padroeiro da Lorena e da Grécia, o de Tolentino (onde é que eu já ouvi este nome?), o de Flue, inimigo de Carlos o Temerário (filho da nossa Isabel de Avis...), ou os outros trinta onde se destaca o papa Nicolau I (o nosso Delfim há-de estar abananado com este conhecimento do Flos Sanctorum por parte de um leigo tão radical e soixante-huitard!!!)...
Em contra-partida sempre gostei dos reis magos. Os do ouro, mirra e incenso, navegando pelos desertos escaldantes das arábias felizes e infelizes, movidos por uma estrela longínqua e anunciadora. Na minha terra ou, melhor dizendo, na terra que adoptei como minha, há neste dia sempre um grande Auto de Reis a que, noutros tempos, ninguém faltava. Agora, sei lá... De todo o modo, os Reis: aí vinham eles com prendas singelas, numa cavalgata muito bonita por ruas e becos, pela praia, pelas matas circundantes que a cobiça dos empreiteiros converteu num deserto medonho de cimento (in)habitável no verão e em raros fins de semana. Ah que tempos: os Reis, os autos da Páscoa, o dia da Espiga, a noite de São João e a Senhora da Encarnação. Onde vai isso tudo?
Voltando à vaca fria: os Reis vieram mais uma vez, hoje guiados por Si. Bem haja por isso. E bom Dia de Reis aos restantes confrades: dêem-lhe no bolo rei, nas passas de figo, nas últimas rabanadas e no vinho fino.
E para os que tiverem a benção dum filho pequeno toca a ensinar-lhes:

Linda barquinha
que lá la vem
É uma barquinha
que vem de Belem.

Daqui a cinquenta anos ainda se lembrarão... garanto-vos.

Fora-da-Lei

O Grande Porto foi invadido há alguns meses por uma mensagem que muitos já devem ter visto e que, enigmaticamente, diz apenas “Replicas”, seguido de um número de telemóvel. Essa mensagem, escrita manualmente, aparece inscrita em painéis publicitários, placas de trânsito, out-doors de campanha eleitoral e tudo o mais que se possa imaginar.
Um jornal já desvendou esse mistério e revelou que se trata de um “empresário” que está disponível para fazer réplicas de tudo e mais alguma coisa: relógios, roupas, automóveis, o que o cliente quiser. O jornal, tanto quanto me recordo, identificou mesmo o autor dessa proeza.
Perante isto, só me apetece perguntar: não haverá um fiscal municipal, um fiscal das finanças, um polícia municipal, um agente da PSP, um militar da GNR, uma qualquer autoridade que se preocupe em telefonar para o senhor, marcar um encontro e, de acordo com o que a Lei permitir, puni-lo pela poluição que anda a fazer e pelos prejuízos causados a terceiros?

Que São Hugo lhe/nos valha!

Feliz regresso à blogoesfera de Gomez, o saudoso Causidicus, que uma vez por outra engrandece também este Incursões com os seus judiciosos comentários.

Eis alguns excertos do seu post de hoje na Loja do Queijo:

"O Sr. Dr. António Cluny, Procurador Geral Adjunto, é, nessa qualidade, um dos ornamentos da Comissão Nacional de Honra do candidato presidencial Dr. Mário Soares.
Incansável paladino do Ministério Público, o mesmo Dr. António Cluny é também Presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público e, nessa outra qualidade, foi convidado a participar num debate sobre a Justiça com ... o candidato presidencial Dr. Mário Soares.
O desfecho do encontro é titulado com sobriedade nos jornais de hoje: “Mário Soares critica MP”.
Menos sóbrias terão sido as afirmações do candidato. (...)
Poderá o Dr. Cluny, cidadão eleitor, continuar a apoiar o candidato Mário Soares, que tais tratos de polé deu ao magistrado e sindicalista Dr. Cluny? "
(...)
*********************

Fico na expectativa de novos debates sobre a justiça, agora entre o candidato Mário Soares e os membros da sua Comissão de Honra Nacional e Distrital da Guarda , respectivamente procuradores-gerais adjuntos Cândida Almeida (directora do Dciap) e Rodrigues Maximiano (membro do Conselho Superior do MP) e o ex-presidente da Câmara Municipal da Guarda, Abilio Curto, a emitir do estabelecimento prisional onde este cumpre pena de 5 anos de prisão. Quanto aos moderadores, aceitam-se sugestões... eu avanço ja uma: Joaquim Vieira!

05 janeiro 2006

Morreu ANTÓNIO GANCHO


“Só quando te beijo sinto o nome do teu corpo
Um dia parto sem ti e morrerei”


Escreveu António Ganchoo em Poemas Digitais (Jan. / Jul. 89).

Morreu na noite da passagem de ano, na Casa de Saúde do Telhal, onde vivia desde 1967 - leio agora no jornal

Para homenagear um poeta, que já não é novidade neste espaço, que dizia “escrevo-te para te ver outra vez”, aqui deixo

CLEÓPATRA QUE SAUDADES!

Um dia possuí Cleópatra na cama
a mulher que neste momento se ri de mim
julga que é mentira.
Um dia possuí Cleópatra na cama
coisas com que Cleópatra delira
Dois corpos afinal num só
Negámos nessa noite (tempestade ...)
a lei física da impenetrabilidade dos corpos.
O meu corpo no dela arde que arde
até ficarmos como mortos
Mas Cleópatra era bela.
Ela era mais que uma mulher
ela era de certeza a noite ela era de
certeza a estrela
ela era de certeza um segredo qualquer
Nunca mais me esquece
Agora canto “Um dia possuí Cleópatra
na cama”
a mulher que neste momento se ri de mim
julga que é mentira
Ai que coisa tão boa, coisa tão boazona
ai que coisa com que Cleópatra ai tanto
delira
Agora canto “Na cama” Agora canto”Na cama”
Cleópatra que Saudades!


O Ar da Manhã (1960/1967)

04 janeiro 2006

Viagem

Apetece-me ir por aí, contigo, numa viagem, já não aquela ao Peru que combinaste com a Luísa, onde há insectos grandes e bichos feios e maus, tarântulas e cobras e outras coisas que, agora sei, tu tratas por tu e por isso deves ter ficado horrorizada com a minha cara horrorizada quando eu disse que afinal já não queria que me levassem. Lembras-te?, foi ainda naquela meia hora em que eu ainda não te tinha visto antes de ter ver e de ter acontecido o que aconteceu. Apetece-me ir por aí, de carro talvez, num regresso ao prazer das viagens de carro sem tempos marcados e de paragens suaves, intermináveis viagens mesmo quando acabam porque nunca acabam quando se chega - eu prometo que arumo o carro, até juro! -, desde que atravesse a fronteira onde os passos são mais livres e a liberdade é mais tola, eu eu possa dar-te a mão e sentir a tua mão e ter a tua cabeça no meu ombro e beijar a tua boca e a tua boca outra vez e ir por aí contigo, minha querida, numa viagem...

Cáceres Monteiro




Não cheguei a conhecer Carlos Cáceres Monteiro, a não ser do que li escrito por ele, sobretudo nos velhos tempos do Jornal, ainda eu estudante de Coimbra, e quando os jornais também distinguiam os de esquerda e de direita e eu lia todos. Sei apenas que era um grande jornalista, um grande repórter e um grande editor. Cáceres Monteiro morreu demasido novo, aos 57 anos. Fica aqui a minha homenagem ao grande jornalista.

Ano Novo

Regressado dos festejos de Natal e Fim-de-Ano, renovo os meus votos de Bom Ano Novo para todos os incursionistas. No entretanto, houve por aqui alguns factos que não posso deixar de assinalar:

1. O amigo carteiro encontrou novas (e boas) razões para as suas insónias e ele sabe como fico contente por vê-lo com esse estado de alma. E os filhos, esses, estão um must!

2. O caríssimo mcr sentou-nos com ele à mesa no seu réveillon. Pois, meu amigo, também lhe dei com ganas valentes nesse dia, em casa dos meus compadres. Éramos muitos à mesa, adultos e crianças. Além do prato de bacalhau, pois atirámo-nos nos entrantes a uns valentes queijos (Serra, Azeitão, Serpa, terrincho de Trás-os-Montes, emmental e camembert), uns presuntos, umas tartes, umas saladas, etc. e tal. As saídas foram, também elas, divinais. Tudo regado com Tapada do Chaves tinto e umas colheitas especiais de espumante Murganheira. Ainda houve tempo para fumar um esplêndido cubano acompanhado de um bom whisky velho. Encerrou-se a sessão por volta das cinco da manhã, depois de muita conversa e alguma música. Para o ano há mais!

3. dOliveira recordou-nos aqui uns escritos seus de há quase vinte anos, em “homenagem forte” a mim próprio e ao compadre esteves. Não sendo credor de tamanha honraria, não deixo de subscrever parte do que então escreveu. Prometo, contudo, voltar ao tema da relação entre Porto e Lisboa ou, se quisermos, entre as capitais e as “segundas cidades”.

4. As presidenciais estão um aborrecimento. Todos semeiam disparates e penso até que as pessoas, a mais de três semanas das eleições, já começam a ficar cansadas da conversa dos candidatos. Ainda haverá margem para surpresas e argumentos que despertem um maior interesse nesta disputa?

Mais vale tarde do que nunca

Manuel Alegre afirmou, hoje: «Há um empobrecimento e um afunilamento da democracia. Quando se fala em défice democrático não se fala só na Região Autónoma da Madeira, pois também há défice democrático noutros lados, défice de igualdade, défice de emprego, défice de cidadania, de cultura e de educação».
E exemplificou: «Eu tenho constatado ao longo destes dias que muita gente me vem dizer - vou votar em si, mas não dou a cara! Isso quer dizer que as pessoas têm medo».

Por isso, concluiu: «Nós temos de encarar o problema democrático e da democracia como um todo nacional» e sublinhou que a sua candidatura pretende a «revitalização da democracia».

A nossa conclusão: que pena não haver mais militantes de partidos a se candidatarem, como independentes, à presidência da República!!!… Também eles podiam, assim, descobrir o que nos partidos, nas autarquias e nas questões de domínio político já há muito tempo está á frente dos olhos da maioria dos cidadãos.

03 janeiro 2006

Fazes-me bem

Mesmo não sabendo de ti fazes-me bem, sabes?, mesmo que por ti e pela tua ausência que dói as noites sejam mais curtas, infinitamente mais curtas e feitas de um sono sôfrego.
Ambos sabemos que no dia em que nós quisermos saberemos onde está o outro, afinal é tão fácil, tão mais fácil ainda se o tivéssemos querido naquela noite em que, como num acordo tácito, quisemos que fosse assim, assim como foi. Eu de ti não sei por quê e de mim sei pouco, talvez seja do medo, o medo que me ganhou depois de algumas falsas partidas que eu sempre soube que eram falsas como pechisbeque. E foi por causa disso, sobretudo por causa disso, que entrei na rota da fuga, galgando precipícios farto dos tempos loucos policromáticos à força, dessas minhas pequenas vitórias que a Ju e os outros viam e os divertia como se fosse um jogo, a rota da fuga dos amores fugazes e apressados, declinados em momentos de nenhuma esperança e que ardiam como fósforos, uns atrás dos outros e foi por isso também que, cansado do teatro, me ancorei na minha circunferência.
Tu não mataste em mim o medo, esse medo que agora é mais de ti do que de mim, mas o medo relativizou-se porque o medo é pouco quando o peito dói da lembrança e quando sinto que tu estás aí e a minha circunferência está aberta à espera que queiras entrar e fazer dela uma jangada de lápis-de-côr.

Texto com pedido de subscrição

Para: Ministra da Educação

Lamentou Stravinsky que as pessoas não fossem «ensinadas a amar a Música, mas apenas a respeitá-la». Podemos acolher a ideia e transpô-la para o ensino da língua portuguesa, relevando como é natural a Literatura, e concluir que a «Pátria» de todos nós não é amada, nem minimamente respeitada, mas antes parodiada. Não sabemos se devemos rir ou chorar perante situações como a de apresentar «Frei Luís de Sousa» de Almeida Garrett sob o título «Até ao meu regresso...»; transformar um soneto de Luís de Camões numa notícia de jornal, um texto de Fernando Pessoa num requerimento, um auto de Gil Vicente numa carta de reclamação, ou ainda envolver a poesia de Cesário Verde, o poeta de Lisboa e Mestre de Fernando Pessoa e heterónimos, com editoriais, textos publicitários e outros. Temos assistido à sedimentação do culto do facilitismo, da permissividade e da ignorância.Entretanto, valores como a delicadeza, a curiosidade, o espírito de rigor, a exigência, o esforço ou o brio continuam a ser riscados do quotidiano escolar, com o aval de muitos que integram o Ministério da Educação. Testemunhámos esse comportamento nas últimas provas de avaliação do 9º ano, em que se substituiu «Os Lusíadas» de Luís de Camões por pontos de um Tratado da União Europeia, se interpretou Alves Redol e Luísa Costa Gomes com respostas de escolha múltipla e de verdadeiro/falso, se aprisionou a escrita dos alunos, com a imposição obsessiva de um número estipulado de palavras, sujeito o seu incumprimento a uma penalização. Lamentavelmente, situação idêntica se prevê para os próximos exames do 12º ano do Ensino Secundário, de acordo com informações recentemente chegadas às Escolas. Sabemos que, em boa parte, este é o resultado da aplicação dos novos programas, no caso específico de Língua Portuguesa, aos Ensinos Básico e Secundário. Porque ao Ministério da Educação se exige responsabilidade no seu directo envolvimento com o Ensino, vêm os signatários pedir à Senhora Ministra da Educação que intervenha no sentido de pôr cobro a esta situação, a qual não dignifica a Escola, enquanto lugar de continuidade de um património herdado, de aquisição permanente de novos saberes e de criatividade inovadora.

Respeitosamente,

The Undersigned

Diário Político 10

Em guisa de explicação: num longínquo Julho de 1986 (20 anos já...) entendeu o “Expresso” convidar um repolhudo grupo de pessoas do Norte para dizer de sua justiça sobre o “dialogo Porto Lisboa” com o título “Elogio da diferença”. Não sei ainda hoje porque fui convidado mas a verdade é que aviei duas respostas em vez de uma e o jornalista que escolhesse. A coisa saiu em finais desse mês mas com as respostas todas misturadas numa artística montagem de textos que mais parecia uma salada de brócolos que tornava difícil perceber os nossos desacordos e até por vezes, a paternidade da frase. Em homenagem forte, mas com algum eventual desacordo, aos Compadre Esteves e JCP, aqui dou à estampa ambos os textos (um deles absolutamente virgem nestas andanças) desejando a todos os frequentadores deste agradabilíssimo caravanserail um ano de 2006 pleno de alegrias e realização pessoal.

BICA OU CIMBALINO?

1. "Se Paris tivesse uma Cannebiére seria uma pequena Marselha", contam-me apologistas do Midi francês. "Roma é preguiçosa", dizem os milaneses. "Madrid é uma Las Vegas criada pelos reis de Castela", poderiam repontar os de Barcelona. E por aí fora.

2. Tenho por mim que a primeira culpa das capitais é o serem-no e, eventualmente, julgarem que o resto do país é paisagem. Nas capitais a dinâmica municipal desaparece ou é ocultada pela nacional. Os favores do poder sobrepõem-se ao esforço da sociedade civil, tornam-na mais dependente, criam na musculatura citadina adiposidades pouco saudáveis pese embora o vermelho das faces ou o brilho dos olhos.

3. E nós os do Porto? Vestimo-nos de inocência ultrajada, protestamos e, sempre que não somos capazes, deitamos culpas ao Terreiro do Paço, à cintura industrial, aos burocratas (como se os não tivéssemos também cá...), ignorando complementaridades historicamente comprováveis e um destino que se tece desde há mais de oito séculos.

4. Fosse o Porto capital (Deus nos livre!) que diriam os lisboetas? Seriam diferentes as queixas contra o poder? Temo bem que não. Vou mais longe: que imagem tem do Porto Viana, Braga, Aveiro, Vila Real ou Viseu?

5. As capitais concentram meios, gente e poder. Atraem imigrantes. É natural. As provincias blasonam de trabalhadores, de reserva moral, de dinamismo. Exportam gente. Também é natural.

6. Desconcentre-se o poder, reorganize-se o país, liberte-se a sociedade civil, renovem-se a audácia, o orgulho bairrista e o gozo de arriscar e tudo se resumirá a essa pequena e amável diferença: Bica ou Cimbalino? Café.


PORTO DE ABRIGO OU PORTA DO FUTURO?

(BICA OU CIMBALINO 2)


Aos do Porto chamam-nos tripeiros. Tudo isto porque por alturas da conquista de Ceuta os nossos maiores deram toda a carne que tinham e enganaram a fome com as tripas. Corre uma vaga suspeita que Lisboa ainda se julga nas vésperas do empreendimento marroquino. Será assim?

A atentar no discurso oficial poucas dúvidas restarão. Ministros, jornalistas e intelectuais quando falam no Porto tratam-no como o benjamim a quem já se permite usar, aos domingos e dias santos de guarda, calça comprida. O Porto é, para esta efémeras criaturinhas, a capital do trabalho e, às vezes, a capital do Norte. Do Norte longinquo dos Natais antigos, dos presuntos e chouriços, das tias velhas que ainda bordam lençóis de noiva. O Porto é também óptimo para comprar mobílias, fios de ouro, sapatos e comer á fartazana. Os mais ousados admitem, contrariados, que, entre noivas à vianeza e tocadores de cavaquinho, haverá no Porto alguma croissanterie ou outra novidade do mesmo teor. Em contrapartida faltam-lhe essas três marcas distintivas da luso-post-modernidade: as touradas, o fado e as "noites longas". E a Gulbenkian, claro!

Para o portuense, "andrade" e amador do verde branco, Lisboa é uma imensa repartição cheia de contínuos vestidos "au dernier cri" e de ministros incapazes. Sem a vantagem do "El Corte Inglês" a 100 km. Lisboa é logo a seguir a Fátima e antes do Algarve e tem um jardim zoológico. Há quem acrescente: "terra de mouros cercada pela cintura industrial, falida até ao tutano".

Quando nos assumirmos como cidadãos desta nossa cidade, quando não esperarmos nada e tentarmos tudo, quando provarmos que não é preciso ser capital de coisa nenhuma, quando não mendigarmos os favores de S. Bento ou de Belém, muita coisa mudará a começar por este incómodo complexo de segunda cidade.

"O Tejo não é mais belo que o rio da minha aldeia" digo cidade.

Julho de 1986

Ficamos curiosos

A Procuradoria-Geral da República (PGR) instaurou um processo por crimes eleitorais contra o presidente do governo regional da Madeira, Alberto João Jardim, por alegada violação dos deveres de neutralidade e imparcialidade, nas eleições regionais de 2004, segundo a edição desta terça-feira do Público, noticia o DD.

Ficamos curiosos por saber o resultado.

Os sons do silêncio

Que se passa contigo, puto, que começas a tropeçar nas palavras, mesmo aquelas que são mais simples, quando a noite avança outra vez insone, e que já não escutas o suave som dos silêncios com a resignação que havia e achas que os mesmo sons são aqueles que agora atordoam o teu cansaço, o cansaço da solidão que compraste e que alimentaste e que se transformou na besta abominável?
Tu achavas que já não tinhas coração ou que só tinhas uma parte dele, a parte que serve os afectos e que se manteve incólume nos tormentosos dias em que te foram arrancando o coração que amava, esse coração enorme que sempre sobrou no peito e que porque sobrava no peito se tornou demais. Ou então não será o coração, será a alma, será na alma que nascem os afectos e tudo o mais que passa para além dos afectos e essa nunca ninguém pôde abalar, nem poderá, porque acho que essa nunca morre, pode é estar adormecida. Apenas adormecida.

02 janeiro 2006

Cartas de amor

Apetece-me escrever cartas de amor daquelas, longas longas, como as que escrevia no princípio num bloco de notas que depois enviava completo, com as páginas em branco e tudo, como se todas as páginas fossem flores que eu levava nas minhas mãos e entregava num gesto largo, quase teatro, que eu sempre fui de gestos largos no sufoco com que matava a timidez disfarçada. Tento escrever do novo essas cartas, mas eu agora não sei, perdi-lhe o jeito, o que é normal quando se passa tanto tempo em que não se escreve cartas de amor porque se desaprendeu a amar.
Mas hoje, mesmo sem jeito, apetece-me escrever cartas de amor, um gesto inútil porque não sei onde estás, depois daquela despedida tola, a mais desajeitada de todas quando em vez de perguntar o número de telefone, apenas consegui um estúpido Será que voltaremos a ver-nos? e tu piscaste-me o olho com aquela graça que só tu tens e me disseste que sim, claro que sim, que haveríamos de fazer uns jantares temáticos, coisa que te ocorreu no momento, porque acho que nenhum dos dois sabia a que temas te referias, mas que me deixou a planar sobre o rio enquanto te afastavas e eu com o sorriso aberto de quem te trazia comigo e adormecia em ti para acordar em ti na manhã tardia de um tempo novo.
Não. Acredita que nem sequer estou desolado porque me mostraste que tenho andando enganado quando andei todos estes anos a jurar que só acreditava no amor à primeira vista. Confesso-te que quando entrei naquela sala olhei-te e mal te vi e não te amei, tal era o constrangimento pelo meu ar de cão vadio intruso que só procurava o aconchego de quem conhecia. Só meia hora depois, já à mesa, quando voltei a ver-te e os nossos olhos se cruzaram e se desviaram, - não, não sei quem desviou primeiro nem isso interessa -, e eu vi que os teus olhos escuros tinham a fundura e a rebeldia do mar que batia mesmo ali à nossa frente, àquela hora bravio e escuro, é que eu tremi, porque esses eram os olhos que eu sempre vi numa imaginária princesa afegã.

…AINDA AS AULAS DE SUBSTITUIÇÃO

Aconteceu hoje numa escola pública do Porto.

Numa turma do oitavo ano faltou um professor. Segundo as novas regras, apareceu um outro professor para assegurar a chamada aula de substituição. Este professor poderia ter inventado mil e uma coisa para transmitir aos alunos ou colocar estes perante desafios ou questões curiosas que espicaçassem a sua curiosidade e assim dar por bem empregue o seu tempo e o dinheiro que os contribuintes lhe pagam.

Em vez disso, o dito Senhor, que ocupa um cargo de professor, terá procurado alertar os jovens alunos para o problema de estarem ali, num cubículo, a perder tempo, quando poderiam estar lá fora a correr, a jogar à bola ou a fazer coisas mais agradáveis. Este foi o tema da aula de substituição, a criticar a Ministra, que responsabilizou por não estarem todos a fazer o que mais gostariam, ele inclusive.

Não é a primeira vez que professores se insurgem, em plena aula, contra as aulas de substituição, mas não de uma forma tão aberta, descarada e demorada.

A minha questão é saber se é sensato que um professor utilize a aula para mobilizar os alunos, ainda que sub-repticiamente, para defender as causas eminentemente laborais dos professores? Estas questões não são do foro sindical ou associativo? Que supervisão ou poder têm os Conselhos Directivos sobre este tipo de comportamentos?

As aulas de substituição apenas existem porque alguns professores faltam e faltam muito. O professor que vai assegurar uma aula de substituição apenas o faz porque um seu colega faltou. O princípio das aulas de substituição é justo. O que os professores deveriam exigir era condições para ser aplicada uma solução que é justa. Só que em vez de pedirem condições vão para as aulas procurar a aliança dos alunos para se oporem a uma medida sensata e justa.

Os professores que agem assim estão a negar a sua função. Uma Escola que aceita que um seu professor actue assim não está a cumprir a sua missão. Estão a contribuir para o descrédito e guetização do ensino público, porque a tendência, a não ser alterado o rumo que as coisas levam, será para as famílias, com mais ou menos sacrifícios, colocarem os filhos no ensino privado.

novo blog

O blog marco2005 acabou. Agora o debate sobre o Marco, o País e o Mundo está em marcohoje.blogspot.com.
(tenho de pedir à Kami nova ajuda para colocar um contador...)

Cidade

Cidade, rumor e vaivém sem paz das ruas,
Ó vida suja, hostil, inutilmente gasta,
Saber que existe o mar e as praias nuas,
Montanhas sem nome e planícies mais vastas
Que o mais vasto desejo,
E eu estou em ti fechada e apenas vejo
Os muros e as paredes e não vejo
Nem o crescer do mar nem o mudar das luas.

Saber que tomas em ti a minha vida
E que arrastas pela sombra das paredes
A minha alma que fora prometida
Às ondas brancas e às florestas verdes.

Sophia de Mello Breyner Andresen

Cidade a elevar-se


A cidade eleva-se ao pôr-do-sol,
sobe e mergulha a cabeça na noite.
O Atlântico por baixo,
o sol dentro dele apagando-se,
e a cidade a subir para os rolos de céu negro.
Observo a cidade decolando na noite;
distante de mim meu rosto voa
tomado pela chama de tudo que é vivo.
Meus olhos miram o horizonte,
a transformação das coisas,
a bebê-las lentamente,
esquecidos das pessoas que se arrastam
pelo pó.

O poema se escreve.
Existe no silêncio,
independe das minhas palavras.


Silvia Chueire

01 janeiro 2006

Morreu um MÉDICO

Na minha agenda deste ano escrevi ainda o teu nome. Recusava acreditar no inevitável, que chegou ontem, pouco faltava para o fim do ano. Prefiro pensar que partiste de mansinho, assim como quem dá a mão e que mesmo a Morte se comoveu, ao passar ao pé dos bancos corridos onde te esperavam os doentes que atendias de graça todos os sábados de manhã no Hospital de Santa Marta. Que te terá perdoado mesmo aquele desconhecido, que ainda há uns dias lhe roubaste num café em Paris, estavas tu algaliado, devastado pela radioterapia. Que te terá perdoado o teu olhar de satisfação por mais uma vitória, a última.
Jorge Quininha, hei de sempre lembrar-me de ti, quando ouvir dizer que o que toda a gente quer agora é enriquecer, ter honrarias, subir na vida e esquecer os que sofrem. Não tu. Com a tua modéstia habitual, quase não se dava por ti, continuaste a recusar fechar os olhos à dor alheia e à injustiça. O mesmo espírito que te levara, já nos tempos de estudante, a lutar por uma sociedade verdadeiramente justa e fraterna, correndo os riscos de quem combatia o fascismo e o colonialismo.
Obrigado por teres sido o que foste. Até sempre!

PS. O funeral do Dr. Jorge Quininha realiza-se amanhã, dia 2 de Janeiro, no cemitério de Aveiro, pelas 15 horas

E pronto... outro ano

Então um cristão, ou algo parecido ou, como é o caso, nem isso, vai com a legítima passar o ano a casa da Laurinda e do Manel Simas que promete farta bacalhoada, doçarias mais perigosas do que uma epidemia de gripe aviária e pimba: atiram-lhe logo à cara com uns nacos de polvo à galega (polvo a la féria, Laurindinha, a la feria...) como entrante e começa logo por declinar que cefalópodes , está quieto ò mau, comam-no vocês que nanja eu. E sobradas razões tenho, que nos tempos da infãncia descuidosa, ia a a pedibus calcantibus para escola de Buarcos, lá nos confins da praia, e passava rente a uma seca de tal bicheza. Jesus, Maria, José! Credo! Abrenúncio! Aquilo cheirava pior que mal. Tresandava.
Para entreter a "malvada" fui roendo uns punhados de caju que a dona da casa misturara com frutos secos. Para o caju não se sentir desacompanhado mais um copinho dum tinto alentejano que estava que fervia. Os restantes deglutantes (ou seja a fifi, enteada do escriba que estas traça, e o furioso caçador Alváro maila a sua mais que tudo) iam louvando as qualidades do octópode... com esta marabunta esfaimada aquilo teve a virtude de durar pouco e passou-se pois, com forte aprazimento, para as coisas séria. Entrou em cena um bacalhau desses do antigamente quando os pescadores os apanhavam à linha em dóris minúsculos, no meio dos nevooeiros cerrados da Terra nova, ao som distante da ronca. Ah bacalhauzinho duma figa, anda cá que já te conto uma história triste. E que bom que estava o malandrinho, posta alta, lasca a descascar-se prazenteira,uns grelos cozidos como Deus manda, e o eterno vinho tinto, esse líquido que nos distingue dos do norte frio e que significa dez mil anos de trabalho, de sabedoria, de civilização.
Já as boquinhas dos mastigantes começavam a debitar as primeiras histórias, a minha Crazy Grazy, já se ria de lágrima ao canto do olho, aquela, quando se ri, é como o jacaré: chora. O caçador Alvaro, inimigo jurado do bacalhau, contentava-se com uma perdiz, devidamente assada que ele mesmo terá caçado (!!!???)e cozinhado(???).
A partir deste momento foi a desbunda.
Entraram na mesa um pancadão de doces: arroz doce, aletria, bolo rei, bolo algarvio de amendoa e ovos (quem o comeu jurou que aquilo podia rebentar o fígado de um elefante), brigadeiro de chocolate e umas rabanadas que nem vos digo nem vos conto. E duas imensas saladas de frutas... E.. sei lá que mais.
Modestamente a dona da cassa prevenia que lá mais para o Verão haveria queijo da Serra e ... olhem até já me esqueci.
A clientela, empazinada aceitou que se ligasse a televisão que como de costume tinha um programa digno de um jogo de solteiros contra casados: um horror. Se o mau gosto valesse dinheiro, Portugal era mais rico que a Suiça!
Pronto, lá soaram as doze badaladas, lá se fizeram os votos da praxe e a conversa ganhou corpo. O que os camaradas Simas e Álvaro contaram da sua estravagante juventude académica, dava para escrever pelo menos três capítulos duma enciclopédia erótica dos anos sessenta. As consortes ouviam-nos com a indeferença que trinta anos de casamento dão a estas memórias quase póstumas. E lá chegaram os queijos. E houve quem comesse. E houve quem bebesse. E houve tempo para destruir o governo actual, o sistema de segurança social, os candidatos á presidência da república, a ileteracia reinante, o sistema nacional de saúde e o consumismo desbragado que se vê por aí.
Às três e meia da matina, oito casais de meia idade chegaram à conclusão que já não tinham vinte anos, e resolveram recolher a quarteis. Ficou por encetar um chouriço Revilla de meio metro que a Laurinda propunha como fim de festa: os temps já não são os mesmos. A melancolia também não.
Mas...no fundo da noite, como uma pertinaz vela acesa, a amizade fez acto de presença. E a ternura. E a vida. E a esperança. E os amigos. Presentes e ausentes: todos. E vocês. Bom ano

mcr fecit, pelas 10 horas e vinte da madrugada de domingo, 1 de Janeiro do ano da graça de 2006

Crónica de um ano que começa

Foi um 31 daqueles, porque quando acordei ontem, desalmado, estava convencido de que era ainda dia 30 e que a passagem de ano era só a seguir e só percebi que não era quando vi que estava tudo fechado e não havia onde almoçar e disse para mim - que merda - é sempre a mesma coisa nos últimos anos.
Fiquei por casa a ler coisas e depois lembrei-me que tinha de jantar e que não tinha combinado nada com ninguém, é sempre assim!, e fui procurar sítios abertos onde pudesse jantar, depois de ter ido levar umas botas à minha filha que ela tinha deixado esquecidas em minha casa e que eram fundamentais vá-se lá saber por quê, mas há coisas que temos de fazer e pronto.
Desatei a enviar mensagens e alguns telefonemas e falei com a Ju, a minha amiguinha querida que estava no Porto com o João, verdadeiro alfacinha que é do Belenenses coisa inóspita como eu ser da Académica e que além disso tem humor e acabei convencido, sim, convencido, porque sou tímido, a ir jantar a Leça a casa do Jorge que eu não conhecia e que adorei conhecer. Também estava a Luísa que nunca sei se é optimista ou pessimista mas que é uma alegria e é jornalista como a Ju e como eu fui, já lá vai tempo e esse não volta, e estava a Carla que é irmã do Jorge e que eu nunca tinha visto mas que vi e que ainda, a esta hora, hora tardia, ainda continuo a ver. A ver, sim, que a imaginação é fértil e eu sou dado a essas coisas de imaginar o que gosto de imaginar.
Demorámos imenso tempo para irmos aonde tínhamos de ir que a cidade estava cheia e fomos, já com baixas porque a Ju e o João desistiram, mas veio a Ana que é uma boa onda e sabe de mim, a uma festa numas caves do Oporto em Gaia onde havia pessoas bonitas mas não resisti e disse que hoje em dia não basta ser bonito, é preciso ter atitude ou se preferirmos ter classe, coisa que escasseia por aí, mas que a Carla tem e eu disse-lhe e ela com classe desmarcou suavemente, mas eu continuo a vê-la por aqui e hei-de vê-la por aí, estou certo disso porque a atitude é assim mesmo.
Pouco ou o acaso pode fazer a diferença entre o tudo e o que é nada e eu hoje percebi isso mais do que nunca, porque estive na eminência de ir jantar a uma área de serviço como já jantei no Natal de 1999, ou começar o ano bem, coisa a que dou importância desde há alguns anos porque a vida é assim e eu espero ter sido claro quando lhes disse, a eles, que era assim mesmo, e porque sinto que o ano começou bem e a Carla tem atitude e é um ano novo cheio de graça, coisa em que não fui tão explícito quando disse, porque não, coisas que todos percebem, eu sei que percebem, porque já todos passaram por aí e sabem que há coisas que não se explicam.
BOM ANO. Para todos. E já agora para mim também. (8 da manhã do primeiro dia do ano da Graça de 2006).

Um Feliz Ano Novo

Que as taxas de juro não os afecte, que a estagnação não os ameace e que a retoma a todos se manifeste de forma substancial.

Sejam felizes neste NOVO ANO!